Meus exames para Doença Celíaca negativaram, e agora?

Bom, se não há nenhum sintoma ou indício de que você possa ter alguma desordem relacionada ao glúten (e desde que você não tenha excluido completamente o glúten da alimentação antes de fazer os exames), ótimo!  Desencana!

Mas geralmente essa não é a realidade de quem se vê as voltas com tais exames (anticorpo antitransglutaminase e endoscopia com biópsia de duodeno), pois estamos falando de pessoas que procuraram ajuda por não estarem bem de saúde. E por mais incrível que possa parecer,  é frustrante ter resultados negativos nas mãos,  e continuar sem entender o porquê de tantos sintomas e desconforto.

dor de barriga
A questão é que muitas vezes a sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) não é lembrada pelo médico como hipótese diagnóstica. Mas não é por causa disso que vamos sair por aí chamando médicos de incompetentes ou coisa pior (como infelizmente costuma acontecer)! O que ocorre é que apesar de estar sendo estudada desde 1978, a SGNC só foi efetivamente reconhecida como uma doença ou desordem  associada ao glúten em 2011, com a elaboração do Consenso de Oslo! Ou seja, somente há 4 anos e ainda não houve tempo para que todos os profissionais se atualizassem, até porque se a própria Doença Celíaca, conhecida há quase 2 mil anos ainda é pouco lembrada e considerada rara, principalmente entre adultos e idosos, que dirá a SGNC!

E na verdade, a SGNC ainda é uma incógnita até mesmo para quem a estuda com afinco e muitas hipóteses já foram levantadas. Até o momento o que se sabe é que nem todos os pacientes com esta condição possuem os marcadores genéticos da celíaca e seus exames ou são negativos ou apresentam resultados inconclusivos. Além disso, não tem certeza nem se só o glúten é o responsável pelos sintomas, já que o trigo, além do glúten, possuem outros componentes que “concorrerm” pelo papel de “vilão” na SGNC, como a lectina (ou aglutinina) do trigo, as proteínas inibidoras das enzimas (do nosso trato gastrointestinal) amilase e tripsina ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra, fermentada por bactérias intestinais) presentes no trigo… ou ainda, se é “tudo junto e misturado”, numa superposição de fatores.

A única certeza que se tem é que todos apresentam sintomas (gastrointestinais ou não) quando ingerem fontes de glúten e melhoram quando deixam de ingeri-las. Por causa disso, ainda fica a dúvida se a SGNC seria um estágio anterior à DC (também conhecida como DC latente ou potencial, que um dia se torna DC, com todos os marcadores positivos e sinais e sintomas característicos).

Iceberg celiaco juliana

Como ninguém tem certeza a respeito das consequências e complicações da SGNC, caso a mesma não seja corretamente tratada, no Consenso de Oslo ficou decidido que o tratamento deve ser exatamente o mesmo da DC: Dieta totalmente livre de glúten e de contaminação, ou seja, a dieta precisa ser levada a sério, de segunda a segunda, 365 dias no ano, para evitar que complicações (como as da DC, que incluem até mesmo linfoma intestinal) apareçam e nesse ponto, a ajuda de um Nutricionista é fundamental, para os ajustes necessários na alimentação e até mesmo para a avaliação e tratamento de deficiências nutricionais que podem estar presentes.

E tal “intolerância ao glúten” que muitas pessoas ainda falam e acreditam ser uma condição mais leve e de menor gravidade (permitindo-se assim, sair da dieta em algumas situações)? Esse mesmo Consenso no qual estamos falando, diz que a “intolerância ao glúten”, é nada mais, nada menos que a própria Doença Celíaca em sua nomenclatura antiga e justamente para evitar confusão e banalização do caso, os especialistas que elaboraram o documento, recomendam fortemente que os pacientes parem de usam essa expressão. Ou seja… intolerância ao glúten é DC e portanto, é uma condição crônica, autoimune e que persiste por toda a vida, não dando chance para banalizações e descuidos com a dieta!