Estudo de Harvard diz que dieta sem glúten aumenta o risco de diabetes. Será?

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Durante os dias 07 a 10 de março de 2017, a American Heart Association promoveu um meeting (encontro científico) in Portland, Oregon (EUA). Nesse evento, a equipe do Dr. Zong (um dentista chinês) apresentou os resultados de um estudo observacional – prospectivo – com um N representativo (foram avaliadas cerca de 200 mil pessoas), no qual verificaram que dentre essas pessoas, o risco de desenvolver diabetes tipo 2 foi  13% maior (o equivalente a 16 mil pessoas) nos que reduziram a ingestão de glúten (o resumo do estudo pode ser lido aqui). A motivação para o estudo parece ter sido a grande quantidade de mortes/ano pelas complicações do DM2, uma doença metabólica crônica, sobre a qual eu já falei nesse post aqui. Outro ponto, foi o aumento da procura por produtos (industrializados) sem glúten nos EUA.

Pois bem, os próprios pesquisadores terminaram a apresentação dizendo que os resultados SUGEREM aumento do risco, mas que isto NÃO ESTÁ CLARO, e que (obviamente, como em toda pesquisa que se preze), MAIS ESTUDOS SÃO NECESSÁRIOS para avaliar a mesma coisa! Ou seja… a própria equipe que idealizou e conduziu o estudo SABE que esses resultados não são uma sentença definitiva e sabem que muitos outros fatores precisam ser considerados. (Aqui um parêntese pra chamar a atenção sobre como as reportagens que foram publicadas sobre esse estudo já no título conseguiram distorcer o que os pesquisadores falaram! Em momento algum os pesquisadores me parecem ter AFIRMADO que dieta sem glúten CAUSA diabetes! Mas as reportagens e seus desdobramentos, infelizmente, sim!). Além disso, os pesquisadores pegaram a(s) dieta(s) sem glúten (ou com pouco glúten), mas terminaram falando sobre as fibras (porque na realidade é baixa quantidade de fibras e não de glúten, que pode estar por trás do maior risco de diabetes, como eu também já havia falado aqui).

Eles também concluíram o resumo da pesquisa dizendo o seguinte:

Our findings suggest that gluten intake may not exert significant adverse effects on the incidence of T2D or excess weight gain. Limiting gluten from diet is thus unlikely to facilitate T2D prevention and may lead to reduced consumption of cereal fiber or whole grains that help reduce diabetes risk.” (Tradução: Nossos achados sugerem que a ingestão de glúten pode não exercer efeitos adversos significativos na incidencia de DM2 ou excesso de peso. Portanto, é improvável que limitar o glúten da dieta, ajude a prevenir a DM2 e pode levar à redução do consumo de fibra de cereais ou grãos integrais, que ajudam a diminuir o risco de diabetes.)

Eu não conheço os pesquisadores, nem tive ainda chance de ouvir diretamente deles quais seriam tais fatores, mas considerando tudo o que já estudei (inclusive sobre pesquisa) e meus 16 anos de experiência clínica … eu arrisco comentar abaixo, alguns desses possíveis fatores:

Não existe uma única dieta sem glúten! Obviamente precisamos esperar o estudo ser publicado, para sabermos mais detalhes, mas acho pouco provável que  a equipe de pesquisadores tenha dado conta de avaliar completamente a composição da dieta* de cada um dos participantes e de cruzar esses dados com resultados de exames laboratoriais (que indicassem risco prévio para diabetes), fatores genéticos (indicativos de risco de diabetes), peso (e ganho de peso durante as modificações na dieta), altura, circunferência da cintura, atividade física, medicamentos em uso, nível de estresse e tantas outras variáveis que podem influenciar no risco de desenvolver diabetes (se conseguiram fazer isso, pausa para aplaudi-los, porque isso seria um trabalho monstruoso, e só quem conhece os bastidores do mundo das pesquisas sabe do que eu estou falando).

E como eu estava dizendo… existem inúmeras formas de se comer sem glúten (assim como as possibilidades envolvendo o glúten também são infinitas). É possível ter uma alimentação muito pior sem glúten, se a mesma incluir APENAS pães, bolos, biscoitos, massas, refrigerantes, sucos industrializados e fast food… mas aí, vamos pensar, né? Com ou sem glúten, as chances disso adoecer alguém são bem grandes, não? Até porque, a alegação “não contém glúten” na embalagem não é garantia de comida saudável. Pode até ser uma opção segura para nós celíacos, do ponto de vista do glúten (como batatas fritas de pacote e refrigerantes, que sempre me “quebram um galho” quando estou viajando e não acho outras opções pra comer), mas nem sempre são sinônimos de comida saudável!

A dieta tradicional do brasileiro, naturalmente sem glúten (se considerarmos principalmente os hábitos das regiões Norte e Nordeste do país) é bem saudável: tapioca ou tubérculos (aipim/macaxeira, batata doce, inhame) ou banana da terra ou cuscuz de milho (ou mesmo broa de milho) ou açaí com farinha d’água no café da manhã e/ou lanche, arroz com feijão, carne/peixe/frango/porco/ovo e salada/legumes no almoço e jantar, frutas como sobremesa e como lanches intermediários.

Aí eu pergunto: será que quando comíamos assim, realmente nosso risco de ter diabetes era maior do que quando começamos a copiar os americanos, trocando refeições por fast food ou por pizza ou por congelados cheios de aditivos e farinhas? Ou nosso risco aumento quando começamos a adotar porções gigantescas de refrigerante, de biscoitos e snacks? Ou ainda, quando começamos a trocar o arroz e feijão de cada dia por um sanduíche comido às pressas?

Há ainda outras formas de se comer sem glúten, como na Dieta do Paleolítico (sobre a qual já falei aqui, aqui, e aqui), que era o modelo alimentar de TODA a humanidade antes do advento da agricultura e do uso de trigo e outros cereais na alimentação. Ainda hoje, em pleno século XXI, algumas populações ainda seguem o padrão alimentar de seus ancestrais e estas são as populações que exibem o MENOR risco de desenvolver DIABETES e outras doenças crônicas da modernidade. Aí eu pergunto… se o glúten fosse um possível ingrediente PROTETOR, como explicar o menor risco de adoecer exibido por essas pessoas? Talvez realmente o ponto a ser considerado não seja o glúten e sim outros fatores associados…

Enfim… os próprios pesquisadores mencionam as FIBRAS. Bom e o que são fibras? São CARBOIDRATOS** para os quais nós (seres humanos) não possuímos enzimas capazes de digeri-las e elas se tornam alimento das nossas bactérias intestinais e ainda melhoram o funcionamento intestinal, facilitando a eliminação de toxinas presentes nas fezes e produzidas pelas próprias bactérias. As fibras também retardam a absorção da glicose, vinda da alimentação, evitando sobrecargas na glicemia (glicose presente no sangue) e evitando sobrecarga no funcionamento do pâncreas. As fibras também aumentam a sensação de saciedade e, portanto, diminuem a FOME… se temos menos fome, comemos menos… logo, dificilmente engordaremos ou aumentaremos nossa circunferência abdominal, o que consequentemente, nos mantém mais protegidos do diabetes tipo 2.

E será que só é possível obter FIBRAS a partir dos cereais integrais??? A industria alimentícia nos fez acreditar que sim, mas as maiores (e melhores) fontes de fibras são justamente os (SURPRESA!!!)…ALIMENTOS NATURALMENTE ISENTOS DE GLÚTEN!!! Sim!!! As frutas (principalmente as que podem ser consumidas com a casca), as verduras, os legumes, os próprios tubérculos, as leguminosas (os feijões e seus “parentes”: lentilha, ervilha, grão de bico e amendoim) e as oleaginosas (castanha do Pará, de caju, amêndoas, nozes, pistache, macadâmia e o brasileiríssimo BARU, por exemplo). Assim, podemos concluir que, se alguém deixa de comer alimentos feitos com farinha de trigo integral e sua alimentação fica pobre em fibras, é porque a ingestão destes outros alimentos que falei está bem baixa, né? Se bobear, nem existe! Aí eu pergunto: o problema foi a exclusão da farinha contendo glúten? Obviamente que não, né, gente? O problema tá na alimentação pobre e monótona da pessoa!

Aí dá pra falarmos que é a ausência de glúten que causa diabetes? Ou será que são escolhas alimentares totalmente equivocadas, aliadas a uma vida sedentária, estressante, etc?

Em tempo: conheço muitos celíacos e suas histórias e sei que tanto eles, quanto suas famílias (pessoas que fazem a dieta sem glúten “sem necessidade”, apenas para acompnhá-los, por questões de segurança, economia e solidariedade), adquiriram hábitos alimentares muito mais saudáveis DEPOIS da exclusão do glúten, pois conseguiram enxergar que existe vida após a exclusão do glúten e que ela pode ser muito saborosa e saudável!

 

Considerações finais:

*Os pesquisadores trabalharam com um questionário de frequência alimentar para avaliar a dieta dos participantes. Estes questionários, geralmente bem grandes e padronizados, dependem da memória e da paciência de quem o responde e mesmo sendo instrumentos validados e muito utilizados nas pesquisas, não dão conta de mensurar todas as nuances envolvendo a alimentação de ninguém.

** As fibras podem ser celulose (a mesma que está no papelão e nas manchetes dos jornais nos últimos dias, mas também está presente em todas as folhas, na casca das frutas e dos legumes), pectina, amido resistente, FOS e inulina, (presente nas frutas e legumes), galactooligossacarídeos (presentes nos feijões e seus “parentes”), etc.

Dieta sem glúten realmente causa diabetes?

Antes de mais nada, é importante esclarecer que existe mais de um tipo de diabetes e que, apesar de todos os tipos terem em comum o fato da glicemia aumentar a ponto de se descontrolar (causando inúmeros problemas à saúde), suas causas são diferentes.

A child eating a hot dog while playing on a laptop — Image by © BNP Design Studio/ImageZoo/Corbis

Existe a diabetes tipo I (DMI), muito comum em crianças, mas que pode afetar pessoas mais velhas. Trata-se de uma doença autoimune, na qual as células produtoras de insulina, localizadas no pâncreas (as células beta pancreáticas) são destruídas pelo sistema imunológico, que por algum motivo, alheio à nossa vontade e compreensão, deixa de reconhecê-las como parte do corpo. As poucas células que resistem ao ataque, tentam compensar a produção de insulina, mas chega a um ponto em que não conseguem e aí, só mesmo com dieta e aplicações constantes de insulina exógena é possível controlar a glicemia (“taxa de açúcar no sangue”).

Na DMI, sabe-se que existe o fator genético envolvido (quando há casos de doenças autoimunes na família, mesmo que não seja diabetes), mas outros fatores estão envolvidos, e até o momento, sabe-se que infecções virais na infância e o uso precoce de fórmulas infantis a base de leite de vaca podem ser gatilhos para disparar a doença. E uma vez que a autoimunidade foi ativada, não há como reverte-la, porém, é possível manter um certo controle da inflamação causada por ela, o que ajuda a diminuir a velocidade com que a autodestruição vai acontecer. Para isso, é necessário manter uma dieta com bom controle na quantidade e tipo de carboidratos e priorizar alimentos de ação anti-inflamatória e antioxidante. Nesses casos, a dieta SEM GLÚTEN pode ser benéfica duplamente: primeiro porque é bem comum que a DMI e a doença celíaca (DC) estejam presentes na mesma pessoa e se a DMI se manifestou primeiro, a DC pode não se apresentar com os sintomas clássicos de diarreia e desnutrição. Mas aqui, é fundamental que os exames para DC sejam feitos antes da exclusão do glúten! No segundo caso, a dieta sem glúten pode ajudar no controle glicêmico ao diminuir a inflamação, já que o glúten aumenta a permeabilidade intestinal e pode contribuir para aumentar a inflamação. Porém é FUNDAMENTAL chamar a atenção para o fato de que, quando o foco é diminuir a inflamação, não adianta absolutamente NADA, substituir a farinha de trigo por outras farinhas refinadas em grande quantidade, pois a glicemia continuará alterada e a inflamação continuará existindo! Porém, uma dieta livre de glúten, a base de frutas e hortaliças, arroz integra e feijão, carnes magras, ovos, etc, pode ajudar bastante!

Existe também a diabetes tipo II (DMII), mais comum em adultos, mas que tem afetado um número cada vez maior de pessoas mais jovens. Este tipo está diretamente relacionado aos hábitos alimentares ocidentais modernos (consumo de alimentos processados e ultra processados, como salgadinhos, biscoitos, sucos industrializados, refrigerantes, fast food, mamadeiras engrossadas com farinhas e adoçadas com açúcar, etc), excesso de peso e sedentarismo. Há o fator genético envolvido, porém os fatores ambientes (estilo de vida e alimentação) são os principais agentes causadores! Mudando-se o estilo de vida é possível prevenir o surgimento da DMII e até mesmo reverte-la, depois de instalada, pois nesse caso, não há autodestruição das células que produzem insulina. Aqui há uma sobrecarga destas células… trabalho excessivo para produzir quantidades enormes de insulina, capazes de “neutralizar” o descontrole glicêmico promovido por hábitos alimentares errados e falta de exercício. Quanto mais insulina produzida, mais é necessário produzi, pois ela vai “perdendo seu efeito”, quadro clínico conhecido como resistência insulínica (RI). É importante lembrar que a RI está presente em diversas condições, como na síndrome do ovário policístico, nas pessoas com qualquer grau de sobrepeso, nos obesos e é a RI que causa a DMII e dificulta a perda de peso.

A child eating a hot dog while playing on a laptop

 

E até que ponto uma dieta sem glúten (ou com pouco glúten) poderia causar RI e DMII? A partir do momento em que a alimentação consiste apenas de pães, bolos, biscoitos e massas preparados com farinhas (principalmente as refinadas), como farinha de arroz, o amido de milho, o polvilho, a fécula de batata, além de açúcar, muito sal, refrigerantes, sucos industrializados, e coisas do tipo… ou seja, basicamente as mesmas coisas que uma dieta desequilibrada COM GLÚTEN pode conter...

Aí eu pergunto: é a AUSÊNCIA DE GLÚTEN a responsável pelo DMII nas pessoas? Ou seriam os hábitos alimentares e estilo de vida totalmente equivocados os responsáveis pela doença? Porque se fosse apenas a dieta sem glúten, o esperado seria que todos que consomem glúten jamais se tornassem diabéticos, certo?

E porque tanto alarde envolvendo a dieta sem glúten? Porque infelizmente ainda existe a crença (equivocada) de que na dieta sem glúten só se come farinhas refinadas e mais nada! Em outros países em que acesso a alimentos frescos é mais restrito, isso até pode ser verdade. Mas no Brasil, em que felizmente temos acesso a uma infinidade de alimentos frescos, saudáveis e cheios de fibras, só come errado (e adoece por causa disso) quem quer ou quem não teve acesso à informação!

Pois se a dieta sem glúten estiver baseada em frutas, hortaliças, carnes magras, ovos, arroz e feijão, tubérculos, castanhas e até mesmo uma quantidade moderada de laticínios, não há porque temer o aparecimento da DMII!!!

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Imagem encontrada na internet

Em 2013, a pedido da Fenacelbra, eu elaborei um material para ajudar os celíacos (e os nutricionistas) a pensar na dieta sem glúten como algo muito além das farinhas sem glúten. Esse material está disponível para download gratuito aqui: http://www.fenacelbra.com.br/arquivos/livros_download/10_passos_celiacos_juliana_crucinsky.pdf

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Assim, gostaria de finalizar dizendo que não há motivo para pânico! Dietas com ou sem glúten, desde que bem orientadas, favorecem o controle da glicemia e da diabetes, seja tipo I ou tipo II e podem inclusive PREVENIR e em alguns casos podem até mesmo REVERTER a DMII (desde que o pâncreas não tenha esgotado sua capacidade produzir insulina).

E de lembrar que o glúten é uma proteína de baixo valor biológico, sem qualquer ação protetora à saúde. Seu único benefício relacionado à glicemia, é que pelo fato de não ser completamente digerido pelos seres humanos, ele diminui o índice glicêmico da farinha de trigo, em relação às outras farinhas… apenas isso, além do fato da farinha de trigo integral ter mais fibras que boa parte das farinhas refinadas tradicionalmente usadas nas dietas sem glúten. Mas é possível adicionar fontes de fibras, proteínas e gorduras boas às preparações contendo outras farinhas e existem farinhas sem glúten com alto teor de fibras, como a farinha de coco, de amêndoas, de castanhas, de banana verde, etc. Celíacos fazem isso todos os dias, pois nossa sobrevivência e nossa saúde depende de uma dieta completamente livre de glúten e de contaminação por esta proteína…e nem por isso estamos todos diabéticos! Muito pelo contrário! Ao nos depararmos com uma restrição alimentar, ganhamos a oportunidade de reavaliar a forma como nos alimentamos e descobrimos que podemos comer de forma muito mais saudável que antes!!!

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

Mas também acho importante lembrar que dietas a base de farinhas, tenham glúten ou não, e pobres em fibrasnão são benéficas para NINGUÉM! Farinhas devem ser consumidas com bastante moderação, por todas as pessoas que pretendem preservar a saúde. Portanto, se você tem alguma desordem relacionada ao glúten e precisa de uma dieta sem esta proteína para sobreviver ou se você, por qualquer motivo tenha decidido excluir o glúten da sua vida, procure um Nutricionista, para ter certeza de que está se alimentando corretamente e minimizar as chances de adoecer!

Faz mal cortar o glúten sem necessidade? (parte 2)

Há quem acredite que o glúten é indispensável à saúde de quem não tem “problemas” com ele e que sua exclusão sem necessidade pode fazer mal e causar deficiências nutricionais. Para tanto, seria necessário que o glúten fosse capaz de fornecer nutrientes não disponíveis em outras fontes, o que não é o caso… mas vou explicar. Vem comigo!

Primeiramente vamos entender o que, exatamente é o glúten. Ele é uma proteína, formada pela união de outras duas, uma prolamina (a gliadina, no caso do trigo, que é a principal fonte de glúten dos brasileiros) e a glutenina, em presença de água e trabalho mecânico (misturar, bater ou sovar a massa). O glúten pode ser visto a olho nu, basta que a massa, feita apenas de farinha de trigo e água, seja lavada em água corrente até a saída de todo o amido. Aquela substância meio borrachenta que sobra, é o famoso glúten. Ele possui características ideias para a fabricação de pães e massas diversas, e por isso é um querido na gastronomia e na culinária.

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Do ponto de vista nutricional, estamos falando de uma proteína bem complicada, grande, de difícil digestão e de baixo valor biológico (traduzindo: o glúten não contém todos os aminoácidos essenciais necessários à saúde, coisa que as proteínas animais todas contém e coisa que a velha combinação de arroz com feijão também tem). A  gliadina é a principal  fração tóxica para celíacos e alérgicos (para os sensíveis, pode ser ela ou outros componentes do trigo e isso merece um outro post). Não importa se estamos falando de trigo “moderno, geneticamente modificado” ou de trigo ancestral…a gliadina sempre esteve lá, causando tumulto no sistema imunológico de algumas pessoas. O grande problema da gliadina, é que nem todas as ligações entre seus aminoácidos podem ser quebradas por nossas enzimas digestivas (não que exista uma deficiência enzimática em celíacos – isso é mito e já foi refutado pela ciência)… é como se tivéssemos um colar cujas pérolas estivessem amarradas por um cabo de aço e não por um fio de náilon, pelo menos em alguns pontos (na figura abaixo cada bolinha é um aminoácido e as partes coloridas seriam os pedaços amarrados com cabo de aço, que não se desfazem nunca):

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(A figura é de um artigo do Fasano, mas esse é um slide meu, usado nas aulas sobre glúten)

Esses fragmentos interagem com o sistema imunológico e geram inflamação e ativam a autoimunidade, em pessoas geneticamente predispostas e com alterações na permeabilidade intestinal, aumentando ainda mais a permeabilidade e a inflamação, a ponto de (no caso dos celíacos) causar destruição da mucosa intestinal, onde os nutrientes são absorvidos, de modo que nem o glúten/gliadina são aproveitados como fonte de nutrientes, quanto mais as proteínas e outros nutrientes ingeridos a partir de outros alimentos.

O trigo, principal fonte de glúten/gliadina na atualidade, é um cereal, que contém carboidratos, fibras (na casca/farelo), proteínas (as formadoras de glúten, as aglutininas do gérmen de trigo e as AITs – proteínas inibidoras da alfa-amilase e da tripsina), lipídios (ou gorduras, como o óleo do gérmen de trigo e vitamina E) e vitaminas do complexo B (exceto B12) em pequena quantidade. Entretanto, o trigo, assim como outros cereais, possuem fatores anti-nutricionais (como o ácido fítico), que impedem (pelo menos em parte) a absorção dos seus próprios nutrientes. assim, de um modo geral, a alimentação de ninguém deve se basear apenas em cereais, pois o risco de subnutrição é muito alto. A farinha de trigo usada no Brasil, justamente por ter se tornado a base da alimentação de muitas pessoas (principalmente das mais pobres), passou a ser fortificada com ferro e ácido fólico, de modo que pães, massas e biscoitos se tornaram uma fonte importante destes nutrientes, para quem não pode ou não quer, obtê-los de outras fontes.

Então, ao excluir o trigo/glúten da alimentação, estaríamos excluindo também ferro, ácido fólico, carboidratos, fibras e vitaminas do complexo B, certo? E esse seria o principal motivo de tanta preocupação com as “dietas da moda” que pregam a exclusão do trigo.

Mas dizer que a exclusão do trigo causará deficiências nutricionais, seria assumir que as pessoas não o substituiriam por outros alimentos ou que as substituições seriam piores (como a substituição do trigo exclusivamente por farinha refinada de arroz ou amido de milho, por exemplo), o que, na maior parte das vezes, já ficou provado que não é verdade! até porque, estamos no Brasil, onde (felizmente) dispomos de uma variedade enorme de ingredientes que facilmente podem ocupar o lugar do trigo e que já ocupavam, muito antes dos colonizadores europeus chegarem por essas bandas! Nossos ancestrais indígenas comiam aipim (mandioca) e beiju muito antes da tapioca ficar famosa!

Então, pensando a respeito dos carboidratos e da energia, o pão de trigo pode facilmente ser substituído por produtos tipicamente brasileiros como o aipim cozido e a tapioca, ou por batata doce, inhame, cará, batata inglesa, bolo de milho, fruta pão ou banana da terra cozida! Olhem só quantas opções bem mais nutritivas!

Até a batata inglesa (que de inglesa não tem nada, pois é um alimento típico das Américas), que anda meio em baixa por causa das dietas low carb, tem suas vantagens! Ela possui vitamina C (que os cereais não possuem), potássio, magnésio, cálcio, ferro, zinco, vitaminas do complexo B (só não possui B12, porque B12 só é encontrada em alimentos de origem animal) e fibras! Obviamente ninguém vai viver a base de batatas, que possui pouca quantidade de proteínas e gordura, mas dentro de uma alimentação equilibrada, ela pode ser um bom substituto para o trigo, assim como os demais tubérculos, inclusive no preparo de pães, bolos e biscoitos.

Para obter proteínas e aminoácidos, nada melhor que a proteína animal, como carne, víscera, frango, peixe, porco, leite e ovo. E mesmo os veganos, que passam longe destas opções, podem facilmente obter suas proteínas e aminoácidos a partir da combinação de arroz com feijão ou milho com ervilha, ou ainda a partir das oleaginosas (castanhas do Pará e de caju, amêndoas, nozes, pistache, macadâmias, amendoim, semente de baru e tantas outras) e cogumelos! Aliás, são estes mesmos alimentos que também fornecerão ferro e zinco em boa quantidade!

Em relação às gorduras e vitamina E, podemos obtê-los a partir das oleaginosas, do azeite de oliva, do coco, do abacate, do açaí e até da manteiga!

E fibras, vitaminas e minerais diversos são facilmente obtidos através das frutas e hortaliças, tão abundantes em nosso país! Aliás, esqueça aquela história de que cereais matinais e farelos são necessários para fazer o intestino funciona, pois não existe melhor fonte de fibras que os vegetais frescos!

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Imagem encontrada na internet

Comer trigo/glúten é muito mais um hábito, sobre o qual raramente pensamos a respeito, do que uma necessidade real. E em se tratando de Brasil, foi um hábito trazido pelos europeus, mas um hábito completamente desconhecido pelos demais povos (indígenas, africanos e asiáticos) que contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Dito tudo isso, eu pergunto: em que situação alguém, verdadeiramente, terá problemas (nutricionais) ao excluir o trigo/glúten da alimentação? Será que viver sem glúten realmente é tão prejudicial assim? Ou será que não seria um convite a repensarmos nossos hábitos alimentares?

 

 

 

Faz mal cortar o glúten sem necessidade?

Essa é uma pergunta recorrente nas redes sociais, nas aulas e nos consultórios, e vejo muita gente defendendo que “sim, faz muito mal cortar o glúten sem necessidade”, enquanto que há outro tanto de gente dizendo que “não há problema”. E no meio há uma porção de gente confusa, sem saber em quem acreditar e pra que lado ir. Por isso resolvi escrever no blog, o que venho repetindo continuamente pros meus alunos de pós graduação e pra todo mundo que me faz essa pergunta. Óbvio que não pretendo aqui me tornar a dona da verdade, nem nada. Trata-se apenas da minha forma de ver esse assunto, com base em toda a leitura (Científica) que já fiz a respeito desse tema, ok? Dito isso, então, bora lá!

A primeira coisa, seria esclarecer que, se há duvida sobre fazer mal cortar o glúten, significa que há um entendimento prévio de que consumir glúten, necessariamente faz bem. Mas aí eu pergunto; faz bem pra quem? E faz bem sempre? Em qualquer situação? Em qualquer quantidade? E por que faz bem? e se faz tão bem? Como é que pode ter gente que vive (bem e saudável, muito obrigada) sem consumir trigo? Ou será que essas pessoas são aliens disfarçadas? (perdão… contém doses de ironia, porque eu não resisto…rsrs)

Bom, pra ninguém me acusar de implicância, vou começar falando dos benefícios do glúten e das suas fontes alimentares. Sim, não to doida, não (ainda não) e o “maledeto” tem lá seu lado bom. O glúten é uma proteína formada pela união de duas outras proteínas, a gliadina (essa sim, é a “marvada” que adoece a mim e a todos os demais celíacos) e a glutenina, que na presença de água e trabalho mecânico (como sovar a massa, por exemplo) gera uma massa viscosa e elástica, que não se parte tão facilmente. essa massa é que permite que os pizzaiolos dêem seus showzinhos, jogando a massa da pizza para o ar e virando-a, sem passarem a vergonha de tudo despencar em cima deles e da “platéia”. É ela também que permite que apenas quatro ingredientes (farinha, água, sal e fermento) gerem o tão “amado-idolatrado-salve-salve” pão francês e permite que bolos cresçam, fiquem fofinhos e não esfarelem. É o glúten que também serve como “substituto” da carne em pratos vegetarianos… o tal do seitan ou “bife” vegetal.

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O glúten não brota “do nada” na natureza… seus componentes, gliadina e glutenina, “nascem” nos chamados cereais de inverno: trigo, centeio, cevada e sim, aveia (depois eu falo melhor sobre ela, prometo!). A gliadina é o nome “formal” do glúten do trigo. Na cevada ela se chama hordeína e no centeio, secalina. Ah, e na aveia, temos a avenina, que de todas, é a mais “comportadinha”, pois em geral, só adoece uns 8% dos celíacos. Mas no fundo, quando falamos de glúten e de seus “prejuízos ao organismo”, estamos falando destas mocinhas. Ao ouvirmos falar que o trigo moderno contém muito mais glúten que o trigo ancestral, podemos traduzir essa fala por: o trigo moderno é capaz de formar mais a tal da rede visco-elástica que padeiros, pasteleiros e pizzaiolos tanto amam, mas isso não significa que os trigos ancestrais sejam “inocentes”. Na verdade, trigos ancestrais possuíam tanta (ou mais) gliadina que trigos modernos, mas menos glutenina e menor capacidade de agradar aos padeiros…apenas isso.

Tá, e do ponto de vista nutricional?

Lembrando que durante mais de 2 milhões de anos, nossos ancestrais foram caçadores e coletores, e portanto, não plantavam nem criavam nada, sobreviver em ambientes inóspitos, em condições de frio extremo (como no norte da Europa, por exemplo) e sem ter o que caçar e catar, ter um estoque de comida parecia um verdadeiro milagre! Milagre maior ainda se fosse possível fazer a comida nascer no próprio quintal (ou alguém acha que dá pra ficar andando a toa num baita frio, trocando de caverna entre uma nevasca e outra?). Nessas condições, fazer um certo capim crescer e conseguir transformar suas sementes em farinha e em papa e pão, era um milagre tão grande, que só podia ser coisa dos deuses… e não foi a toa que muitos deuses (geralmente deusAs) protetores da agricultura surgiram e começaram a ser cultuados, e com toda a razão! Isso há alguns poucos milênios antes do nascimento de Cristo. Os cereais, e principalmente o trigo, forneciam muitas calorias (energia) numa pequena porção, carboidratos, fibras e algumas (poucas) vitaminas. Muito, mas muito mesmo, melhor que passar fome por falta de caça! Alias, quem tinha pão à mesa, nem se preocupava mais em sair pra caçar! Onde já se viu? coisa mais primitiva e fora de moda!? eu, hein?!

caverna paleo

E assim, as coisas foram indo, até que os cereais se tornaram a base da alimentação de muitos povos, que apesar da comida, não eram lá mais tão fortes e saudáveis como seus ancestrais caçadores. Só que nesse meio aí, havia um pessoal que não se adaptou a essa mudança no padrão alimentar (saudosos do tempo em que o rolé da vez era sair pra caçar uns javalis), cujos corpos necessitavam de outro tipo de alimento, como a caça e os vegetais frescos coletados e na falta deles, muitos morreram de desnutrição. Os que conseguiram sobreviver, mesmo fracos e desnutridos pela comida inadequada, geraram filhos tão inadaptados quanto eles e esses filhos tiveram filhos e assim por diante. Com alguma sorte, os descendestes desses caras, chegaram a compor 1% (sim, nós, os celíacos) da população moderna e outros quase 10% (sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo), acabaram descobrindo ter algum parentesco com essa gente aí…

E é graças a sobrevivência desses 11% que toda a polêmica envolvendo o trigo/glúten pega fogo sempre que alguém toca no assunto. Porque somos diferentes. E o diferente sempre assusta! Sobrevivemos (mesmo que bem prejudicados) a uma cultura alimentar capaz de nos exterminar do planeta, porque sim, para nós, a tal da gliadina é tóxica e nos envenena. Isso é um fato. Não há nada que se possa fazer em relação a isso, a não ser nascer de novo, em outra família (e aqui não estou considerando possíveis questões cármicas, que não vem ao caso).

Para nós a única chance de sobrevivência, com saúde e plenitude, é manter uma alimentação rigorosamente isenta de glúten. Inclusive isenta de contaminação. POR TODA A VIDA!

Mas e os outros? Os comedores de glúten? O que aconteceria com eles se voltassem à era da caça e da coleta, antes do trigo ter virado comida? Será que eles morreriam ou teriam sérios problemas de saúde? Bom… talvez naquele tempo, se não tivessem nenhuma habilidade pra caçar. Mas em pleno século XXI, onde “caçamos” no mercado mais próximo, na feira e até na internet, não há grandes riscos… então, viver sem trigo pode ser uma opção até mais saudável, desde que, como antigamente, as pessoas optem por vegetais frescos (frutas, legumes e verduras), carnes diversas (boi, peixe, frango, porco, etc), ovos, castanhas e até mesmo, arroz e feijão. E aí, eu desafio alguém me provar que isso pode trazer algum risco ou prejuízo à saúde de alguém! Que nutrientes poderiam haver no trigo/glúten que uma alimentação tão saudável e variada não seria capaz de fornecer e em quantidades adequadas?

Porque se disserem que a exclusão de trigo/glúten pode causar deficiencias nutricionais em alguém, podem ter certeza de que é porque há algo de muito errado com a alimentação da pessoa! A menos que o trigo/glúten sejam substituídos por papelação ou por vento, o risco de déficit nutricional real é muito (mas muito mesmo) pequeno! Até porque, ninguém tá dizendo que é pra excluir sem colocar outros alimentos no lugar…e não, não tô falando de produtos industrializados isentos de glúten, que em geral, custam bem mais caro que a versão glutenada. Não que eles não sejam uma opção válida. Claro que são! Mas ninguém em sã consciência, vai passar a vida se “alimentando” apenas de biscoito recheado sem glúten ou de macarrão de arroz, por exemplo…

Tá, ainda existem outros fatores a considerar, como a questão do custo, por exemplo. É fato que tudo a base de farinha de trigo custa absurdamente menos que outros alimentos e as pessoas estão cada vez mais sem grana. Mas aí, eu já considero um fato social, que infelizmente impacta negativamente o estado nutricional. E realmente acho triste que muitas pessoas, por falta de condições financeiras mínimas, precisem ter o pão e biscoitos glutenados como a base da alimentação. É triste e é injusto. Mas repito, é um problema de origem social, cuja solução vai muito além da discussão “com ou sem glúten”, até porque, ainda é importante lembrar que existem celíacos vivendo abaixo da linha da pobreza, dependendo de projetos sociais e da caridade alheia, pra comprar arroz e feijão.

Outro ponto, é que muitas pessoas se acomodaram e se “viciaram” em comer só o que vem em pacotinhos…e os pacotinhos sem glúten, custam beeeem mais caro! Culpa dos “produtores inescrupulosos/gananciosos”? Não… culpa da dificuldade em encontrar insumos seguros e certificados, do tempo consumido no treinamento de manipuladores, para que eles nçao contaminem o produto final, culpa do alto custo da materia prima e até mesmo da dificuldade de se chegar aum produto final semelhante à versão glutenada…

E o hábito alimentar? A cultura? O lado social? Sim… eles existem, e si, exercem um forte apelo sobre todos nós. Comida, além de nutrir o corpo (há uns 2 mil anos tras, Hipócratas já dizia, “Faça do teu alimento, seu medicamento”!), também nutre a alma e o coração. Comida vem carregada de lembranças, boas e ruins e é difícil desapegar. Sei muito bem disso! Senti na pele! Mas é possível, tanto que nós, que possuímos alguma desordem relacionada ao glúten, precisamos redefinir algumas coisas em nossas cozinhas e em nossos hábitos alimentares, adaptando receitas de família, para que as que estávamos acostumados, não nos matem. É o bolo da vovó, é a pizza na nonna italiana, é o pão, o biscoito, a massa, os doces…

Várias receitas e técnicas de preparo precisam ser reaprendidas e adaptadas, para que não nos sintamos excluídos de uma sociedade que já nos exclui por nos ver como “doentes” e “diferentes”. Aliás, muitas vezes, para termos o direito de nos alimentarmos tal como nossos ancestrais pré-históricos, precisamos ostentar o título de “DOENTES”, para que nosso prato seja respeitado pelos demais, pois se não for assim, debocham da gente, nos dirigem palavras pouco lisonjeiras e nos chamam de “vítimas da moda”! Pois parece que comer da forma que é mais saudável para nós virou modinha… coisa de gente fútil e que não tem mais o que fazer e só reforçando nosso status de doente é que poderemos ostentar nossos pratos e marmitas sem sermos incomodados… Até porque, principalmente na Doença Celíaca, há um grande paradoxo! Ao recebermos o “certificado” de doentes, damos o primeiro passo para sermos mais saudáveis e aí, quem vai acreditar que precisamos comer diferente, logo nós, que parecemos mais saudáveis que nossos amigos, colegas e familiares?

E onde estão aqueles capazes de “bater o martelo” e dar nosso “certificado de doente”? Os médicos? Muitos, infelizmente estão por aí, debochando de nossas queixas e sintomas, também nos chamando de seguidores da moda, hipocondríacos (afinal, “todo mundo sempre comeu glúten e não morreu!”) e com problemas psiquiátricos (aqui faço um parêntese, pra avisar que vai sair um post sobre os problemas neuro-psiquiátricos-comportamentais envolvendo o glúten – aguardem!). E qual o resultado disso? Uma legião de “doentes sem diploma”… pessoas que desistiram de buscar um diagnóstico (porque ninguém acredita nelas) e resolveram ouvir os apelos do próprio corpo e dar a ele o alimento adequado, ganhando muito em saúde e qualidade de vida, apesar das restrições sociais que o “comer diferente” impõe.

(Pausa para enfatizar que não, não desejo que as pessoas “tenham problemas com o glúten”. Desejo sim, que todos tenham direito ao diagnóstico correto e não sofram, jamais, com as consequencias e complicações – que não são poucas – de um diagnóstico tardio! Outra pausa para sugerir a leitura dos meus posts anteriores sobre a doença celíaca)

E ainda há aqueles (felizardos) que de fato, não possuem nenhum problema de saúde, mas resolveram questionar a forma como vinham se alimentando e a hegemonia do trigo em praticamente todas as refeições e o substituíram, total ou parcialmente, por outros alimentos, fontes de carboidratos, fibras, vitaminas e minerais e estão aí, esbanjando saúde. Obs: Excluíram apenas por opção, e não importa a motivação, já que não temos absolutamente NADA com isso, certo, pessoal?

Então… cortar o trigo/ glúten da alimentação faz mal a saúde? Talvez faça à de quem não consegue pensar fora da caixinha e por isso, não consegue vislumbrar outras opções e acredite que a vida sem glúten dependa apenas de uma porção de industrializados…

Ah! E antes que eu me esqueça! Ninguém precisa deixar de comer trigo/glúten só porque eu to falando sobre isso, ou só porque existem celíacos/sensíveis/alérgicos ao trigo ou mesmo porque (ainda) há gente que acredita que “tá na moda”! 

 

Medite e emagreça

Tá parecendo aquelas propagandas oferecendo mais um milagre… hahaha… mas não é nada disso não e vou explicar melhor. Vem comigo!

Não estou falando de nenhuma “solução mágica” ou mística, não, porque como vocês sabem, não sou dessas. Quero falar é de ciência, que é a minha praia e da meditação Mindfulness aplicada à Nutrição.

Mindfulness pode ser traduzido para o português, como “Atenção Plena”. Esta é uma abordagem de como a meditação, estudada cientificamente, pode contribuir no tratamento de desordens alimentares, dietas para redução de peso e para ajudar às pessoas a fazerem melhores escolhas, mais conscientes e… porque não, gerenciar melhor o estresse e aumentar a qualidade de vida!

Através da prática da Atenção Plena (ou Mindfulness), é possível desenvolver maior consciência alimentar, maior percepção das sensações de fome e saciedade, maior controle das “refeições por impulso”, do “comer por estar estressado ou ansioso” e essa consciência é fundamental na adoção de hábitos alimentares mais saudáveis e no processo de emagrecimento.

O próprio estresse, ao qual toda a sociedade moderna parece estar submetida 24h por dia, é um grande vilão, que nos “empurra” para escolhas alimentares erradas e nos faz perder massa muscular e acumular gordura abdominal. Isso ocorre porque em momentos de estresse o corpo se prepara para “lutar ou fugir” e para isso, precisa fornecer rapidamente energia para o cérebro e para os músculos, na forma de glicose. Assim, o corpo libera os chamados “hormônios do estresse” (cortisol, adrenalina e noradrenalina), que estimulam essa “queima” de massa muscular, porque o cérebro não pode ser privado de glicose e precisa comandar as reações do corpo. Se o estresse permanece, a glicose gerada e não consumida (porque ninguém lutou ou fugiu correndo), pra não ser desperdiçada, é transformada em gordura e se acumula na barriga! Paralelo a isso, quando o cortisol aumenta muito, a serotonina cai e o corpo tenta equilibrar as coisas “pedindo” carboidratos (para dar energia e poupar os músculos) e é aí o ponto onde o estresse nos faz comer demais ou comer coisas que em outro momento não comeríamos, como doces ou chocolate, por exemplo. O resultado? Acúmulo de gordura abdominal, síndrome metabólica, sobrepeso e risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares! O tratamento? Aprender a gerenciar o estresse e adequar a alimentação, dando ao corpo nutrientes.

A sensação de fome, quando ficamos muitas horas sem comer e a hipoglicemia reativa (causada por refeições com muito carboidrato, geralmente carboidratos refinados, como aquele biscoitinho no meio da manhã ou da tarde, por exemplo), disparam em nosso corpo reações muito semelhantes às desencadeadas pelo estresse e faz o corpo se preparar para lutar ou fugir. Tais reações geram um ciclo vicioso e esse estresse todo acaba por prejudicar nossas escolhas, e nos empurra para escolhas mais impulsivas e imediatistas. O resultado todo mundo já conhece: ganho de peso, principalmente na região abdominal, arrependimento e culpa por ter comido e mais ansiedade. Isso pra não falar nas outras consequências do estresse crônico, como aumento da pressão arterial e risco de doenças cardiovasculares…

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Mas esse ciclo vicioso pode ter fim! E é aí que a meditação Mindfulness entra! Através de práticas bem simples, que qualquer pessoa pode fazer, em qualquer lugar, é possível melhorar o nível de atenção e de percepção e ativar as regiões do cérebro responsáveis por escolhas mais sábias e conscientes. É possível melhorar até a qualidade do sono, melhorar o humor e com isso, viver de forma mais leve e feliz!

Em tempo: fiquem ligados na minha Fan page no FB (https://www.facebook.com/NutricionistaJulianaCrucinsky/ ) e no Instagram (@juliana.crucinsky), que vem coisa boa por aí!

 

Onde ler mais sobre meditação Mindfulness:

http://www.nutricaoeconsciencia.com.br/artigos/

 

 

High Fat é mesmo uma boa estratégia para emagrecer?

Durante décadas a gordura foi considerada a grande vilã das dietas e a principal causadora da obesidade e das doenças cardiovasculares. Tradicionalmente dietas bem restritas em gorduras (ou low fat) eram recomendadas para todos que quisessem perder peso, ou estivessem com o colesterol alto ou mesmo fossem diabéticos ou hipertensos, e a industria alimentícia não poupou esforços para atender a essa demanda, oferecendo uma infinidade de produtos “light” ou “zero gordura” (produtos onde a gordura é substituída por mais carboidrato, numa troca beeeem pior, na maioria das vezes).

Aí, mais recentemente, houve uma “ressurreição” das dietas low carb/high fat, com a “reabilitação” da gordura saturada, do ovo, da manteiga e até mesmo do bacon… e o resultado foi uma busca um tanto desenfreada por este tipo de alimentação (talvez numa compensação do inconsciente por tantas décadas de privação).

Pusheen comendo
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Atualmente fala-se muito em aumentar o consumo da gordura, para compensar a (grande) restrição dos carboidratos e pra muita gente tá valendo qualquer tipo de gordura…a regra tem sido, quanto mais, melhor: bacon, queijos amarelos, linguiça, presunto, carne vermelha com bastante gordura, etc… tudo isso tá valendo, além das oleaginosas (castanhas, amêndoas, etc), abacate e coco.

Eu mesma acho que não precisamos restringir tanto a gordura, mas penso que equilíbrio e bom senso nunca são demais, já que exagerar na gordura, apesar de dar mais saciedade, pode contribuir realmente para o ganho de peso (e recuperação do peso perdido) e para o aumento das doenças metabólicas, como as cardiovasculares e a diabetes tipo 2. E não, o que vou falar não tem nada a ver com o colesterol ou a gordura saturada!

Não?

Não! Tem a ver com as alterações na microbiota (ou flora) intestinal, com a passagem de toxinas para a corrente sanguínea e com a inflamação crônica de baixa intensidade (mas bastante perigosa).

Praticamente tudo no mundo em que vivemos, contribui para termos uma microbiota intestinal alterada: hábitos alimentares errados (muito açúcar, carboidratos refinados, poucas fibras, muitos aditivos químicos, muito glúten, etc), poucas horas de sono, sono de qualidade ruim, estresse, uso frequente de antibióticos e de medicamentos que diminuem a acidez do estômago, entre outras coisas. Assim, passamos a ter mais bactérias Gram negativas (bactérias “do mal”), que ao morrerem, chegam facilmente à nossa circulação, causando inflamação principalmente onde a gordura está localizada (inclusive no fígado!). Os mesmos fatores que alteram a microbiota, são os mesmos que contribuem para espalhá-las pelo nosso corpo. Mas a gordura da alimentação é outro fator que contribui pra isso! Pior ainda se for gordura do tipo inflamatório (lembra do bacon e da gordura da picanha?)!!!

Explico: depois que a gordura é digerida, os ácidos graxos resultantes precisam ser distribuídos pelo corpo e para isso, são colocados numa esfera microscópica chamada de quilomícrons. Essas pequenas “bolinhas” também transportam as tais bactérias por todo o corpo e é aí que mora o perigo! Quanto mais gordura, mais quilomícrons são formados e mais bactérias (ou LPS) são espalhadas pelo corpo, gerando mais inflamação e … adivinhem: RESISTÊNCIA INSULÍNICA (aquela que todo mundo tenta evitar quando corta os carboidratos da dieta!!!)! E se pensarmos que muitas pessoas ao amentar a gordura, cortam inclusive os carboidratos das frutas e vegetais, o corpo fica sem defesas antioxidantes e anti-inflamatórias pra combater essa inflamação. O efeito disso, acaba sendo bem parecido que o efeito de uma alimentação cheia de açúcar e carboidrato ruim… ou seja, é praticamente trocar seis por meia dúzia! Sem falar que acaba sendo também uma alimentação com excesso de sódio (que piora a inflamação, aumenta o risco de cálculos renais e perda de cálcio dos ossos) e pobre em potássio e magnésio.

Outro problema, é que geralmente os adeptos das dietas high fat, consomem muita carne vermelha, que por sua vez, contém uma boa quantidade de carnitina, fundamental para a “queima” de gordura. Poxa, mas isso é ótimo, então! Não necessariamente! Pois se a microbiota intestinal estiver ruim, essa carnitina será metabolizada em compostos tóxicos que aumentam o risco de aterosclerose (formação de placas de colesterol, aquelas, que entopem as artérias). Pior ainda se você é dos que prefere churrasco e carne bem passada, que tá cheia de substâncias cancerígenas. E como nada é tão ruim que não possa piorar… se você não ingere os fatores protetores presentes nas frutas e hortaliças, tá lascado… lamento informar…

Ué? então é pra esquecer esse papo de aumentar gordura e reduzir carboidrato? Melhor se entupir de pão, bolo e biscoito?

Não! Claro que não!!!

A dica é reduzir os carboidratos “ruins”, priorizar os carboidratos bons (como o das frutas e e tubérculos), aumentar gorduras boas (peixes, azeite de oliva, abacate, coco, oleaginosas, gema de ovo), mas pegar bem leve nas outras (bacon, queijos amarelos, carne vermelha com gordura, linguiça, etc), equilibrando as fontes de proteínas.

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Dieta sem glúten emagrece?

Acertou você que disse… DEPENDE!!!

Há bastante tempo já que muitas pessoas (inclusive com a orientação de profissionais de saúde) vem cortando o glúten da alimentação com o objetivo de perder peso. Seria ótimo se fosse tão simples assim… descobrimos o verdadeiro (e único) vilão e mantemos a máxima distância dele! Perfeito! Mas… como tudo que diz respeito à Nutrição e Saúde, as coisas raramente são tão simples quanto parecem.

Mas, vem comigo, que vou tentar explicar!

Nesse post aqui, eu já havia falado um pouco disso. Expliquei que a maioria dos alimentos contendo glúten (pães, massas, bolos, salgadinhos, biscoitos, etc) também contém grande quantidade de calorias (em geral calorias vazias) e carboidratos de alto índice e carga glicêmicos, ou seja, são alimentos que aumentam a fome, estimulam o ganho de peso e a resistência insulínica, se consumidos em excesso. A exclusão destes alimentos da dieta, pode realmente ajudar na perda de peso, porém, não adianta absolutamente NADA substituir a versão com glúten por similares sem glúten, preparados com outras farinhas refinadas, tão ou mais calóricas que o trigo, como farinha de arroz, polvilho, amido de milho, tapioca, etc.

Obviamente aqui estou me referindo às pessoas que comprovadamente NÃO possuem nenhuma desordem relacionada ao glúten, sobre as quais já falei em diversos posts aqui no blog, pois quem tem DC ou SGNC ou alergia ao trigo, TEM que excluir o glúten da alimentação e que fique bem claro: A DIETA SEM GLÚTEN SOZINHA (sem ajustes na composição) NÃO FARÁ ESTAS PESSOAS EMAGRECER!!! Estas e nenhuma outra pessoa…

Também não adianta excluir todas as farinhas (com ou sem glúten) e continuar tomando refrigerante, sucos com açúcar (pior ainda se forem sucos industrializados), doces, frituras (não, empanar peixe ou frango com farinha de arroz e fritá-los no óleo de coco não ajuda ninguém a emagrecer!). Se afundar num prato de massa sem glúten também não ajuda, assim como exagerar na batata doce também não!

Pusheen comendo
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Tá certo que existem estudos realizados (na UFMG) em ratos, que mostram que o glúten aumenta a inflamação e favorece o acúmulo de gordura corporal nos bichinhos… mas nos estudos, compararam ratos que comiam a ração padrão (saudável e adequada para eles), com os que comiam uma ração bem parecida, e cuja única diferença, era a presença de glúten.

Em humanos, fica muito difícil comparar os efeitos da alimentação com e sem glúten com cada pessoa se alimentando de uma forma diferente, até porque existem infinitas formas de se comer sem glúten! E é aí que mora o perigo! Quando a dieta sem glúten segue a linha da dieta Paleolítica, sem cereais, sem farinhas, sem açúcar, sem laticínios, sem frituras e sem produtos industrializados, fica até fácil perder peso! Mas tirar o glúten pra comer biscoito sem glúten (tem até biscoito recheado sem glúten, deliciosos, por sinal…rsrsrs…mas calóricos e gordurosos!), fritura sem glúten, refrigerante sem glúten, bolo sem glúten, coxinha sem glúten, doce sem glúten, com toda a certeza, não é um bom negócio pra quem pretende perder peso!

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Então, a dica é: procure um Nutricionista, para fazer uma dieta individualizada, se acordo com suas necessidades e objetivos e se você realmente acredita que comer sem glúten é melhor, ANTES de excluí-lo de vez, procure um médico e faça os exames para saber se você realmente não tem doença celíaca e nem sensibilidade ao glúten!

Cuidado: é integral, mas também faz mal!

Todo mundo (acho eu) já sabe que produtos a base de farinhas refinadas não são bons pra ninguém. Essas farinhas possuem alto índice glicêmico e alta carga glicêmica, e isso signifique que possuem muito carboidrato de absorção rápida… carboidrato que rapidamente aumenta a concentração de glicose no sangue e consequentemente, “pede” ao pâncreas a liberação de uma grande quantidade de insulina, resultado em rápida absorção dessa glicose, hipoglicemia reativa, fome e compulsão por mais carboidrato, além de acúmulo de gordura corporal, principalmente na região abdominal.

A solução mágica parece vir de vários pacotinhos (de biscoitos, principalmente) onde é possível ler: “fit”, “integral”, “rico em fibras”, etc… Mas será que esses produtos realmente são tão bons assim? Será que ajudam a emagrecer? Tiram a fome?

Bom… eu tenho sérias desconfianças de que se o produto realmente é bom, ele não precisa de embalagem colorida, nem de campanhas publicitárias e nem de rótulos alegando “trocentos” benefícios… Mas, antes que alguém diga que é apenas implicância minha (já que eu sou celíaca, não como glúten, etc, etc, etc), que tal darmos uma olhada nos rótulos e listas de ingredientes? Abaixo seguem apenas alguns exemplos do que andei vendo nas embalagens…

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Observem que mesmo com a alegação de ser “integral”, a farinha integral nunca é o primeiro ingrediente e que a quantidade de açúcar sempre é alta e a de fibras sempre é baixa! E isso quando não adicionam outros tipos de açúcar, como maltodextrina, por exemplo.

Aí eu pergunto: vale a pena tentar enganar a fome comendo esse tipo de produto? Gente, vocês estão comendo apenas farinha e açúcar!!!!!!! Dá quase que no mesmo que comer pão francês…

E mais! Você realmente acha que seu corpo se deixa enganar e você não vai continuar sentindo fome e engordar comendo essas coisas? Não importa o que diga o rótulo! Importa o que seu corpo faz com o que está dentro do produto!

E pra onde vão os aditivos todos (corantes, conservantes, acidulantes, adoçantes, etc)? Será que seu corpo sabe o que eles são e sabe exatamente o que fazer com eles? O corpo até tenta jogar essas coisas fora… mas se o seu intestino anda preso, se você bebe pouca água e sua ingestão de vitaminas e minerais que ajudam na detoxificação estiver baixa, essas substâncias se acumulam. E junto com elas, também acumulamos outras substancias tão ruins ou até piores, como bisfenol, ftalatos, dioxinas, etc, que agem como disruptores endócrinos, ou seja, atrapalham o funcionamento de diversos hormônios e desregulam completamente o metabolismo. Sabe aquela velha história chamada “não como quase nada e só engordo”? Pois é… culpa dos produtos industrializados embalados em plásticos e cheios de corantes e aditivos…

Pessoas com sobrepeso / obesidade, diabetes ou com quadro de resistência insulínica (como pré diabetes e SOP) e hipotireoidismo, não deveriam consumir esse tipo de produto. Pelo menos não com a frequência com que são consumidos e pior ainda, acreditando que realmente eles são saudáveis…

E isso porque nem falei sobre a presença de LECTINAS (não confundir com LECITINAS!!!) e outras proteínas presentes no trigo que atrapalham um bocado a digestão, aumentam a permeabilidade intestinal, geram inflamação…

 

Low carb é a receita infalível para todos?

Atualmente um dos assuntos que mais se vê na blogosfera, Insta, Snap e tudo o mais é a dieta low carb/high fat. Pra mim, o pior é ver esse tema sendo falado e divulgado como se fosse realmente uma “dieta” e a salvação do mundo…

Primeiro, acho importante explicar que “low” em português, significa “baixo”, e “high“, significa “alto”, dois advérbios de intensidade, que apenas traduzem que a referida “dieta” possui pouco carboidrato e muita gordura. Tá, ok. Mas quanto é muito e quanto é pouco? Qual o referencial? O ponto de partida? Tenho visto um número “cabalístico” de 50g de carbo nas dieta “low carb” e 20g de nas “very low carb“. Sendo assim, significa dizer que 60 g de carbo já seria muito? E 100g um exagero? Mas para quem? Em que contexto? Com quais objetivos?

 

Se fosse tudo tão simples como andam dizendo por aí, e os carbos e a insulina esse veneno todo, então bora rasgar tudo o que já foi publicado contrário a dietas low carb, bora rasgar tudo o que fale de individualidade bioquímica e bora rasgar o diploma de milhares de bons Nutricionistas que conseguem ótimos resultados sem chegar a certos extremismos “internetanos”, né não?

NÃO!!! Vem comigo que no caminho eu explico!

É fato que reduzir a quantidade de carboidratos da alimentação reduz os níveis circulantes de insulina, de síntese de gordura e ajuda na perda de peso. Mas vocês sabiam que se o carboidrato que tá em excesso é simplesmente trocado por proteína, essa proteína também pode aumentar a insulina e “virar gordura”? E você sabia que mesmo cortando carboidrato e mantendo baixos níveis de insulina é possível engordar? Pois é… mas quase ninguém te conta essas coisas, né?… mas felizmente nos contaram numa disciplina chamada bioquímica, lá no inicio do curso de Nutrição… e ainda bem que existem blogs sérios por aí, como o do Sérgio Veloso, com posts sérios, que me poupam de escrever demais (além do que já escrevo) e poupam meus leitores de “ouvir” minha ladainha… rsrsrs

Aliás, todo excesso, seja ele de carbo, de proteína, de gordura ou até mesmo de água é prejudicial… Ok, mas como saber onde estão os excessos? Não é só cortar carboidrato e aumentar gordura e proteína que tá tudo certo? Bom seria se assim fosse e com todas as pessoas… o mundo estaria salvo da obesidade e da chatice dos nutricionistas (que seriam totalmente desnecessários). O excesso começa quando a ingestão ultrapassa os limites de queima de cada indivíduo (pensando na questão de ganho e perda de peso)… e estes limites sofrem influência de muitos fatores: sexo, idade, peso atual, altura, quantidade de massa muscular, nível de atividade física, horas de sono, atividades diárias, nível de estresse, doenças associadas, e fatores genéticos! Ou seja, para ao menos estimar o que seria excessivo para uma pessoa, precisamos avaliar todos esses fatores antes… e o que é muito pra um, pode ser muito pouco para outros…

O fato de dizermos que o EXCESSO de carboidratos é prejudicial, não dignifica dizer que todo e qualquer carboidrato fará mal! Da mesma forma que não podemos colocar todos os carboidratos e forma como são consumidos no mesmo bolo (perdoem o trocadilho). Uma coisa é consumir algo contendo grande quantidade de farinhas refinadas e açúcar (sacarose, aquele açúcar que todo mundo evita)… outra coisa é consumir frutas e tubérculos (sim, batatas, aipim, inhame). Mas também não adianta trocar o bolo feito com farinha e açúcar por outro cheio de maltodextrina, só porque na embalagem ta dizendo que é sem adição de açúcar! É sem adição do açúcar chamado sacarose, mas maltodextrina é um tipo de açúcar!

A desculpa de evitar alimentos com alto índice glicêmico (IG) também precisa ser revista… muita gente anda evitando comer cenoura (por exemplo), porque leu em algum lugar que seu IG era alto. E aí eu pergunto: você só vai comer cenoura? Vai para um rodízio de cenoura? Ou vai comer cenoura (até que coma uma unidade inteira, que pesa cerca de 100-120g e possui aí menos de 7g de carboidrato e 30 Calorias ou Kcal)  junto com outros alimentos, como uma salada de folhas (cheia de fibras), um pedaço de carne (com proteínas e gorduras), que no fim das contas, diminuem o índice glicemico da refeição?

E qual o motivo de fugir desesperado dos tubérculos? Em 100g de batata inglesa (a “pior”, segundo alguns “especialistas” – sob o ponto de vista do índice glicêmico) temos 12g de carboidratos e apenas 52 Calorias . Muito? Segundo a tabela TACO, tem bem menos que a queridinha batata doce, que nas mesmas 100g tem 18,2 g de carboidrato e 77 Calorias! Tá achando muito? Bom… em 100g ou 4 fatias de de pão de aveia (escolhi aveia pra ninguém dizer que eu tenho implicância com o trigo e to falando mal dele…rsrsrs), temos 59,6g de carbo e 343 Kcal e macarrão instantâneo (que eu sei que vocês não comem) temos aí 62,4g de carboidrato e…436 Kcal!!!

Aí eu pergunto: dá mesmo pra dizer que numa dieta low carb não pode entrar nenhum tubérculo? É… se for nessas low carbs que andam praticando por aí, que limitam o consumo de carbo em 20 (VINTE) GRAMAS ao dia, realmente não dá. Mas por favor, me expliquem QUAL A NECESSIDADE DISSO (devo ter faltado a essa aula, só pode!)??? A meu ver, 20g só pode ser algum numero cabalístico ou numero da sorte de alguém, porque a literatura cientifica não sustenta esses radicalismos por muito tempo para a perda de peso. Pode até ajudar realmente a perder peso na balança (boa parte sendo água e massa muscular e não exatamente gordura, principalmente nos primeiros dias), mas a longo prazo, a recuperação do peso se mostra maior que em pessoas que fizeram uma restrição moderada, como bem explicado aqui nesse outro post, também do Sérgio.

De toda forma, não estou dizendo que as pessoas precisam sair dessa restrição toda de carboidrato pra se jogarem num rodízio de massas… mas acho muito importante lembrar que não existe uma “receita de bolo” que sirva igualmente a todas as pessoas. Enquanto realmente alguns indivíduos parecem se beneficiar de níveis reduzidos de carboidratos (porque em sua individualidade bioquímica metabolizam melhor as proteínas e as gorduras), existem outros que necessitam de uma dose maior de carboidratos e neste segundo grupo, está boa parte de nós mulheres, que em função das flutuações hormonais atreladas ao nosso ciclo menstrual, temos alguns momentos de menor produção de serotonina. Se a serotonina está baixa, consequentemente a melatonina também está e o cortisol encontra-se mais alto. Uma das maneiras que o corpo tem de equilibrar essa bagunça, é fazendo com que nossa vontade de comer doce aumente. Mas não é necessário que ninguém se afunde numa caixa de bombom pra reduzir cortisol (até porque aí teremos outros desequilíbrios, envolvendo insulina, hipoglicemias reativas e tudo o mais, que acabam por gerar compulsão em algumas pessoas e mal estar em muitas outras). Mas podemos facilmente equilibrar cortisol, serotonina e melatonina aumentando a quantidade de carboidratos, com a inclusão de frutas (outras, além de abacate, coco e berries) e hortaliças (lembram da cenoura e das batatas?).

E isso porque nem falei ainda sobre a quantidade de vitaminas e antioxidantes que os vegetais possuem.. e antes que alguém diga que batata “é só amido”, já vou avisando que ela é fonte de antioxidantes como luteína (um carotenóide, “primo” do betacaroteno) e zeanxatina, com importante função protetora da visão…

E ainda tem mais! Sério!

Restrições radicais de carboidratos “estressam” a glândula tireoide e diminuem a taxa metabólica basal. Conquência disso? Menor perda de peso, e maior facilidade de recuperar o peso perdido… Pessoas com hipotireoidismo também não deveriam fazer cortes radicais de carboidratos, porque isso atrapalha ainda mais a função tireoidiana e a longo prazo, favorece o ganho de peso.

Quando se pensa em perda de peso, e principalmente em não recuperar o peso perdido, é importante evitar certos radicalismos e promessas de perda rápida e pensar a longo prazo. Ao se praticar restrições grandes de carboidrato, a cada “jacada” (coisa que eu particularmente detesto e já expliquei aqui no blog o porque), o impacto de muito carboidrato de uma só vez é grande… e as pessoas invariavelmente se sentem mal, inchadas, com dor de cabeça, com problemas digestivos e com ganho de peso/dificuldade para continuar perdendo.

Aí eu pergunto novamente: QUAL A NECESSIDADE DISSO?

Não seria mais coerente buscar a orientação de um profissional e fazer uma dieta individualizada, equilibrada, elaborada a partir da analise de todos os fatores que já mencionei? As chances de dar errado seriam muito menores e as chances de sucesso, muito maiores!

10 coisas que os gastroenterologistas devem saber sobre a Doença Celíaca

Tradução do texto publicado em 22/03/2016 no site: https://celiac.org/blog/2016/03/10-things-gastroenterologists-should-know-about-celiac-disease/?utm_content=bufferf852d&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer#3kUeK0rxKJ9DxMzG.99

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Gastroenterologistas desempenham frequentemente um papel importante no diagnóstico e tratamento de doença celíaca. O artigo de 2015, a doença celíaca: Dez coisas que cada gastroenterologista deve saber, co-escrito por Joseph Murray, MD , membro do Conselho Consultivo Médico da doença celíaca Foundation , apresenta um esboço de perguntas e respostas que seu gastroenterologista não deveria se sentir descnfortavel de responder e que você, como paciente, deve estar ciente.

  1. Como a sorologia pode ser usada para diagnosticar a doença celíaca?

O anticorpo  antitransglutaminase tecidual, da série IgA (IgA TTG) é o melhor teste sorológico  para a detecção de doença celíaca, para pessoas com mais de dois anos de idade que consomem glúten e não são IgA deficientes. Os testes baseados em IgG devem ser feitos apenas para quem possui deficiencia de IgA.

  1. A doença celíaca pode ser reconhecida Endoscopicamente?

Embora existam marcadores endoscópicos para a doença celíaca, incluindo a perda das pregas da mucosa, as biópsias devem sempre ser feitas para confirmar o diagnóstico. (Obs minha: isso significa que mesmo que o endoscopista veja a mucosa e “ache” que está tudo normal, ele PRECISA colher material para a a biópsia, para confirmar ou descartar a doença)

  1. Quais Biópsias devem ser feitas para avaliar a doença celíaca?

A distribuição das lesões na doença celíaca pode ser irregular, então, no mínimo quatro biópsias devem ser feitas a partir da segunda parte do duodeno, e duas biópsias de bulbo duodenal .

  1. Que em Situação de Risco os pacientes devem ser testados para a doença celíaca?

Devido ao risco aumentado de ter doença celíaca, parentes de primeiro grau devem ser testados, bem como pacientes sintomáticos com diabetes mellitus tipo 1 e aqueles com síndrome de Down, Turner, e síndromes de Williams. (Obs minha: é importante lembrar que nem todos os celíacos apresentam os sintomas da DC clássica, como diarreia e perda de peso! muitos possuem a forma oligossintomatica!)

  1. Como avaliar para a doença celíaca em um paciente em dieta sem glúten?

Os testes genéticos podem ser uma alternativa para pacientes em uma dieta livre de glúten para descartar a o desafio do glúten, quando o mesmo está contra-indicado por algum motivo.  Em pacientes positivos para HLA DQ2 ou DQ8, uma provocação com glúten é recomendada de 3 g de glúten por dia , durante um mínimo de seis semanas para aqueles que toleram bem o desafio. Um desafio de duas semanas deve ser seguido por testes de sorologia e da biópsia duodenal. Um desafio de seis semanas deve ser seguido por testes de sorologia em oito semanas, e biópsia duodenal se a sorologia é positiva. Se soronegativa, testes de sorologia devem ser repetidos após mais 2-6 semanas, pois pode haver um aumento atrasado nos títulos sorológicos. (Obs minha: pessoas que apresentam ALERGIA AO TRIGO ou ALERGIA AOS CEREAIS, NÃO DEVEM SER SUBMETIDAS AO DESAFIO DO GLÚTEN devido ao risco de ANAFILAXIA!!!)

  1. Como “gerenciar” a doença celíaca?

Todos os pacientes devem seguir uma dieta totalmente livre de glúten, ao longo da vida, eliminando trigo, centeio e cevada (obs minha: e aveia contaminada). Os pacientes devem ser orientados sobre a dieta livre de glúten por um nutricionista especialista, e um farmacêutico deve rever todos os medicamentos e suplementos. Os pacientes com má absorção grave devem eliminar aveia para o primeiro ano, mas pode consumir a aveia sem glúten com moderação a partir daí, se não apresentar sintomas.

  1. O que deve ser avaliado em um paciente com doença celíaca recém-diagnosticada?

Os pacientes com doença celíaca diagnosticada recentemente deve ter uma avaliação completa de exames de sangue, como ferritina, vitamina B 12 , folato, cobre, zinco, cálcio e vitamina D 25-hidroxi. Em caso de deficiencia grave de B12 (com sintomas de neuropatia e problemas neurológicos, ou má absorção contínua), pode ser necessario administra-la na forma injetavel. Também se recomenda densitometria óssea para a avliar a densidade óssea em adultos.

  1. Como avaliar a aderência e a resposta a uma dieta isenta de glúten?

A consulta de acompanhamento deve ser agendada 3-6 meses após o diagnóstico da doença celíaca, para abordar melhora clínica e sorológica. Posteriormente, se recomenda visitas anuais com repetição da sorologia (*antitransglutaminase tecidual IgA). A consulta de acompanhamento com um nutricionista também deve ser agendada para confirmar a adesão estrita à dieta isenta de glúten. Recomenda-se que a biópsia não deve ser repetido até dois anos em uma dieta livre de glúten. (Obs minha: trata-se apenas de uma recomendação genérica. É importante que cada paciente seja avaliado de forma individualizada, de acordo com seu quadro clínico e gravidade dos sintomas e das lesões intestinais)

  1. Qual é a abordagem do paciente celíaco que não responde ao tratamento?

A doença celíaca não responsiva (NRCD) é definida como a falta de resposta a seis meses em uma dieta (totalmente) livre de glúten (e de contaminação) ou de reincidência de sintomas relacionadas com a doença celíaca apesar da dieta. Este é o caso para 10-19% de pacientes com doença celíaca. Procedimentos de acompanhamento devem incluir retomar os testes originais e verificação de exposição ao glúten. Se todos estes testes ainda apontarem para doença celíaca, uma outra biopsia pode ser feita olhando especificamente para a doença celíaca refratária e colite microscópica.

  1. O que vamos fazer com a doença celíaca refratária?

A doença celíaca refratária (RCD) é caracterizada pela atrofia das vilosidades devido à má absorção após 12 meses de uma dieta livre de glúten (e de contaminação). Os pacientes devem ser verificados para transformação maligna como eles têm um alto risco de linfoma. (Obs minha: a DC refratária também pode ser causada pela contaminação cruzada contante e pelas “escapulidas” da dieta, em função dos vários momentos em que o paciente ingere algo contendo glúten porque “não resistiu”).

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