Glúten: uma modinha de apenas 10 mil anos

No dia 23/05/2015, o jornal Estado de Minas publicou uma matéria da jornalista Anna Marina intitulada “A Bola da Vez é o Glúten“. Trata-se de um típico caso de alguém que precisa escrever algo, mas que não tem a menor noção do assunto, e sabe-se lá porque, nem procurou dar “um Google” antes. Eu, na condição de celíaca-nutricionista-educadora em saúde, me senti profundamente incomodada com a forma desrespeitosa com que jornalista escreveu sobre o tema. Concordo que ela tem todo o direito de achar que algumas pessoas talvez estejam deixando de consumir glúten por modismo e também concordo com o direito dela não saber nada sobre o assunto. Mas o que não posso concordar é com a quantidade de absurdos que foram escritos em algumas linhas… absurdos estes que podem custar a vida de muita gente, caso alguns desavisados tenham acreditado no que leram. Assim, como o meu compromisso é com a minha consciência e com o meu papel de educadora, resolvi transcrever aqui no blog a minha réplica a referida matéria, que por sinal, até o presente momento, não obteve nenhuma resposta. E olha que tentei os mais diversos canais de comunicação… e-mail, mensagem via FB e até telefone! Mas enfim… já me conformei com a falta de atenção por parte do jornal. Então, resolvi aproveitar a ocasião e transformar o que foi um grande aborrecimento, em mais uma bandeira levantada em prol da causa Celíaca. Escrevi o texto me baseando na resposta da amiga e orientadora Flávia Anastácio de Paula, que dividiu o texto da jornalista de forma a deixar nosso trabalho de Educação Celíaca mais didático.

“Boa noite Anna Marina,

Primeiramente gostaria de parabenizá-la pelo seu texto publicado no dia 23 de maio de 2015 no jornal Estado de Minas, intitulado “A bola da vez é o glúten”! A senhora está de parabéns por ter conseguido a proeza de atrair muita gente para a nossa causa, por ter conseguido fazer com muitas pessoas, de todo o país começassem a se mobilizar para expressar seu descontentamento contra a desinformação que pode matar. Isso mesmo… glúten mata!
Mas explico melhor abaixo, analisando cada trecho do seu texto:

“COMO DIZ A VOZ DO POVO, “O QUE ABUNDA PREJUDICA”. “NINGUÉM MAIS AGUENTA OUVIR FALAR EM GLÚTEN”.
Acho ótimo que ninguém aguente mais! Sinal de que estamos conseguindo um dos nossos objetivos! Realmente, o que todos nós com desordens relacionadas militamos é por alimentos sem glúten. Para tal vamos ficar não só falando, mas, trabalhando em conjunto com a sociedade civil organizada, os órgãos regulatórios, o Estado, e a indústria alimentícia. Apesar do nosso trabalho já ter vinte anos, estamos só começando. Todos vão ouvir falar de glúten. Todos PRECISAM OUVIR FALAR DE GLÚTEN!

“QUE DE REPENTE SE TRANSFORMOU NUMA GRANDE CAMPANHA NACIONAL”.
Sinceramente, eu gostaria muito que nossa campanha realmente fosse GRANDE, como você acha que é. Isso seria excelente! Mas ainda estamos apenas começando, apesar de algumas significativas e importantes conquistas! Em de 23 de dezembro de 1992 foi homologada a lei da rotulagem Lei Federal n° 8.543, que obriga a indústria a registrar “CONTEM GLUTEN” e foi homologada a LEI No 10.674, DE 16 DE MAIO DE 2003 que obriga a indústria a registrar no rótulo quando o produto é isento de glúten e de contaminação cruzada por glúten grafando “NÃO CONTÉM GLÚTEN”. Além dessas duas leis, em 2009, nós sociedade civil organizada conseguimos definir o Protocolo Clínico da Doença Celíaca que foi publicado pelo SUS. De toda forma: sim é uma campanha nacional pela rotulagem adequada.

“MAS NÃO VEJO O DIA EM QUE A PLACA “NÃO CONTÉM GLÚTEN” VAI APARECER ATÉ EM PÉ DE ALFACE”.

Nós celíacos também estamos ansiosos para que isso aconteça em todo o país, pois até água mineral tem esta informação em seu rótulo! Mas infelizmente muitos produtores ainda não se adequaram a legislação, e não rotulam corretamente seus produtos. Naturalmente, alface não deveria ter glúten. Entretanto, seria ingênuo da nossa parte em descartarmos a hipótese de que no processo de seleção, transporte, embalagem, distribuição e armazenamento as alfaces, cenouras, brócolis, bananas ou outros alimentos originariamente sem glúten, os mesmos estejam imunes de entrar em contato com farinha de trigo. Então, o que posso argumentar é: se na sua região ainda não estão etiquetando alfaces embaladas adequadamente tem algo errado e seria bom aproveitar e fazer uma denúncia a ANVISA, para que a lei seja cumprida, já que a senhora demonstrou preocupação quanto a esta questão.

PARA COROAR A ÊNFASE NUM COMPONENTE QUE ATÉ HÁ POUCO TEMPO ERA PRATICAMENTE DESCONHECIDO POR ESTAS BANDAS, CRIARAM O DIA DO CELÍACO (17 DE MAIO) PARA QUEM SOFRE DE INTOLERÂNCIA A ESSA PROTEÍNA.
Bom… aqui preciso fazer algumas considerações. Os cereais contendo glúten fazem parte da alimentação humana há cerca de 10 mil anos. Não sei quando a senhora começou a ouvir falar de glúten, mas penso que nesta ocasião ainda não era nascida. Para quem conhece História, 10 mil anos parece muita coisa, mas quando analisamos mais profundamente os registros das pesquisas arqueológicas, vemos que nossos primeiros ancestrais surgiram aqui por essas bandas, também conhecida como planeta Terra, há quase 7 milhões de anos e durante todo esse tempo não conheciam o glúten e por isso não adoeciam por causa de sua ingestão. Então, no fim das contas, acabo tendo de concordar que glúten é um item relativamente novo na alimentação humana. Sobre o dia do celíaco e sobre as campanhas que vem sendo realizadas, são todas necessárias para alertar sobre a gravidade das desordens relacionadas ao glúten (aproveito para sugerir a leitura do Consenso de Oslo, publicado em 2013, com as últimas recomendações sobre cada uma destas desordens e sobre o tratamento das mesmas). A doença celíaca é apenas uma dentre estas desordens, e ao contrário de sua crença, é uma doença autoimune, que afeta muito mais que a consistência das fezes… é uma doença que causa inflamação, atrofia e autodestruição da mucosa intestinal, local onde a maior parte dos nutrientes são absorvidos. Assim, um celíaco não tratado pode apresentar inúmeras deficiências nutricionais que podem se agravar a ponto de causa sua morte por desnutrição. Mas a celíaca também pode causar distúrbios neurológicos importantes, infertilidade, pode causar outras doenças autoimunes mais graves (já ouviu falar Lúpus ou artrite reumatoide, por exemplo?) e até mesmo câncer do trato gastrintestinal. Pois é… quem dera que fossemos apenas intolerantes! Mas a intolerância que eu vejo aqui, é das pessoas mal informadas em relação à nossa condição clínica…

FICO IMAGINANDO COMO É QUE FUNCIONA ESSE TIPO DE EXACERBAÇÃO, PORQUE GLÚTEN NÃO MATA NINGUÉM, NÃO É VENENO MORTAL”.
Já ouviu falar de um cara chamado Lucretius? Acho pouco provável, já que ele não tem conta no Instagram, nem no Twitter e nem tem perfil no Facebook. Mas também, isso não seria possível, pois faz muito tempo que ele morreu… viveu na época do império romano. Mas durante sua vida, uma de suas sábias frases dizia que “o que é remédio para uns, para outros é amargo veneno”. E ele nem devia saber o que era glúten! Mas sabia perfeitamente que algumas substancias aparentemente inócuas, como a comida, podia matar algumas pessoas. Pois é…. os alimentos contendo glúten podem saciar a fome de muita gente (como realmente o fizeram no Egito e em Roma, por exemplo), mas esses mesmos alimentos podem causar a nossa morte. E seria ótimo se fosse uma morte rápida e indolor, mas não é…. ele causa um longo processo de desnutrição, que vai minando nossas forças… pior ainda quando outras condições vem de brinde. E não, isso não começou há pouco tempo não! Também na época do Império Romano, há uns 2 mil anos atrás, um médico chamado Arataeus, que nem sabia o que era glúten, conseguiu descrever com riqueza de detalhes todo o quadro clínico que os celíacos mais graves apresentam e foi graças a ele que a Celíaca tem esse nome, pois em grego, koiliacos eram aqueles que “sofriam da barriga“. E os relatos deste médico já foram corroborados por escavações na região de Cosa, na Itália, onde encontraram corpos de pessoas que viveram na mesma época, apresentando todas as características descritas por ele…

NA REALIDADE ELE ESTÁ PRESENTE EM PROTEÍNAS DE TRIGO, CEVADA CENTEIO E OUTROS GRÃOS. MAS, EM COMPENSAÇÃO NÃO ESTÁ NO MILHO E EM SEUS DERIVADOS; FÉCULA DE BATATA, CARNES, PEIXES, AÇÚCAR, CACAU, GELATINAS E SORVETES. SAL, ÓLEO, AZEITES E MARGARINAS. ESSES ALIMENTOS E TODOS OS OUTROS FEITOS COM ELES, COMO BOLO DE FÉCULA DE BATATA POR EXEMPLO, PODEM SER CONSUMIDOS EM UMA DIETA SEM GLÚTEN
Na realidade, o glúten é uma proteína naturalmente presente nestes 3 grãos e por contaminação, na aveia. Não há glúten em nenhum outro grão, mas ele pode contaminar outros alimentos e torna-los impróprios ao nosso consumo. O glúten também é amplamente usado pela indústria alimentícia como agente espessante, como “melhorador” de farinha, como substituto da carne em produtos vegetarianos e até mesmo para aumentar a quantidade de condimentos, além de ser adicionado a caldos, molhos e feijão, para engrossa-los. Ele também pode estar presente no óleo, onde salgadinhos e empanados foram fritos, tornando uma mera batata frita, também imprópria ao nosso consumo. O glúten também é capaz de contaminar ambientes, superfícies e utensílios, reduzindo drasticamente nossas possibilidades de nos alimentarmos, inclusive dentro da nossa própria casa. Sim, e o glúten também está presente na colher de servir sorvete, aquela que encosta nas casquinhas de biscoito e depois vai para dentro de um baldinho cheio de água, enquanto o próximo cliente escolhe qual sabor vai querer… Ah! O glúten também pode estar dentro de um pote de manteiga ou margarina, previamente usado por alguém que comeu pão ou biscoito com glúten, E bolos de fécula de batata se tornam glutenados se forem batidos numa batedeira usada para bolos com farinha de trigo… e também, se o manipulador de alimentos não se lembrar de lavar as mãos após pegar em algo contendo glúten, ou após passar somente “um paninho” para limpar mesas e superfícies…

NÃO SEI A RAZÃO DESSE EXCESSO DE INFORMAÇÃO.
Você não sabe? Talvez eu possa ajudar e dizer que parte disso também é culpa minha, pois desde 2010 eu participo ativamente das ações realizadas pelas Acelbras e pela Fenacelbra, eu também produzo materiais educativos, dou aulas, palestras, distribuo panfletos e até artigo cientifico já ajudei a escrever! Justamente para que o “excesso” de informação ajude outras pessoas da mesma forma que eu fui muito ajudada por quem começou e vem dando continuidade a essa luta. Aos meus antecessores e atuais colegas de militância, eu agradeço muito, pois sabe Deus como eu poderia estar agora… talvez nem tivesse condições de responder à sua matéria. E sabe o que eu acho? A informação que a senhora considera excessiva, eu ainda considero muito pouca… muita gente ainda não teve acesso a elas (inclusive profissionais de saúde e jornalistas) e eu me envergonho por isso, pois talvez eu não esteja tão empenhada quanto imagino…

UMA VEZ QUE A DOENÇA CELÍACA SE APRESENTA PRINCIPALMENTE NO TRATO INTESTINAL.
Mais uma vez eu gostaria muito que isso fosse verdade. Uma diarreia é o menos dos nossos problemas… quem dera que fosse o único, mas como disse anteriormente, até o cérebro pode ficar seriamente comprometido por causa da celíaca. Ah! E nem todos os celíacos apresentam queixas intestinais. Alguns sequer apresentam sintomas! Mas seus intestinos podem estar tão ou mais comprometidos que os dos demais celíacos. As lesões são tão complexas que além de exames de sangue, é necessário fazer uma biópsia do intestino, para avaliar o grau e a extensão das mesmas.

É UMA ALERGIA FORTE, MAS COMO OUTRA QUALQUER.
Não é uma alergia. E não é como outra qualquer. Alergias também podem matar e matam mais depressa, porque matam por asfixia. Doença celíaca é doença autoimune… é o corpo se autodestruindo

APESAR DE TODA A PREOCUPAÇÃO ELA ATACA APENAS 1% DA POPULAÇÃO, O QUE É NADA.
NADA por que nem a senhora nem seus familiares fazem parte destes 1%, correto? Aliás, aposto que não fazem parte desses 1% porque nunca pesquisaram. Nunca fizeram exames. Mas sabia que vocês podem ser celíacos também? A celíaca só pode ser descartada após a realização de todos os exames. E mesmo que seja temporariamente descartada, ela pode se manifestar em qualquer fase da vida, principalmente após fases de maior estresse, seja ele mental ou físico… E caso a senhora queira ter certeza de que não está entre o “quase nada” da população, sugiro procurar um médico e fazer os exames… Prefiro até nem entrar no mérito da falta de empatia, da discriminação em relação a minorias e outras coisas que por si só, dariam muitas páginas…

MAS, COMO VIROU MODA.
Virou moda, não! Voltou à moda! Comer sem glúten foi moda por 7 milhões de anos. Comer glúten foi uma modinha de 10 mil anos pra cá (sugiro a leitura deste livro, deste artigo, destedeste e de todos estes). E sabe porque comer sem glúten voltou a moda? Porque as pessoas passaram a ouvir mais seus corpos, passaram a se preocupar mais com bem-estar e qualidade de vida e viram que essa modinha de comer glúten estava encurtando a vida…

ENTROU FIRME E FORTE NAS RECOMENDAÇÕES DE DIETAS DAS ACADEMIAS
Há muito que os estudos científicos mostram que o exercício físico é indispensável à saúde. Então pessoas que se exercitam, se preocupam com seu bem-estar e qualidade de vida.

PRINCIPALMENTE PORQUE SERIA O VILÃO DO CRESCIMENTO DO ABDOMEM.
Fato. Glúten aumenta absurdamente o abdome. Mas você sabe por que? Porque inflama e distende as alças intestinais, causa desconforto e uma dor insuportável! Mas também pode fazer tumores crescerem dentro do abdome…

dc_crianca_distensão abdominal
Imagem encontrada no google

 

ENTRETANTO É BOM LEMBRAR: NEM TODO OBESO TEM ESSA INTOLERÂNCIA ALIMENTAR.
A obesidade é uma doença multifatorial. Tem obesos celíacos e obesos não celíacos.

NA REALIDADE A DIETA DE GLÚTEN EMAGRECE COMO QUALQUER OUTRO TIPO DE REGIME QUANDO A PESSOA DEIXA DE COMER FONTES DE CARBOIDRATOS COMO: PÃO, BOLO, DOCES…
Bom, aqui acho que houve um equívoco! O glúten é uma proteína e nem sempre ele está na companhia de carboidratos. Você já ouviu falar em seitan, produto muito consumido por vegetarianos? É glúten purinho! É PROTEÍNA. Ah! E antes que eu me esqueça… proteínas e carboidratos possuem as mesmas 4Kcal por grama!

A INGESTÃO MENOR DE CALORIAS VAI RESULTAR EM DECRÉSCIMOS NA BALANÇA. OU SEJA, DIMINUIR CALORIAS FAZ DIMINUIR QUILOS -E NÃO POR RETIRAR O GLÚTEN.
Depende! Pessoas com distúrbios tireoidianos, mesmo comendo pouco podem engordar… e pessoas que consomem muitas calorias, se forem muito ativas, podem ainda perder peso… Além disso, é comum que celíacos percam muito peso quando comem glúten e o recuperem após a exclusão deste item. Mas isso depende de muitos fatores…

VOCÊ PODERIA EMAGRECER DO MESMO JEITO SE RETIRASSE AÇÚCAR, GORDURAS, OU QUALQUER OUTRA SUBSTÂNCIA MUITO PRESENTE … EM COMIDA QUE TENDE A SER MAIS CALÓRICA, CLARO.
Você poderia emagrecer procurando a orientação especializada de um nutricionista e fazendo exercício orientado por um educador físico. Perder peso só com dieta é um dos piores negócios a se fazer… principalmente se for uma dieta restritiva e sem orientação

DIETAS SEM GLÚTEN SÃO MODISMO PURO, A MENOS QUE SEJA RECOMENDADA POR GASTROENTEROLOGISTA.
Bom… elas não são modismo. Elas são a diferença entre a vida e a morte de muita gente. Mas elas também podem ser uma opção, mesmo na ausência de qualquer problema com o glúten. Tanta gente por aí que resolve ser vegetariano, por exemplo. Tanta gente que abre mão da carne vermelha ou do álcool. Por que comer sem glúten não pode ser uma mera opção? As pessoas não têm mais direito de escolha? E o pior de tudo! Dietas são prescritas por NUTRICIONISTAS, os únicos profissionais legalmente habilitados para prescreve-las! O gastroenterologista é o responsável pelo diagnóstico, não pela dieta. E tem mais! Muitos celíacos são diagnosticados pelo dentista, pelo endocrinologista, pelo dermatologista, etc…

NOS ANOS 1960, O MÉDICO AMERICANO WILLIAN DAVIS, ESCREVEU O LIVRO “BARRIGA SEM TRIGO” QUE FOI PARAR DURANTE MESES E MESES NA LISTA DO NEW YORK TIMES. AMERICANO ADORA ESSE TIPO DE LEITURA, MAS NEM POR ISSO É O POVO MAIS MAGRO DA TERRA, MUITO PELO CONTRARIO?
Bom, americanos costumam dar muito mais valor à Ciência que nós, brasileiros, mesmo que tenham dificuldades em pôr em prática o que está nos estudos. E em relação aos estudos sobre a Celíaca e Desordens Relacionadas ao Glúten, nem há como comparar o avanço das pesquisas americanas… Ah! Quase ia me esquecendo de um “pequeno detalhe”! Dois grandes pesquisadores da Doença celíaca, em universidades americanas, já estiveram no Brasil (mais precisamente no Rio de Janeiro), para nos ensinar sobre o assunto:

Dr Alessio Fasano
Dr Alessio Fasano – II COINE (2013). Créditos da Imagem: Spanhol Design
Ciaran Kelly
Dr. Ciaran Kelly – III COINE (2014). Créditos da Imagem: Spanhol Design

UM DOS SINAIS DA INDISPOSIÇÃO AO GLÚTEN É A DIARRÉIA SEM FATORES APARENTES. QUANDO ELA SE TORNA CONSTANTE E SEVERA, É BOM CONSULTAR O MÉDICO PARA SEGUIR UMA DIETA CORRETA, QUE VAI REEDUCAR O INTESTINO.
A senhora sabia que muitos celíacos não têm diarreia? E sabia que muitos celíacos não apresentam sintomas? Acho que já falei sobre isso alguns parágrafos acima, mas não custa lembrar… A diarreia não precisa ser constante e nem severa para que a celíaca cause graves lesões internas. E como eu falei… não é o médico que tem que prescrever dieta. Isso é atribuição PRIVATIVA DO NUTRICIONISTA

SÓ QUE NÃO É PRECISO LEVAR O CONTROLE AO EXAGERO.
Depende do que a senhora considera exagero. É exagero não querer morrer? Querer ter saúde para concluir os estudos, para trabalhar, para ter filhos e vê-los crescer com saúde? Se isso for exagero, então eu me assumo exagerada de carteirinha!

PORQUE NEM SEMPRE É VERDADEIRA AQUELA INFORMAÇÃO NA CAIXA DE QUE Os PRODUTOS NÃO CONTEM GLÚTEN.
Quando isso acontece, a empresa pode ser denunciada à Anvisa e autuada.

MUITOS APROVEITAM APENAS A TENDÊNCIA DO MOMENTO. ESTÃO COLOCANDO ESSA INFORMAÇÃO ATÉ EM EMBALAGENS DE PAÇOQUINHA DE AMENDOIM.
Essa informação tem que estar presente até em rótulo de água mineral! É LEI. Simples assim. E é uma grande conquista nossa. Sabemos as dificuldades enfrentadas por celíacos que moram em países onde não há legislação semelhante.

Aproveito para sugerir as seguintes leituras:

Consenso de Oslo: http://gut.bmj.com/content/62/1/43.full.pdf+html

Protocolo clínico do SUS: http://bvsms.saude.gov.br/…/sas/2009/prt0307_17_09_2009.html

Leis de rotulagem: http://www.fenacelbra.com.br/…/blog/cat…/leis_nivel_federal/

Doenças associadas à celíaca: http://www.fenacelbra.com.br/…/doencas-associadas-a-doenca…/

Atenciosamente,
Dra. Juliana Crucinsky – Celíaca, Nutricionista, e Consultora Técnica da Acelbra RJ.

A Doença Celíaca

Hoje (o terceiro domingo de maio) é o Dia Internacional do Celíaco. 

Para muita gente, celíaco e Doença Celíaca, são termos que podem soar estranhos e até mesmo assustadores, estes termos vieram do grego, lingua na qual koiliacos é aquela pessoa que “sofre da barriga“. Quem primeiro percebeu (ou pelo menos, registrou por escrito, em grego, obviamente) que existiam pessoas que sofriam da barriga, foi um médico chamado Arataeus da Capadócia, por volta do ano 70 d.C. Arataeus percebeu que algumas pessoas queixavam-se de muitas dores na barriga, diarréia e apresentavam emagrecimento e fraqueza e acabavam morrendo por conta deste quadro. Muito tempo se passou, muitas pessoas provavelmente morreram da mesma doença e ninguém sabia como tratá-las.

Em 1888, outro médico, Dr. Samuel Gee, fazendo um eleitura dos estudos de Arataeus, chamou a mesma condição de Coelic Affection (ou afecção celíaca), mas ainda não sabia como tratá-la e em 1908, o Dr Christian Herter publicou um livro no qual falava sobre as crianças que apresentavam a tal afecção celíaca, e observou que elas toleravam melhor uma alimentação com mais gordura do que carboidratos. Assim, durante muitos anos, a doença também ficou conhecida como Doença de Gee-Herter, em homenagem a estes dois pesquisadores.

Em 1918, Sttil complementou o tratamento desta condição, chamando a atenção para a baixa tolerância à ingestão de pães. Em 1938, o Dr Sydney Haas, observou que quando as crianças celíacas se alimentavam de bananas (que também era uma importante fonte de carboidratos),  excluindo da dieta os pães, os biscoitos, as batatas e os cereais, elas melhoravam dos sintomas, demonstrando que a alimentação destes pacientes não precisava ser somente baseada em gorduras. E por muitos anos o tratamento da afecção baseou-se numa dieta quase que exclusivamente a base de bananas.

Foi somente durante a Segunda Guerra Mundial, que o Dr. Willhem Karel-Dicke, um pediatra holandês, percebeu que apesar da fome que muitas pessoas estavam passando, as crianças celíacas acabam melhorando dos seus sintomas, um verdadeiro contra-senso, já que na falta de comida, o esperado é que todos comecem a apresentar desnutrição e maior risco de adoecer! Terminando a guerra e o suprimento de trigo sendo reestabelecido, Dr Dicke percebeu a piora daquelas crianças que haviam melhorado e começou a investigar a relação do trigo e da aveia com a misteriosa afecção celíaca. A partir daí, ele publicou um trabalho, onde recomendava que a farinha de trigo e a aveia deveriam ser substituídas por farinha de milho ou de arroz.

Somente após a criação da técnica da endoscopia, que permitia ver (atraves de um tubo) o que havia dentro do intestino, é que foi possivel verificar que os celíacos apresentavam grande inflamação e alterações na mucosa intestinal. Em 1957 Dr.Crosby, com a ajuda de um engenheiro, Kugler, desenvolveu um pequeno aparelho que permitia extrair pequeninos pedaços da mucosa do intestino (procedimento que hoje conhecemos como biopsia) sem necessidade de operar o doente. E em 1959, Dr Fraser e sua equipe conseguiram separar as frações protéicas do trigo e demonstraram ser a gliadina a fração tóxica para os celíacos e a responsável pelo quadro clínico, e foi em 1962 que Rubin demonstrou que esta proteína estava por tras também das alterações da mucosa do intestino delgado destes pacientes.

A partir daí, novos estudos foram surgindo e em 1977, Dr. Hekkens determinou a estrutura da gliadina, a verdadeira responsável pela doença e na década seguinte, a equipe do Dr. Howell descobriu que a celíaca dependia da suscetibilidade genética para se manifestar. Foi também nos anos 1980, que a sensibilidade ao glúten foi descrita pela primeira vez, pelos gastroenterologistas Cooke e Cooper, que acabou ficando meio esquecida durante os 30 anos seguintes e foi somente após o Consenso de Oslo, em 2011 (numa conferencia que reuniou especialistas de todo o mundo – http://www.fenacelbra.com.br/acelbra_mg/arquivos/gut-2012.pdf), que esta condição foi efetivamente aceita pela comunidade científica e passou a fazer parte do grupo das Desordens Relacionada ao Glúten.

Em 2001, o Dr Alessio Fasano (http://www.massgeneral.org/children/doctors/doctor.aspx?id=19184) (que nos dias 29 e 30/05/2015 estará pela terceira vez no Brasil, falando sobre a Doença Celíaca para os profissionais de saúde, no COINE: http://www.exposemgluten.com.br/coine2015/) e sua equipe. descobriram mais um ponto importante nos mecanismos da Doença Celíaca: a zonulina. a zonulina é uma proteína, naturalmente produzida em nossos intestinos e que aumenta sua expressão quando estamos diante de infecções intestinais, para acelerar o contato dos agentes infecciosos com o sistema imune. Porém, o organismo dos celíacos parece não conseguir distinguir muito bem a gliadina (e outras prolaminas) de microrganismos e toda vez que o glúten aparece no intestino, a produção de zonulina aumenta, aumentando assim, a permeabilidade intestinal (em outra oportunidade falaremos a respeito disso).

Hoje, já sabemos que a Celíaca é uma condição crônica e autoimune, pois quando pessoas geneticamente predispostas ingerem glúten, o sistema imune, que existe para nossa proteção, “surta” e passa a atacar não só a gliadina, como também o próprio intestino delgado (o duodeno), causando inflamação e atrofia deste tecido. E como é no duodeno onde os nutrientes são absorvidos, se há inflamação e atrofia, a absorção (total ou parcial) fica prejudicada, agravando os sintomas.

Durante todos esses séculos, desde que a Celíaca foi “descoberta”, somente o quadro clássico chamava a atenção, pois a perda de peso, a fraqueza e a diarréia eram intensos e “gritantes” e somente as pessoas com este quadro, geralmente as crianças, eram diagnosticadas e tratadas. Mas, felizmente, já se sabe que a Celíaca pode se manifestar de muitas formas e com muitas caras e que nem todos apresentam diarréia e perda de peso. Como a inflamação intestinal pode prejudicar a absorção de muitos nutrientes, que exercem funções diferentes em nosso organismo, os sintomas vão estar associados também a estas deficiencias. Por exemplo, muitos celíacos queixam-se de inchaço (e relatam perda de peso – talvez por desincharem quando excluem o gluten) e este inchaço pode estar diretamente relacionado a má absorção de proteínas.

O Protocolo Clínico do SUS (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2009/prt0307_17_09_2009.html), de 2009, já menciona os diversos tipos de manifestação da Celíaca, descritos a seguir:

  1. Forma Clássica: caracterizada pela presença de diarréia crônica, em geral acompanhada de distensão abdominal e perda de peso. O paciente também pode apresentar diminuição do tecido celular subcutâneo, atrofia da musculatura glútea, falta de apetite, alteração de humor (irritabilidade ou apatia), vômitos e anemia. Esta forma clínica pode ter evolução grave, conhecida como crise celíaca*, que ocorre quando há retardo no diagnóstico e tratamento adequado, particularmente entre o primeiro e o segundo anos de vida, e frequentemente desencadeada por infecção. Esta complicação potencialmente fatal se caracteriza pela presença de diarréia com desidratação hipotônica grave, distensão abdominal por hipopotassemia e desnutrição grave, além de outras manifestações como hemorragia e tetania.
  2. Forma Atípica: caracteriza-se por quadro mono ou oligossintomático, em que as manifestações digestivas estão ausentes ou, quando presentes, ocupam um segundo plano. Os pacientes deste grupo podem apresentar manifestações isoladas, como, por exemplo, baixa estatura, anemia por deficiência de ferro refratária à reposição de ferro por via oral, anemia por deficiência de folato e vitamina B12, osteoporose, hipoplasia do esmalte dentário, artralgias ou artrites, constipação intestinal refratária ao tratamento, atraso puberal, irregularidade do ciclo menstrual, esterilidade, abortos de repetição, ataxia, epilepsia (isolada ou associada à calcificação cerebral), neuropatia periférica, miopatia, manifestações psiquiátricas -depressão, autismo, esquizofrenia -, úlcera aftosa recorrente, elevação das enzimas hepáticas sem causa aparente, fraqueza, perda de peso sem causa aparente, edema de aparição abrupta após infecção ou cirurgia e dispepsia não ulcerosa.
  3. Forma Silenciosa: caracterizada por alterações sorológicas e histológicas da mucosa do intestino delgado compatíveis com DC, na ausência de manifestações clínicas. Esta situação pode ser comprovada especialmente entre grupos de risco para a DC como, por exemplo, parentes de primeiro grau de pacientes com DC, e vem sendo reconhecida com maior frequência nas últimas duas décadas, após o desenvolvimento dos marcadores sorológicos para esta doença.
  4. Dermatite Herpetiforme, considerada DC da pele, que se apresenta com lesões cutâneas do tipo bolhoso e intensamente pruriginoso e que se relaciona também com a intolerância permanente ao glúten.

* A Crise Celíaca também pode ser desencadeada durante o Desafio do glúten, quando é necessário re-introduzir o gluten na dieta, para a realização dos exames.

Este mesmo protocolo orienta também quais exames são necessários para o diagnóstico e diversas publicações enfatizam que é necessário estar consumindo glúten regularmente para que os resultados sejam confiáveis, já que um dos objeticos da dieta de exclusão de glúten é exatamente a negativação de todos os exames e a recuperação da mucosa intestinal!

  1. Dosagem dos anticorpos Iga totais
  2. Dosagem dos anticorpos Antitransglutaminase, IgA 
  3. Endoscopia digestiva, com biópsia de duodeno ( o médico que solicita o exame, deve especificar que o mesmo é para pesquisa de Doença Celíaca)

Confirmando a Celíaca, é necessário iniciar imediatamente a dieta totalmente livre de glúten, com a devida orientação de Nutricionsta, para que as substituições necessárias sejam feitas, para que as deficiencias nutricionais sejam avaliadas e devidamente corrigidas (neste link, é possível acessar a Cartilha com os 10 Passos para a ALimentação do Celíaco, que é uma orientação inicial, mas que de forma alguma pretende substituir o acompanhamento com um Nutricionista: http://www.riosemgluten.com/10_passos_celiacos_Juliana_Crucinsky.pdf)! E como as mudanças na alimentação, podederão afetar também a forma como toda a família se alimenta e a até mesmo a vida social do celíaco, é importante também buscar apoio psicológico especializado.

Mas contraditoriamente, a partir do momento em que descobrimos ter uma doença crônica e autoimune, descobrimos também a chave para nos mantermos verdadeiramente saudáveis e livres de complicações, como costuma dizer o Dr Eduardo Cueto-Rua (https://www.facebook.com/pages/Dr-Eduardo-Angel-Cueto-R%C3%BAa/1430700483862329?fref=ts), um incansável trabalhador em prol dos celíacos.

Quando nos conscientizamos do nosso papel como protagonistas dessa história, nos tornamos Pacientes Ativos e Responsáveis (http://www.riosemgluten.com/PAR_ACELBRA_Flavia_de_Paula.pdf)

Para mais informações sobre a celíaca, sugerimos uma busca nos seguintes sites:

Referencias Bibliográficas Consultadas:

  1. AURICCHIO S, TRONCONE R. History of coeliac disease. Eur J Pediatr. 1996; 155: 427-428.
  2. BERGE-HENEGOUWEN, G.P., MULDER, C.J.J. Pioneer in the gluten free diet: Willem-Karel Dicke 1905-1962, over 50 years of gluten free diet. Gut 1993; 34: 1473-1475.
  3. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 307, de 17 de setembro de 2009. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da Doença Celíaca. Disponível em:http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2009/prt0307_17_09_2009.html
  4. Catassi, C. Where Is Celiac Disease Coming From and Why. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 40:279–282
  5. CUETO-RUA,E. A. Celiaquía, un modo de ser. 2ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Parábola Editorial, 2013.
  6. GUANDALINI, S. Historical Persperctive os Celiac Disease, in: Fasano A, Troncone R, Branski D. Frontiers in Celiac Disease. Karger, 2008.
  7. GUANDALINI S, DISCEPOLO V, NEWLAND C, et al. Celiac Disease. In: Fasano A. A Clinical guide to gluten-releted disorders. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2014.
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