Já fui numa consulta… por que preciso voltar?

Hábitos alimentares não são formados da noite para o dia. São fruto de uma contínua interação de fatores de começou muito antes de cada um de nós de nascer, com os hábitos de nossos pais, avós, bisavós, etc, mas que vai sendo modificado dia a dia de acordo com nossa rotina, tempo (ou falta dele) para preparar as refeições, preferências alimentares, entre tantas outras coisas…

Quando alguém resolve procurar um Nutricionista, geralmente:

  1. Está em busca de hábitos mais saudáveis (e já está consciente de que há algo que precisa mudar);
  2. Quer emagrecer (e consequentemente, percebe que a forma como está se alimentando não está ajudando muito);
  3. Está com algum problema de saúde e precisa se alimentar de forma mais condizente com sua situação atual;
  4. Está grávida (ou tentando engravidar) e sabe que precisa de uma alimentação saudável desse momento em diante..

A motivação pode ser outra, mas dificilmente varia muito dessas que eu falei. Em todo caso, é o HÁBITO alimentar que está em jogo, que necessita de uma avaliação e necessita de modificações.

capa (1)

Mas como falei, hábitos não se formam de uma hora pra outra e muito menos se modificam apenas pela nossa vontade (seria ótimo se fosse assim!). Há quem diga que precisamos de pelo menos 21 dias treinando o novo hábito para que o mesmo se incorpore naturalmente a nossa rotina.

Assim, ao procurarmos um Nutricionista, precisamos fornecer o máximo possível de informações, que o auxiliem a nos ajudar. Sim, porque informações incompletas podem gerar uma ajuda incompleta ou parcial, não por vontade ou falta de competência do profissional e sim porque toda e qualquer informação pode mudar os rumos da conduta pensada inicialmente.

O nutricionista, após avaliar e juntar varias informações sobre cada paciente, traça uma conduta para ajudá-lo a alcançar seus objetivos, mas geralmente esta conduta (e os resultados almejados) vai depender de uma mudança de hábitos.

Além disso, muitas pessoas apresentam déficits nutricionais ou alterações metabólicas, que necessitam de reposição ou de uma ajuda extra (como fitoterápicos) e nem sempre num primeiro momento só a alimentação é capaz de dar conta e aí entra a necessidade de suplementação e/ou prescrição fitoterápica.

Quando o Nutricionista faz uma prescrição complementar, contendo vitaminas e/ou minerais e/ou probióticos e/ou fitoterápicos e/ou óleos (ômegas, óleo de prímula, de coco, etc), tem em mente uma linha de raciocínio e sabe que precisará de um tempo para que o resultado dessa prescrição apareça, já que corrigir desequilíbrios relacionados com a alimentação e o metabolismo leva tempo e depende de muitos fatores (a começar pelo próprio paciente iniciar logo a suplementação e toma-la nos horários e da forma indicada, sem esquecimentos). Muitas vezes, pode ser necessário ajustar as dosagens ou mesmo substituir um item por outro ou mudar as combinações… e isso, só mesmo durante as consultas é que o profissional pode avaliar. A interrupção do tratamento equivale a jogar dinheiro fora e principalmente, a não ter os benefícios desejados. E repetir indefinidamente a prescrição, sem a supervisão do profissional e sem a devida monitorização através de exames, leva ao risco de toxicidade (principalmente relacionada a determinadas vitaminas e minerais) e problemas hepáticos (quando falamos de fitoterapia, principalmente).

Assim, toda prescrição complementar, tem um tempo a ser seguido e necessita de avaliação posterior, o que é feito nas consultas seguintes e até mesmo em novos exames, dependendo da necessidade de cada paciente.

Para que o tratamento nutricional (mesmo que seja “apenas” a melhora de hábitos alimentares) funcione, é necessário continuidade, até porque uma única consulta é muito pouco tempo para o profissional dar conta de passar todas as informações necessárias, acumuladas ao longo dos seus anos de estudos e atualizações constantes e para fazer todas as adequações necessárias na rotina do paciente.

Então, para um resultados satisfatórios, seja qual for o motivo para ter procurado o Nutricionista, recomenda-se pelo menos 3 consultas, para possibilitar o inicio, o meio e o fim de um ciclo de tratamento. Só lembrando que isso não é uma regra… é apenas uma sugestão para otimizar resultados e não desperdiçar recursos e tempo…

Intolerância aos Fodmaps

Fodmaps???

Fodmaps é a sigla em inglês para “Fermentable oligossacharides, dissacharides, monossacharides and poliols”, que significa numa tradução simplista: carboidratos fermentáveis.

FODMAPs

Oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis são tipos de carboidratos. O que os diferencia uns dos outros é sua estrutura molecular e onde estão presentes. Sacarídeo significa açúcar ou carboidrato. Oligosacarídeos – formados pela ligação entre vários açúcares, dissacarideos – formados por 2 açúcares, monossacarídeos – apenas um açúcar; polióis – álcool de açúcares.

Para explicar melhor, podemos dividi-los assim:

  1. Oligossacarídeos: 

a) Frutanos – contém uma molécula de frutose em sua estrutura. São os frutooligossacarídeos e a inulina. Podem ser extraídos da raiz da chicória (principal fnte de frutanos para a indústria alimentícia), mas também estão presentes na cebola, no alho, na alcachofra, na batata yacon;

b) Galactanos – contém uma molécula de galactose em sua estrutura. São a rafinose e a estaquiose, presentes principalmente nas leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico, soja, amendoim).

2. Dissacarídeos: 

a) Lactose – formada por uma molécula de glicose ligada a uma galactose. Está presente no leite de todos os mamíferos e em seus derivados (queijos, iogurtes, soro do leite, etc);

b) Sacarose – formada por uma glicose ligada a uma frutose. A sacarose é a o açúcar de mesa e está presente em nas frutas (em pequena quantidade), na beterraba, na cana de açúcar e principalmente, como açúcar refinadoo, em diversos produtos industrializados;

3. Monossacarídeos:

a) Frutose – é o principal monossacarídeo relacionado aos sintomas da fermentação. Está presente nas frutas e no mel, mas a maior parte da frutose consumida pelos ocidentais NÃO VEM DAS FRUTAS!!! Vem da sacarose e dos produtos industrializados, contendo xarope de milho com alto teor de frutose, como refrigerantes, sucos e refrescos industrializados, iogurtes e até mesmo biscoitos e doces.

4. Polióis: Estão naturalmente presentes em alguns alimentos, como maçã, cereja, damasco, nectarina, avocado, ameixa, amora, pêra, melancia e cogumelos e podem ser produzidos artificialmente e adicionados a diversos produtos alimentícios e até mesmo a alguns medicamentos. Alguns exemplos são:

a) Xilitol;

b) Maltitol;

c) Eritritol;

d) Sorbitol, etc

Alguns destes carboidratos, como os frutanos e os polióis não são digeridos no trato gastrointestinal de humanos e são fermentados pelas bactérias presentes no intestino. Os demais Fodmaps serão mais ou menos digeridos e consequentemente mais ou menos fermentados, dependendo de alguns fatores, como a quantidade em que estão presentes na alimentação, tipo e a quantidade de bactérias (disbiose e/ou sibo) presentes no intestino e a existencia ou não de deficiencias enzimáticas, como na intolerância a lactose.

Fermentable

A frutose, por exemplo, a não ser em casos de frutosemia congênita (quando o bebê nasce sem produzir uma das enzimas necessárias ao metabolismo da frutose), é sempre bem digerida, entretanto, como a dieta ocidental moderna contém uma quantidade excessiva de frutose adicionada (os produtos industrializados e o excesso de açúcar), o trabsportador intestinal, o GLUT5, que leva a frutose para dentro das células, onde elas poderão ser usadas como fonte de energia, fica sobrecarregado. Com essa sobrecarga, a frutose começa a se acumular no intestino, onde é (literalmente) um prato cheio para as bactérias.

Essa fermentação, quando há predominância de bactérias “do bem” no intestino (e quando não há uma superpopulação de bactérias no intestino delgado ou SIBO, do inglês: small intestinal bacterial overgrowth) gera compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC – acetato, butirado e propionato) que nutrem as células intestinais e colaboram inclusive com o fígado, na hora de regular a produção de colesterol! Mas principalmente quando há um excesso de bactérias no intestino delgado (local que não comporta um numero muito grande delas), os problemas começam a acontecer – há um excesso de fermentação dos carboidratos, gerando gases, distensão abdominal, dor, desconforto, diarréia osmótica ou constipação (quando há produção de metano) e até mesmo irritação na bexiga. As bactérias “do mal” começam a produzir toxinas, que ao chegarem a corrente sanguinea, provocam outros sintomas, como fadiga, dores musculares e articulares. Todos estes sintomas podem estar presentes na Síndrome do Intestino Irritável, nas Doenças Inflamatórias Intestinais, na Fibromialgia, na Doença Celíaca e na Sensibilidade ao Glúten não Celíaca.

O tratamento consiste em cuidar da doença de base e em reduzir o teor de Fodmaps da dieta, ao menos, temporariamente. Em casos de SIBO, comprovada por exame (o teste do hidrogenio expirado, que necessita ser solicitado e interpretado por um médico), o tratamento é feito com antibióticos (prescritos pelo médico) e dieta isenta de Fodmaps por 4 semanas, prescrita por um Nutricionista. Mas como se trata de uma dieta bastante restritiva e que não deve ser seguida por muito tempo, após as 4 semanas, testa-se a re-introdução dos alimentos, um de cada vez, para avaliar o nível de tolerância individual.

Depois disso, para evitar que os sintomas retornem, é importante cuidar da alimentação, evitando uma sobrecarga de Fodmaps, principalmente de lactose (em caso de IL), sacarose e frutose presentes em alimentos industrializados. Assim, também é possível prevenir (ou pelo menos amenizar) o retorno da disbiose e da SIBO. Mas também é necessário atentar para o bom funcionamento intestinal, pois a constipação (prisão de ventre) contribui muito para a SIBO, já que as bactérias ficam “presas” por mais tempo no intestino, junto com as fezes e com isso, também favorecem os quadros de endotoxemia e inflamação. Mas isso aí já é matéria para um outro post…

 

Eu já cortei o glúten da minha alimentação. Por que preciso de Nutricionista?

Essa é uma dúvida muito recorrente entre celíacos, sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo. Como a dieta livre de glúten é o único tratamento reconhecido pela comunidade científica e realmente eficaz nessas condições, é comum que as pessoas acreditem que a exclusão pura e simples dos alimentos fontes de glúten seja capaz de resolver todos os seus problemas…

Só que não…

Esse material que elaborei para a Fenacelbra, mostra que a exclusão de glúten é apenas o primeiro passo na caminhada em busca de mais saúde e qualidade de vida! http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/blog/2013/03/23/cartilha-10-passos-para-a-alimentacao-do-celiaco/

Infelizmente a maior parte dos diagnósticos tem sido feita tardiamente, geralmente após anos de “peregrinação”. Quanto mais tarde o diagnóstico e quanto mais tarde o início da exclusão de glúten (e da implantação de cuidados em relação a contaminação cruzada), mais lenta tende a ser a melhora no quadro clínico. Tal fato se agrava se a alimentação antes do diagnóstico era cheia de alimentos industrializados (processados e ultraprocessados), altamente calórica, cheia de aditivos químicos, sal, açúcar e gordura, porem muito pobre em nutrientes e muito pior fica, se na exclusão de glúten só lembramos dos substitutos a base de farinhas sem glúten e esquecemos da “comida de verdade”!

As Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG) e principalmente a Doença Celíaca (DC) causam inflamação (no caso da DC, há inflamação e atrofia da mucosa intestinal, onde os nutrientes são absorvidos) e má absorção de diversos nutrientes. Quanto mais tempo de deficiência nutricional, e quanto mais graves estas deficiências, mais lenta será a recuperação e ainda assim, para que ocorra uma recuperação completa, muitas vezes é necessário, além da dieta, a suplementação de micronutrientes (vitaminas e minerais), de aminoácidos (como glutamina e/ou arginina) e de probióticos.

As deficiências nutricionais podem causar diversos tipos de anemia (dependendo do nutriente mais prejudicado – ferro ou vitamina B12 ou ácido fólico), cãibras, dores musculares, fadiga, alterações no paladar, queda da imunidade contra vírus e bactérias, prejuízos na cicatrização de feridas, infertilidade, alterações na função tireoidiana, dificuldade de concentração, diminuição da memória e até mesmo alterações neurológicas mais sérias.

O Nutricionista, é o profissional certo para avaliar essas deficiências nutricionais, seja através de exames laboratoriais, seja atraves da avaliação de sinais e sintomas (já que algumas não aparecem em exames de sangue, ou quando aparecem é porque o nível de deficiência está bem crítico) e através da análise dos hábitos alimentares. A partir daí é possível traçar estratégias para reverter tais deficiencias e prevenir que elas retornem no futuro.

funcionais.jpg
Imagem encontrada na internet

Através da alimentação / suplementação também é possível acelerar a recuperação da mucosa intestinal dos celíacos, diminuindo o risco da persistência das deficiências e diminuindo também o risco de surgirem hipersensibilidades alimentares decorrentes das alterações na permeabilidade intestinal, sempre presente na DC.

Caso as DRG venham acompanhadas de outras alergias/hipersensibilidades alimentares (alergia ao leite de vaca ou a soja ou a outros grãos, por exemplo) ou intolerâncias (intolerância a lactose ou aos Fodmaps, por exemplo), o Nutricionista também é o profissional certo para adequar o planejamento alimentar e indicar suplementação, se for necessário.

Sem falar aqueles que ainda ganham peso excessivo ou aumentam muito o acumulo de gordura abdominal após a exclusão do glúten. estas pessoas, além de possivelmente continuarem com as deficiências nutricionais, estão mais sujeitas à síndrome metabólica, com alterações na pressão arterial, resistência insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, etc…

Mas é importante alertar sobre a necessidade de continuidade do tratamento! Numa única consulta é impossível fazer todas as adequações necessárias e mesmo que seja possível, é necessário acompanhar a evolução (e a melhora) de cada parâmetro avaliado e da melhora do paciente como um todo!

 

Por que nossas crianças estão se tornando obesas?

Pela primeira vez na História estamos vendo uma geração que provavelmente viverá menos que seus pais e avós. Tal fato se deve à obesidade e as complicações metabólicas decorrentes da mesma.

E por que nossas crianças estão se tornando obesas e cada vez mais cedo? De quem é a culpa? E o que fazer para evitar essa “catástrofe nutricional”?

Bom, primeiramente é importante falar que não há “culpa”. Culpa é um sentimento ruim e na maioria das vezes o próprio obeso sente-se culpado por estar acima do peso, por não conseguir deixar de comer, por não fazer exercicio, etc e a própria sociedade “gordofbica” (ou lipofóbica) na qual vivemos, estimula esse sentimento. De um lado temos um culto à magreza e ao fitness e de outro, toda uma sorte de produtos alimentícios altamente calóricos propagandeados a todo instante em todos os meios de comunicação, principalmente direcionados às crianças.

Como encontrar um equilíbrio? Como ser mais saudável e manter um peso adequado?

Antes de mais nada, também acho importante explicar que peso “adequado” do ponto de vista da saúde nem sempre é a mesma coisa que “peso adequado” segundo os padrões vigentes, ditados pela TV, pela indústria da moda e do fitness. Segundo a Organização Mundial de Saúde, peso adequado seria aquele dentro de uma faixa de IMC (ìndice de Massa Corporal) entre 18,5 a 24,9 (para crianças o parametro é um pouco diferente, pois o IMC é comparado com a idade, já que as crianças estão em fase de crescimento). O IMC é obtido a partir do peso (em Kg) divido pela altura (em cm) ao quadrado (ou pela altura multiplicada por ela mesma). Assim, se o resultado estiver entre 18,5 e 24,9, dizemos que a pessoa está com um peso saudável. Se estiver abaixo de 18,5 (como muitas modelos costumam estar), temos um quadro de magreza ou melhor dizendo, de desnutrição, que pode chegar a níveis extremos. Quando temos um IMC entre 25 a 29,9, já estamos na faixa de sobrepeso, que pode evoluir para a obesidade, quando o IMC atinge 30.

Voltemos a obesidade e suas causas…

A obesidade é uma doença crônica (sim, uma vez obeso, as chances de voltar a se-lo mesmo após o emagrecimento, são grandes) e multifatorial, ou seja, não adianta tentarmos achar um único culpado, porque de fato não há!

Sempre que há uma oferta maior de energia disponivel (na forma de alimento), nosso corpo (progamado lá no periodo Paleolítico, onde achar comida não era nada fácil, pra estocar tudo o que fosse possível e para diminuir o ritmo quando não havia comida) estoca energia na forma de gordura. Da mesma forma que sempre que falta comida (seja porque estamos diante de uma situação real de fome, seja por causa de dietas muitos restritivas, como as tradicionais dietas de 1200 Kcal/dia ou menos), nosso corpo trabalha para reduzir o ritmo (diminuindo a taxa metabolica basal) para nos proteger.

A maior das pessoas atualmente alterna momentos de grande restrição alimentar voluntária (dietas para perda de peso) com momentos de exagero na ingestão de alimentos, exageros esses muitas vezes motivados pela própria privação prévia…

Mas grande parte das vezes tudo começa na infância (ou antes, quando o bebê ganha peso demais porque a mãe estava, por exemplo, com a glicemia alta durante a gestação). A cada choro do bebê, não há quem não diga que é fome, mesmo que a causa do choro seja outra. Aqui cabe uma pequena observação: bebês não falam e não sabem expressar seu desconforto, então fazem o que sabem fazer: chorar. O choro pode realmente ser de fome, mas pode ser frio, calor, fraldas sujas, dor, irritação (aliás, muitas coisas podem irritar o bebê: barulho, perfumes fortes, falatório, excesso de claridade, um monte de mãos desconhecidas querendo pegá-lo, roupinhas que pinicam, apertam, esquentam, etc…). Só que invariamente todos acham que é sempre fome e a pobre da mãe, vai ficando cada vez mais estressada, tendo que ouvir a todo instante que seu leite “é fraco”, que “não está sustentando o bebê”, etc, e pra ficar mais tranquila acaba apelando para os complementos e mamadeiras, mesmo quando não há real necessidade (por exemplo: alguma contra-indicação para a amamentação). Mas enfim, o leite materno regula a saciedade do bebê… as mamadeiras a base de fórmulas e leite de vaca (engrossado com farinhas e açúcar) estimulam a ingestão e o ganho de peso excessivo… além disso, as mamadeiras “viciam” o paladar das crianças em relação ao sabor doce e dificultam a aceitação de alimentos de sabor mais suave, como frutas e hortaliças. Daí para o consumo de biscoitos, balas, doces, iogurtes adoçados, refrescos, refrigerantes, etc, é um pulo…

E nesse ponto, a publicidade em cima desses produtos (que eu me recuso a chamar de comida, porque de fato estão longe de ser) é tão grande e tão forte, que a família inteira acaba acreditando que são bons para as crianças e muita gente acha um absurdo “privá-las” de comer “coisas de criança”. As próprias crianças são levadas a querer experimentar tais produtos, que nos mercados ficam bem ao acance de seus olhinhos curiosos e de suas mãozinhas, e cujas propagandas passam entre um desenho animado e outro, fazendo associação entre “coisas” cheias de açúcar, gordura, sal e corantes altamente alergênicos com seus personagens preferidos… as embalagens são coloridas e chamativas e os próprios produtos são coloridos em excesso, a base de corantes artificiais, justamente para despertar o interesse dos pequenos. As propagandas são fofas, são divertidas e fazem com que as crianças não parem de pensar no produto… e não queiram comer outra coisa… é o lanche da escola, é o lanche em casa, é o lanche na saída da escola…

Já as propagangas destinadas ao público mais velho, apela para outras coisas… são familias felizes tomando refrigerante ou dividindo uma refeição pronta congelada (cheia de sal e gordura e quase zerada de nutrientes), é a associação entre comida pronta e magia, ou amor ou eficiencia (quantas de nós mulheres não somos cobradas e não nos cobramos para sermos a eficiencia em pessoa, para dar conta do trabalho, da casa, dos filhos e ainda de preparar refeições saborosas e que agradem a todos, mesmo estando em pleno século XXI, mesmo sabendo que todas as tarefas dentro de um lar devem ser divididas de forma mais equilibrada).

Sem falar no cansaço, e no estresse, depois de um dia exaustivo e ainda ter que preparar refeições… a indústria também nos pega por esse lado e nos oferece soluções mágicas, prontas em poucos minutos, bastando apenas apertar um botão do microondas…

Aí chega o fim de semana, e queremos relaxar, descansar e o que vamos comer? Ou saímos e procuramos opções rápidas (“porque o fim de semana é curto e precisamos aproveitá-lo ao máximo”), como os fast foods ou pegamos o telefone e pedimos algo em casa… isso quando não temos de levar os filhos em alguma festinha, que na maioria das vezes será dentro de uma casa de festas fechada, na qual durante 4 horas serão servidos salgadinhos (feitos de farinha refinada e fritos em óleo de soja, que até o final da festa já foi reutilizado varias vezes), batata frita (preparada no mesmo óleo que os salgadinhos – um perigo maior ainda para as crianças celíacas ou alérgicas a algum ingrediente dos salgadinhos!), muitos doces (cheios de açúcar e corantes artificiais), bolo (cheio de glacê – açúcar, gordura vegetal hidrogenada e mais corante) e muito, muito refrigerante ou sucos excessivamente doces…

Pusheen comendo
Imagem encontrada na internet

E sempre, sempre são produtos que estimulam a compulsão, que aumentam a vontade de comer, e que amenizam temporariamente a sensação de estresse, desconforto e vazio existencial, porém sem qualquer beneficio a saúde…

A correria de todos é tão grande, que esse panorama se repete semana após semana, mes após mes, ano após ano, sem que ninguém se dê conta ou se questione porque é que tem que ser assim…

Os questionamentos só começam a acontecer quando nossas crianças (ou nós mesmos) percebemos que o peso aumentou demais ou que as taxas de colesterol subiram ou a glicose começou a preocupar… e aí começa outro problema, porque como “proibir” a criança que está acima do peso de comer tudo o que ela sempre comeu (e que os próprios pais compravam) se o irmãozinho (ou mesmo os pais) continuam comendo o produto “proibido”?

A child eating a hot dog while playing on a laptop
A child eating a hot dog while playing on a laptop — Image by © BNP Design Studio/ImageZoo/Corbis

É… não é fácil… mas acho que reflexões precisam ser feitas… para que soluções sejam encontradas.

O Ministerio da Saúde vem tentando regular as propagandas destinadas ao público infantil e a disponibilidade de produtos processados e ultraprocessados nas escolas, mas só isso não basta, já que os produtos continuam sendo vendidos em todos os lugares… É necessário resgatarmos nossa relação com a “comida de verdade”, como diz tão sabiamente o jornalista Michaal Pollan (cujos livros, eu recomendo fortemente a leitura!), resgatarmos seu devido valor e diminuirmos o valor que atribuimos aos produtos industrializados, que se por um lado facilitam nossa rotina (num pensamento imediatista), por outro, nos adoece, adoece nossas crianças e pode fazer com elas vivam menos (e com pior qualidade) que nós!

Dicas de leitura:

  1. Guia Alimentar da População Brasileira (2014) – Ministerio da Saúde. Disponivel no link: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf
  2. Michael Pollan. Em Defesa da Comida: Um Manifesto. Ed. Intrínseca.
  3. Micheal Pollan. As Regras da Comida. Ed. Intrínseca.
  4. Michael Pollan. Cozinhar: Um história natral da transformação. Ed. Intrínseca.
  5. Michael Moss. Sal, açúcar e gordura. Ed. Intrínseca.

Dieta sem lactose ajuda a emagrecer?

Depende!
Primeiro é importante analisar o que se entende por “sem lactose”, ou melhor dizendo, “o que cada um entende por sem lactose”…

1) A grande maioria dos produtos “sem” ou “zero” lactose disponíveis no mercado na verdade recebe adição da enzima lactase, que quebra a lactose em 2 açúcares menores: a glicose e a galactose. Ou seja, continuam sendo laticínios, porém com uma das etapas da digestão,  antecipada. Só isso.

Lactose e lactase
Mas muita gente entende que se é sem lactose é porque é sem leite…. Mas não é

zero lactose
2) Nos últimos anos a lactose tem sido muito mal vista e tem sido excluída da alimentação de muita gente. Dieta sem lactose virou sinônimo de dieta saudável. Mas será q realmente é?
Novamente a resposta é. .. Depende!

Realmente existe uma tendência (regulada geneticamente) da produção da enzima lactase diminuir ano apos ano, a partir do momento do desmame e muitas pessoas não se dão conta disso porque não apresentam episódios frequentes de diarreia, por exemplo. Mas podem apresenta e gases e distensão abdominal. Aí obviamente, ao trocar a versão comum dos laticínios pelos zero lactose, haverá uma diminuição de circunferência abdominal e melhora do desconforto. Algumas pessoas até relatam que “perderam a barriga”. Mas efetivamente não houve emagrecimento.
Mas esse efeito provoca uma sensação de bem estar e muitas pessoas acabam acreditando que emagreceram. E aí começa o risco do exagero…

Geralmente o que seduz nesse tipo de produto, é a palavrinha mágica “ZERO”. Lá no nosso inconsciente, o “zero” soa como algo que é permitido, que é de livre consumo e que não trará nenhum prejuízo, pois durante muitos anos fomos bombardeados com as propagandas dos produtos “zero açúcar” e “zero gordura”. Nesse pensamento, se açúcar e gordura são coisas “ruins”, logo, se um produto contém “zero do que é ruim”, necessariamente ele será bom! Só que não…

E os “zero lactose”, produtos que foram criados para atender a uma demanda específica da população: pessoas com algum grau de intolerância a este carboidrato, mas que não necessariamente estejam precisando de perder peso, ou restringir calorias.

Também é importante lembrar que os laticínios, apesar de nutritivos, constituem muito mais um hábito de consumo do que uma necessidade, pois é possível obter os mesmos nutrientes por outras fontes alimentares. Durante milhões de anos o único leite que serem humanos tomavam era o leite materno. Somente depois do advento da agricultura e da domesticação dos animais é que os laticínios como os queijos, manteiga e leites fermentados começaram a ser consumidos pelos humanos.

Mas vamos analisar aqui: pra serve, verdadeiramente o leite? Para nutrir, hidratar e proteger os filhotes e faze-los crescer depressa. Para isso, cada espécie produz um leite de acordo com as necessidades de seus filhotes.
A espécie humana é a única que consome leite de outras espécies e exatamente por isso muitos bebês desenvolvem alergia a este alimento. São proteínas estranhas entrando em contato com um trato digestivo ainda imaturo, muitas vezes incapaz de distinguir o que é comida do que não é, pois os milênios de evolução, “ensinaram” que o único leite que é “comida” é o leite materno.

Fora isso vem a questão seguinte: para fazer o filhote crescer depressa, o leite precisa ativar fatores de crescimento como o hormônio insulina e o fator de crescimento semelhante a insulina (IGF1), para estimular a síntese proteica, a absorção de glicose e a produção de gordura e energia. Isso num filhote/bebê é excelente! Significa que o leite está cumprindo sua função. Isso em adultos que estão pretendendo aumentar a massa muscular, é excelente e em pessoas desnutridas ou que necessitam acelerar a cicatrização de uma ferida ou cirurgia, é perfeito!
Mas pensando em pessoas que estão acima do peso, que possuem hiperinsulinemia, resistência insulínica (vide meu post sobre SOP) e pré diabetes ou mesmo diabetes tipo II, é um péssimo negócio! Se leite (a tudo que o contém) aumenta insulina e se há necessidade de baixa-la, temos aí um “conflito metabólico”!

Significa que essas pessoas não podem tomar leite nunca? Claro que não. Mas o problema é a empolgação com os zero lactose e falsa impressão de que podem ser consumidos livremente….
Por isso a orientação de um Nutricionista é fundamental! Para que as quantidades e a frequência sejam ajustadas, para que outras opções sejam disponibilizadas e para que a alimentação cumpra seu papel como agente de nutrição e de promoção da saúde!
Ah! E nem falei da relação das proteínas lacteas com a doença celíaca e as outras doenças autoimunes. Mas fica pra um próximo post!

Não consigo emagrecer!!!

Quantas pessoas já não se viram e estão se vendo nesta situação? Quantas dietas já não foram tentadas? Quantas novidades apresentadas pela mídia, na forma de dietas, “superalimentos”, termogênicos, exercicios, etc, que despertaram grande interesse, mas que se mostraram ineficazes?

Muitas pessoas associam emagrecimento a “fechar a boca” e “se matar na academia“, como se a perda de peso dependesse apenas de um cálculo matemático. Muitos recorrem aos produtos ao consumo de produtos “diet“, “light” ou “zero“, numa tentativa de enganar o próprio corpo com consistencias e sabores que não correspondem exatamente ao que foi ingerido. Outras pessoas aderem à dieta do momento ou pulam refeições, fazem exercicios em jejum, cortam glúten, lactose, gordura, mas raramente obtem sucesso em relação a perda de peso. E quando conseguem perder, acabam por recuperar o peso e ainda engordam mais um tanto.

E por que isso acontece? As causas podem ser muitas e variam de pessoa pra pessoa.

Há os que sofrem de compulsão alimentar associada a ansiedade, há os que sentem muita fome porque estão se alimentando da maneira errada, há os que já se privaram tanto de comida, que o corpo tenta se proteger dificultando a perda de gordura, há os que estão constantemente submetidos ao estresse, etc…

E o que fazer?

As abordagens são muitas. Orientações nutricionais e planejamentos alimentares individuais (elaborados por um profissional devidamente capacitado para isso) são importantíssimos e necessários, mas a participação em grupos de pessoas com perfil semelhante, pode ajudar muito àqueles que estão encontrando dificuldades na perda de peso.

E foi pensando nisso (e também nas pessoas que apenas estão buscando se alimentar melhor para ter mais qualidade de vida) que eu resolvi , além das consultas individuais, iniciar um trabalho com grupos, no consultório da Freguesia/Jacarepaguá (Rio de Janeiro/RJ).

juliana_crucinsky

A ideia é que cada participante se sinta acolhido, se sinta menos sozinho e mais apoiado pelo próprio grupo. Durante nossas reuniões, conversaremos sobre temas importantes para uma alimentação saudável e para a perda de peso, já que durante as consultas, o tempo para abordar todos esses assuntos é pequeno e algumas duvidas acabam surgindo no dia a dia. Também haverá espaço para que todos tirem suas dúvidas. E o objetivo final é que todos saiam mais fortalecidos e sentindo-se mais capazes de fazer escolhas alimentares mais racionais e saudáveis.

Começaremos com grupos pequenos de 5 a 6 pessoas, para que todos possam interagir e as reuniões sejam mais dinâmicas. Além disso, a participação no grupo é independente das consultas individuais, ou seja, não é necessário já ser um paciente para participar do grupo.

A primeira edição começará já em fevereiro e as pré-inscrições  já estão sendo feitas, através dos seguintes canais:

Email: jujucrucinsky@gmail.com

Tel: (21) 98820-7773 (das 10 as 20h)

FB (atraves de mensagem): www.facebook.com/NutricionistaJulianaCrucinsky/

 

Pra que serve o desafio do glúten?

O desafio do glúten é feito com o objetivo de inflamar o intestino, a ponto de causar lesões e atrofia da mucosa no duodeno (a primeira parte do intestino delgado), depois de “acordar” o sistema imune para que ele volte a agredir o próprio corpo. Em outras palavras, o desafio do glúten estimula a auto-destruição.

É, é “punk”, é puxado, é difícil… e falo isso pq eu mesma não quis faze-lo, principalmente por saber exatamente o que me aconteceria a cada fatia de pão ingerido, pois quando me foi sugerido faze-lo eu ja sabia o tanto q o glúten me deixava mal e já estava há uns 6 meses sem ele e me sentindo muito bem.

Mas em alguns casos ele é necessário, pois pode ser a unica maneira de fechar o diagnóstico de Doença Celíaca ou para descartá-la e ajudar o médico a pensar em outras hipóteses, como a sensibilidade ao glúten não celíaca ou mesmo outras doenças que não tem nada a ver com o glúten.

dor de barriga

Esse desafio (o qual ja falamos aqui) nem deveria ser necessário e eu particularmente acho-o extremamente agressivo ao corpo e é um “tiro no pé” no sentido de diminuir a qualidade de vida e o bem estar, que a essa altura, certamente já estava bem melhor.

E se é tão ruim assim, pq ele é indicado pelos médicos e pela literatura cientifica?

Bom, ele não seria necessário se as pessoas não estivessem cortando o glúten indiscriminadamente por conta propria e se muitos profissionais de sapude tivessem o cuidado de solicitar os exames na mesma ocasião em que pedem ao paciente para iniciar a dieta sem glúten, quando avaliam que a mesma é necessária.

Mas qual o problema de não consumir glúten? Nenhum! Isso é fato. Ninguém depende do glúten para ter uma boa nutrição e aquela história de que cortar o glúten pode causar deficiencias nutricionais é besteira! Somente uma pessoa com uma alimentação extremamente pobre e dependente de trigo (o que não é nada saudável) poderia se prejudicar desta exclusão “sem necessidade”, mas mesmo assim, o problema estaria nos hábitos alimentares errados e não na exclusão das fontes de glúten…

Mas comer sem glúten é muito diferente de “viver sem glúten”, como já expliquei nesse post aqui e é aí que mora o perigo!

Muitas pessoas não ingerem glúten porque se sentem melhor assim, mas por não terem um diagnóstico “formal”, se permitem sair da dieta quando tem vontade, descuidam da contaminação cruzada e a própria família acaba não levando o caso a sério e isso é o caminho mais curto para diversas complicações, como o surgimento de outras doenças autoimunes, alergias alimentares diversas, osteoporose, infertilidade, problemas neurológicos decorrentes de deficiencias nutricionais e o pior de tudo: um risco 10 vezes maior de linfoma e de outros tipos de câncer no aparelho digestivo.

A grande questão é: enfrentar o desfio do glúten para ter um diagnóstico? Ou “assumir” que possui alguma desordem relacionada a esta proteína (considerando toda a melhora já observada e a própria dificuldade em conseguir manter o desafio do glúten, além de outros exames que possam fornecer algumas pistas sobre o paciente, como o teste genético para Doença Celíaca) e passar a “viver sem glúten” para sempre? Essa é uma decisão que cabe a cada um e deve ser conversada com o médico, já que cada caso é um caso.

Mas acho importante alertar do que se trata o desafio e alertar as pessoas que evitem excluir o glúten sem fazer exames antes, justamente pela dificuldade de se fazer o caminho inveso, na busca por um diagnóstico.

Dieta Paleolítica -Conversando com um Especialista

Depois de ler a entrevista que meu amigo Pedro Carrera Bastos deu ao site do jornal Sol (http://sol.pt/noticia/123421?source=social), de Portugal, falando sobre a dieta dos nossos ancestrais, resolvi escrever mais um post sobre o assunto (depois de já ter escrito este e este). Mas dessa vez trazendo as considerações do próprio Pedro, Diretor da Nutriscience Education and Consulting (http://www.nutriscience.pt/), investigador da Faculdade de Medicina na Universidade de Lund (Suécia) e um grande estudioso do assunto.

Ele nos diz o seguinte:

“Quando pensamos na dieta Paleolítica, estamos, na verdade, a refletir sobre os padrões alimentares que os seres humanos seguiram durante a maior parte do seu tempo na Terra. Estamos, ainda, a ter em consideração o seu estilo de vida. E por estilo de vida entenda-se padrões de sono e de exposição solar, atividade física, níveis de stress e exposição a poluentes (onde se inclui o tabaco). Ou seja, estamos a falar não de uma dieta única e igual para todos, mas sim de um padrão, de um template. E porque é que esse template deve ser tido em consideração? Porque quando olhamos para populações tradicionais que ainda têm um estilo de vida em consonância com esse template (não podemos dizer que vivem como no Paleolítico mas que estão quase lá ou na transição), estas apresentam melhores marcadores de saúde do que nós, que vivemos em países ocidentalizados, com melhores condições sanitárias, maior estabilidade social, menor risco de traumas físicos e acesso à medicina moderna. E é graças a esta que hoje conseguimos manter pessoas doentes vivas por mais tempo e não graças a termos uma melhor dieta e um estilo de vida mais saudável”.

Segundo esta corrente, desde o Paleolítico até ao início da Revolução Agrícola, o homem seguiu padrões alimentares semelhantes (com variações, que dependiam, fundamentalmente, da latitude, clima e disponibilidade de alimentos) e manteve um estilo de vida de caçador-recolector. Isto significa, por exemplo, que os cereais só começaram a fazer parte dos hábitos de consumo já muito tarde. Do mesmo modo, os lacticínios, com excepção do leite materno, não faziam parte das dietas destes indivíduos. E o próprio açúcar era ingerido na forma de mel ou de fruta e não na forma de açúcar refinado, que hoje chega a representar 20% das calorias em alguns países. “Quando falamos em adoptar um padrão alimentar mais próximo do que os nossos antepassados do Paleolítico seguiam, não estamos a sugerir que a dieta deverá ser igual para todos e muito menos que tenhamos que comer quilos de carne ou apenas alimentos crús. O que estamos a sugerir é que reduzamos a ingestão de alimentos que não faziam parte dos menus dos nossos antepassados e que têm evidência científica a demonstrar que, quando ingeridos em quantidades moderadas a elevadas, podem produzir efeitos adversos em quase todos nós, como, por exemplo, alguns óleos vegetais (em especial de girassol, milho ou soja, que só foram introduzidos, de forma generalizada, na cadeia alimentar há aproximadamente 100 anos), gorduras hidrogenadas, açúcar refinado, cereais refinados (e também alguns na sua versão integral, com destaque para o trigo moderno) e lacticínios. E mais importante: reduzir drasticamente a ingestão de alimentos processados! O que é interessante é que existem, neste momento, mais de 10 estudos de intervenção e uma recente revisão sistemática publicada numa revista científica de alto impacto a mostrar que este padrão pode melhorar vários marcadores da saúde metabólica, parecendo ser inclusive superior a alguns padrões tidos como muito saudáveis, como é o caso da Dieta Mediterrânica. Refira-se, ainda, que quando tentamos colocar o referido template em prática não estamos apenas a falar em alterar a Dieta, mas também em alterar todo o estilo de vida, nomeadamente: praticar exercício físico com regularidade, reduzir a exposição a poluentes e o nível de stress e adoptar padrões de sono e de exposição solar adequados.”.

(Fonte: http://www.staffanlindeberg.com/KitavaPhotos.html )

Posteriormente (num post lá na minha página do Facebook: https://www.facebook.com/NutricionistaJulianaCrucinsky/), complementa:

“É comum as pessoas associarem uma dieta pré-agrícola a uma dieta rica em carne, a uma dieta hiperproteica ou com restrição de CHO. Isso é um erro comum e em grande parte causado por livros e blogs sensacionalistas. A verdade é que as dietas dos nossos antepassados poderiam ou não ser ricas em carne, hiperproteicas e/ou baixas em CHO. Em algumas sociedades era assim (em que a carne não era de animais domesticados obesos e tratados sem qualquer respeito, mas sim de animais selvagens), mas em outras não. Para que entendam como uma dieta tradicional não é = dieta rica em carne/hiperproteica/low carb vejam a dieta de Kitava, em que os CHO são cerca de 70% das calorias e a proteína está < 15%. O que é que é então diferente? os tipos de alimentos: tubérculos, fruta, coco, algum peixe, carne de vez em quando. Mas açúcares isolados, óleos vegetais, cereais (com excepção de um pouco de milho), lacticínios e alimentos processados não fazem parte do menu.
De qualquer modo, estas discussões sobre macronutrientes, se comiam mais carne ou menos carne, mais CHO ou menos CHO afasta-nos do que é essencial: ocorreram grandes alterações ao longo da história em termos de estilo de vida (maior exposição a poluentes/xenobióticos, alterações do padrão de sono e de exposição à luz e ao sol, sedentarismo generalizado, stresse crónico) e de dieta (demasiadas alterações para explicar em poucas linhas) e isso está na origem de grande parte das doenças degenerativas crónicas. Assim sendo, o que se propõe é voltar a hábitos tradicionais que estão em consonância com a fisiologia humana e não comer 500 g de carne todos os dias e evitar CHO como se fossem o diabo.”

Como referencias para complementar a compreensão do assunto, ele nos indica:

Sobre o Estudo de Kitava: http://www.staffanlindeberg.com/TheKitavaStudy.html

Revisão Sistemática sobre estudos com Dieta Paleolítica:

http://ajcn.nutrition.org/content/early/2015/08/12/ajcn.115.113613

Slides de uma apresentação de Maelán Fontes Villalba (outro grande estudioso da dieta Paleolítica): http://pt.slideshare.net/maelanfontes/por-qu-considerar-la-evolucin-en-nutricin

Publicações do Prof. Dr. Staffan Lindeberg, médico e Professor na Universidade de Lund/Suécia (um dos maiores pesquisadores da Dieta Paleolítica na atualidade):

https://www.researchgate.net/publication/221764087_Paleolithic_diets_as_model_for_prevention_and_treatment_of_Western_disease

http://www.visioninstitute.optometry.net/UserFiles/users/499/File/WebDoc9Lindberg.pdf

Publicações do Prof. Dr. Loren Cordain, Professor Catedrático aposentado da Universidade do Estado do Colorado/EUA (outro dos grandes pesquisadores da Dieta Paleolítica na atualidade):

http://ajcn.nutrition.org/content/81/2/341.full

http://www.direct-ms.org/pdf/EvolutionPaleolithic/Meat%20Paradox%20EJCN.pdf

http://www.2ndchance.info/birdlover-cerealsword.pdf

http://www.deflame.com/wp-content/uploads/2011/11/Lectins-2000.pdf

Publicações da equipa do Prof. Dr. Frits Muskiet, Bioquímico e Professor Catedrático da Universidade de Groningen/Holanda (grande especialista em aspectos evolutivos da Nutrição):

http://thepaleodiet.com/wp-content/uploads/2015/08/Estimated-Macronutrient-and-Fatty-Acid-Intakes-From-an-East-African-Paleolithic-Diet.pdf

– https://www.researchgate.net/publication/230677843_A_multidisciplinary_reconstruction_of_Palaeolithic_nutrition_that_holds_promise_for_the_prevention_and_treatment_of_diseases_of_civilisation

Tese de Doutorado do Médico e Farmacêutico Remko Kuipers (em que o orientador foi o Prof. Frits Muskiet): http://www.rug.nl/research/portal/files/2408993/thesis.pdf

Clique para acessar o thesis.pdf

Tese de Doutorado do Médico Tommy Jönsson (em que o orientador foi o Prof. Staffan Lindeberg):

http://lup.lub.lu.se/luur/download?func=downloadFile&recordOId=599209&fileOId=631273

Enzimas que prometem digerir o glúten

Sites internacionais de venda de suplementos estão cheios delas. As lojas de suplementos no exterior, também. Volta e meia aparece alguém empolgado com a “novidade”, que parece ser a solução de todos os problemas de quem possui alguma desordem relacionada ao glúten (DRG).

Sou obrigada a admitir que até eu bem lá no fundo, gostaria muito que tais produtos fossem o que parecem…. a saída segura para ingerir glúten sem qualquer problema! Mesmo não tendo nenhuma intenção de voltar a ingerir glúten (caso a “cura” seja descoberta), eu gostaria muito de ter algo que pudesse efetivamente me proteger das contaminações.

Só quem possui uma restrição alimentar, que necessita de cuidados e vigilância 24h por dia sabe como é, e consegue avaliar o tamanho da alegria que um produto desses poderia proporcionar. No meu caso, se me garantisse que eu poderia comer de olhos fechados em qualquer lugar sem me preocupar com a contaminação cruzada (porquer acho que mesmo que a cura surgisse eu não conseguiria mais ingerir nada com glúten), já seria de grande ajuda!

Enzimas gluten
Autoria: Juliana Crucinsky. Imagem criada para o grupo Viva Sem Glúten, no Facebook.

Entretanto, como nem tudo são flores, tais produtos não servem para nós. Não há estudos suficientes comprovando sua eficácia, nem garantindo segurança em seu uso.

As enzimas prometem digerir o glúten… só que o glúten é uma proteína extremamente dificil de ser digerida e mesmo que fosse parcialmente hidrolisado por tais enzimas, ainda assim isso não seria seguro, pois são exatamente seus fragmentos (ou peptídeos) e não ele inteiro, que desencadeiam todas as reações imunológicas presentes na DC e na alergia ao trigo! A segurança existiria apenas se as enzimas conseguissem hidrolisar completamente o glúten em aminoácidos…

Pesquisando no Pubmed, base de dados de artigos científicos na área da saúde, o que encontramos foram dois estudos, um utilizando enzimas produzidas por um fungo que ataca o centeio e outro, enzimas produzidas por um fungo que cresce no arroz. No primeiro caso, a combinação das enzimas conseguiu evitar as lesões na mucosa duodenal durante o desafio do glúten, mas ainda são necessários ouros estudos para avaliar sua segurança e só depois de uma porção de testes é que poderia ser produzida em larga escala e colocada a venda… e pelo visto isso ainda vai demorar. No segundo caso, o artigo publicado em outubro desse ano, fala sobre pesquisas “in vitro”, ou seja, dentro de um laboratório, com todas as condições bem controladas… até que se iniciem estudos em serem humanos e até que esta enzima (a do fungo do arroz) esteja liberada para comercialização, vai um bom tempo de espera…

As enzimas disponiveis para comercialização, ainda não possuem muito respaldo científico, nem garantia de segurança, eficácia ou mesmo de possíveis efeitos adversos, como pode ser visto aqui, aqui, aqui. Os poucos estudos disponíveis estão, em sua maioria, no estágio pré-clínico, ou seja, são estudos experimentais, feitos em laboratório. Ainda são necessários mais estudos, antes que os testes em humanos estejam liberados, entao, até que isso ocorra, é bom não irmos com muita sede ao pote.

Algumas pessoas pensam que tais enzimas funcionam de forma semelhante aos suplementos a base de lactase,  indicados para quem tem Intolerancia a lactose, mas aqui é importante ressaltar que os mecanismos envolvendo as DRG são completamente diferentes dos que envolvem a IL. Na IL o único problema que há, é a deficiencia (total ou parcial) na produção da enzima lactase no intestino. Na DC e na alergia ao trigo, é o sistema imunológico quem comanda todas as reações e quem está por trás dos sintomas, já que é uma proteína (o glúten) o causador dos problemas…

Na melhor das hipóteses, o que parece funcionar é a adição de algumas enzimas à materia prima contendo glúten, para que o mesmo seja hidrolisado (quebrado) a ponto de não “despertar” nosso sistema imunológico. Mas ainda assim, são necessários muitos testes que garantam que a enzima funcionará, que não haverá nenhum fragmento inteiro, que não haverá contaminação e que a própria enzima utilizada não causará nenhuma reação adversa nos conumidores…

E enquanto não surgem novidades seguras e eficazes no tratamento das DRG, seguimos cuidando da nossa alimentação e procurando evitar ao máximo a contaminação cruzada.

 

Intolerância ao Glúten existe mesmo?

A resposta é SIM e NÃO…

Perdi a conta de quantas vezes tentei explicar o porque não se falar mais em “intolerância ao glúten”, então, como sempre, resolvi escrever um post…

Durante muitos anos, desde que o glúten foi identificado com o agente “causador” (ou gatilho) que a Doença Celíaca (DC) foi chamada de “Intolerância ao Glúten” e (infelizmente) ainda é assim que o Ministério da Saúde a chama na segunda edição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para DC, publicado esse ano. No Consenso de Oslo, publicado em 2012, já havia uma recomendação para que nenhuma das Desordens Relacionadas ao glúten fosse chamadas apenas de intolerância.

gluten_proibido_raquel
Imagem do site http://www.riosemgluten.com

E por que essa preocupação? Não de trata de uma intolerância???

Sim e Não. Confuso? Um pouco, mas explico melhor.

Uma das primeiras hipóteses para explicar a DC era a de que celíacos possuíam uma deficiencia enzimática, logo o glúten não era digerido e isso provocava os sintomas. Mas posteriormente, outras pesquisas demonstraram que esse era um raciocínio simplista demais para explicar o quadro clínico e as lesões na mucosa intestinal. A medida que as técnicas avançaram, que os anticorpos (antigliadina, antiendomísio e antitransglutaminase) foram descobertos e com o uso da endoscopia com biópsia de duodeno, os pesquisadores viram que na verdade a DC era uma doença autoimune, na qual, a tentativa do sistema imunológico de destruir o glúten (com a produção do anticorpo antigliadina) gerava mais dano ao organismo, que passo a passo ia se autodestruindo, literalmente, ao produzir os anticorpos antiendomisio e antitransglutaminase, que atacam diretamente as estruturas presentes no intestino (e podem afetar outros órgãos, como acontece na ataxia do glúten, na qual os anticorpos antitransglutaminase atacam estruturas cerebrais).

Chamar a DC e outras DRG de “intolerância” leva a uma grande confusão e faz com que as pessoas minimizem a gravidade do problema e não se cuidem corretamente. Não são raros aqueles que já chegam dizendo “eu SÓ tenho intolerância ao glúten, e não preciso de tantos cuidados com a dieta”, pois pensam que é uma condição semelhante à intolerância a lactose (IL), por exemplo e é aí que a coisa complica e os riscos aumentam. Na DC já se sabe que se a dieta não é feita corretamente, há um risco muito maior da doença evoluir para a forma refratária (que necessita não só da dieta como também de medicamentos imunosupressores), do surgimento de outras doenças autoimunes como Diabetes tipo I, Tireoidite de Hashimoto, Lupus, Artrite, etc e câncer de intestino. Já dentre os riscos da alergia ao trigo, o mais grave e que pode levar à morte em questão de minutos é a anafilaxia. E como ainda não se sabe quais os riscos associados a SGNC, os pesquisadores recomendam que se tenha o mesmo cuidado que com a DC.

Na IL há uma intolerância do organismo a esse carboidrato (a lactose) porque a produção da enzima (lactase) necessária a sua digestão está sendo insuficiente. Com isso, a lactose não é digerida e fica na luz intestinal, onde é fermentada por bactérias, gerando gases, desconforto e (nem sempre), diarréia. Mas passado o mal estar, e desde que não se volte a consumir lactose, as coisas voltam a um certo grau de normalidade (não vou entrar aqui em detalhes a respeito das alterações na microbiota ou flora intestinal – isso fica pra outro post) e o mal estar passa.

Lactose e lactase

Mas quando estamos falando de uma proteína complexa como o glúten (que de fato, não é bem digerida por NINGUÉM), a intolerância ocorre num nivel muito maior de complexidade, pois trata-de se intolerância IMUNOLÓGICA. Ou seja, aqui é o sistema imune (nosso sistema de defesa) que dá o alarme após detectar que há algo errado e é ele mesmo que parte com tudo pra cima do “inimigo” ( glúten). Na IL, o sistema imune nem tem ciência do que está acontecendo e por isso, os sintomas e suas consequencias, apesar de bem desagradáveis, em geral não costumam ser graves (a não ser quando a diarreia chega ao ponto de causar desidratação, por exemplo).

Já nas Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG), principalmente na DC, se o sistema imune é chamado, as reações serão graves e imprevisíveis. Mal comparando, seria como se tentássemos matar um mosquito usando uma granada… obviamente, numa situação hipótetica dessas, o mosquisto até seria morto, mas tudo a sua volta seria destruído (e provavelmente quem detonou a granada, também!). E é bem assim que as coisas funcionam em nosso corpo… se temos DC e ingerimos glúten, nosso corpo tenta “matar o mosquito” (o glúten) usando uma granada e é aí que a coisa complica pro nosso lado, pois nosso intestino vai sendo destruído junto (os anticorpos antitransglutaminase, que pedimos pra dosar no sangue, são os marcadores da granada que foi detonada).

Coeliac_Disease
Essa figura demonstra como as lesões intestinais progridem, desde o início do processo inflamatório (1) até a completa atrofia da mucosa (4)

Mesmo nas “intolerâncias” mediadas por IgG, que algumas pessoas consideram mais leves, há reações imunológicas, que não podem, nem devem ser menosprezadas! Quando estes exames positivam, significa que está ocorrendo um aumento de permeabilidade no intestino e que proteinas alimentares não digeridas estão entrando em contato com o sangue e com o sistema imune, logo, o mesmo reage produzindo anticorpos, avisando que já detectou o “invasor” e estão tentando destruí-lo. Nesse caso, sem o resultado da biópsia duodenal, não há como saber se está ocorrendo lesões no intestino e muitas vezes, os anticorpos positivam antes que tais lesões ocorram… se excluimos o glúten nesse momento, podemos prevenir o surgimento de tais lesões.

A Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC) muitas vezes também é chamada de “intolerância ao glúten” e aqui, definir se é ou se não é fica um pouco mais complicado, pois as evidenciacis científicas mostram que pode ser o glúten o agente causal dos sintomas (e da positivação de anticorpos) na SGNC, mas também outras proteínas existentes no trigo e em outros cereais (como as proteínas inibidoras da alfa amilase e da tripsina), ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra) presentes nos cereais (e em outros alimentos). Aqui, se pudessemos ter certeza absoluta (coisa praticamente impossível até o momento) de que os frutanos do trigo estão por trás dos sintomas, aí sim, poderíamos falar em intolerância (pensando no exemplo da IL), pois como fibras são carboidratos e como o trato gastrointestinal humano não produz enzimas capazes de digeri-las, logo estamos diante de uma situação semelhante a que ocorre na Intolerancia a lactose: ausencia de uma enzima, dificuldade em digerir um carboidrato e sintomas decorrentes disso tudo.

Entretanto, muitas vezes os sintomas não costumam ser um bom parâmetro para avaliar a extensão das lesões (voltando a questão da produção de autoanticorpos)… é só lembrar que existe a DC ASSINTOMÁTICA, com as mesmas lesões (ou até mais graves) que a DC sintomática…

Na IL, a ingestão de pequenas doses de lactose (como as que estão presentes num comprimido, por exemplo), não causam reação na maior parte das pessoas (geralmente os sintomas percebidos estão relacionados ao medicamento em si e não a lactose do comprimido, que é usada apenas para “dar peso”). Já nas DRG não existe a possibilidade de ingerir “só um pouquinho”! Achar que “só um poquinho não me fará mal porque SÓ tenho intolerância” é uma grande ilusão que a longo prazo só trará problemas!

Então, minha gente, não caiam no conto da intolerância!!! E sempre que algum profissional de saúde falar em “intolerância ao glúten”, na realidade ele está se referindo a “INTOLERÂNCIA IMUNOLÓGICA AO GLÚTEN”!!!