Low carb é a receita infalível para todos?

Atualmente um dos assuntos que mais se vê na blogosfera, Insta, Snap e tudo o mais é a dieta low carb/high fat. Pra mim, o pior é ver esse tema sendo falado e divulgado como se fosse realmente uma “dieta” e a salvação do mundo…

Primeiro, acho importante explicar que “low” em português, significa “baixo”, e “high“, significa “alto”, dois advérbios de intensidade, que apenas traduzem que a referida “dieta” possui pouco carboidrato e muita gordura. Tá, ok. Mas quanto é muito e quanto é pouco? Qual o referencial? O ponto de partida? Tenho visto um número “cabalístico” de 50g de carbo nas dieta “low carb” e 20g de nas “very low carb“. Sendo assim, significa dizer que 60 g de carbo já seria muito? E 100g um exagero? Mas para quem? Em que contexto? Com quais objetivos?

 

Se fosse tudo tão simples como andam dizendo por aí, e os carbos e a insulina esse veneno todo, então bora rasgar tudo o que já foi publicado contrário a dietas low carb, bora rasgar tudo o que fale de individualidade bioquímica e bora rasgar o diploma de milhares de bons Nutricionistas que conseguem ótimos resultados sem chegar a certos extremismos “internetanos”, né não?

NÃO!!! Vem comigo que no caminho eu explico!

É fato que reduzir a quantidade de carboidratos da alimentação reduz os níveis circulantes de insulina, de síntese de gordura e ajuda na perda de peso. Mas vocês sabiam que se o carboidrato que tá em excesso é simplesmente trocado por proteína, essa proteína também pode aumentar a insulina e “virar gordura”? E você sabia que mesmo cortando carboidrato e mantendo baixos níveis de insulina é possível engordar? Pois é… mas quase ninguém te conta essas coisas, né?… mas felizmente nos contaram numa disciplina chamada bioquímica, lá no inicio do curso de Nutrição… e ainda bem que existem blogs sérios por aí, como o do Sérgio Veloso, com posts sérios, que me poupam de escrever demais (além do que já escrevo) e poupam meus leitores de “ouvir” minha ladainha… rsrsrs

Aliás, todo excesso, seja ele de carbo, de proteína, de gordura ou até mesmo de água é prejudicial… Ok, mas como saber onde estão os excessos? Não é só cortar carboidrato e aumentar gordura e proteína que tá tudo certo? Bom seria se assim fosse e com todas as pessoas… o mundo estaria salvo da obesidade e da chatice dos nutricionistas (que seriam totalmente desnecessários). O excesso começa quando a ingestão ultrapassa os limites de queima de cada indivíduo (pensando na questão de ganho e perda de peso)… e estes limites sofrem influência de muitos fatores: sexo, idade, peso atual, altura, quantidade de massa muscular, nível de atividade física, horas de sono, atividades diárias, nível de estresse, doenças associadas, e fatores genéticos! Ou seja, para ao menos estimar o que seria excessivo para uma pessoa, precisamos avaliar todos esses fatores antes… e o que é muito pra um, pode ser muito pouco para outros…

O fato de dizermos que o EXCESSO de carboidratos é prejudicial, não dignifica dizer que todo e qualquer carboidrato fará mal! Da mesma forma que não podemos colocar todos os carboidratos e forma como são consumidos no mesmo bolo (perdoem o trocadilho). Uma coisa é consumir algo contendo grande quantidade de farinhas refinadas e açúcar (sacarose, aquele açúcar que todo mundo evita)… outra coisa é consumir frutas e tubérculos (sim, batatas, aipim, inhame). Mas também não adianta trocar o bolo feito com farinha e açúcar por outro cheio de maltodextrina, só porque na embalagem ta dizendo que é sem adição de açúcar! É sem adição do açúcar chamado sacarose, mas maltodextrina é um tipo de açúcar!

A desculpa de evitar alimentos com alto índice glicêmico (IG) também precisa ser revista… muita gente anda evitando comer cenoura (por exemplo), porque leu em algum lugar que seu IG era alto. E aí eu pergunto: você só vai comer cenoura? Vai para um rodízio de cenoura? Ou vai comer cenoura (até que coma uma unidade inteira, que pesa cerca de 100-120g e possui aí menos de 7g de carboidrato e 30 Calorias ou Kcal)  junto com outros alimentos, como uma salada de folhas (cheia de fibras), um pedaço de carne (com proteínas e gorduras), que no fim das contas, diminuem o índice glicemico da refeição?

E qual o motivo de fugir desesperado dos tubérculos? Em 100g de batata inglesa (a “pior”, segundo alguns “especialistas” – sob o ponto de vista do índice glicêmico) temos 12g de carboidratos e apenas 52 Calorias . Muito? Segundo a tabela TACO, tem bem menos que a queridinha batata doce, que nas mesmas 100g tem 18,2 g de carboidrato e 77 Calorias! Tá achando muito? Bom… em 100g ou 4 fatias de de pão de aveia (escolhi aveia pra ninguém dizer que eu tenho implicância com o trigo e to falando mal dele…rsrsrs), temos 59,6g de carbo e 343 Kcal e macarrão instantâneo (que eu sei que vocês não comem) temos aí 62,4g de carboidrato e…436 Kcal!!!

Aí eu pergunto: dá mesmo pra dizer que numa dieta low carb não pode entrar nenhum tubérculo? É… se for nessas low carbs que andam praticando por aí, que limitam o consumo de carbo em 20 (VINTE) GRAMAS ao dia, realmente não dá. Mas por favor, me expliquem QUAL A NECESSIDADE DISSO (devo ter faltado a essa aula, só pode!)??? A meu ver, 20g só pode ser algum numero cabalístico ou numero da sorte de alguém, porque a literatura cientifica não sustenta esses radicalismos por muito tempo para a perda de peso. Pode até ajudar realmente a perder peso na balança (boa parte sendo água e massa muscular e não exatamente gordura, principalmente nos primeiros dias), mas a longo prazo, a recuperação do peso se mostra maior que em pessoas que fizeram uma restrição moderada, como bem explicado aqui nesse outro post, também do Sérgio.

De toda forma, não estou dizendo que as pessoas precisam sair dessa restrição toda de carboidrato pra se jogarem num rodízio de massas… mas acho muito importante lembrar que não existe uma “receita de bolo” que sirva igualmente a todas as pessoas. Enquanto realmente alguns indivíduos parecem se beneficiar de níveis reduzidos de carboidratos (porque em sua individualidade bioquímica metabolizam melhor as proteínas e as gorduras), existem outros que necessitam de uma dose maior de carboidratos e neste segundo grupo, está boa parte de nós mulheres, que em função das flutuações hormonais atreladas ao nosso ciclo menstrual, temos alguns momentos de menor produção de serotonina. Se a serotonina está baixa, consequentemente a melatonina também está e o cortisol encontra-se mais alto. Uma das maneiras que o corpo tem de equilibrar essa bagunça, é fazendo com que nossa vontade de comer doce aumente. Mas não é necessário que ninguém se afunde numa caixa de bombom pra reduzir cortisol (até porque aí teremos outros desequilíbrios, envolvendo insulina, hipoglicemias reativas e tudo o mais, que acabam por gerar compulsão em algumas pessoas e mal estar em muitas outras). Mas podemos facilmente equilibrar cortisol, serotonina e melatonina aumentando a quantidade de carboidratos, com a inclusão de frutas (outras, além de abacate, coco e berries) e hortaliças (lembram da cenoura e das batatas?).

E isso porque nem falei ainda sobre a quantidade de vitaminas e antioxidantes que os vegetais possuem.. e antes que alguém diga que batata “é só amido”, já vou avisando que ela é fonte de antioxidantes como luteína (um carotenóide, “primo” do betacaroteno) e zeanxatina, com importante função protetora da visão…

E ainda tem mais! Sério!

Restrições radicais de carboidratos “estressam” a glândula tireoide e diminuem a taxa metabólica basal. Conquência disso? Menor perda de peso, e maior facilidade de recuperar o peso perdido… Pessoas com hipotireoidismo também não deveriam fazer cortes radicais de carboidratos, porque isso atrapalha ainda mais a função tireoidiana e a longo prazo, favorece o ganho de peso.

Quando se pensa em perda de peso, e principalmente em não recuperar o peso perdido, é importante evitar certos radicalismos e promessas de perda rápida e pensar a longo prazo. Ao se praticar restrições grandes de carboidrato, a cada “jacada” (coisa que eu particularmente detesto e já expliquei aqui no blog o porque), o impacto de muito carboidrato de uma só vez é grande… e as pessoas invariavelmente se sentem mal, inchadas, com dor de cabeça, com problemas digestivos e com ganho de peso/dificuldade para continuar perdendo.

Aí eu pergunto novamente: QUAL A NECESSIDADE DISSO?

Não seria mais coerente buscar a orientação de um profissional e fazer uma dieta individualizada, equilibrada, elaborada a partir da analise de todos os fatores que já mencionei? As chances de dar errado seriam muito menores e as chances de sucesso, muito maiores!

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Já fui numa consulta… por que preciso voltar?

Hábitos alimentares não são formados da noite para o dia. São fruto de uma contínua interação de fatores de começou muito antes de cada um de nós de nascer, com os hábitos de nossos pais, avós, bisavós, etc, mas que vai sendo modificado dia a dia de acordo com nossa rotina, tempo (ou falta dele) para preparar as refeições, preferências alimentares, entre tantas outras coisas…

Quando alguém resolve procurar um Nutricionista, geralmente:

  1. Está em busca de hábitos mais saudáveis (e já está consciente de que há algo que precisa mudar);
  2. Quer emagrecer (e consequentemente, percebe que a forma como está se alimentando não está ajudando muito);
  3. Está com algum problema de saúde e precisa se alimentar de forma mais condizente com sua situação atual;
  4. Está grávida (ou tentando engravidar) e sabe que precisa de uma alimentação saudável desse momento em diante..

A motivação pode ser outra, mas dificilmente varia muito dessas que eu falei. Em todo caso, é o HÁBITO alimentar que está em jogo, que necessita de uma avaliação e necessita de modificações.

capa (1)

Mas como falei, hábitos não se formam de uma hora pra outra e muito menos se modificam apenas pela nossa vontade (seria ótimo se fosse assim!). Há quem diga que precisamos de pelo menos 21 dias treinando o novo hábito para que o mesmo se incorpore naturalmente a nossa rotina.

Assim, ao procurarmos um Nutricionista, precisamos fornecer o máximo possível de informações, que o auxiliem a nos ajudar. Sim, porque informações incompletas podem gerar uma ajuda incompleta ou parcial, não por vontade ou falta de competência do profissional e sim porque toda e qualquer informação pode mudar os rumos da conduta pensada inicialmente.

O nutricionista, após avaliar e juntar varias informações sobre cada paciente, traça uma conduta para ajudá-lo a alcançar seus objetivos, mas geralmente esta conduta (e os resultados almejados) vai depender de uma mudança de hábitos.

Além disso, muitas pessoas apresentam déficits nutricionais ou alterações metabólicas, que necessitam de reposição ou de uma ajuda extra (como fitoterápicos) e nem sempre num primeiro momento só a alimentação é capaz de dar conta e aí entra a necessidade de suplementação e/ou prescrição fitoterápica.

Quando o Nutricionista faz uma prescrição complementar, contendo vitaminas e/ou minerais e/ou probióticos e/ou fitoterápicos e/ou óleos (ômegas, óleo de prímula, de coco, etc), tem em mente uma linha de raciocínio e sabe que precisará de um tempo para que o resultado dessa prescrição apareça, já que corrigir desequilíbrios relacionados com a alimentação e o metabolismo leva tempo e depende de muitos fatores (a começar pelo próprio paciente iniciar logo a suplementação e toma-la nos horários e da forma indicada, sem esquecimentos). Muitas vezes, pode ser necessário ajustar as dosagens ou mesmo substituir um item por outro ou mudar as combinações… e isso, só mesmo durante as consultas é que o profissional pode avaliar. A interrupção do tratamento equivale a jogar dinheiro fora e principalmente, a não ter os benefícios desejados. E repetir indefinidamente a prescrição, sem a supervisão do profissional e sem a devida monitorização através de exames, leva ao risco de toxicidade (principalmente relacionada a determinadas vitaminas e minerais) e problemas hepáticos (quando falamos de fitoterapia, principalmente).

Assim, toda prescrição complementar, tem um tempo a ser seguido e necessita de avaliação posterior, o que é feito nas consultas seguintes e até mesmo em novos exames, dependendo da necessidade de cada paciente.

Para que o tratamento nutricional (mesmo que seja “apenas” a melhora de hábitos alimentares) funcione, é necessário continuidade, até porque uma única consulta é muito pouco tempo para o profissional dar conta de passar todas as informações necessárias, acumuladas ao longo dos seus anos de estudos e atualizações constantes e para fazer todas as adequações necessárias na rotina do paciente.

Então, para um resultados satisfatórios, seja qual for o motivo para ter procurado o Nutricionista, recomenda-se pelo menos 3 consultas, para possibilitar o inicio, o meio e o fim de um ciclo de tratamento. Só lembrando que isso não é uma regra… é apenas uma sugestão para otimizar resultados e não desperdiçar recursos e tempo…

Intolerância aos Fodmaps

Fodmaps???

Fodmaps é a sigla em inglês para “Fermentable oligossacharides, dissacharides, monossacharides and poliols”, que significa numa tradução simplista: carboidratos fermentáveis.

FODMAPs

Oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis são tipos de carboidratos. O que os diferencia uns dos outros é sua estrutura molecular e onde estão presentes. Sacarídeo significa açúcar ou carboidrato. Oligosacarídeos – formados pela ligação entre vários açúcares, dissacarideos – formados por 2 açúcares, monossacarídeos – apenas um açúcar; polióis – álcool de açúcares.

Para explicar melhor, podemos dividi-los assim:

  1. Oligossacarídeos: 

a) Frutanos – contém uma molécula de frutose em sua estrutura. São os frutooligossacarídeos e a inulina. Podem ser extraídos da raiz da chicória (principal fnte de frutanos para a indústria alimentícia), mas também estão presentes na cebola, no alho, na alcachofra, na batata yacon;

b) Galactanos – contém uma molécula de galactose em sua estrutura. São a rafinose e a estaquiose, presentes principalmente nas leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico, soja, amendoim).

2. Dissacarídeos: 

a) Lactose – formada por uma molécula de glicose ligada a uma galactose. Está presente no leite de todos os mamíferos e em seus derivados (queijos, iogurtes, soro do leite, etc);

b) Sacarose – formada por uma glicose ligada a uma frutose. A sacarose é a o açúcar de mesa e está presente em nas frutas (em pequena quantidade), na beterraba, na cana de açúcar e principalmente, como açúcar refinadoo, em diversos produtos industrializados;

3. Monossacarídeos:

a) Frutose – é o principal monossacarídeo relacionado aos sintomas da fermentação. Está presente nas frutas e no mel, mas a maior parte da frutose consumida pelos ocidentais NÃO VEM DAS FRUTAS!!! Vem da sacarose e dos produtos industrializados, contendo xarope de milho com alto teor de frutose, como refrigerantes, sucos e refrescos industrializados, iogurtes e até mesmo biscoitos e doces.

4. Polióis: Estão naturalmente presentes em alguns alimentos, como maçã, cereja, damasco, nectarina, avocado, ameixa, amora, pêra, melancia e cogumelos e podem ser produzidos artificialmente e adicionados a diversos produtos alimentícios e até mesmo a alguns medicamentos. Alguns exemplos são:

a) Xilitol;

b) Maltitol;

c) Eritritol;

d) Sorbitol, etc

Alguns destes carboidratos, como os frutanos e os polióis não são digeridos no trato gastrointestinal de humanos e são fermentados pelas bactérias presentes no intestino. Os demais Fodmaps serão mais ou menos digeridos e consequentemente mais ou menos fermentados, dependendo de alguns fatores, como a quantidade em que estão presentes na alimentação, tipo e a quantidade de bactérias (disbiose e/ou sibo) presentes no intestino e a existencia ou não de deficiencias enzimáticas, como na intolerância a lactose.

Fermentable

A frutose, por exemplo, a não ser em casos de frutosemia congênita (quando o bebê nasce sem produzir uma das enzimas necessárias ao metabolismo da frutose), é sempre bem digerida, entretanto, como a dieta ocidental moderna contém uma quantidade excessiva de frutose adicionada (os produtos industrializados e o excesso de açúcar), o trabsportador intestinal, o GLUT5, que leva a frutose para dentro das células, onde elas poderão ser usadas como fonte de energia, fica sobrecarregado. Com essa sobrecarga, a frutose começa a se acumular no intestino, onde é (literalmente) um prato cheio para as bactérias.

Essa fermentação, quando há predominância de bactérias “do bem” no intestino (e quando não há uma superpopulação de bactérias no intestino delgado ou SIBO, do inglês: small intestinal bacterial overgrowth) gera compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC – acetato, butirado e propionato) que nutrem as células intestinais e colaboram inclusive com o fígado, na hora de regular a produção de colesterol! Mas principalmente quando há um excesso de bactérias no intestino delgado (local que não comporta um numero muito grande delas), os problemas começam a acontecer – há um excesso de fermentação dos carboidratos, gerando gases, distensão abdominal, dor, desconforto, diarréia osmótica ou constipação (quando há produção de metano) e até mesmo irritação na bexiga. As bactérias “do mal” começam a produzir toxinas, que ao chegarem a corrente sanguinea, provocam outros sintomas, como fadiga, dores musculares e articulares. Todos estes sintomas podem estar presentes na Síndrome do Intestino Irritável, nas Doenças Inflamatórias Intestinais, na Fibromialgia, na Doença Celíaca e na Sensibilidade ao Glúten não Celíaca.

O tratamento consiste em cuidar da doença de base e em reduzir o teor de Fodmaps da dieta, ao menos, temporariamente. Em casos de SIBO, comprovada por exame (o teste do hidrogenio expirado, que necessita ser solicitado e interpretado por um médico), o tratamento é feito com antibióticos (prescritos pelo médico) e dieta isenta de Fodmaps por 4 semanas, prescrita por um Nutricionista. Mas como se trata de uma dieta bastante restritiva e que não deve ser seguida por muito tempo, após as 4 semanas, testa-se a re-introdução dos alimentos, um de cada vez, para avaliar o nível de tolerância individual.

Depois disso, para evitar que os sintomas retornem, é importante cuidar da alimentação, evitando uma sobrecarga de Fodmaps, principalmente de lactose (em caso de IL), sacarose e frutose presentes em alimentos industrializados. Assim, também é possível prevenir (ou pelo menos amenizar) o retorno da disbiose e da SIBO. Mas também é necessário atentar para o bom funcionamento intestinal, pois a constipação (prisão de ventre) contribui muito para a SIBO, já que as bactérias ficam “presas” por mais tempo no intestino, junto com as fezes e com isso, também favorecem os quadros de endotoxemia e inflamação. Mas isso aí já é matéria para um outro post…

 

Enzimas que prometem digerir o glúten

Sites internacionais de venda de suplementos estão cheios delas. As lojas de suplementos no exterior, também. Volta e meia aparece alguém empolgado com a “novidade”, que parece ser a solução de todos os problemas de quem possui alguma desordem relacionada ao glúten (DRG).

Sou obrigada a admitir que até eu bem lá no fundo, gostaria muito que tais produtos fossem o que parecem…. a saída segura para ingerir glúten sem qualquer problema! Mesmo não tendo nenhuma intenção de voltar a ingerir glúten (caso a “cura” seja descoberta), eu gostaria muito de ter algo que pudesse efetivamente me proteger das contaminações.

Só quem possui uma restrição alimentar, que necessita de cuidados e vigilância 24h por dia sabe como é, e consegue avaliar o tamanho da alegria que um produto desses poderia proporcionar. No meu caso, se me garantisse que eu poderia comer de olhos fechados em qualquer lugar sem me preocupar com a contaminação cruzada (porquer acho que mesmo que a cura surgisse eu não conseguiria mais ingerir nada com glúten), já seria de grande ajuda!

Enzimas gluten
Autoria: Juliana Crucinsky. Imagem criada para o grupo Viva Sem Glúten, no Facebook.

Entretanto, como nem tudo são flores, tais produtos não servem para nós. Não há estudos suficientes comprovando sua eficácia, nem garantindo segurança em seu uso.

As enzimas prometem digerir o glúten… só que o glúten é uma proteína extremamente dificil de ser digerida e mesmo que fosse parcialmente hidrolisado por tais enzimas, ainda assim isso não seria seguro, pois são exatamente seus fragmentos (ou peptídeos) e não ele inteiro, que desencadeiam todas as reações imunológicas presentes na DC e na alergia ao trigo! A segurança existiria apenas se as enzimas conseguissem hidrolisar completamente o glúten em aminoácidos…

Pesquisando no Pubmed, base de dados de artigos científicos na área da saúde, o que encontramos foram dois estudos, um utilizando enzimas produzidas por um fungo que ataca o centeio e outro, enzimas produzidas por um fungo que cresce no arroz. No primeiro caso, a combinação das enzimas conseguiu evitar as lesões na mucosa duodenal durante o desafio do glúten, mas ainda são necessários ouros estudos para avaliar sua segurança e só depois de uma porção de testes é que poderia ser produzida em larga escala e colocada a venda… e pelo visto isso ainda vai demorar. No segundo caso, o artigo publicado em outubro desse ano, fala sobre pesquisas “in vitro”, ou seja, dentro de um laboratório, com todas as condições bem controladas… até que se iniciem estudos em serem humanos e até que esta enzima (a do fungo do arroz) esteja liberada para comercialização, vai um bom tempo de espera…

As enzimas disponiveis para comercialização, ainda não possuem muito respaldo científico, nem garantia de segurança, eficácia ou mesmo de possíveis efeitos adversos, como pode ser visto aqui, aqui, aqui. Os poucos estudos disponíveis estão, em sua maioria, no estágio pré-clínico, ou seja, são estudos experimentais, feitos em laboratório. Ainda são necessários mais estudos, antes que os testes em humanos estejam liberados, entao, até que isso ocorra, é bom não irmos com muita sede ao pote.

Algumas pessoas pensam que tais enzimas funcionam de forma semelhante aos suplementos a base de lactase,  indicados para quem tem Intolerancia a lactose, mas aqui é importante ressaltar que os mecanismos envolvendo as DRG são completamente diferentes dos que envolvem a IL. Na IL o único problema que há, é a deficiencia (total ou parcial) na produção da enzima lactase no intestino. Na DC e na alergia ao trigo, é o sistema imunológico quem comanda todas as reações e quem está por trás dos sintomas, já que é uma proteína (o glúten) o causador dos problemas…

Na melhor das hipóteses, o que parece funcionar é a adição de algumas enzimas à materia prima contendo glúten, para que o mesmo seja hidrolisado (quebrado) a ponto de não “despertar” nosso sistema imunológico. Mas ainda assim, são necessários muitos testes que garantam que a enzima funcionará, que não haverá nenhum fragmento inteiro, que não haverá contaminação e que a própria enzima utilizada não causará nenhuma reação adversa nos conumidores…

E enquanto não surgem novidades seguras e eficazes no tratamento das DRG, seguimos cuidando da nossa alimentação e procurando evitar ao máximo a contaminação cruzada.

 

Intolerância ao Glúten existe mesmo?

A resposta é SIM e NÃO…

Perdi a conta de quantas vezes tentei explicar o porque não se falar mais em “intolerância ao glúten”, então, como sempre, resolvi escrever um post…

Durante muitos anos, desde que o glúten foi identificado com o agente “causador” (ou gatilho) que a Doença Celíaca (DC) foi chamada de “Intolerância ao Glúten” e (infelizmente) ainda é assim que o Ministério da Saúde a chama na segunda edição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para DC, publicado esse ano. No Consenso de Oslo, publicado em 2012, já havia uma recomendação para que nenhuma das Desordens Relacionadas ao glúten fosse chamadas apenas de intolerância.

gluten_proibido_raquel
Imagem do site http://www.riosemgluten.com

E por que essa preocupação? Não de trata de uma intolerância???

Sim e Não. Confuso? Um pouco, mas explico melhor.

Uma das primeiras hipóteses para explicar a DC era a de que celíacos possuíam uma deficiencia enzimática, logo o glúten não era digerido e isso provocava os sintomas. Mas posteriormente, outras pesquisas demonstraram que esse era um raciocínio simplista demais para explicar o quadro clínico e as lesões na mucosa intestinal. A medida que as técnicas avançaram, que os anticorpos (antigliadina, antiendomísio e antitransglutaminase) foram descobertos e com o uso da endoscopia com biópsia de duodeno, os pesquisadores viram que na verdade a DC era uma doença autoimune, na qual, a tentativa do sistema imunológico de destruir o glúten (com a produção do anticorpo antigliadina) gerava mais dano ao organismo, que passo a passo ia se autodestruindo, literalmente, ao produzir os anticorpos antiendomisio e antitransglutaminase, que atacam diretamente as estruturas presentes no intestino (e podem afetar outros órgãos, como acontece na ataxia do glúten, na qual os anticorpos antitransglutaminase atacam estruturas cerebrais).

Chamar a DC e outras DRG de “intolerância” leva a uma grande confusão e faz com que as pessoas minimizem a gravidade do problema e não se cuidem corretamente. Não são raros aqueles que já chegam dizendo “eu SÓ tenho intolerância ao glúten, e não preciso de tantos cuidados com a dieta”, pois pensam que é uma condição semelhante à intolerância a lactose (IL), por exemplo e é aí que a coisa complica e os riscos aumentam. Na DC já se sabe que se a dieta não é feita corretamente, há um risco muito maior da doença evoluir para a forma refratária (que necessita não só da dieta como também de medicamentos imunosupressores), do surgimento de outras doenças autoimunes como Diabetes tipo I, Tireoidite de Hashimoto, Lupus, Artrite, etc e câncer de intestino. Já dentre os riscos da alergia ao trigo, o mais grave e que pode levar à morte em questão de minutos é a anafilaxia. E como ainda não se sabe quais os riscos associados a SGNC, os pesquisadores recomendam que se tenha o mesmo cuidado que com a DC.

Na IL há uma intolerância do organismo a esse carboidrato (a lactose) porque a produção da enzima (lactase) necessária a sua digestão está sendo insuficiente. Com isso, a lactose não é digerida e fica na luz intestinal, onde é fermentada por bactérias, gerando gases, desconforto e (nem sempre), diarréia. Mas passado o mal estar, e desde que não se volte a consumir lactose, as coisas voltam a um certo grau de normalidade (não vou entrar aqui em detalhes a respeito das alterações na microbiota ou flora intestinal – isso fica pra outro post) e o mal estar passa.

Lactose e lactase

Mas quando estamos falando de uma proteína complexa como o glúten (que de fato, não é bem digerida por NINGUÉM), a intolerância ocorre num nivel muito maior de complexidade, pois trata-de se intolerância IMUNOLÓGICA. Ou seja, aqui é o sistema imune (nosso sistema de defesa) que dá o alarme após detectar que há algo errado e é ele mesmo que parte com tudo pra cima do “inimigo” ( glúten). Na IL, o sistema imune nem tem ciência do que está acontecendo e por isso, os sintomas e suas consequencias, apesar de bem desagradáveis, em geral não costumam ser graves (a não ser quando a diarreia chega ao ponto de causar desidratação, por exemplo).

Já nas Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG), principalmente na DC, se o sistema imune é chamado, as reações serão graves e imprevisíveis. Mal comparando, seria como se tentássemos matar um mosquito usando uma granada… obviamente, numa situação hipótetica dessas, o mosquisto até seria morto, mas tudo a sua volta seria destruído (e provavelmente quem detonou a granada, também!). E é bem assim que as coisas funcionam em nosso corpo… se temos DC e ingerimos glúten, nosso corpo tenta “matar o mosquito” (o glúten) usando uma granada e é aí que a coisa complica pro nosso lado, pois nosso intestino vai sendo destruído junto (os anticorpos antitransglutaminase, que pedimos pra dosar no sangue, são os marcadores da granada que foi detonada).

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Essa figura demonstra como as lesões intestinais progridem, desde o início do processo inflamatório (1) até a completa atrofia da mucosa (4)

Mesmo nas “intolerâncias” mediadas por IgG, que algumas pessoas consideram mais leves, há reações imunológicas, que não podem, nem devem ser menosprezadas! Quando estes exames positivam, significa que está ocorrendo um aumento de permeabilidade no intestino e que proteinas alimentares não digeridas estão entrando em contato com o sangue e com o sistema imune, logo, o mesmo reage produzindo anticorpos, avisando que já detectou o “invasor” e estão tentando destruí-lo. Nesse caso, sem o resultado da biópsia duodenal, não há como saber se está ocorrendo lesões no intestino e muitas vezes, os anticorpos positivam antes que tais lesões ocorram… se excluimos o glúten nesse momento, podemos prevenir o surgimento de tais lesões.

A Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC) muitas vezes também é chamada de “intolerância ao glúten” e aqui, definir se é ou se não é fica um pouco mais complicado, pois as evidenciacis científicas mostram que pode ser o glúten o agente causal dos sintomas (e da positivação de anticorpos) na SGNC, mas também outras proteínas existentes no trigo e em outros cereais (como as proteínas inibidoras da alfa amilase e da tripsina), ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra) presentes nos cereais (e em outros alimentos). Aqui, se pudessemos ter certeza absoluta (coisa praticamente impossível até o momento) de que os frutanos do trigo estão por trás dos sintomas, aí sim, poderíamos falar em intolerância (pensando no exemplo da IL), pois como fibras são carboidratos e como o trato gastrointestinal humano não produz enzimas capazes de digeri-las, logo estamos diante de uma situação semelhante a que ocorre na Intolerancia a lactose: ausencia de uma enzima, dificuldade em digerir um carboidrato e sintomas decorrentes disso tudo.

Entretanto, muitas vezes os sintomas não costumam ser um bom parâmetro para avaliar a extensão das lesões (voltando a questão da produção de autoanticorpos)… é só lembrar que existe a DC ASSINTOMÁTICA, com as mesmas lesões (ou até mais graves) que a DC sintomática…

Na IL, a ingestão de pequenas doses de lactose (como as que estão presentes num comprimido, por exemplo), não causam reação na maior parte das pessoas (geralmente os sintomas percebidos estão relacionados ao medicamento em si e não a lactose do comprimido, que é usada apenas para “dar peso”). Já nas DRG não existe a possibilidade de ingerir “só um pouquinho”! Achar que “só um poquinho não me fará mal porque SÓ tenho intolerância” é uma grande ilusão que a longo prazo só trará problemas!

Então, minha gente, não caiam no conto da intolerância!!! E sempre que algum profissional de saúde falar em “intolerância ao glúten”, na realidade ele está se referindo a “INTOLERÂNCIA IMUNOLÓGICA AO GLÚTEN”!!!

Sem lactose é a mesma coisa que sem leite?

Nos últimos anos houve um boom na oferta de produtos “zero lactose” e se por um lado isso tem sido bom para inúmeros intolerantes a lactose, que ganharam mais opções, por outro, gera confusão e por tal motivo pode por em risco a vida de muitas pessoas com alergia às proteínas do leite.

A lactose, como já falei nesse post aqui e nesse é o açúcar do leite. É um dissacarídeo formado pela ligação de 2 açúcares mais simples, a glicose e galactose:

Lactose e lactase

Na intolerância a lactose (IL) há uma diminuição na produção da enzima lactase, a enzima que faz a quebra da ligação, permitindo que a lactose seja digerida e usada como fonte de energia… ou seja, sem lactase, a lactose não pode ser convertida em glicose e nem em galactose.

Os produtos lácteos como leite zero lactose, iogurte e queijos recebem a adição da enzima lactase e sua ação é controlada de forma que toda a lactase seja pré digerida no produto final, mas é importante ressaltar que eles continuam contendo leite como ingrediente principal! E é aí que mora o perigo, pois muitas pessoas com alergia às proteínas do leite, empolgadas com a informação “zero lactose”, esquecem de ler o rótulo e acabam consumindo algo que pode por sua saúde e até mesmo a vida em risco!

zero lactose

Outra questão que merece destaque é que a IL é mais comum em adultos e idosas e raramente afeta bebês e quando afeta o quadro é muito grave e nem o leite materno pode ser consumido! Já a ALV é relativamente comum em bebês, e mesmo bebês alimentados exclusivamente com leite materno. Mas muitas mães, confusas com tanta informação (muitas vezes informação equivocada), são orientadas a excluir os laticínios de sua alimentação, para que possam continuar amamentando seus bebês (que na realidade apresentam alergia as proteínas do leite e não IL) e acabam consumindo produtos zero lactose indevidamente. Muitas pessoas nem sabem que são as proteínas do leite que lhes fazem mal e estranham continuarem tendo sintomas ao fazer uso dos laticinios zero lactose… mas isso já é um indicio de que não devem consumir nenhum tipo de laticínio, seja com ou sem lactose. O mesmo pode ocorrer ao se buscar mais opções para variar a alimentação de crianças com dietas restritas em leite e derivados.

Outro problema que pode ocorrer, e que so contribui ainda mais para aumentar a confusão, é que existem pessoas que possuem as duas condições: IL e ALV! Portanto, é muito importante ler atentamente os rótulos para ter certeza de que o produto realmente não contém nenhum derivado do leite e que, portanto, não causará nenhum tipo de problema!

Detox – mais uma modinha sem fundamentação científica?

Dieta detox, suco detox, água detox, detox emocional … que mais falta aparecer?

Pelo visto hoje todos estão falando sobre esse assunto, depois de uma reportagem que saiu ontem num certo programa de televisão (que por sinal, eu não vi). Então resolvi escrever algumas coisas sobre esse assunto, na tentativa de trazer algumas informações baseadas na Ciência.

Então comecemos do começo! Detox nada mais é que a forma curta do termo detoxificação. Mas e o que exatamente significa detoxificação?

Lá no Harper, um livro de Bioquímica velho conhecido dos profissionais de saúde, explica  muito bem o que é e foi nele que eu fui buscar inspiração para escrever esse texto (a edição de 1998, a primeira que eu comprei, já possuia um capítulo inteiro sobre esse tema, ou seja, detoxificação não é um tema novo! E a 30ª edição, de 2015, está excelente!)

Detoxificação é uma função metabólica, exercida por nossas células, principalmente pelo fígado, para inativar e eliminar toda e qualquer substância estranha, tóxica (e possivelmente cancerígena), os chamados xenobióticos (do grego: xeno = estranho) com a qual tenhamos contato, seja através da água, da alimentação, da respiração e até mesmo do contato pela pele.

Ou seja, xenobióticos, são os poluentes presentes no ar e na água, são os agrotóxicos, os medicamentos, as substâncias quimicas presentes na tinta que usamos no cabelo ou no esmalte que usamos pra pintar nossas unhas, ou que estão nos desinfetantes e produtos de limpeza que usamos na faxina de casa, nos perfumes, cremes, maquiagem e até mesmo os aditivos quimicos presentes em muitos produtos industrializados que consumimos com bastante frequencia. Ou alguém ainda possui alguma ilusão de que nosso corpo encontra alguma utilidade para o corante amarelo tartrazina, por exemplo (isso pra citar um dos mais conhecidos) ou para substâncias carcinogênicas (indutoras de câncer) presentes no ar poluído?

Os xenobióticos também podem surgir na forma de toxinas geradas dentro do nosso próprio corpo, como as toxinas produzidas por bactérias patogênicas presentes em nossa microbiota intestinal, principalmente quando há aumento de permeabilidade intestinal. Podem estar presentes em embalagens de alimentos (lembram do bisfenol nas mamadeiras e em potes plásticos?), podem vir como contaminantes dos alimentos (mercúrio, chumbo, alumínio, que são metais tóxicos ao nosso corpo) e até mesmo podem ser suplementos e fitoterápicos consumidos de forma indiscriminada e sem a devida orientação profissional!

Então, tudo aquilo que é estranho e não possui uma ação biológica, é tratado como lixo tóxico e como tal, precisa ser eliminado!

Ok. Perfeito. Mas… pera lá! Se é tóxico, como eliminar sem nenhum prejuízo para o organismo?

Bom… é aí que o nosso sistema de detoxificação entra em ação!

A partir do momento em que um xenobiótico é detectado, ele é submetido a algumas reações para torna-lo inativo e inofensivo, de modo que possa ser eliminado (pela urina, pelas fezes, pelo suor e até pelas lágrimas) sem prejuízos ao organismo.

O processo de detoxificação possui 2 fases (em alguns casos, pode ser necessário uma terceira): 

a) Fase I ou fase de Biotransformação ou Bioativação – essa fase é realizada por uma série de enzimas conhecidas como monooxigenases ou Citocromo P450 (que na verdade é uma família de enzimas e não uma única enzima). Nessa fase, ocorrem reações chamadas de hidroxilação. Alguns fármacos, ingeridos em sua forma inativa, precisam passar por esta fase para serem ativados (por isso a fase I também se chama fase de Bioativação) e poderem exercer seu efeito terapêutico. Apesar dessas reações ocorrerem para diminuir a toxicidade dos xenobióticos, como aqui ainda estamos na metade do processo, é bem comum que as substancias geradas nesta fase sejam até mais tóxicas que os mesmos e por isso é necessário que elas sejam imediatamente encaminhadas para a fase II.

b) Fase II – essa é a fase responsável por transformar as moléculas formadas na fase I em compostos solúveis em água, mais fáceis de serem eliminados ou excretados, através das vias de eliminação: fezes, suor, urina, lágrimas. Para que isso ocorra, diversos nutrientes, como ferro, cobre, zinco, vitaminas do complexo B e aminoácidos, precisam entrar em ação.

Sabendo que a detoxificação necessita de uma grande colaboração de diversos nutrientes (inclusive atuando como co-fatores ou ajudantes das enzimas envolvidas no processo), é por isso que pessoas que possuem deficiencias nutricionais, seja por má absorção (por exemplo, um celíaco ainda não diagnosticado ou já diagnosticado, mas que insiste em continuar consumindo glúten, mesmo que eventualmente), seja porque não se alimentam adequadamente (pessoas com alimentação muito monótona, ou que vivem “de dieta”) ou mesmo pessoas que até se alimentam bem, mas estão constantatemente expostas a uma alta carga de xenobióticos, podem apresentar prejuízos no processo de detoxificação. É assim, que muitas pessoas acabam desenvolvendo sérias doenças crônicas ao longo da vida, como os mais diversos tipos de câncer, pois o corpo acaba não dando conta de eliminar todas as toxinas, que acabam por se acumularem.

Nosso corpo foi feito para funcionar perfeitamente bem, mas infelizmente nem sempre nós facilitamos o trabalho dessa máquina perfeita, pois comemos mal, dormimos pouco, abusamos de substancias tóxicas, como cigarro, álcool e até mesmo medicamentos e nem sempre conseguimos fornecer todos os nutrientes necessários para a “reciclagem do nosso lixo metabólico”.

Outra questão muito importante, e muitas vezes negligenciada, é que a eliminação dos xenobióticos, necessariamente depende de água! Ou seja, pessoas que bebem pouca água, terão maior prejuízo na eliminação de toxinas. Além disso, para que o processo de detoxificação ocorra, as vias de eliminação também precisam estar funcionando bem, assim, precisamos de um intestino que funcione regularmente (e sem o uso de laxantes), precisamos urinar com uma certa frequencia (já deu pra perceber que prender a urina não é um bom negócio, né?) e convém não impedir a saída do suor, com o uso de antitranspirantes.

Tá. E onde é que os tais sucos detox entram nessa história?

Bom, na verdade, convencionou-se chamar de “suco detox“, qualquer combinação de alimentos, como frutas e hortaliças, que seriam fontes de água e nutrientes envolvidos no processo de detoxificação. Tomemos por exemplo, um suco de limão, com maçã e couve… o que haveria nele para ajudar? Temos aí, água (necessária a eliminação das toxinas), vitamina C (que possui ação antioxidante, ou seja, capaz de neutralizar os radicais livres formados durante a detoxificação), quercetina (substância de ação inflamatória e anti-alérgica), pectina (fibra que auxilia no funcionamento intestinal e consequentemente, na eliminação das toxinas), magnésio (mineral que atua como co-fator ou ajudante de muitas enzimas), ferro (necessário à formação da hemoglobina, proteína responsável pela oxigenação de todos os tecidos corporais) e compostos sulfurados (contendo enxofre), que atuam na fase II. Ou seja, não é nenhum milgre! É apenas uma forma rápida e prática (inclusive para quem é “chato pra comer”) de numa única “refeição” ingerir nutrientes capaz de atuar em muitos pontos do processo de detoxificação.

Mas se é assim, fica muito fácil!

Bem, nem tanto, já que não adianta tentar se garantir num único copo de suco, sem mudar hábitos alimentares e até mesmo hábitos de vida. Ou seja… não adianta tomar 1 copo de suco pela manhã, e trocar o almoço por um sanduiche (cheio de gordura, sódio e pão branco, por exemplo) e um suco industrializado (cheio de corantes, adoçantes, conservantes e uma série de substâncias que eu aposto que você não faz a mínima idéia do que sejam e que na verdade nem deveriam estar num “alimento”). Mas vamos combinar que, um copo de suco preparado com ingredientes fresquinhos (ainda que não sejam orgânicos) tem muito mais valor nutricional que um “suco de caixinha”, né não? Isso, independente da composição do suco ou se ele leva “detox” no nome.

Também não adianta cuidar lindamente da alimentação, mas continuar estressado ou guardando mágoas no coração, porque o estresse emocional também cobrará sua conta! Quando estamos estressados, nosso corpo sofre o impacto de muitas reações metabólicas, na tentativa de compensar e equilibrar os batimentos cardíacos, o fluxo sanguíneo, os níveis de glicose, entre outras coisas e tudo isso acaba gerando radicais livres, inflamação e mais uma vez nossos sistema de detoxificação precisa entrar em ação para neutralizar tanta coisa…

Então, quando falamos em detox, estamos pensando não em estimular o consumo do produto x ou y, ou de uma dieta em especial, mas estamos pensando em algo muito maior, estamos pensando em estimular hábitos alimentares e até mesmo hábitos de vida mais saudáveis! Alimentação sem corantes, sem aditivos químicos, sem compostos carcinogênicos, mas rica em nutrientes indispensáveis à vida!