Faz mal cortar o glúten sem necessidade?

Essa é uma pergunta recorrente nas redes sociais, nas aulas e nos consultórios, e vejo muita gente defendendo que “sim, faz muito mal cortar o glúten sem necessidade”, enquanto que há outro tanto de gente dizendo que “não há problema”. E no meio há uma porção de gente confusa, sem saber em quem acreditar e pra que lado ir. Por isso resolvi escrever no blog, o que venho repetindo continuamente pros meus alunos de pós graduação e pra todo mundo que me faz essa pergunta. Óbvio que não pretendo aqui me tornar a dona da verdade, nem nada. Trata-se apenas da minha forma de ver esse assunto, com base em toda a leitura (Científica) que já fiz a respeito desse tema, ok? Dito isso, então, bora lá!

A primeira coisa, seria esclarecer que, se há duvida sobre fazer mal cortar o glúten, significa que há um entendimento prévio de que consumir glúten, necessariamente faz bem. Mas aí eu pergunto; faz bem pra quem? E faz bem sempre? Em qualquer situação? Em qualquer quantidade? E por que faz bem? e se faz tão bem? Como é que pode ter gente que vive (bem e saudável, muito obrigada) sem consumir trigo? Ou será que essas pessoas são aliens disfarçadas? (perdão… contém doses de ironia, porque eu não resisto…rsrs)

Bom, pra ninguém me acusar de implicância, vou começar falando dos benefícios do glúten e das suas fontes alimentares. Sim, não to doida, não (ainda não) e o “maledeto” tem lá seu lado bom. O glúten é uma proteína formada pela união de duas outras proteínas, a gliadina (essa sim, é a “marvada” que adoece a mim e a todos os demais celíacos) e a glutenina, que na presença de água e trabalho mecânico (como sovar a massa, por exemplo) gera uma massa viscosa e elástica, que não se parte tão facilmente. essa massa é que permite que os pizzaiolos dêem seus showzinhos, jogando a massa da pizza para o ar e virando-a, sem passarem a vergonha de tudo despencar em cima deles e da “platéia”. É ela também que permite que apenas quatro ingredientes (farinha, água, sal e fermento) gerem o tão “amado-idolatrado-salve-salve” pão francês e permite que bolos cresçam, fiquem fofinhos e não esfarelem. É o glúten que também serve como “substituto” da carne em pratos vegetarianos… o tal do seitan ou “bife” vegetal.

Gluten_Fasano

O glúten não brota “do nada” na natureza… seus componentes, gliadina e glutenina, “nascem” nos chamados cereais de inverno: trigo, centeio, cevada e sim, aveia (depois eu falo melhor sobre ela, prometo!). A gliadina é o nome “formal” do glúten do trigo. Na cevada ela se chama hordeína e no centeio, secalina. Ah, e na aveia, temos a avenina, que de todas, é a mais “comportadinha”, pois em geral, só adoece uns 8% dos celíacos. Mas no fundo, quando falamos de glúten e de seus “prejuízos ao organismo”, estamos falando destas mocinhas. Ao ouvirmos falar que o trigo moderno contém muito mais glúten que o trigo ancestral, podemos traduzir essa fala por: o trigo moderno é capaz de formar mais a tal da rede visco-elástica que padeiros, pasteleiros e pizzaiolos tanto amam, mas isso não significa que os trigos ancestrais sejam “inocentes”. Na verdade, trigos ancestrais possuíam tanta (ou mais) gliadina que trigos modernos, mas menos glutenina e menor capacidade de agradar aos padeiros…apenas isso.

Tá, e do ponto de vista nutricional?

Lembrando que durante mais de 2 milhões de anos, nossos ancestrais foram caçadores e coletores, e portanto, não plantavam nem criavam nada, sobreviver em ambientes inóspitos, em condições de frio extremo (como no norte da Europa, por exemplo) e sem ter o que caçar e catar, ter um estoque de comida parecia um verdadeiro milagre! Milagre maior ainda se fosse possível fazer a comida nascer no próprio quintal (ou alguém acha que dá pra ficar andando a toa num baita frio, trocando de caverna entre uma nevasca e outra?). Nessas condições, fazer um certo capim crescer e conseguir transformar suas sementes em farinha e em papa e pão, era um milagre tão grande, que só podia ser coisa dos deuses… e não foi a toa que muitos deuses (geralmente deusAs) protetores da agricultura surgiram e começaram a ser cultuados, e com toda a razão! Isso há alguns poucos milênios antes do nascimento de Cristo. Os cereais, e principalmente o trigo, forneciam muitas calorias (energia) numa pequena porção, carboidratos, fibras e algumas (poucas) vitaminas. Muito, mas muito mesmo, melhor que passar fome por falta de caça! Alias, quem tinha pão à mesa, nem se preocupava mais em sair pra caçar! Onde já se viu? coisa mais primitiva e fora de moda!? eu, hein?!

caverna paleo

E assim, as coisas foram indo, até que os cereais se tornaram a base da alimentação de muitos povos, que apesar da comida, não eram lá mais tão fortes e saudáveis como seus ancestrais caçadores. Só que nesse meio aí, havia um pessoal que não se adaptou a essa mudança no padrão alimentar (saudosos do tempo em que o rolé da vez era sair pra caçar uns javalis), cujos corpos necessitavam de outro tipo de alimento, como a caça e os vegetais frescos coletados e na falta deles, muitos morreram de desnutrição. Os que conseguiram sobreviver, mesmo fracos e desnutridos pela comida inadequada, geraram filhos tão inadaptados quanto eles e esses filhos tiveram filhos e assim por diante. Com alguma sorte, os descendestes desses caras, chegaram a compor 1% (sim, nós, os celíacos) da população moderna e outros quase 10% (sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo), acabaram descobrindo ter algum parentesco com essa gente aí…

E é graças a sobrevivência desses 11% que toda a polêmica envolvendo o trigo/glúten pega fogo sempre que alguém toca no assunto. Porque somos diferentes. E o diferente sempre assusta! Sobrevivemos (mesmo que bem prejudicados) a uma cultura alimentar capaz de nos exterminar do planeta, porque sim, para nós, a tal da gliadina é tóxica e nos envenena. Isso é um fato. Não há nada que se possa fazer em relação a isso, a não ser nascer de novo, em outra família (e aqui não estou considerando possíveis questões cármicas, que não vem ao caso).

Para nós a única chance de sobrevivência, com saúde e plenitude, é manter uma alimentação rigorosamente isenta de glúten. Inclusive isenta de contaminação. POR TODA A VIDA!

Mas e os outros? Os comedores de glúten? O que aconteceria com eles se voltassem à era da caça e da coleta, antes do trigo ter virado comida? Será que eles morreriam ou teriam sérios problemas de saúde? Bom… talvez naquele tempo, se não tivessem nenhuma habilidade pra caçar. Mas em pleno século XXI, onde “caçamos” no mercado mais próximo, na feira e até na internet, não há grandes riscos… então, viver sem trigo pode ser uma opção até mais saudável, desde que, como antigamente, as pessoas optem por vegetais frescos (frutas, legumes e verduras), carnes diversas (boi, peixe, frango, porco, etc), ovos, castanhas e até mesmo, arroz e feijão. E aí, eu desafio alguém me provar que isso pode trazer algum risco ou prejuízo à saúde de alguém! Que nutrientes poderiam haver no trigo/glúten que uma alimentação tão saudável e variada não seria capaz de fornecer e em quantidades adequadas?

Porque se disserem que a exclusão de trigo/glúten pode causar deficiencias nutricionais em alguém, podem ter certeza de que é porque há algo de muito errado com a alimentação da pessoa! A menos que o trigo/glúten sejam substituídos por papelação ou por vento, o risco de déficit nutricional real é muito (mas muito mesmo) pequeno! Até porque, ninguém tá dizendo que é pra excluir sem colocar outros alimentos no lugar…e não, não tô falando de produtos industrializados isentos de glúten, que em geral, custam bem mais caro que a versão glutenada. Não que eles não sejam uma opção válida. Claro que são! Mas ninguém em sã consciência, vai passar a vida se “alimentando” apenas de biscoito recheado sem glúten ou de macarrão de arroz, por exemplo…

Tá, ainda existem outros fatores a considerar, como a questão do custo, por exemplo. É fato que tudo a base de farinha de trigo custa absurdamente menos que outros alimentos e as pessoas estão cada vez mais sem grana. Mas aí, eu já considero um fato social, que infelizmente impacta negativamente o estado nutricional. E realmente acho triste que muitas pessoas, por falta de condições financeiras mínimas, precisem ter o pão e biscoitos glutenados como a base da alimentação. É triste e é injusto. Mas repito, é um problema de origem social, cuja solução vai muito além da discussão “com ou sem glúten”, até porque, ainda é importante lembrar que existem celíacos vivendo abaixo da linha da pobreza, dependendo de projetos sociais e da caridade alheia, pra comprar arroz e feijão.

Outro ponto, é que muitas pessoas se acomodaram e se “viciaram” em comer só o que vem em pacotinhos…e os pacotinhos sem glúten, custam beeeem mais caro! Culpa dos “produtores inescrupulosos/gananciosos”? Não… culpa da dificuldade em encontrar insumos seguros e certificados, do tempo consumido no treinamento de manipuladores, para que eles nçao contaminem o produto final, culpa do alto custo da materia prima e até mesmo da dificuldade de se chegar aum produto final semelhante à versão glutenada…

E o hábito alimentar? A cultura? O lado social? Sim… eles existem, e si, exercem um forte apelo sobre todos nós. Comida, além de nutrir o corpo (há uns 2 mil anos tras, Hipócratas já dizia, “Faça do teu alimento, seu medicamento”!), também nutre a alma e o coração. Comida vem carregada de lembranças, boas e ruins e é difícil desapegar. Sei muito bem disso! Senti na pele! Mas é possível, tanto que nós, que possuímos alguma desordem relacionada ao glúten, precisamos redefinir algumas coisas em nossas cozinhas e em nossos hábitos alimentares, adaptando receitas de família, para que as que estávamos acostumados, não nos matem. É o bolo da vovó, é a pizza na nonna italiana, é o pão, o biscoito, a massa, os doces…

Várias receitas e técnicas de preparo precisam ser reaprendidas e adaptadas, para que não nos sintamos excluídos de uma sociedade que já nos exclui por nos ver como “doentes” e “diferentes”. Aliás, muitas vezes, para termos o direito de nos alimentarmos tal como nossos ancestrais pré-históricos, precisamos ostentar o título de “DOENTES”, para que nosso prato seja respeitado pelos demais, pois se não for assim, debocham da gente, nos dirigem palavras pouco lisonjeiras e nos chamam de “vítimas da moda”! Pois parece que comer da forma que é mais saudável para nós virou modinha… coisa de gente fútil e que não tem mais o que fazer e só reforçando nosso status de doente é que poderemos ostentar nossos pratos e marmitas sem sermos incomodados… Até porque, principalmente na Doença Celíaca, há um grande paradoxo! Ao recebermos o “certificado” de doentes, damos o primeiro passo para sermos mais saudáveis e aí, quem vai acreditar que precisamos comer diferente, logo nós, que parecemos mais saudáveis que nossos amigos, colegas e familiares?

E onde estão aqueles capazes de “bater o martelo” e dar nosso “certificado de doente”? Os médicos? Muitos, infelizmente estão por aí, debochando de nossas queixas e sintomas, também nos chamando de seguidores da moda, hipocondríacos (afinal, “todo mundo sempre comeu glúten e não morreu!”) e com problemas psiquiátricos (aqui faço um parêntese, pra avisar que vai sair um post sobre os problemas neuro-psiquiátricos-comportamentais envolvendo o glúten – aguardem!). E qual o resultado disso? Uma legião de “doentes sem diploma”… pessoas que desistiram de buscar um diagnóstico (porque ninguém acredita nelas) e resolveram ouvir os apelos do próprio corpo e dar a ele o alimento adequado, ganhando muito em saúde e qualidade de vida, apesar das restrições sociais que o “comer diferente” impõe.

(Pausa para enfatizar que não, não desejo que as pessoas “tenham problemas com o glúten”. Desejo sim, que todos tenham direito ao diagnóstico correto e não sofram, jamais, com as consequencias e complicações – que não são poucas – de um diagnóstico tardio! Outra pausa para sugerir a leitura dos meus posts anteriores sobre a doença celíaca)

E ainda há aqueles (felizardos) que de fato, não possuem nenhum problema de saúde, mas resolveram questionar a forma como vinham se alimentando e a hegemonia do trigo em praticamente todas as refeições e o substituíram, total ou parcialmente, por outros alimentos, fontes de carboidratos, fibras, vitaminas e minerais e estão aí, esbanjando saúde. Obs: Excluíram apenas por opção, e não importa a motivação, já que não temos absolutamente NADA com isso, certo, pessoal?

Então… cortar o trigo/ glúten da alimentação faz mal a saúde? Talvez faça à de quem não consegue pensar fora da caixinha e por isso, não consegue vislumbrar outras opções e acredite que a vida sem glúten dependa apenas de uma porção de industrializados…

Ah! E antes que eu me esqueça! Ninguém precisa deixar de comer trigo/glúten só porque eu to falando sobre isso, ou só porque existem celíacos/sensíveis/alérgicos ao trigo ou mesmo porque (ainda) há gente que acredita que “tá na moda”! 

 

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99% sem glúten, mas aquele 1%…

Muitas pessoas (incluindo alguns profissionais de saúde, infelizmente) acreditam que celíacos / alérgicos / sensíveis ao glúten podem eventualmente sair da dieta, por exemplo, naqueles dias em que a vontade de comer um pãozinho ou um salgadinho ou uma fatia daquela torta. Só que não!

Aliás, esse é um grande erro que muitos cometem, por falta de informação, a começar por acharem que trata-se apenas de uma “intolerância”, coisa que já falamos aqui que não é bem assim. A coisa complica ainda mais porque tá cheio de gente por aí, que excluiu o glúten, sabe o quanto esta proteína lhe faz mal, mas por ter iniciado a dieta antes dos exames, não tem um diagnóstico fechado. E eu confesso, já fui dessas! Já fiz essa besteira antes de ter conseguido fechar meu diagnóstico… mesmo já sabendo que glúten não era legal pra mim, enquanto não achava um bom médico e não fazia os exames necessários, eu cedia sempre que o olho grande falava mais alto. E por já ter passado pela experiência (e saber como é ruim ficar com vontade de comer alguma coisa a qual antes tínhamos livre acesso) é que me sinto no dever de fazer esse alerta!

Os objetivos da dieta sem glúten são zerar a inflamação (em todos os casos), controlar os mecanismos da autoimunidade, zerar a contagem de anticorpos (antitransglutaminase) e recuperar a mucosa do duodeno (intestino delgado) (no caso da DC) e controlar os sintomas alérgicos (no caso da alergia ao trigo).

Aqui é importante mencionar que a inflamação não fica restrita ao intestino… ela pode afetar o corpo todo e justamente por isso, as contaminações por glúten podem não alterar a contagem do antitransglutaminase. Por exemplo, a inflamação causada pelo glúten pode afetar as articulações, piorando as dores, pode afetar a tireoide, aumentando os anticorpos tireoidianos, na tireoidite de Hashimoto ou aumentando os riscos de coagulação e trombose em doenças que já favoreçam esse tipo de problema, como nas trombofilias…

Essas escapulidas da dieta, vão gerando danos que se acumulam no organismo e a longo prazo podem levar a sérias complicações, como a doença celíaca refratária e até mesmo o linfoma intestinal! E aí, minha gente, a coisa fica pra lá de complicada, porque o tratamento destas condições é bem mais complexo, com restrições alimentares beeeem maiores…

Enquanto estamos livres de glúten (lembrando que não é só exclui-lo e pronto! É necessário cuidar do que se coloca no lugar), a inflamação fica sob controle. Basta uma exposição a esse sujeitinho e a inflamação dá as caras e põe dias e até meses de cuidado a perder!

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Imagem encontrada na internet

Há também quem acredite que se consumir uma daquelas enzimas que falei nesse post aqui, que dá pra encarar umas fatias de pizza numa boa, mas não dá. As enzimas podem até inibir os sintomas, mas até se prove o contrário (e por provar o contrário estou me referindo a termos vários estudos randomizados, controlados, duplo cego, com um numero grande de participantes) não inibem a inflamação como um anestésico. É um raciocínio semelhante ao que ocorre quando temos uma infecção e febre… ao tomarmos um remédio para a febre, a mesma cede e fica controlada, mas a infecção não desaparece!

Enzimas gluten

Ou seja, a única forma de tratar as desordens relacionadas ao glúten, é fazendo a dieta 100% sem glúten e sem contaminação, como já falei tantas vezes aqui (e aqui e aqui) no blog!

Vida sem gluten

 

Dormindo com o inimigo – celíacos vivendo em casas “glutenadas”

Quando há um celíaco diagnosticado na família, muitas pessoas se perguntam se precisam tirar o glúten de dentro de casa e “privar” os demais familiares de comer pão francês (ou qualquer outro alimento com glúten)…

O medo dessa “privação” me parece ser muito maior que o medo de causar algum dano ao celíaco que mora na mesma casa. Mesmo que não seja a intenção, colocar a preocupação dos que vão se “privar” acima da segurança do celíaco, soa como desamor, desrespeito e (por que não?)… crueldade! Parece forte, não é?

E é mesmo! E não, eu não estou sendo exagerada!

O glúten forma uma “cola” invisível sobre as superfícies (maçanetas, torneiras, porta da geladeira, telefones, controle-remoto, etc), sobre as louças e fica entranhado na esponja para lavagem da louça … e isso gera preocupação e estresse nos celíacos que precisam redobrar os cuidados dentro de casa, pois está em contato permanente com focos de contaminação!

Essa sensação constante de medo e insegurança, acaba afetando tanto a saúde física quanto mental dos celíacos. Contaminações constantes podem causar os mesmos prejuízos que a ingestão voluntária de glúten, como inflamação na mucosa intestinal, má absorção de nutrientes, feridas em quem tem dermatite herpetiforme, aftas, dores de cabeça, dores nas articulações, mal estar, diarreia, náuseas, vômitos, etc, além dos efeitos do estresse, ansiedade, depressão (seja pela sensação de insegurança, seja por sentir-se menos amado, desrespeitado e desprotegido ou seja por causa das deficiências nutricionais e por causa da inflamação crônica) que tem um impacto negativo muito grande na saúde e na qualidade de vida.

dor de barriga

Celíacos nesse tipo de ambiente precisam ter cuidado redobrado com a lavagem das mãos, e com a higienização de tudo, e ainda assim acabam se contaminando. Isso me lembra muito a época em que trabalhava em hospital, ambiente que reúne a maior concentração de bactérias causadoras de doenças, resistentes a maior parte dos antibióticos conhecidos (as famosas “superbactérias”). Invariavelmente, eu sempre me deparava com pacientes contaminados com tais bactérias, que elas colocados em “isolamento de contato”, para evitar que nós, profissionais de saúde, transportássemos as ditas cujas para outros pacientes mais debilitados. Era um estresse constante (e ainda é pra quem trabalha nesse tipo de ambiente), mesmo eu sabendo que dificilmente tais bactérias me causariam algum dano imediato, a responsabilidade e o medo de prejudicar a saúde de outras pessoas me fazia viver sob vigilância constante. Eu lavava tanto as mãos e passava tanto álcool que elas viviam ressecadas. E isso porque apesar de tudo, ainda haviam (alguns poucos) antibióticos capazes de mata-las

Agora, imagina só uma substância que nem ser vivo é (portanto, não pode ser morto) e que é capaz de lentamente acabar com a saúde e com a qualidade de vida de alguém que você ama e (supostamente) deveria cuidar? Imagina se essa pessoa ainda é uma criança, que ainda não sabe que precisa lavar constantemente as mãos (e que se bobear nem alcança a pia do banheiro para lavar as mãos sozinha!), que engatinha ou brinca sentada no chão, que divide os brinquedos com os irmãos (comedores de glúten), que leva as mãozinhas e os brinquedos sujos à boca… quantas situações de risco! Quantas formas de adoecer desnecessárias! O mundo fora de casa já um lugar hostil demais…porque o ambiente de casa, que deveria ser acolhedor, oferecer proteção e segurança precisa ser inseguro e também hostil porque algumas pessoas não sabem (ou não querem) abrir mão de alguns alimentos? E nem digo abrir mão pra sempre, como é o nosso caso! Abrir mão apenas dentro de casa, porque no mundo em que vivemos, é possível ingerir glúten o tempo todo, das mais diversas formas! Por que tem que ser DENTRO  de casa? Contaminando e adoecendo o celíaco? Ensinando desde cedo o que é a falta de respeito, o desamor, e o egoísmo? Me perdoem se estou sendo muito dura, mas é assim que eu enxergo as coisas…

Quando falamos de doença celíaca e de alergia ao trigo, não basta apenas não comer os alimentos que contem trigo/glúten! Os cuidados vão muito além e não se trata de frescura, como muitos insistem em falar. Trata-se de risco REAL!!! Risco que pode adoecer e levar muitas pessoas à morte, sem necessidade!

Mas que tal a família aproveitar o diagnóstico do celíaco ou do alérgico (ou mesmo do sensível ao glúten) para conhecer outros sabores, outros alimentos, outra forma de se relacionar com a comida? Felizmente vivemos num país em que há uma imensidão de alimentos naturalmente isentos de glúten e que podem compor as refeições (saudáveis) de toda a família! Por que focar no “bendito” (só que não) pão francês, que nem é tão nutritivo assim? Que tal ensinar na prática aos pequenos o que é solidariedade? Sim, porque abrir mão de um pão (mesmo que apenas no café da manhã em casa, por exemplo) porque o irmão não pode comer, é um exercício e tanto de solidariedade, de compaixão e ade amor ao próximo! É uma forma de demonstrar amor e cuidado. Já o contrário, o não querer se privar de nada só porque há um celíaco/alérgico dentro de casa, é a demonstração máxima de individualismo e egoísmo… e que infelizmente ainda acontece muito por aí…

Criar crianças celíacas em ambientes glutenados é mostrar desde cedo que o mundo é cruel, hostil e perigoso. É mostrar que, se nem dentro do lar não há segurança e proteção, em nenhum lugar haverá! É mostrar que se nem a própria família se importa, mais ninguém se importará! E eu aposto que não é nada disso que uma família amorosa pretende ensinar às suas crianças…

Para isso, é importante que haja aceitação da condição celíaca por toda a família, para que a própria criança / adolescente se aceite e aprenda a conviver com sua característica. Até porque, a celíaca é uma condição genética, assim como a cor da pele, dos olhos ou dos cabelos. Pais que possuem olhos escuros, podem ter filhos de olhos claros, se possuírem o gene para olho claro, e isso seria uma anomalia? Não, é apenas uma característica. Com a celíaca também é assim. A diferença é que na celíaca, houve o disparo de uma doença pelo contato constante com o inimigo, o glúten. Sem glúten, não há doença! Aliás, como estamos falando de uma característica genética, é possível que os outros membros da família não desenvolvam a doença, mas há grandes chances que possuam a genética celíaca e não há nenhuma garantia que a doença não vá se manifestar em outro momento, inclusive na velhice.

E por falar em genética celíaca, outra coisa que merece ser mencionada é que infelizmente muitas mães se sentem culpadas por terem “transmitido” a condição celíaca a seus filhos e sofrem com esse pensamento. Isso quando o pai ou outros membros da família não reforçam tal pensamento / culpa! Bem triste tal situação! Mas o que eu gostaria muito de chamar a atenção é que em genética, não há culpa! Há apenas a transmissão de características inerentes às famílias e quando há um celíaco diagnosticado, podem ter certeza de que por trás dele há toda uma família celíaca! Tanto o pai quanto a mãe, assim como avós e bisavós, paternos e maternos, podem ter a genética compatível com a celíaca e isso não é motivo para sentimento de culpa ou julgamentos, da mesma forma que a transmissão de genes referentes a cor da pele, cabelo, olhos ou mesmo a transmissão de genes que favorecem o surgimento de outras doenças, como diabetes ou câncer, também não são! Muitos familiares de um celíaco, inclusive podem ter morrido por complicações de uma DC não diagnosticada, sem que tenham tido a chance de receber o tratamento adequado e os parentes próximos deveriam aproveitar e fazer seus exames, para saber se também não são celíacos e prevenirem complicações desnecessárias, como osteoporose, anemia, e até mesmo câncer de intestino.

Aliás, outra coisa que merece destaque, é que muitos familiares que fizeram seus exames e respiraram aliviados ao saber que não são celíacos, devem repeti-los de tempos em tempos, já que a doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade, a qualquer momento e sem aviso prévio. E antes que alguém diga que isso é “praga” que eu to rogando (rsrsrsrs), já vou avisando que isso é GENÉTICA, pois se a condição celíaca está presente (ou seja, genes incompatíveis com o glúten), a doença (causada pelo consumo de glúten) pode aparecer a qualquer hora…

 

Eu já cortei o glúten da minha alimentação. Por que preciso de Nutricionista?

Essa é uma dúvida muito recorrente entre celíacos, sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo. Como a dieta livre de glúten é o único tratamento reconhecido pela comunidade científica e realmente eficaz nessas condições, é comum que as pessoas acreditem que a exclusão pura e simples dos alimentos fontes de glúten seja capaz de resolver todos os seus problemas…

Só que não…

Esse material que elaborei para a Fenacelbra, mostra que a exclusão de glúten é apenas o primeiro passo na caminhada em busca de mais saúde e qualidade de vida! http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/blog/2013/03/23/cartilha-10-passos-para-a-alimentacao-do-celiaco/

Infelizmente a maior parte dos diagnósticos tem sido feita tardiamente, geralmente após anos de “peregrinação”. Quanto mais tarde o diagnóstico e quanto mais tarde o início da exclusão de glúten (e da implantação de cuidados em relação a contaminação cruzada), mais lenta tende a ser a melhora no quadro clínico. Tal fato se agrava se a alimentação antes do diagnóstico era cheia de alimentos industrializados (processados e ultraprocessados), altamente calórica, cheia de aditivos químicos, sal, açúcar e gordura, porem muito pobre em nutrientes e muito pior fica, se na exclusão de glúten só lembramos dos substitutos a base de farinhas sem glúten e esquecemos da “comida de verdade”!

As Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG) e principalmente a Doença Celíaca (DC) causam inflamação (no caso da DC, há inflamação e atrofia da mucosa intestinal, onde os nutrientes são absorvidos) e má absorção de diversos nutrientes. Quanto mais tempo de deficiência nutricional, e quanto mais graves estas deficiências, mais lenta será a recuperação e ainda assim, para que ocorra uma recuperação completa, muitas vezes é necessário, além da dieta, a suplementação de micronutrientes (vitaminas e minerais), de aminoácidos (como glutamina e/ou arginina) e de probióticos.

As deficiências nutricionais podem causar diversos tipos de anemia (dependendo do nutriente mais prejudicado – ferro ou vitamina B12 ou ácido fólico), cãibras, dores musculares, fadiga, alterações no paladar, queda da imunidade contra vírus e bactérias, prejuízos na cicatrização de feridas, infertilidade, alterações na função tireoidiana, dificuldade de concentração, diminuição da memória e até mesmo alterações neurológicas mais sérias.

O Nutricionista, é o profissional certo para avaliar essas deficiências nutricionais, seja através de exames laboratoriais, seja atraves da avaliação de sinais e sintomas (já que algumas não aparecem em exames de sangue, ou quando aparecem é porque o nível de deficiência está bem crítico) e através da análise dos hábitos alimentares. A partir daí é possível traçar estratégias para reverter tais deficiencias e prevenir que elas retornem no futuro.

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Através da alimentação / suplementação também é possível acelerar a recuperação da mucosa intestinal dos celíacos, diminuindo o risco da persistência das deficiências e diminuindo também o risco de surgirem hipersensibilidades alimentares decorrentes das alterações na permeabilidade intestinal, sempre presente na DC.

Caso as DRG venham acompanhadas de outras alergias/hipersensibilidades alimentares (alergia ao leite de vaca ou a soja ou a outros grãos, por exemplo) ou intolerâncias (intolerância a lactose ou aos Fodmaps, por exemplo), o Nutricionista também é o profissional certo para adequar o planejamento alimentar e indicar suplementação, se for necessário.

Sem falar aqueles que ainda ganham peso excessivo ou aumentam muito o acumulo de gordura abdominal após a exclusão do glúten. estas pessoas, além de possivelmente continuarem com as deficiências nutricionais, estão mais sujeitas à síndrome metabólica, com alterações na pressão arterial, resistência insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, etc…

Mas é importante alertar sobre a necessidade de continuidade do tratamento! Numa única consulta é impossível fazer todas as adequações necessárias e mesmo que seja possível, é necessário acompanhar a evolução (e a melhora) de cada parâmetro avaliado e da melhora do paciente como um todo!

 

Dieta sem lactose ajuda a emagrecer?

Depende!
Primeiro é importante analisar o que se entende por “sem lactose”, ou melhor dizendo, “o que cada um entende por sem lactose”…

1) A grande maioria dos produtos “sem” ou “zero” lactose disponíveis no mercado na verdade recebe adição da enzima lactase, que quebra a lactose em 2 açúcares menores: a glicose e a galactose. Ou seja, continuam sendo laticínios, porém com uma das etapas da digestão,  antecipada. Só isso.

Lactose e lactase
Mas muita gente entende que se é sem lactose é porque é sem leite…. Mas não é

zero lactose
2) Nos últimos anos a lactose tem sido muito mal vista e tem sido excluída da alimentação de muita gente. Dieta sem lactose virou sinônimo de dieta saudável. Mas será q realmente é?
Novamente a resposta é. .. Depende!

Realmente existe uma tendência (regulada geneticamente) da produção da enzima lactase diminuir ano apos ano, a partir do momento do desmame e muitas pessoas não se dão conta disso porque não apresentam episódios frequentes de diarreia, por exemplo. Mas podem apresenta e gases e distensão abdominal. Aí obviamente, ao trocar a versão comum dos laticínios pelos zero lactose, haverá uma diminuição de circunferência abdominal e melhora do desconforto. Algumas pessoas até relatam que “perderam a barriga”. Mas efetivamente não houve emagrecimento.
Mas esse efeito provoca uma sensação de bem estar e muitas pessoas acabam acreditando que emagreceram. E aí começa o risco do exagero…

Geralmente o que seduz nesse tipo de produto, é a palavrinha mágica “ZERO”. Lá no nosso inconsciente, o “zero” soa como algo que é permitido, que é de livre consumo e que não trará nenhum prejuízo, pois durante muitos anos fomos bombardeados com as propagandas dos produtos “zero açúcar” e “zero gordura”. Nesse pensamento, se açúcar e gordura são coisas “ruins”, logo, se um produto contém “zero do que é ruim”, necessariamente ele será bom! Só que não…

E os “zero lactose”, produtos que foram criados para atender a uma demanda específica da população: pessoas com algum grau de intolerância a este carboidrato, mas que não necessariamente estejam precisando de perder peso, ou restringir calorias.

Também é importante lembrar que os laticínios, apesar de nutritivos, constituem muito mais um hábito de consumo do que uma necessidade, pois é possível obter os mesmos nutrientes por outras fontes alimentares. Durante milhões de anos o único leite que serem humanos tomavam era o leite materno. Somente depois do advento da agricultura e da domesticação dos animais é que os laticínios como os queijos, manteiga e leites fermentados começaram a ser consumidos pelos humanos.

Mas vamos analisar aqui: pra serve, verdadeiramente o leite? Para nutrir, hidratar e proteger os filhotes e faze-los crescer depressa. Para isso, cada espécie produz um leite de acordo com as necessidades de seus filhotes.
A espécie humana é a única que consome leite de outras espécies e exatamente por isso muitos bebês desenvolvem alergia a este alimento. São proteínas estranhas entrando em contato com um trato digestivo ainda imaturo, muitas vezes incapaz de distinguir o que é comida do que não é, pois os milênios de evolução, “ensinaram” que o único leite que é “comida” é o leite materno.

Fora isso vem a questão seguinte: para fazer o filhote crescer depressa, o leite precisa ativar fatores de crescimento como o hormônio insulina e o fator de crescimento semelhante a insulina (IGF1), para estimular a síntese proteica, a absorção de glicose e a produção de gordura e energia. Isso num filhote/bebê é excelente! Significa que o leite está cumprindo sua função. Isso em adultos que estão pretendendo aumentar a massa muscular, é excelente e em pessoas desnutridas ou que necessitam acelerar a cicatrização de uma ferida ou cirurgia, é perfeito!
Mas pensando em pessoas que estão acima do peso, que possuem hiperinsulinemia, resistência insulínica (vide meu post sobre SOP) e pré diabetes ou mesmo diabetes tipo II, é um péssimo negócio! Se leite (a tudo que o contém) aumenta insulina e se há necessidade de baixa-la, temos aí um “conflito metabólico”!

Significa que essas pessoas não podem tomar leite nunca? Claro que não. Mas o problema é a empolgação com os zero lactose e falsa impressão de que podem ser consumidos livremente….
Por isso a orientação de um Nutricionista é fundamental! Para que as quantidades e a frequência sejam ajustadas, para que outras opções sejam disponibilizadas e para que a alimentação cumpra seu papel como agente de nutrição e de promoção da saúde!
Ah! E nem falei da relação das proteínas lacteas com a doença celíaca e as outras doenças autoimunes. Mas fica pra um próximo post!

Pra que serve o desafio do glúten?

O desafio do glúten é feito com o objetivo de inflamar o intestino, a ponto de causar lesões e atrofia da mucosa no duodeno (a primeira parte do intestino delgado), depois de “acordar” o sistema imune para que ele volte a agredir o próprio corpo. Em outras palavras, o desafio do glúten estimula a auto-destruição.

É, é “punk”, é puxado, é difícil… e falo isso pq eu mesma não quis faze-lo, principalmente por saber exatamente o que me aconteceria a cada fatia de pão ingerido, pois quando me foi sugerido faze-lo eu ja sabia o tanto q o glúten me deixava mal e já estava há uns 6 meses sem ele e me sentindo muito bem.

Mas em alguns casos ele é necessário, pois pode ser a unica maneira de fechar o diagnóstico de Doença Celíaca ou para descartá-la e ajudar o médico a pensar em outras hipóteses, como a sensibilidade ao glúten não celíaca ou mesmo outras doenças que não tem nada a ver com o glúten.

dor de barriga

Esse desafio (o qual ja falamos aqui) nem deveria ser necessário e eu particularmente acho-o extremamente agressivo ao corpo e é um “tiro no pé” no sentido de diminuir a qualidade de vida e o bem estar, que a essa altura, certamente já estava bem melhor.

E se é tão ruim assim, pq ele é indicado pelos médicos e pela literatura cientifica?

Bom, ele não seria necessário se as pessoas não estivessem cortando o glúten indiscriminadamente por conta propria e se muitos profissionais de sapude tivessem o cuidado de solicitar os exames na mesma ocasião em que pedem ao paciente para iniciar a dieta sem glúten, quando avaliam que a mesma é necessária.

Mas qual o problema de não consumir glúten? Nenhum! Isso é fato. Ninguém depende do glúten para ter uma boa nutrição e aquela história de que cortar o glúten pode causar deficiencias nutricionais é besteira! Somente uma pessoa com uma alimentação extremamente pobre e dependente de trigo (o que não é nada saudável) poderia se prejudicar desta exclusão “sem necessidade”, mas mesmo assim, o problema estaria nos hábitos alimentares errados e não na exclusão das fontes de glúten…

Mas comer sem glúten é muito diferente de “viver sem glúten”, como já expliquei nesse post aqui e é aí que mora o perigo!

Muitas pessoas não ingerem glúten porque se sentem melhor assim, mas por não terem um diagnóstico “formal”, se permitem sair da dieta quando tem vontade, descuidam da contaminação cruzada e a própria família acaba não levando o caso a sério e isso é o caminho mais curto para diversas complicações, como o surgimento de outras doenças autoimunes, alergias alimentares diversas, osteoporose, infertilidade, problemas neurológicos decorrentes de deficiencias nutricionais e o pior de tudo: um risco 10 vezes maior de linfoma e de outros tipos de câncer no aparelho digestivo.

A grande questão é: enfrentar o desfio do glúten para ter um diagnóstico? Ou “assumir” que possui alguma desordem relacionada a esta proteína (considerando toda a melhora já observada e a própria dificuldade em conseguir manter o desafio do glúten, além de outros exames que possam fornecer algumas pistas sobre o paciente, como o teste genético para Doença Celíaca) e passar a “viver sem glúten” para sempre? Essa é uma decisão que cabe a cada um e deve ser conversada com o médico, já que cada caso é um caso.

Mas acho importante alertar do que se trata o desafio e alertar as pessoas que evitem excluir o glúten sem fazer exames antes, justamente pela dificuldade de se fazer o caminho inveso, na busca por um diagnóstico.

Intolerância ao Glúten existe mesmo?

A resposta é SIM e NÃO…

Perdi a conta de quantas vezes tentei explicar o porque não se falar mais em “intolerância ao glúten”, então, como sempre, resolvi escrever um post…

Durante muitos anos, desde que o glúten foi identificado com o agente “causador” (ou gatilho) que a Doença Celíaca (DC) foi chamada de “Intolerância ao Glúten” e (infelizmente) ainda é assim que o Ministério da Saúde a chama na segunda edição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para DC, publicado esse ano. No Consenso de Oslo, publicado em 2012, já havia uma recomendação para que nenhuma das Desordens Relacionadas ao glúten fosse chamadas apenas de intolerância.

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

E por que essa preocupação? Não de trata de uma intolerância???

Sim e Não. Confuso? Um pouco, mas explico melhor.

Uma das primeiras hipóteses para explicar a DC era a de que celíacos possuíam uma deficiencia enzimática, logo o glúten não era digerido e isso provocava os sintomas. Mas posteriormente, outras pesquisas demonstraram que esse era um raciocínio simplista demais para explicar o quadro clínico e as lesões na mucosa intestinal. A medida que as técnicas avançaram, que os anticorpos (antigliadina, antiendomísio e antitransglutaminase) foram descobertos e com o uso da endoscopia com biópsia de duodeno, os pesquisadores viram que na verdade a DC era uma doença autoimune, na qual, a tentativa do sistema imunológico de destruir o glúten (com a produção do anticorpo antigliadina) gerava mais dano ao organismo, que passo a passo ia se autodestruindo, literalmente, ao produzir os anticorpos antiendomisio e antitransglutaminase, que atacam diretamente as estruturas presentes no intestino (e podem afetar outros órgãos, como acontece na ataxia do glúten, na qual os anticorpos antitransglutaminase atacam estruturas cerebrais).

Chamar a DC e outras DRG de “intolerância” leva a uma grande confusão e faz com que as pessoas minimizem a gravidade do problema e não se cuidem corretamente. Não são raros aqueles que já chegam dizendo “eu SÓ tenho intolerância ao glúten, e não preciso de tantos cuidados com a dieta”, pois pensam que é uma condição semelhante à intolerância a lactose (IL), por exemplo e é aí que a coisa complica e os riscos aumentam. Na DC já se sabe que se a dieta não é feita corretamente, há um risco muito maior da doença evoluir para a forma refratária (que necessita não só da dieta como também de medicamentos imunosupressores), do surgimento de outras doenças autoimunes como Diabetes tipo I, Tireoidite de Hashimoto, Lupus, Artrite, etc e câncer de intestino. Já dentre os riscos da alergia ao trigo, o mais grave e que pode levar à morte em questão de minutos é a anafilaxia. E como ainda não se sabe quais os riscos associados a SGNC, os pesquisadores recomendam que se tenha o mesmo cuidado que com a DC.

Na IL há uma intolerância do organismo a esse carboidrato (a lactose) porque a produção da enzima (lactase) necessária a sua digestão está sendo insuficiente. Com isso, a lactose não é digerida e fica na luz intestinal, onde é fermentada por bactérias, gerando gases, desconforto e (nem sempre), diarréia. Mas passado o mal estar, e desde que não se volte a consumir lactose, as coisas voltam a um certo grau de normalidade (não vou entrar aqui em detalhes a respeito das alterações na microbiota ou flora intestinal – isso fica pra outro post) e o mal estar passa.

Lactose e lactase

Mas quando estamos falando de uma proteína complexa como o glúten (que de fato, não é bem digerida por NINGUÉM), a intolerância ocorre num nivel muito maior de complexidade, pois trata-de se intolerância IMUNOLÓGICA. Ou seja, aqui é o sistema imune (nosso sistema de defesa) que dá o alarme após detectar que há algo errado e é ele mesmo que parte com tudo pra cima do “inimigo” ( glúten). Na IL, o sistema imune nem tem ciência do que está acontecendo e por isso, os sintomas e suas consequencias, apesar de bem desagradáveis, em geral não costumam ser graves (a não ser quando a diarreia chega ao ponto de causar desidratação, por exemplo).

Já nas Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG), principalmente na DC, se o sistema imune é chamado, as reações serão graves e imprevisíveis. Mal comparando, seria como se tentássemos matar um mosquito usando uma granada… obviamente, numa situação hipótetica dessas, o mosquisto até seria morto, mas tudo a sua volta seria destruído (e provavelmente quem detonou a granada, também!). E é bem assim que as coisas funcionam em nosso corpo… se temos DC e ingerimos glúten, nosso corpo tenta “matar o mosquito” (o glúten) usando uma granada e é aí que a coisa complica pro nosso lado, pois nosso intestino vai sendo destruído junto (os anticorpos antitransglutaminase, que pedimos pra dosar no sangue, são os marcadores da granada que foi detonada).

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Essa figura demonstra como as lesões intestinais progridem, desde o início do processo inflamatório (1) até a completa atrofia da mucosa (4)

Mesmo nas “intolerâncias” mediadas por IgG, que algumas pessoas consideram mais leves, há reações imunológicas, que não podem, nem devem ser menosprezadas! Quando estes exames positivam, significa que está ocorrendo um aumento de permeabilidade no intestino e que proteinas alimentares não digeridas estão entrando em contato com o sangue e com o sistema imune, logo, o mesmo reage produzindo anticorpos, avisando que já detectou o “invasor” e estão tentando destruí-lo. Nesse caso, sem o resultado da biópsia duodenal, não há como saber se está ocorrendo lesões no intestino e muitas vezes, os anticorpos positivam antes que tais lesões ocorram… se excluimos o glúten nesse momento, podemos prevenir o surgimento de tais lesões.

A Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC) muitas vezes também é chamada de “intolerância ao glúten” e aqui, definir se é ou se não é fica um pouco mais complicado, pois as evidenciacis científicas mostram que pode ser o glúten o agente causal dos sintomas (e da positivação de anticorpos) na SGNC, mas também outras proteínas existentes no trigo e em outros cereais (como as proteínas inibidoras da alfa amilase e da tripsina), ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra) presentes nos cereais (e em outros alimentos). Aqui, se pudessemos ter certeza absoluta (coisa praticamente impossível até o momento) de que os frutanos do trigo estão por trás dos sintomas, aí sim, poderíamos falar em intolerância (pensando no exemplo da IL), pois como fibras são carboidratos e como o trato gastrointestinal humano não produz enzimas capazes de digeri-las, logo estamos diante de uma situação semelhante a que ocorre na Intolerancia a lactose: ausencia de uma enzima, dificuldade em digerir um carboidrato e sintomas decorrentes disso tudo.

Entretanto, muitas vezes os sintomas não costumam ser um bom parâmetro para avaliar a extensão das lesões (voltando a questão da produção de autoanticorpos)… é só lembrar que existe a DC ASSINTOMÁTICA, com as mesmas lesões (ou até mais graves) que a DC sintomática…

Na IL, a ingestão de pequenas doses de lactose (como as que estão presentes num comprimido, por exemplo), não causam reação na maior parte das pessoas (geralmente os sintomas percebidos estão relacionados ao medicamento em si e não a lactose do comprimido, que é usada apenas para “dar peso”). Já nas DRG não existe a possibilidade de ingerir “só um pouquinho”! Achar que “só um poquinho não me fará mal porque SÓ tenho intolerância” é uma grande ilusão que a longo prazo só trará problemas!

Então, minha gente, não caiam no conto da intolerância!!! E sempre que algum profissional de saúde falar em “intolerância ao glúten”, na realidade ele está se referindo a “INTOLERÂNCIA IMUNOLÓGICA AO GLÚTEN”!!!

Exames para diagnóstico da Doença Celíaca e da Sensibilidade ao Glúten

As dúvidas em relação aos exames para diagnóstico da DC (doença celíaca), da SGNC (sensibilidade ao glúten não celíaca e da AT (alergia ao trigo) são constantes em todos os grupos que participo no Facebook, então, resolvi reunir todas as informações num único post, apesar de já ter falado sobre eles em posts anteriores sobre as Desordens Relacionadas ao Glúten.

É sempre importante lembrar que o diagnóstico deve ser feito por um médico (preferivelmente um gastroenterologista), entretanto, a título de não atrasar a vida do paciente, os anticorpos podem ser solicitados por Nutricionista (que deverá encaminhar o paciente ao médico, para que o diagnóstico seja fechado corretamente) ou por médicos de qualquer especialidade, sempre ANTES DA EXCLUSÃO DO GLÚTEN (ou na pior das hipóteses, junto com o inicio da dieta, para evitar que os resultados sejaam influenciados pela mesma)!

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

Doença Celíaca (sugiro a leitura do Protocolo Clínico do SUS – versão 2015 e do Consenso de Oslo)

GENÉTICO (HLA DQ2 E DQ8): Avaliam a predisposição genética para desenvolver DC, mas sozinhos não dizem se a doença esta ativa ou não. Para faze-lo não é necessário estar consumindo glúten e seu resultado nunca mudará pois não há como mudar nossos genes. Somente um pequeno percentual de celíacos não os possui. Costuma ser utilizado quando o paciente já deixou de consumir glúten há bastante tempo e não consegue levar adiante o desafio do glúten (já falei sobre isso aqui)

ANTICORPO IGA ANTITRANSGLUTAMINASE : para diagnóstico é necessario estar consumindo glúten normalmente. Mostra que o corpo está reagindo ao glúten, destruindo a mucosa intestinal e deixando de absorver nutrientes importantes. É necessário correlacionar este resultado com o IgA total, pois na deficiencia de IgA este exame vai negativar.

ENDOSCOPIA COM BIÓPSIA DE DUODENO: Mostra o grau de lesões do intestino delgado e o resultado deve vir classificado de acordo coma Escala de Marsh (figura abaixo) – o zero da escala é quando a mucosa está normal e não há nenhum tipo de lesão, os graus 3 e 4 são os estágios mais avançados de inflamação e atrofia da mucosa, com grave prejuizo na absorção dos nutrientes. É considerado o padrão ouro para o diagnóstico, mas para ter um resultado confiável, é necessario estar consumindo glúten normalmente e o material para a biopsia precisa ser colhido em pelo menos 4 locais diferentes do duodeno (se fizer de 6 ou 8, melhor ainda). Mas é importantíssimo chamar a atenção que o exame precisa ser solicitado corretamente, pois somente a endoscopia que avalia esôfago e estômago e somente a BIÓPSIA DE ESTOMAGO NÃO MOSTRAM LESÃO DE DC!

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Alergia ao Trigo:

Os testes de alergia avaliam a produção de anticorpos da classe IGE específicos para o trigo. Há os testes feitos na pele (Prick test) e o teste sorológico (Rast). Entretanto, convém lembrar que até 25% dos resultados podem apresentar resultados falso negativo, pelos mais diversos motivos. Assim, para fechar o diagnóstico, o médico precisa considerar os sintomas do paciente, bem como todo seu histórico.

Sensibilidade ao glúten Não Celíaca:

A SGNC só ganhou “status” de doença ou condição clínica a partir de 2011, quando entrou para a lista das Desordens Relcionadas ao Glúten. Entretanto, até o momento, ainda não está claro para os pesquisadores (e não há consenso sobre isso) se de fato é o glúten (ou somente ele) o responsável pelos sintomas, ou se outras proteínas presentes nos cereais, como as lectinas e as proteínas inibidoras da alfa-amilase e da tripsina também estariam envolvidas no processo. E ainda há pesquisadores que atribuem os sintomas a presença de FODMAPs (carboidratos fermentáveis) no trigo. Há casos em que os anticorpos antigliadina (anticorpos contra a prolamina existente no trigo – a gliadina) positivam, mas isso não é uma regra e apenas cerca de 50% dos sensiveis ao glúten possuem a genetica compatível com a DC (nesses casos, há uma forte suspeita de que essas pessoas, se continuarem consumindo trigo, a despeito de seus sintomas, podem se tornar celíacos).

Assim, é praticamente impossível estabelcer um único exame capaz de avaliar tantas variaveis envolvendo o trigo/glúten e até o momento, o diagnóstico por exclusão das outras desordens (DC e AT) continua sendo o método preconizado pelos pesquisadores. Nesse caso o que se faz é:

Exames com resultados negativos ou inconclusivos + sintomas associados a ingestão de trigo/glúten + melhora com a dieta de exclusão + piora com a re-introdução = SGNC.

Mas aqui chamamos a atenção para o seguinte: a dieta precisa ser feita corretamente, e devidamente orientada por um Nutricionista, para que o resultado da avaliação seja confiável.

Comer sem glúten não é frescura!

Comer sem glúten para muita gente é caso de primeira necessidade, é a única opção para recuperar e manter a saúde e viver com qualidade de vida!

Depois que a dieta sem glúten passou a ser divulgada pela mídia, como a “nova moda entre as celebridades“, comer sem glúten parece que tornou a nova “frescura alimentar” e quem depende desta dieta pra sobreviver acaba sendo visto como “chato”, “fresco”, “enjoado” e coisas piores. Não quero aqui fazer nenhum tipo de julgamente àqueles que deixaram o glúten por opção! Muito pelo contrário, acho que as pessoas devem ter liberdade de escolher o que e como querem se alimentar! tanta gente por aí que optou por ser deixar se comer açúcar ou carne e nem por isso é tão julgado quanto os que optaram por deixar o glúten. Mas o que quero chamar a atenção neste post são as necessidades alimentares de quem NÃO PODE sob nenhum pretexto consumir aliementos contendo glúten.

Photo © 2012 The Grosby Group - Feb 7, 2012- Greedy Arctic Squirrel-
Photo © 2012 The Grosby Group – Feb 7, 2012- Greedy Arctic Squirrel-

A gente acaba acostumando e se adaptando bem, mas uma coisa que tenho reparado é que sempre que sou “nova” em algum lugar, grupo ou situação, rapidamente ou me torno o “ET“, que desperta a curiosidade de todos (e aí me sinto como um ratinho de laboratório, cujos menores movimentos são monitorados o tempo todo), como se o fato de viver 100% livre de glúten fosse provocar o nascimento de um chifre de unicórnio bem no meio da minha testa ou como seu eu fosse mudar de cor, ou sei lá o que… isso quando alguém não vem com aquela famigerada pergunta: “mas como é que você consegueeee?” Afffff… (pausa pra respirar e contar até 10 antes de responder, pra saia uma resposta minimamente educada).

Ou então, me sinto ser olhada com um certo desdém ou com aquele ar desconfiado de “ela está exagerando… glúten não faz tão mal assim“, ou “lá vem a chata que não come glúten“…

Mas nada disso consegue ser pior do que aquele ar de comiseração seguido de comentários do tipo: “que pena! tanta coisa gostosa e você não vai poder comer nada, né?“… juro que com esses me dá vontade de esquecer toda a educação que mamãe me deu e dizer o que acho que a pessoa deve fazer com tanta “coisa gostosa”, mas como geralmente não quero me aborrecer, apenas respiro fundo e faço cara de paisagem, fingindo que não ouvi…

Mas é chato, muito chato!

E por isso, resolvi desta vez fazer um post com cara de desabafo, mas não menos informativo que os posts anteriores.. Desabafo, porque ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, Nutricionistas não se alimentam apenas de nutrientes ou de cápsulas! Nutricionistas comem comida (sentimos fome, sabiam?), confraternizam, compartilham refeições, tem lá suas preferências e até mesmo suas aversões alimentares, sentem saudade dos sabores da infância e quando se trata de uma Nutricionista celíaca, talvez essa saudade se intensifique, pois muitas vezes o prato do qual sentimos saudade, é exatamente aquele que está bem diante dos nossos olhos (e narizes) nas reuniões de família: é o bolo de cenoura da tia, o pudim de leite feito pela mãe (é… esqueci de dizer que além de celíaca eu também tenho intolerância a lactose e se não bastasse, tenho também alergia às proteínas do leite de vaca), o frango empanado da avó, entre tantas outras coisas…

Comer não é apenas um ato fisiológico de saciar a fome… isso qualquer animal é capaz de fazer.

Mas se alimentar, nutrir-se também de momentos, da cultura e da história por trás de cada prato, nutrir-se da companhia da família e dos amigos, celebrar acontecimentos… tudo isso envolve comida… CO-ME -MO-RAR …

Imagem da internet
Imagem da internet

E quando descobrimos que nossa alimentação não poderá mais ser como antes, não estamos falando apenas uma troca de ingredientes… estamos falando de mudanças profundas em hábitos arraigados, que terão seu impacto na nossa vida familiar, social e até mesmo profissional…

Mas não queremos que o mundo se torne celíaco ou sensível ao glúten só por nossa causa. Queremos sim, que as pessoas se tornem sensíveis à nossa causa e as nossas (novas) necessidades.

Não! Não fazemos questão de um bolo só pra gente que custou “os olhos da cara” ou de um tapete vermelho, convite especial ou de um jantar preparado pelo chef Claude Troigros (seria super bem vindo, pois sou fã assumida dele, mas confesso que nem assim eu arriscaria sem antes ter certeza de que ele tomou todos os cuidados em relação à contaminação cruzada)… fazemos questão sim, de não sermos excluídos das comemorações, de não termos que ouvir piadinhas, nem aturar olhares tortos, de desaprovação ou mesmo de pena. Pena, então, é terrível!

Queremos nos sentir incluídos, queremos saber que gostam tanto de nós, e que nossa companhia é mais importante que qualquer salgadinho ou fatia de bolo. Até porque, muitas vezes tentando agradar, algumas pessoas bem intencionadas nos prejudicam e ainda ficam chateadas se falamos isso abertamente… mas é fato que nós (celíacos, sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo), não podemos comer um bolo que foi batido por uma batedeira usada para fazer bolos de trigo, não podemos comprar nada numa padaria, onde há farinha de trigo por todos os lados, nem podemos comer algo preparado num ambiente onde se manipula farinha de trigo (como é a casa de quase todas as pessoas, principalmente de quem costuma fazer bolos).

A farinha de trigo é um pó muito fino, que pode permanecer em suspensão, no ar, por mais de 24 horas! E ao se depositar nas superfícies, contamina tudo, podendo desencadear sintomas e pior, ativar nosso sistema imunológico que estava adormecido. Pior ainda acontece com os alérgicos, que podem ter um choque anafilático só de entrar numa padaria pra pedir uma informação! Simplesmente porque a inalação da farinha em suspensão no ar é detectada por seu sistema imune, desencadeando uma grave crise alérgica, que sim, pode matar!

Também não podemos nos dar ao luxo de comer em utensílios mal lavados (ou lavados com a mesma esponja que está cheia de residuos de trigo), nem em comer em restaurantes cuja comida foi temperada com condimentos industrializados, que levam trigo na composição. Também não podemos comer a farofa que foi feita com a manteiga do mesmo pote onde todos que comem pão se servem. Nem podemos comer feijão com caldo engrossado com farinha, ou o hamburguer que levou farinha de rosca pra “dar liga” ou mesmo comer o arroz ou a farinha de mandioca guardados no mesmo pote onde a vovó guardou o “pãozinho de Santo Antonio”… aquele pãozinho que muitas famílias católicas tem em casa, pra que nunca falte comida!

Precisamos de comida segura e gostosa. Só isso. Geralmente preparada por nós mesmos ou por alguém que passa pela mesma situação ou compreende as mais suaves nuances de todo o problema, já que conseguir comida segura na rua é quase uma missão impossível! E quando alguém que entende estas nuances prepara nossa comida, tomando todos os cuidados necessários e tempera com carinho… aí é algo que não tem preço!

Eu sei, é complicado e muita gente se sente desmotivada a seguir a dieta e se permite cometer uns deslizes, principalmente se o emocional não está lá muito bom. Pra esses casos (do emocional fragilizado), buscar ajuda terapêutica é a melhor opção… nada como ter alguém pra nos ajudar a segurar a barra de tantas mudanças em tão pouco tempo e para nos ajudar a encontrar soluções e força dentro de nós mesmos.

E qual a vantagem de tanto cuidado com a alimentação? A vantagem e até mesmo ironia, é que aí apesar de termos uma doença crônica, que os acompanhará pro resto da vida, seremos mais saudáveis do que nunca! E nada paga a sensação de estar se sentindo bem, de ter energia, de não sentir dores e de saber que nosso risco de adoecer gravemente foi reduzido drasticamente, porque ter doença celíaca e não tratar, é o caminho mais curto para desenvolver complicações como outras doenças autoimunes mais difíceis de serem tratadas, infertilidade, anemia, osteoporose e o pior de tudo: linfoma intestinal (o risco é 10 vezes maior que o das outras pessoas).

Imagem do site www.riosemgluten.com
Imagem do site http://www.riosemgluten.com

Então, a vida segue… quando percebemos o quanto temos a ganhar com a dieta, os olhares tortos, os comentários desagradáveis, as caras feias perdem importância. Deixamos pra lá, porque nada paga a nossa qualidade de vida.

E aqueles que conseguem compreender nossas necessidades e dificuldades, aqueles que não nos julgam, e que ainda se esforçam pra ajudar de alguma forma, esses, sobem no nosso conceito e terão nossa gratidão eterna!

Existe cura para a Doença Celíaca?

De tempos em tempos esse assunto (a cura da Doença Celíaca) volta à tona, então achei melhor escrever um post aqui no blog.

Imagem do site www.riosemgluten.com
Imagem do site http://www.riosemgluten.com

1) NÃO existe cura para a DC (cura no sentido de revertê-la e voltar a consumir glúten como antes do diagnóstico). A DC resulta de uma combinação de fatores genéticos e ambientais, além da ingestão continua de glúten. Como não é possível mudar a genética (quem sabe numa próxima vida?), a única alternativa é mudar a alimentação;

2) A dieta isenta de glúten (e de contaminação) deve ser bem feita e levada a sério por toda a vida;

3) Não se iludam com tratamentos alternativos, Eles até podem amenizar os sintomas (da mesma forma que meditar, fazer orações, yoga ou qualquer outra coisa que ajude a controlar o estresse), mas não mudam a genética e não curam a DC. Uma vez que a autoimunidade é “acordada”, ela nunca mais volta a dormir… na melhor das hipóteses, fica apenas quietinha, mas esperando a primeira oportunidade para voltar à ativa;

4) A vontade de comer (qualquer coisa) passa. Já as (graves) consequências da DC não levada a sério nos acompanham até o túmulo e até encurtam nosso caminho até ele!

5) Evitar o glúten por opção não faz ninguém virar celíaco, alérgico, ou sensível a esta proteína! O que acontece é que muita gente tem alguma desordem relacionada ao glúten e NÃO SABE (simplesmente porque nunca pesquisou) e aí quando faz a dieta melhora e ao voltar a consumir, os sintomas ficam mais evidentes.

A dica, é fazer os exames o quanto antes!

Quer saber mais sobre a DC e as demais desordens relacionadas ao Glúten? Da uma olhada neste post, neste, neste, neste, neste, nesteneste, neste, neste, neste, neste e neste.

Em tempo: De fato, algumas equipes estão trabalhando no desenvolvimento de medicações, enzimas e vacinas, que permitam no futuro (esperamos que não seja um futuro tão distante assim) a cura ou ao menos, a minimização de sintomas em caso de exposição (acidental) ao glúten. Mas no momento, nada disso ainda está acessível e é bom desconfiar de qualquer coisa (ou profissional) que venha com esse papo de cura.