Dieta sem lactose ajuda a emagrecer?

Depende!
Primeiro é importante analisar o que se entende por “sem lactose”, ou melhor dizendo, “o que cada um entende por sem lactose”…

1) A grande maioria dos produtos “sem” ou “zero” lactose disponíveis no mercado na verdade recebe adição da enzima lactase, que quebra a lactose em 2 açúcares menores: a glicose e a galactose. Ou seja, continuam sendo laticínios, porém com uma das etapas da digestão,  antecipada. Só isso.

Lactose e lactase
Mas muita gente entende que se é sem lactose é porque é sem leite…. Mas não é

zero lactose
2) Nos últimos anos a lactose tem sido muito mal vista e tem sido excluída da alimentação de muita gente. Dieta sem lactose virou sinônimo de dieta saudável. Mas será q realmente é?
Novamente a resposta é. .. Depende!

Realmente existe uma tendência (regulada geneticamente) da produção da enzima lactase diminuir ano apos ano, a partir do momento do desmame e muitas pessoas não se dão conta disso porque não apresentam episódios frequentes de diarreia, por exemplo. Mas podem apresenta e gases e distensão abdominal. Aí obviamente, ao trocar a versão comum dos laticínios pelos zero lactose, haverá uma diminuição de circunferência abdominal e melhora do desconforto. Algumas pessoas até relatam que “perderam a barriga”. Mas efetivamente não houve emagrecimento.
Mas esse efeito provoca uma sensação de bem estar e muitas pessoas acabam acreditando que emagreceram. E aí começa o risco do exagero…

Geralmente o que seduz nesse tipo de produto, é a palavrinha mágica “ZERO”. Lá no nosso inconsciente, o “zero” soa como algo que é permitido, que é de livre consumo e que não trará nenhum prejuízo, pois durante muitos anos fomos bombardeados com as propagandas dos produtos “zero açúcar” e “zero gordura”. Nesse pensamento, se açúcar e gordura são coisas “ruins”, logo, se um produto contém “zero do que é ruim”, necessariamente ele será bom! Só que não…

E os “zero lactose”, produtos que foram criados para atender a uma demanda específica da população: pessoas com algum grau de intolerância a este carboidrato, mas que não necessariamente estejam precisando de perder peso, ou restringir calorias.

Também é importante lembrar que os laticínios, apesar de nutritivos, constituem muito mais um hábito de consumo do que uma necessidade, pois é possível obter os mesmos nutrientes por outras fontes alimentares. Durante milhões de anos o único leite que serem humanos tomavam era o leite materno. Somente depois do advento da agricultura e da domesticação dos animais é que os laticínios como os queijos, manteiga e leites fermentados começaram a ser consumidos pelos humanos.

Mas vamos analisar aqui: pra serve, verdadeiramente o leite? Para nutrir, hidratar e proteger os filhotes e faze-los crescer depressa. Para isso, cada espécie produz um leite de acordo com as necessidades de seus filhotes.
A espécie humana é a única que consome leite de outras espécies e exatamente por isso muitos bebês desenvolvem alergia a este alimento. São proteínas estranhas entrando em contato com um trato digestivo ainda imaturo, muitas vezes incapaz de distinguir o que é comida do que não é, pois os milênios de evolução, “ensinaram” que o único leite que é “comida” é o leite materno.

Fora isso vem a questão seguinte: para fazer o filhote crescer depressa, o leite precisa ativar fatores de crescimento como o hormônio insulina e o fator de crescimento semelhante a insulina (IGF1), para estimular a síntese proteica, a absorção de glicose e a produção de gordura e energia. Isso num filhote/bebê é excelente! Significa que o leite está cumprindo sua função. Isso em adultos que estão pretendendo aumentar a massa muscular, é excelente e em pessoas desnutridas ou que necessitam acelerar a cicatrização de uma ferida ou cirurgia, é perfeito!
Mas pensando em pessoas que estão acima do peso, que possuem hiperinsulinemia, resistência insulínica (vide meu post sobre SOP) e pré diabetes ou mesmo diabetes tipo II, é um péssimo negócio! Se leite (a tudo que o contém) aumenta insulina e se há necessidade de baixa-la, temos aí um “conflito metabólico”!

Significa que essas pessoas não podem tomar leite nunca? Claro que não. Mas o problema é a empolgação com os zero lactose e falsa impressão de que podem ser consumidos livremente….
Por isso a orientação de um Nutricionista é fundamental! Para que as quantidades e a frequência sejam ajustadas, para que outras opções sejam disponibilizadas e para que a alimentação cumpra seu papel como agente de nutrição e de promoção da saúde!
Ah! E nem falei da relação das proteínas lacteas com a doença celíaca e as outras doenças autoimunes. Mas fica pra um próximo post!

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Sem lactose é a mesma coisa que sem leite?

Nos últimos anos houve um boom na oferta de produtos “zero lactose” e se por um lado isso tem sido bom para inúmeros intolerantes a lactose, que ganharam mais opções, por outro, gera confusão e por tal motivo pode por em risco a vida de muitas pessoas com alergia às proteínas do leite.

A lactose, como já falei nesse post aqui e nesse é o açúcar do leite. É um dissacarídeo formado pela ligação de 2 açúcares mais simples, a glicose e galactose:

Lactose e lactase

Na intolerância a lactose (IL) há uma diminuição na produção da enzima lactase, a enzima que faz a quebra da ligação, permitindo que a lactose seja digerida e usada como fonte de energia… ou seja, sem lactase, a lactose não pode ser convertida em glicose e nem em galactose.

Os produtos lácteos como leite zero lactose, iogurte e queijos recebem a adição da enzima lactase e sua ação é controlada de forma que toda a lactase seja pré digerida no produto final, mas é importante ressaltar que eles continuam contendo leite como ingrediente principal! E é aí que mora o perigo, pois muitas pessoas com alergia às proteínas do leite, empolgadas com a informação “zero lactose”, esquecem de ler o rótulo e acabam consumindo algo que pode por sua saúde e até mesmo a vida em risco!

zero lactose

Outra questão que merece destaque é que a IL é mais comum em adultos e idosas e raramente afeta bebês e quando afeta o quadro é muito grave e nem o leite materno pode ser consumido! Já a ALV é relativamente comum em bebês, e mesmo bebês alimentados exclusivamente com leite materno. Mas muitas mães, confusas com tanta informação (muitas vezes informação equivocada), são orientadas a excluir os laticínios de sua alimentação, para que possam continuar amamentando seus bebês (que na realidade apresentam alergia as proteínas do leite e não IL) e acabam consumindo produtos zero lactose indevidamente. Muitas pessoas nem sabem que são as proteínas do leite que lhes fazem mal e estranham continuarem tendo sintomas ao fazer uso dos laticinios zero lactose… mas isso já é um indicio de que não devem consumir nenhum tipo de laticínio, seja com ou sem lactose. O mesmo pode ocorrer ao se buscar mais opções para variar a alimentação de crianças com dietas restritas em leite e derivados.

Outro problema que pode ocorrer, e que so contribui ainda mais para aumentar a confusão, é que existem pessoas que possuem as duas condições: IL e ALV! Portanto, é muito importante ler atentamente os rótulos para ter certeza de que o produto realmente não contém nenhum derivado do leite e que, portanto, não causará nenhum tipo de problema!

Cuidado: Alergia a Lactose pode matar!

É isso mesmo que você leu! Alergia a lactose pode matar! Mas mata é pela desinformação e por suas consequências…

Explico: Alergia a lactose não existe, simplesmente porque alergia pressupõe que nosso sistema imunológico esta produzindo anticorpos contra um antígeno qualquer. Em se tratando de alimentos, os antígenos são as proteínas alimentares, não sendo possível (pelo menos não que a Ciência saiba até o presente momento) produzir anticorpos contra carboidratos, como é o caso da lactose.

A lactose é um carboidrato (ou açúcar), mais precisamente um dissacarídeo, pois é formado pea ligação de 2 monossacarídeos. Assim, a lactose é um carboidrato, formado pela ligação de 2 outros carboidratos menores: a glicose e a galactose, e a enzima lactase tem justamente a função de quebrar esta ligação, liberando a glicose e a galactose:

Lactose e lactase

Então, das duas uma: ou se tem intolerância a lactose (IL), que é a falta (ou baixa produção) da enzima lactase (como já expliquei nesse post: https://nutricionistajulianacrucinsky.wordpress.com/2015/05/14/intolerancia-a-lactose-intolerancia-ao-leite-ou-alergia-as-proteinas-do-leite/) ou se tem alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). 

O grande problema, é que muitas pessoas usam (equivocadamente) o termo lactose como sinônimo de leite e aí é que começa a confusão, pois muitos produtos com a alegação “sem lactose”, realmente o são*, porém possuem as proteínas do leite, prejudiciais às pessoas alérgicas a elas. Os quadros de alergia alimentar são sempre mais complexos e podem levar a anafilaxia e morte, coisa que a intolerância a lactose não faz, felizmente.

Assim, é preciso estar atento e procurar saber com o médico qual o diagnóstico correto, se é intolerância a lactose ou se é alergia às proteínas do leite, para que a dieta seja feita corretamente, pois no caso de alergia, TODOS os derivados do leite e todos os produtos contendo traços de leite precisam ser evitados. Na IL, basta reduzir a quantidade de lactose ingerida, pois os traços não costumam causar nenhum tipo de problema.

* Produtos sem lactose podem ser:

  1. Produtos naturalmente isentos de leite (ex: suco de fruta)
  2. Produtos cujo teor de lactose foi reduzido naturalmente durante o processo de fabricação (ex: manteiga, queijos envelhecidos)
  3. Produtos a base de leite, que receberam adição da enzima lactase (ex: leites zero lactose, iogurtes zero lactose, etc)

Intolerância a lactose, intolerância ao leite ou alergia às proteínas do leite?

Em muitos estudos científicos, a ALV (alergia ao leite de vaca) é também chamada de “Intolerância ao leite de vaca” (do inglês; “intolerance of cow’s milk”). Apesar de muitos autores utilizarem esta expressão nos artigos, geralmente o foco da pesquisa são as reações alérgicas. Assim, é muito importante, ao traduzirmos tais artigos, termos cuidado para erroneamente não chamarmos a intolerância ao leite de intolerância a lactose, pois tratam-se de duas condições distintas, que necessitam de cuidados em graus diferentes. Muitas vezes, os sintomas de ALV e de IL são os mesmos (diarréia, desconforto e dor abdominal, por exemplo) e o médico e os pesquisadores podem usar a expressão “intolerância ao leite” para classificar o quadro clínico que ainda não foi totalmente esclarecido. Fechar um diagnóstico não é tarefa das mais fáceis, já que muitas doenças podem se manifestar com os mesmos sinais e sintomas e que ainda podem variar de uma pessoa para outra! E nem sempre os testes para diagnóstico de alergia apresentam resultados positivos, pois avaliam somente as alergias mediadas pelas imunoglobulinas da classe IgE. Se estivermos diante de alergias não mediadas por este tipo de anticorpo, os resultados não ajudarão muito e será necessário fazer o teste clínico, com exclusão e posterior re-introdução dos alimentos.

No caso de uma suspeita de ALV, porém, antes da realização dos exames ou mesmo mediante um resultado negativo associado a um quadro clínico sugestivo de alergia, o profissional poderá classificar a doença como “intolerância ao leite”, já que ainda não dispõe de dados “concretos” para afirmar que trata-se de alergia.

E qual a diferença entre Alergia ao Leite de Vaca e Intolerância a Lactose?

A alergia ao leite de vaca (ALV) e a intolerância à lactose (IL) são duas condições diferentes, apesar de causadas por um alimento em comum ( o leite) e de apresentarem sintomas semelhantes. 

A IL ocorre porque o organismo não produz ou deixa de produzir a enzima lactase, responsável pela digestão da lactose (açúcar do leite). Em conseqüência, a lactose se acumula no intestino, para onde atrairá água, será fermentada pelas bactérias, com formação de gases, provocando diarréia, cólicas, distensão abdominal, e desconforto. Em alguns casos, não há diarréia, apesar da dor e do desconforto abdominal. Convém lembrar que o ser humano é o único mamífero que continua ingerindo leite após o período desmame, ocasião em que a produção da lactase diminui. Essa diminuição não caracteriza nenhuma doença… é o padrão do ser humano. Padrão esse que foi moldado ao longo dos milhões de anos de existência dos nossos ancestrais. Somente algumas populações, como os nórdicos, por exemplo, em função da necessidade de manter níveis adequados de cálcio e de vitamina D e em função da pouca exposição a luz solar e baixa disponibilidade de outros alimentos, é que foram se adaptando a ingestão de laticínios ao longo da vida, culminando numa mutação genética, que passou a permitir a digestão da lactose até idades mais avançadas. Porém, em todo o mundo, cerca de 65% das pessoas não possuem essa mutação, e portanto, não são capazes de digerir adequadamente a lactose na idade adulta. Mas o que caracteriza a intolerância a lactose, propriamente dita, é a presença de sintomas associados a ingestão de laticínios, pois mesmo pessoas com baixa produção da enzima, ainda são capazes de tolerar pequenas quantidades deste carboidrato diariamente.

A IL pode ser congênita, um caso raro no qual o bebê já nasce sem produzir a enzima lactase e começa a apresentar os sintomas após as primeiras mamadas, pois o leite materno é o que possui a maior quantidade de lactose, quando comparado com os leites de outras espécies.

Há também a IL secundária, que afeta indivíduos que nunca foram intolerantes, após gastroenterites, radioterapia ou quimioterapia, doenças inflamatórias intestinais, doença celíaca, etc. Nesses casos, a IL pode ser transitória ou não, dependendo dos fatores genéticos, mas geralmente a IL tende a piorar com a idade.

A ALV é provocada pelas proteínas presentes no leite, identificadas pelo sistema imunológico como um agressor, um agente estranho que precisa ser combatido. A partir da ingestão destas proteínas o sistema imunológico desencadeia uma verdadeira guerra contra os “agressores”, e esta guerra é a responsável pelos sintomas – diarréia, distensão abdominal, flatulência e ainda: lesões na pele, como urticária e coceira, sintomas respiratórios, inflamação da mucosa intestinal e até pequenos sangramentos intestinais.

Ao contrário, a ALV tende a ser pior nos primeiros anos de vida e seus sintomas podem se suavizar (ou mesmo desaparecer) com o passar dos anos. Muitas vezes esta alergia é desencadeada quando o bebê menor de 6 meses recebe leite de vaca em substituição ao leite materno, principalmente se for filho de pais alérgicos. O uso de fórmulas infantis (muitas vezes dentro da própria maternidade, poucas horas após o nascimento) pode contribuir para o surgimento da alergia e por tal motivo, é importante incentivarmos o aleitamento materno, sempre que possível!

O aparelho digestivo dos bebês está preparado para digerir somente o leite materno, que é um alimento de fácil digestão, contendo proteínas que não causam alergia, mas em muitas situações a mãe não pode amamentar e acaba-se utilizando leite de vaca, no lugar de fórmulas específicas para a idade da criança. Nestes casos, como o intestino ainda não amadureceu o suficiente, ele acaba permitindo de proteínas inteiras ou fragmentos maiores de proteína sejam absorvidos, e ao entrarem na corrente sangüínea, desencadeiam o processo alérgico.

Após esse primeiro contato, toda vez que o leite for ingerido, o organismo agirá da mesma maneira, e os sintomas surgem novamente, porém, nem sempre o problema é percebido logo porque pode ser confundido com a IL ou com outras doenças ou mesmo alergia, mas a outros alimentos, como soja (ou leite de soja), trigo, aveia, etc.

Assim, é importantíssimo ser corretamente diagnosticado, porque o tratamento é diferente!

Na IL o componente que precisa ser excluído, ou pelo menos ingerido em menor quantidade (dependendo do grau de intolerância) é a lactose, enquanto que na ALV deve-se excluir totalmente a proteína e mesmo frações dela, pois até mesmo alimentos “contaminados” com proteínas do leite (os chamados “traços de leite”) podem desencadear o processo alérgico!

Referência Bibliográfica

Barbieri, D., Palma, D. “Gastroenterologia e Nutrição”. São Paulo: Editora Atheneu, 2001.
Heyman, M.B. “Lactose Intolerance in Infants, Children, and Adolescents”. Pediatrics 2006; 118; 1279-1286. Disponível em: www.pediatrics.org
Crittenden, R.G., Bennett, L.E. “Cow’s Milk Allergy: A Complex Disorder”. Journal of the American College of Nutrition. Vol. 24, Nº 6, 582S-591S.

Obs: Adaptação dos textos publicados anteriormente no site Semlactose – See more at: http://www.semlactose.com/index.php/2008/02/18/alergia-ao-leite-de-vaca-x-intolerancia-a-lactose/#sthash.rcCpti6y.dpuf

O que faz um Nutricionista?

Aproveitando o embalo do 31 de agosto, dia dedicado aos Nutricionistas e inspirada por esse texto aqui, do blog “Não sou exposição”, resolvi escrever esse texto, já que praticamente 99,9% das pessoas alimentam a falsa crença de que Nutricionista só prescreve dietas de emagrecimento e que obrigatoriamente tem de ser magras e/ou fitness e tem que ter tempo pra ler todos os artigos publicados a cada dia sobre todas as áreas da Nutrição, além de malhar pesado 7x na semana, manter conta no Facebook, Instagram, Snapchat, blog e sabe-se-lá mais o que, além de trabalhar, pagar as contas, cuidar da família, passear e até (acreditem!) DORMIR…hahahahaha. Tá pensando que é fácil? Vem comigo que vou te mostrar como é a vida real…

Eu até sugiro que antes de continuar a ler o meu post, que você leia primeiro o post que indiquei acima.

Mas como eu ia dizendo, a profissão foi regulamentada pela Lei 8234 de 17 de setembro de 1991, que diz o seguinte:

Art. 1º. A designação e o exercício da profissão de Nutricionista, profissional de saúde, em qualquer de suas áreas, são privativos dos portadores de diploma expedido por escolas de graduação em nutrição, oficiais ou reconhecidas, devidamente registrado no órgão competente do Ministério da Educação e regularmente inscrito no Conselho Regional de Nutricionistas da respectiva área de atuação profissional (ou seja, só quem fez a faculdade de Nutrição e está devidamente registrado no Conselho Regional é que pode atuar como Nutricionista. Apenas ter um blog ou uma conta em qualquer rede social, não basta…).

Essa mesma lei diz que:

Art. 3º. São Atividades privativas dos nutricionistas:

I – direção, coordenação e supervisão de cursos de graduação em nutrição;

II – planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de serviços de alimentação e nutrição;

III – planejamento, coordenação, supervisão e avaliação de estudos dietéticos;

IV – ensino das matérias profissionais dos cursos de graduação em nutrição;

V – ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos cursos de graduação da área de saúde e outras afins;

VI – auditoria, consultoria e assessoria em nutrição e dietética;

VII – assistência e educação nutricional a coletividades ou indivíduos, sadios ou enfermos, em instituições públicas e privadas e em consultório de nutrição e dietética;

VIII – assistência dietoterápica hospitalar, ambulatorial e a nível de consultórios de nutrição e dietética, prescrevendo, planejando, analisando, supervisionando e avaliando dietas para enfermos.

Traduzindo os itens VII e VIII: Dieta é com Nutricionista!!!

E ainda:

Art. 4º. Atribuem-se, também, aos nutricionistas as seguintes atividades, desde que relacionadas com alimentação e nutrição humanas:

I – elaboração de informes técnico-científicos;

II – gerenciamento de projetos de desenvolvimento de produtos alimentícios;

III – assistência e treinamento especializado em alimentação e nutrição;

IV – controle de qualidade de gêneros e produtos alimentícios; V – atuação em marketing na área de alimentação e nutrição;

VI – estudos e trabalhos experimentais em alimentação e nutrição;

VII – prescrição de suplementos nutricionais, necessários à complementação da dieta;

VIII – solicitação de exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico;

IX – participação em inspeções sanitárias relativas a alimentos;

X – análises relativas ao processamento de produtos alimentícios industrializados;

XI – participação em projetos de equipamentos e utensílios na área de alimentação e nutrição.

E onde o Nutricionista pode trabalhar, já que eu falei lá em cima que não é so no consultório? De acordo com a Resolução CFN 280/2005, o Nutricionista pode atuar nas seguintes áreas :

I. Alimentação Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas nas Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN), dentro de empresas, restaurantes comerciais e similares, hotelaria marítima (navios, plataformas), serviços de buffet e de alimentos congelados, comissarias (comida de avião) e cozinhas dos hospitais, creches, escolas e instituições para idosos.

Isso significa dizer, que o Nutricionista precisa elaborar cardápios que garantam energia e nutrientes para que os trabalhadores exerçam suas funções, no caso das empresas, para que os pacientes se recuperem (de acordo com a dieta prescrita pelo Nutricionista da clínica), por exemplo. Mas além dos cardápios, estes Nutricionistas precisam cuidar de todo o controle higiênico do preparo dos alimentos, da seleção, contratação, do treinamento e da supervisão dos funcionários que preparam as refeições, do controle dos custos e compra dos ingredientes, utensílios e equipamentos e no fim das contas, muitas vezes, acaba sendo mais administrador que Nutricionista.

II. Nutrição Clínica – atividades de alimentação e nutrição realizadas nos hospitais e clínicas, nas instituições de longa permanência para idosos, nos ambulatórios e consultórios, nos bancos de leite humano, nos lactários, nas centrais de terapia nutricional, nos Spa e quando em atendimento domiciliar;

Aqui é onde a maioria das pessoas está acostumada a ver o Nutricionista em ação, principalmente nos consultórios, onde boa parte nos procura querendo emagrecer, mas achar que é só isso que fazemos, sinceramente é extremamente limitador! Nos hospitais, avaliamos os pacientes internados e indicamos a dieta mais adequada a cada situação (lembrando que como as refeições dependem da cozinha e tem hora para serem preparadas e tudo precisa ser visto com antecedência, é praticamente impossível individualizar as dietas da forma como fazemos no consultório). Dentro dos hospitais cuidamos de pacientes com as mais diversas situações, que vão desde casos bem conhecidos como diabetes, até doenças renais, cirurgias de todo o tipo, alimentação por sonda (cateter). Eu mesma, durante muito tempo trabalhei em CTI, e a maioria dos meus pacientes não comia comida, pois se alimentava somente com dieta enteral, as tais que passam pelas sondas. E também fiz parte da Comissão de Curativos, onde minha função era acompanhar pacientes com graves feridas, que além de todos os cuidados médicos e de enfermagem, precisavam de dietas e suplementos especiais para acelerar a cicatrização e diminuir o risco de infecções. Nos bancos de leite e lactários, o trabalho é todo voltado para o controle de formulas infantis e leite materno doado, para distribui-los aos bebezinhos internados, que por algum motivo não estão podendo ser amamentados por suas mães. E mesmo nos consultórios, onde a maioria nos procura para emagrecer, temos muito mais a oferecer! Cuidamos de pacientes diabéticos, hipertensos, alérgicos, celíacos (até parece que eu não ia tocar nesse assunto! rsrsrsrs), pacientes em pós operatórios diversos, pacientes com doenças autoimunes, etc, etc, etc….. daria pra ficar até amanhã tentando preencher essa lista…

E antes que eu me esqueça! Nós tratamos também de desnutrição! Nós tentamos fazer com que várias pessoas ganhem peso e saiam do risco de morrer por falta de alimento / nutrientes! E quando conseguimos, principalmente quando o desnutrido é uma criança, o resultado é a coisa mais linda de se ver! É lindo ver uma criança desnutrida recuperar o brilho dos olhinhos e recuperar a energia pra brincar, correr e fazer bagunça! Como também é lindo ver um paciente que estava inconsciente, sendo alimentado por sonda, acordar e reclamar que está com fome!

III. Saúde Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas em políticas e programas institucionais, de atenção básica e de vigilância sanitária;

Aqui, meus colegas atuam em programas do governo, nas esferas municipais, estaduais e federais, em postos de saúde, e nas ações da vigilância Sanitária

IV. Docência – atividades de ensino, extensão, pesquisa e coordenação relacionadas à alimentação e à nutrição;

Aqui, a atuação pode ser nas universidades, nos cursos de graduação, especialização, mestrado, doutorado ou mesmo em cursos de extensão e de atualização. E ainda damos palestras em eventos científicos, damos formação online, etc. Ou seja, ensinamos e formamos outros nutricionistas e ainda podemos colaborar com a formação de outros profissionais de saúde! Também fazemos pesquisa, publicamos artigos, participamos de congressos, etc.

V. Indústria de Alimentos – atividades de desenvolvimento e produção de produtos relacionados à alimentação e à nutrição;

Geralmente trabalham na indústria de alimentos, desenvolvendo novos produtos e acompanhando sua produção.

VI. Nutrição em Esportes – atividades relacionadas à alimentação e à nutrição em academias, clubes esportivos e similares;

Essa é outra área que já é bem conhecida, com colegas atuando em academias/ consultórios, mas sem esquecer daqueles que merecem medalha de ouro, ao cuidarem dos nossos atletas!

VII. Marketing na área de Alimentação e Nutrição – atividades de marketing e publicidade científica relacionadas à alimentação e à nutrição.

São os Nutricionistas que nos visitam nos hospitais e consultórios, nos apresentando novos produtos, como suplementos e dietas enterais. 

Enfim, a lista de áreas de atuação é bem grande e a quantidade de coisas que podemos fazer é maior ainda! E pra tudo isso, precisamos estudar disciplinas como bioquímica, anatomia, fisiologia, microbiologia, legislação de alimentos, economia, sociologia, psicologia, patologia (pra entender como cada doença afeta o organismo), administração, estatística, entre tantas outras… ou alguém achou que era só aprender a calcular dieta? Sabe de nada, inocente! rsrsrsrsrs

E por que eu to falando tudo isso? Pra ver se ajuda a desconstruir a ideia de que SÓ trabalhamos com emagrecimento, pra desfazer o mito que Nutricionista TEM que ser magra / fitness (não desmerecendo os colegas que tem esse perfil, mas apenas informando que isso não é pré-requisito pra ser Nutricionista e nem é garantia de competência e atualização)  e que só comemos comida “fitness” ou alface. Aliás… to “garrando ódio” dessa história de comida fitness, com todo respeito a quem gosta… mas não leva a mal não, já bastam todas as minhas restrições alimentares (pra quem ainda não sabe, eu sou celíaca, tenho intolerância a lactose, alergia às proteínas do leite, à soja, ao amendoim, à pimenta vermelha e pimentão… afffff… a lista tá é grande!), então não vou ficar me privando de outras coisas que gosto e posso comer. Obviamente, que não sou louca de me encher de “porcarias”, mas que mal há, comer uma fatia de bolo sem glúten ou um pedaço de chocolate de vez em quando?

Sim, Nutricionistas comem, sentem fome e tem vontade de comer como qualquer mortal! E sinceramente, não tem coisa pior do termos gente vigiando nossos pratos e olhando com cara de reprovação quando comemos essas coisas.

E ainda, como qualquer mortal, podem ter dificuldade pra perder peso, até porque não é só o “olho maior que a barriga” que faz alguém engordar! Se fosse só isso, tava fácil e nós já teríamos acabado com a obesidade no mundo! Há muitos medicamentos, como corticóides (por exemplo), necessários ao tratamento de muitas doenças, que favorecem o ganho de peso, há disfunções hormonais, como o hipotireoismo, que favorecem o ganho de peso e dificultam a perda, entre tantas outras coisas, como trabalhar num local estressante, ter pouco tempo para dormir, etc, etc, etc, etc…. E ainda há simplesmente quem não esteja nem aí para padrões impostos e se preocupe apenas em estarem saudáveis,mas não magros. Mas felizmente há lugar pra todos que abraçaram a Ciência da Nutrição e se preocupam em trazer mais saúde e qualidade de vida às pessoas.

 

Dieta Low Carb não é sinônimo de comer bacon como se não houvesse amanhã

E nem de se “entupir de carne” ou embutidos ou laticínios, como (infelizmente) muitos pensam e divulgam por aí…

Como já falei aqui, dieta low carb pode ser muita coisa (e coisas ruins, diga-se de passagem), mas o bom senso nos diz que low carb é uma redução na ingestão habitual de carbos, principalmente carbos vindos de pães, biscoitos, massas, doces, refrigerantes e produtos industrializados em geral (sucos/refrescos, gelatinas, cereais matinais, empanados, etc). E mesmo que o objetivo seja a perda de peso (e não só o controle de problemas metabólicos, como diabetes, resistência insulínica ou esteatose hepática), não há porque evitar frutas, hortaliças  ou mesmo tubérculos!

Mas há uma crença generalizada de que low carb é a senha para se tornar frequentador assíduo de churrascarias rodízio ou para se esbaldar nos embutidos e laticínios… aliás, esse é o maior erro que as pessoas cometem!

Dietas com restrição de carboidratos são usadas principalmente com a finalidade de melhorar a sensibilidade à insulina (ou seja, fazer com que o corpo otimize o uso da insulina existente e não produza demais, sem necessidade) e consequentemente, melhorar o controle glicêmico, os níveis de colesterol e triglicerídios, reverter a esteatose hepática, reduzir o peso corporal (e principalmente o percentual de gordura corporal) e ainda no tratamento e prevenção do câncer… E todas essas situações tem em comum o fato de haver  disbiose intestinal (alterações na microbiota intestinal), presença de inflamação e endotoxemia (translocação ou passagem de toxinas e restos celulares – LPS – das bactérias intestinais para a corrente sanguínea).

Tá, mas e o que isso tem a ver com não comer frutas e hortaliças e exagerar nas proteínas e gorduras???

alimentos paleo

Tem TUDO a ver, e vou explicar:

  1. A carne dos animais que temos hoje tem um perfil de gordura mais inflamatório em função da alimentação que estes animais recebem, geralmente muito diferente da alimentação que eles escolheriam se vivessem soltos por aí… sem falar que os animais criados para o abate, vivem confinados (para gastarem menos energia e engordarem mais rápido) e tomam antibióticos com frequência (porque ficam mais doentes), que por sinal, alteram sua flora microbiana natural e favorecem o ganho de peso. Além disso, os resíduos de antibioticos presentes na carne que consumimos também altera nossa microbiota…
  2. Carne e principalmente os embutidos e queijos possuem grande quantidade de sódio, que pode aumentar a pressão arterial, causa edema (inchaço), favorece a formação de cálculos renais e a perda de cálcio dos ossos e ainda estão relacionados a um risco maior de câncer de estômago;
  3. Laticínios, independente da quantidade de lactose, prossuem proteínas e aminoácidos que aumentam a produção da insulina (por isso diz-se que possuem alto índice insulinêmico) e de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina). Isso é importante e benéfico quando se trata de filhoes e bebês em fase de crescimento e pessoas desnutridas que necessitam recuperar seu estado nutricional. Mas pode ser um “tiro no pé” de pessoas com resistencia insulínica, sobrepeso e até mesmo diversos tipos de câncer;
  4. Frutas e hortaliças possuem fibras, importantíssimas para a boa função intestinal e eliminação das toxinas que necessitam ser eliminadas pelas fezes. Essas fibras também são capazes de melhorar a nossa microbiota (“flora”) intestinal, favorecem o crescimento de bactérias “do bem” e estimulam a produção de ácidos graxos de cadeia curta, substâncias importaantes para a saúde intestinal, para o controle dos níveis de colesterol (aumento do HDL e diminuição do LDL) e diminuição da inflamação relacionada à endotoxemia. Lembrando que, intestino preso é o caminho mais rápido para desenvolver SIBO ou crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, condição que causa diversos problemas e aumenta a inflamação.
  5. Além disso, frutas e hortaliças possuem vitaminas e compostos bioativos de ação anti-inflamatória e antioxidantes, que neutralizam a ação dos radicais livres e a inflamação. Também possuem magnésio e potássio, necessários ao equilíbrio do pH do corpo (evitando acidez excessiva que “rouba” o cálcio dos ossos para ser neutralizada), estes minerais também são importantes para a manutenção de níveis mais baixos de pressão arterial e prevenção de cálculos renais;
  6. Muita gente foge das frutas com medo da frutose. De fato, frutose demais é um perigo, pois aumenta os triglicerídios, o ácido úrico, causa gota e piora o quadro da síndrome metabólica. Mas é importante dizer que não é a frutose naturalmente presente nas frutas! A frutose “do mal” é a que está no xarope de milho, presente numa infinidade de produtos industrializados (muitas vezes disfarçada com o nome de açúcar invertido ou açúcar líquido), como refrigerantes, sucos “de caixinha”, biscoitos, pães, barrinhas e cereais matinais, achocolatados e iogurtes. Frutose também está presente na sacarose, o açúcar de cana (ou açúcar de mesa), que muitos usam com exagero e que também esta presente (em alguns casos, junto com o xarope de milho) em muitos produtos industrializados:
  7. Solidos de xarope de milhorotulo_barra-cereais_022
  8. E por último, há estudos mostrando que o consumo de frutas é mais eficaz para a perda de peso que sua exclusão da dieta:
  9. Frutose
    Post do prof Marcelo Carvalho no FB

Intolerância aos Fodmaps

Fodmaps???

Fodmaps é a sigla em inglês para “Fermentable oligossacharides, dissacharides, monossacharides and poliols”, que significa numa tradução simplista: carboidratos fermentáveis.

FODMAPs

Oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis são tipos de carboidratos. O que os diferencia uns dos outros é sua estrutura molecular e onde estão presentes. Sacarídeo significa açúcar ou carboidrato. Oligosacarídeos – formados pela ligação entre vários açúcares, dissacarideos – formados por 2 açúcares, monossacarídeos – apenas um açúcar; polióis – álcool de açúcares.

Para explicar melhor, podemos dividi-los assim:

  1. Oligossacarídeos: 

a) Frutanos – contém uma molécula de frutose em sua estrutura. São os frutooligossacarídeos e a inulina. Podem ser extraídos da raiz da chicória (principal fnte de frutanos para a indústria alimentícia), mas também estão presentes na cebola, no alho, na alcachofra, na batata yacon;

b) Galactanos – contém uma molécula de galactose em sua estrutura. São a rafinose e a estaquiose, presentes principalmente nas leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico, soja, amendoim).

2. Dissacarídeos: 

a) Lactose – formada por uma molécula de glicose ligada a uma galactose. Está presente no leite de todos os mamíferos e em seus derivados (queijos, iogurtes, soro do leite, etc);

b) Sacarose – formada por uma glicose ligada a uma frutose. A sacarose é a o açúcar de mesa e está presente em nas frutas (em pequena quantidade), na beterraba, na cana de açúcar e principalmente, como açúcar refinadoo, em diversos produtos industrializados;

3. Monossacarídeos:

a) Frutose – é o principal monossacarídeo relacionado aos sintomas da fermentação. Está presente nas frutas e no mel, mas a maior parte da frutose consumida pelos ocidentais NÃO VEM DAS FRUTAS!!! Vem da sacarose e dos produtos industrializados, contendo xarope de milho com alto teor de frutose, como refrigerantes, sucos e refrescos industrializados, iogurtes e até mesmo biscoitos e doces.

4. Polióis: Estão naturalmente presentes em alguns alimentos, como maçã, cereja, damasco, nectarina, avocado, ameixa, amora, pêra, melancia e cogumelos e podem ser produzidos artificialmente e adicionados a diversos produtos alimentícios e até mesmo a alguns medicamentos. Alguns exemplos são:

a) Xilitol;

b) Maltitol;

c) Eritritol;

d) Sorbitol, etc

Alguns destes carboidratos, como os frutanos e os polióis não são digeridos no trato gastrointestinal de humanos e são fermentados pelas bactérias presentes no intestino. Os demais Fodmaps serão mais ou menos digeridos e consequentemente mais ou menos fermentados, dependendo de alguns fatores, como a quantidade em que estão presentes na alimentação, tipo e a quantidade de bactérias (disbiose e/ou sibo) presentes no intestino e a existencia ou não de deficiencias enzimáticas, como na intolerância a lactose.

Fermentable

A frutose, por exemplo, a não ser em casos de frutosemia congênita (quando o bebê nasce sem produzir uma das enzimas necessárias ao metabolismo da frutose), é sempre bem digerida, entretanto, como a dieta ocidental moderna contém uma quantidade excessiva de frutose adicionada (os produtos industrializados e o excesso de açúcar), o trabsportador intestinal, o GLUT5, que leva a frutose para dentro das células, onde elas poderão ser usadas como fonte de energia, fica sobrecarregado. Com essa sobrecarga, a frutose começa a se acumular no intestino, onde é (literalmente) um prato cheio para as bactérias.

Essa fermentação, quando há predominância de bactérias “do bem” no intestino (e quando não há uma superpopulação de bactérias no intestino delgado ou SIBO, do inglês: small intestinal bacterial overgrowth) gera compostos benéficos, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC – acetato, butirado e propionato) que nutrem as células intestinais e colaboram inclusive com o fígado, na hora de regular a produção de colesterol! Mas principalmente quando há um excesso de bactérias no intestino delgado (local que não comporta um numero muito grande delas), os problemas começam a acontecer – há um excesso de fermentação dos carboidratos, gerando gases, distensão abdominal, dor, desconforto, diarréia osmótica ou constipação (quando há produção de metano) e até mesmo irritação na bexiga. As bactérias “do mal” começam a produzir toxinas, que ao chegarem a corrente sanguinea, provocam outros sintomas, como fadiga, dores musculares e articulares. Todos estes sintomas podem estar presentes na Síndrome do Intestino Irritável, nas Doenças Inflamatórias Intestinais, na Fibromialgia, na Doença Celíaca e na Sensibilidade ao Glúten não Celíaca.

O tratamento consiste em cuidar da doença de base e em reduzir o teor de Fodmaps da dieta, ao menos, temporariamente. Em casos de SIBO, comprovada por exame (o teste do hidrogenio expirado, que necessita ser solicitado e interpretado por um médico), o tratamento é feito com antibióticos (prescritos pelo médico) e dieta isenta de Fodmaps por 4 semanas, prescrita por um Nutricionista. Mas como se trata de uma dieta bastante restritiva e que não deve ser seguida por muito tempo, após as 4 semanas, testa-se a re-introdução dos alimentos, um de cada vez, para avaliar o nível de tolerância individual.

Depois disso, para evitar que os sintomas retornem, é importante cuidar da alimentação, evitando uma sobrecarga de Fodmaps, principalmente de lactose (em caso de IL), sacarose e frutose presentes em alimentos industrializados. Assim, também é possível prevenir (ou pelo menos amenizar) o retorno da disbiose e da SIBO. Mas também é necessário atentar para o bom funcionamento intestinal, pois a constipação (prisão de ventre) contribui muito para a SIBO, já que as bactérias ficam “presas” por mais tempo no intestino, junto com as fezes e com isso, também favorecem os quadros de endotoxemia e inflamação. Mas isso aí já é matéria para um outro post…

 

Eu já cortei o glúten da minha alimentação. Por que preciso de Nutricionista?

Essa é uma dúvida muito recorrente entre celíacos, sensíveis ao glúten e alérgicos ao trigo. Como a dieta livre de glúten é o único tratamento reconhecido pela comunidade científica e realmente eficaz nessas condições, é comum que as pessoas acreditem que a exclusão pura e simples dos alimentos fontes de glúten seja capaz de resolver todos os seus problemas…

Só que não…

Esse material que elaborei para a Fenacelbra, mostra que a exclusão de glúten é apenas o primeiro passo na caminhada em busca de mais saúde e qualidade de vida! http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/blog/2013/03/23/cartilha-10-passos-para-a-alimentacao-do-celiaco/

Infelizmente a maior parte dos diagnósticos tem sido feita tardiamente, geralmente após anos de “peregrinação”. Quanto mais tarde o diagnóstico e quanto mais tarde o início da exclusão de glúten (e da implantação de cuidados em relação a contaminação cruzada), mais lenta tende a ser a melhora no quadro clínico. Tal fato se agrava se a alimentação antes do diagnóstico era cheia de alimentos industrializados (processados e ultraprocessados), altamente calórica, cheia de aditivos químicos, sal, açúcar e gordura, porem muito pobre em nutrientes e muito pior fica, se na exclusão de glúten só lembramos dos substitutos a base de farinhas sem glúten e esquecemos da “comida de verdade”!

As Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG) e principalmente a Doença Celíaca (DC) causam inflamação (no caso da DC, há inflamação e atrofia da mucosa intestinal, onde os nutrientes são absorvidos) e má absorção de diversos nutrientes. Quanto mais tempo de deficiência nutricional, e quanto mais graves estas deficiências, mais lenta será a recuperação e ainda assim, para que ocorra uma recuperação completa, muitas vezes é necessário, além da dieta, a suplementação de micronutrientes (vitaminas e minerais), de aminoácidos (como glutamina e/ou arginina) e de probióticos.

As deficiências nutricionais podem causar diversos tipos de anemia (dependendo do nutriente mais prejudicado – ferro ou vitamina B12 ou ácido fólico), cãibras, dores musculares, fadiga, alterações no paladar, queda da imunidade contra vírus e bactérias, prejuízos na cicatrização de feridas, infertilidade, alterações na função tireoidiana, dificuldade de concentração, diminuição da memória e até mesmo alterações neurológicas mais sérias.

O Nutricionista, é o profissional certo para avaliar essas deficiências nutricionais, seja através de exames laboratoriais, seja atraves da avaliação de sinais e sintomas (já que algumas não aparecem em exames de sangue, ou quando aparecem é porque o nível de deficiência está bem crítico) e através da análise dos hábitos alimentares. A partir daí é possível traçar estratégias para reverter tais deficiencias e prevenir que elas retornem no futuro.

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Imagem encontrada na internet

Através da alimentação / suplementação também é possível acelerar a recuperação da mucosa intestinal dos celíacos, diminuindo o risco da persistência das deficiências e diminuindo também o risco de surgirem hipersensibilidades alimentares decorrentes das alterações na permeabilidade intestinal, sempre presente na DC.

Caso as DRG venham acompanhadas de outras alergias/hipersensibilidades alimentares (alergia ao leite de vaca ou a soja ou a outros grãos, por exemplo) ou intolerâncias (intolerância a lactose ou aos Fodmaps, por exemplo), o Nutricionista também é o profissional certo para adequar o planejamento alimentar e indicar suplementação, se for necessário.

Sem falar aqueles que ainda ganham peso excessivo ou aumentam muito o acumulo de gordura abdominal após a exclusão do glúten. estas pessoas, além de possivelmente continuarem com as deficiências nutricionais, estão mais sujeitas à síndrome metabólica, com alterações na pressão arterial, resistência insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, etc…

Mas é importante alertar sobre a necessidade de continuidade do tratamento! Numa única consulta é impossível fazer todas as adequações necessárias e mesmo que seja possível, é necessário acompanhar a evolução (e a melhora) de cada parâmetro avaliado e da melhora do paciente como um todo!

 

Não consigo emagrecer!!!

Quantas pessoas já não se viram e estão se vendo nesta situação? Quantas dietas já não foram tentadas? Quantas novidades apresentadas pela mídia, na forma de dietas, “superalimentos”, termogênicos, exercicios, etc, que despertaram grande interesse, mas que se mostraram ineficazes?

Muitas pessoas associam emagrecimento a “fechar a boca” e “se matar na academia“, como se a perda de peso dependesse apenas de um cálculo matemático. Muitos recorrem aos produtos ao consumo de produtos “diet“, “light” ou “zero“, numa tentativa de enganar o próprio corpo com consistencias e sabores que não correspondem exatamente ao que foi ingerido. Outras pessoas aderem à dieta do momento ou pulam refeições, fazem exercicios em jejum, cortam glúten, lactose, gordura, mas raramente obtem sucesso em relação a perda de peso. E quando conseguem perder, acabam por recuperar o peso e ainda engordam mais um tanto.

E por que isso acontece? As causas podem ser muitas e variam de pessoa pra pessoa.

Há os que sofrem de compulsão alimentar associada a ansiedade, há os que sentem muita fome porque estão se alimentando da maneira errada, há os que já se privaram tanto de comida, que o corpo tenta se proteger dificultando a perda de gordura, há os que estão constantemente submetidos ao estresse, etc…

E o que fazer?

As abordagens são muitas. Orientações nutricionais e planejamentos alimentares individuais (elaborados por um profissional devidamente capacitado para isso) são importantíssimos e necessários, mas a participação em grupos de pessoas com perfil semelhante, pode ajudar muito àqueles que estão encontrando dificuldades na perda de peso.

E foi pensando nisso (e também nas pessoas que apenas estão buscando se alimentar melhor para ter mais qualidade de vida) que eu resolvi , além das consultas individuais, iniciar um trabalho com grupos, no consultório da Freguesia/Jacarepaguá (Rio de Janeiro/RJ).

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A ideia é que cada participante se sinta acolhido, se sinta menos sozinho e mais apoiado pelo próprio grupo. Durante nossas reuniões, conversaremos sobre temas importantes para uma alimentação saudável e para a perda de peso, já que durante as consultas, o tempo para abordar todos esses assuntos é pequeno e algumas duvidas acabam surgindo no dia a dia. Também haverá espaço para que todos tirem suas dúvidas. E o objetivo final é que todos saiam mais fortalecidos e sentindo-se mais capazes de fazer escolhas alimentares mais racionais e saudáveis.

Começaremos com grupos pequenos de 5 a 6 pessoas, para que todos possam interagir e as reuniões sejam mais dinâmicas. Além disso, a participação no grupo é independente das consultas individuais, ou seja, não é necessário já ser um paciente para participar do grupo.

A primeira edição começará já em fevereiro e as pré-inscrições  já estão sendo feitas, através dos seguintes canais:

Email: jujucrucinsky@gmail.com

Tel: (21) 98820-7773 (das 10 as 20h)

FB (atraves de mensagem): www.facebook.com/NutricionistaJulianaCrucinsky/

 

Enzimas que prometem digerir o glúten

Sites internacionais de venda de suplementos estão cheios delas. As lojas de suplementos no exterior, também. Volta e meia aparece alguém empolgado com a “novidade”, que parece ser a solução de todos os problemas de quem possui alguma desordem relacionada ao glúten (DRG).

Sou obrigada a admitir que até eu bem lá no fundo, gostaria muito que tais produtos fossem o que parecem…. a saída segura para ingerir glúten sem qualquer problema! Mesmo não tendo nenhuma intenção de voltar a ingerir glúten (caso a “cura” seja descoberta), eu gostaria muito de ter algo que pudesse efetivamente me proteger das contaminações.

Só quem possui uma restrição alimentar, que necessita de cuidados e vigilância 24h por dia sabe como é, e consegue avaliar o tamanho da alegria que um produto desses poderia proporcionar. No meu caso, se me garantisse que eu poderia comer de olhos fechados em qualquer lugar sem me preocupar com a contaminação cruzada (porquer acho que mesmo que a cura surgisse eu não conseguiria mais ingerir nada com glúten), já seria de grande ajuda!

Enzimas gluten
Autoria: Juliana Crucinsky. Imagem criada para o grupo Viva Sem Glúten, no Facebook.

Entretanto, como nem tudo são flores, tais produtos não servem para nós. Não há estudos suficientes comprovando sua eficácia, nem garantindo segurança em seu uso.

As enzimas prometem digerir o glúten… só que o glúten é uma proteína extremamente dificil de ser digerida e mesmo que fosse parcialmente hidrolisado por tais enzimas, ainda assim isso não seria seguro, pois são exatamente seus fragmentos (ou peptídeos) e não ele inteiro, que desencadeiam todas as reações imunológicas presentes na DC e na alergia ao trigo! A segurança existiria apenas se as enzimas conseguissem hidrolisar completamente o glúten em aminoácidos…

Pesquisando no Pubmed, base de dados de artigos científicos na área da saúde, o que encontramos foram dois estudos, um utilizando enzimas produzidas por um fungo que ataca o centeio e outro, enzimas produzidas por um fungo que cresce no arroz. No primeiro caso, a combinação das enzimas conseguiu evitar as lesões na mucosa duodenal durante o desafio do glúten, mas ainda são necessários ouros estudos para avaliar sua segurança e só depois de uma porção de testes é que poderia ser produzida em larga escala e colocada a venda… e pelo visto isso ainda vai demorar. No segundo caso, o artigo publicado em outubro desse ano, fala sobre pesquisas “in vitro”, ou seja, dentro de um laboratório, com todas as condições bem controladas… até que se iniciem estudos em serem humanos e até que esta enzima (a do fungo do arroz) esteja liberada para comercialização, vai um bom tempo de espera…

As enzimas disponiveis para comercialização, ainda não possuem muito respaldo científico, nem garantia de segurança, eficácia ou mesmo de possíveis efeitos adversos, como pode ser visto aqui, aqui, aqui. Os poucos estudos disponíveis estão, em sua maioria, no estágio pré-clínico, ou seja, são estudos experimentais, feitos em laboratório. Ainda são necessários mais estudos, antes que os testes em humanos estejam liberados, entao, até que isso ocorra, é bom não irmos com muita sede ao pote.

Algumas pessoas pensam que tais enzimas funcionam de forma semelhante aos suplementos a base de lactase,  indicados para quem tem Intolerancia a lactose, mas aqui é importante ressaltar que os mecanismos envolvendo as DRG são completamente diferentes dos que envolvem a IL. Na IL o único problema que há, é a deficiencia (total ou parcial) na produção da enzima lactase no intestino. Na DC e na alergia ao trigo, é o sistema imunológico quem comanda todas as reações e quem está por trás dos sintomas, já que é uma proteína (o glúten) o causador dos problemas…

Na melhor das hipóteses, o que parece funcionar é a adição de algumas enzimas à materia prima contendo glúten, para que o mesmo seja hidrolisado (quebrado) a ponto de não “despertar” nosso sistema imunológico. Mas ainda assim, são necessários muitos testes que garantam que a enzima funcionará, que não haverá nenhum fragmento inteiro, que não haverá contaminação e que a própria enzima utilizada não causará nenhuma reação adversa nos conumidores…

E enquanto não surgem novidades seguras e eficazes no tratamento das DRG, seguimos cuidando da nossa alimentação e procurando evitar ao máximo a contaminação cruzada.