Tireoidite de Hashimoto e glúten

A Tireoidite de Hashimoto (TH) ou tireoidite linfocítica crônica é uma doença auto imune, que se caracteriza pela infiltração de linfócitos (células de defesa) na tireoide, com a produção de anticorpos contra a tireoglobulina, contra as peroxidases, enzimas que fazem a conversão do T4 em T3 (forma ativa do hormônio tireoidiano) e contra o receptor do hormonio estimulante da tireoide (TSH).

O resultado disso é a destruição dessas estruturas, com inflamação crônica, aumento dos níveis de TSH, aumento da própria glândula e hipotireoidismo, que pode ser subclínico (os sintomas de hipotireoidismo estão presentes, há um pequeno aumento do TSH, mas não há ainda diminuição do T3 e T4). Assim, observa-se um aumento na taxa de anticorpos anti-tireoglobulina e/ou anti-tireoperoxidase, com aumento progressivo dos níveis de TSH e diminuição dos níveis dos hormônios tireoidianos.

Tireoide

Os fatores mais relacionados ao surgimento da TH são os fatores genéticos, como a predisposição para doenças auto imunes, estresse, exposição à radiação, à poluição ambiental e a metais pesados, como mercúrio e chumbo, uso de Interferon, ingestão de altas doses de IODO (presente no sal de cozinha, em medicações e em contrastes para exames), etc.

Em relação ao iodo aqui no Brasil todo o sal comercializado precisa ser iodado, por causa da legislação pra prevenir o bócio endêmico, causado pela deficiência de iodo. Se por um lado essa legislação ajudou e ainda ajuda a muitas pessoas que moram em locais distantes do litoral, por ouro complicou a vida de quem tem predisposição genética e tem acesso a um aporte maior de iodo, pois aumentou consideravelmente o numero de casos de TH!

A TH foi descrita em 1912 no Japão, pelo médico Hakaru Hashimoto, em quatro mulheres com bócio assintomático e infiltração linfocitária. É importante lembrar que no Japão, há um alto consumo de peixes e algas marinhas e consequentemente, de IODO.

A TH pode se manifestar em associação a outras doenças auto imunes, como a Diabetes tipo I, a Doença de Addison, o Lúpus Eritematoso Sistêmico, a Sindrome de Sjögren, o Vitiligo e muito frequentemente à Doença Celíaca (DC). Aliás, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapeuticas do SUS, recomenda que se pesquise DC nos pacientes com TH, e ANTES QUE O GLÚTEN SEJA EXLUIDO da alimentação!!! Por que? Nesse post, nesse, nesse e nesse explico melhor! Outra coisa importantíssima é que muitas pessoas possuem DC mas não apresentam os sintomas “clássicos” de diarreia e perda de peso. Isso é muito comum quando a DC está associada a outras doenças auto imunes.

A TH pode ser assintomática no início, mas a medida que o quadro de hipotireoidismo evolui, é comum o aparecimento de sintomas como: queda de cabelo, unhas frágeis, quebradiças e que desfolham, pele ressecada, prisão de ventre, maior sensibilidade ao frio, edema (inchaço) nas pernas e pés, cansaço frequente, fraqueza, ganho de peso sem motivo aparente/dificuldade para perder peso, raciocínio lento, depressão, e nas mulheres, anovulação e infertilidade.

Não há cura, já que estamos falando de uma doença autoimune, mas é possível tratar o quadro de hipotireoidismo, com reposição do hormônio (levotiroxina*) e com adequação da alimentação, e suplementação de nutrientes.

Uma alimentação com muitos produtos industrializados, cheios de aditivos químicos, corantes, conservantes, etc, aumenta o estresse na tireoide e a inflamação, piorando o quadro. Porém, felizmente muitos nutrientes são importantíssimos para a produção dos hormônios tireoidanos e para sua conversão na forma ativa, como o zinco, o magnésio e o selênio. Além disso, muitos compostos bioativos e vitaminas, presentes nos alimentos também exercem ação anti-inflamatória e protetora da tireoide.

Assim, com uma dieta livre de glúten, livre de produtos industrializados que aumentam inflamação, livre de de alimentos com substancias bociogênicas (que impedem a absorção da levotiroxina ou sua conversão na forma ativa) e bem equilibrada, devidamente elaborada e acompanhada por um NUTRICIONISTA, ajuda a minimizar (e até a acabar) os sintomas e aumentar a qualidade de vida das pessoas com TH.

*Aviso: este é um blog de NUTRIÇÃO. Não cabem aqui discussões sobre dosagem do medicamento e sobre outras possíveis alternativas à levotiroxina no tratamento do hipotireoidismo e da TH… essa parte eu deixo pros colegas médicos.

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99% sem glúten, mas aquele 1%…

Muitas pessoas (incluindo alguns profissionais de saúde, infelizmente) acreditam que celíacos / alérgicos / sensíveis ao glúten podem eventualmente sair da dieta, por exemplo, naqueles dias em que a vontade de comer um pãozinho ou um salgadinho ou uma fatia daquela torta. Só que não!

Aliás, esse é um grande erro que muitos cometem, por falta de informação, a começar por acharem que trata-se apenas de uma “intolerância”, coisa que já falamos aqui que não é bem assim. A coisa complica ainda mais porque tá cheio de gente por aí, que excluiu o glúten, sabe o quanto esta proteína lhe faz mal, mas por ter iniciado a dieta antes dos exames, não tem um diagnóstico fechado. E eu confesso, já fui dessas! Já fiz essa besteira antes de ter conseguido fechar meu diagnóstico… mesmo já sabendo que glúten não era legal pra mim, enquanto não achava um bom médico e não fazia os exames necessários, eu cedia sempre que o olho grande falava mais alto. E por já ter passado pela experiência (e saber como é ruim ficar com vontade de comer alguma coisa a qual antes tínhamos livre acesso) é que me sinto no dever de fazer esse alerta!

Os objetivos da dieta sem glúten são zerar a inflamação (em todos os casos), controlar os mecanismos da autoimunidade, zerar a contagem de anticorpos (antitransglutaminase) e recuperar a mucosa do duodeno (intestino delgado) (no caso da DC) e controlar os sintomas alérgicos (no caso da alergia ao trigo).

Aqui é importante mencionar que a inflamação não fica restrita ao intestino… ela pode afetar o corpo todo e justamente por isso, as contaminações por glúten podem não alterar a contagem do antitransglutaminase. Por exemplo, a inflamação causada pelo glúten pode afetar as articulações, piorando as dores, pode afetar a tireoide, aumentando os anticorpos tireoidianos, na tireoidite de Hashimoto ou aumentando os riscos de coagulação e trombose em doenças que já favoreçam esse tipo de problema, como nas trombofilias…

Essas escapulidas da dieta, vão gerando danos que se acumulam no organismo e a longo prazo podem levar a sérias complicações, como a doença celíaca refratária e até mesmo o linfoma intestinal! E aí, minha gente, a coisa fica pra lá de complicada, porque o tratamento destas condições é bem mais complexo, com restrições alimentares beeeem maiores…

Enquanto estamos livres de glúten (lembrando que não é só exclui-lo e pronto! É necessário cuidar do que se coloca no lugar), a inflamação fica sob controle. Basta uma exposição a esse sujeitinho e a inflamação dá as caras e põe dias e até meses de cuidado a perder!

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Imagem encontrada na internet

Há também quem acredite que se consumir uma daquelas enzimas que falei nesse post aqui, que dá pra encarar umas fatias de pizza numa boa, mas não dá. As enzimas podem até inibir os sintomas, mas até se prove o contrário (e por provar o contrário estou me referindo a termos vários estudos randomizados, controlados, duplo cego, com um numero grande de participantes) não inibem a inflamação como um anestésico. É um raciocínio semelhante ao que ocorre quando temos uma infecção e febre… ao tomarmos um remédio para a febre, a mesma cede e fica controlada, mas a infecção não desaparece!

Enzimas gluten

Ou seja, a única forma de tratar as desordens relacionadas ao glúten, é fazendo a dieta 100% sem glúten e sem contaminação, como já falei tantas vezes aqui (e aqui e aqui) no blog!

Vida sem gluten

 

Infertilidade x Doença Celíaca

A relação entre glúten/DC e infertilidade é uma dúvida recorrente nos grupos de celíacos, e realmente doença celíaca (DC) TEM que ser investigada em mulheres com dificuldade para engravidar ou que engravidam, mas mas não conseguem levar a gestação adiante.

Infelizmente a DC é pouco lembrada nos consultórios de ginecologia, apesar de ser uma causa tratável de infertilidade. O triste é que esse “esquecimento” dos profissionais tem um alto custo (emocional, principalmente, mas também financeiro, por conta dos muitos tratamentos para engravidar) para as mulheres que desejam ter um bebê.

É sempre importante lembrar que a DC nem sempre aparece com sintomas típicos (diarreia e perda de peso) e seus sintomas (dor de cabeça, desconforto abdominal, inchaço, aftas, queda de cabelo, cansaço, anemia, depressão, irritabilidade, intestino preso, etc) se confundem facilmente com muitas outras condições clínicas e pode vir associada a outras doenças autoimunes como Tireoidite de Hashimoto, Diabetes Tipo I, etc.

A DC pode causar infertilidade de várias maneiras e vou tentar explica-las:

Deficiências nutricionais – a DC causa má absorção, portanto, celíacos estão em risco de deficiências nutricionais diversas. Para que um bebê se desenvolva no útero materno, são necessários diversos nutrientes: proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais e para isso, as necessidades nutricionais da gestante aumentam. Com a má absorção, fica inviável pro corpo manter todas as suas funções e ainda dar conta de um bebê em desenvolvimento. Então, a natureza, sabiamente, para preservar a mãe, impede a gestação. Em outros casos, o embrião pode apresentar má formações graves por causa do deficit nutricional  e mais uma vez, a natureza entra em ação e não deixa a gestação prosseguir. A deficiência de nutrientes também pode afetar os homens celíacos e dificultar a gestação da parceira! Os espermatozóides dependem de diversos nutrientes para serem capazes de fecundar o óvulo e sem nutrientes, a coisa complica…

  1. A DC é uma doença autoimune, logo, significa que o glúten estimula a autodestruição do nosso corpo, através da produção dos autoanticorpos (o antitransglutaminase e o antiendomísio). A transglutaminase é uma enzima que está presente em todo o corpo e o endomísio é uma estrutura que recobre a camada muscular dos tecidos… os anticorpos que produzimos contra essas estruturas podem atacar o embrião em formação e a placenta, impedindo que a gestação evolua. Mesmo em celíacas diagnosticadas e que fazem a dieta, é importante lembrar que contaminações frequentes e o consumo voluntário de glúten também são prejudiciais!
  2. Outro ponto importante é que em função do ataque autoimune à mucosa do intestino, o corpo todo fica sob o efeito da inflamação e do excesso de radicais livres produzidos. Na tentativa de neutralizar esses efeitos, o deficit nutricional aumenta, pois é como tentar apagar um incêndio de grandes proporções usando um copo… a água (os nutrientes) acaba e o incendio continua lá…
  3. Há ainda as celíacas que também apresentam disfunção tireoidiana. O hipotireoidismo.  é uma causa conhecida de dificuldade para engravidar e de riscos à saúde do bebê, principalmente sob o aspecto neurológico e cognitivo (casos graves de hipotireoidismo não tratado podem causar cretinismo, uma condição em que o bebê nasce com retardo no desenvolvimento cerebral)

Infelizmente não são poucos os relatos de mulheres que tentaram engravidar durante anos e que acabaram entrando na menopausa (muitas vezes precocemente) sem terem conseguido ter um bebê, justamente porque não saberem da DC e por não terem tido a oportunidade de se tratarem. Esse é um dos motivos que me preocupam quando alguma paciente se queixa da dificuldade de engravidar, pois a celíaca pode estar ali, mesmo sem sintomas típicos.

Mas a NOTÍCIA BOA (!!!) é que a DC diagnosticada e tratada (dieta sem glúten e sem contaminação) não impede a gestação e nem a torna mais arriscada ou complicada. Com uma alimentação saudável e variada e com o tratamento correto das deficiências nutricionais (reposição dos nutrientes em falta), sem esquecer de cuidar do intestino e da suplementação com probióticos é possível gerar bebês saudáveis e ter uma gestação tranquila!

Bebe e cegonha
Imagem da internet

Mas NÃO EXCLUA O GLÚTEN ANTES DE FAZER EXAMES PARA DIAGNOSTICAR A DC!!! Se você está tentando ou planejando engravidar, converse com seu médico e peça para que ele inclua os exames (a dosagem do anticorpo antitransglutaminase no sangue e a endoscopia com biopsia de 6 a 8 fragmentos do duodeno) na listagem de exames pre-natais e não deixe de procurar um Nutricionista para garantir uma alimentação saudável durante toda a gestação e depois, durante a fase de amamentação!

Bebe amamentado
Imagem da internet

 

 

Intolerância ao Glúten existe mesmo?

A resposta é SIM e NÃO…

Perdi a conta de quantas vezes tentei explicar o porque não se falar mais em “intolerância ao glúten”, então, como sempre, resolvi escrever um post…

Durante muitos anos, desde que o glúten foi identificado com o agente “causador” (ou gatilho) que a Doença Celíaca (DC) foi chamada de “Intolerância ao Glúten” e (infelizmente) ainda é assim que o Ministério da Saúde a chama na segunda edição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para DC, publicado esse ano. No Consenso de Oslo, publicado em 2012, já havia uma recomendação para que nenhuma das Desordens Relacionadas ao glúten fosse chamadas apenas de intolerância.

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

E por que essa preocupação? Não de trata de uma intolerância???

Sim e Não. Confuso? Um pouco, mas explico melhor.

Uma das primeiras hipóteses para explicar a DC era a de que celíacos possuíam uma deficiencia enzimática, logo o glúten não era digerido e isso provocava os sintomas. Mas posteriormente, outras pesquisas demonstraram que esse era um raciocínio simplista demais para explicar o quadro clínico e as lesões na mucosa intestinal. A medida que as técnicas avançaram, que os anticorpos (antigliadina, antiendomísio e antitransglutaminase) foram descobertos e com o uso da endoscopia com biópsia de duodeno, os pesquisadores viram que na verdade a DC era uma doença autoimune, na qual, a tentativa do sistema imunológico de destruir o glúten (com a produção do anticorpo antigliadina) gerava mais dano ao organismo, que passo a passo ia se autodestruindo, literalmente, ao produzir os anticorpos antiendomisio e antitransglutaminase, que atacam diretamente as estruturas presentes no intestino (e podem afetar outros órgãos, como acontece na ataxia do glúten, na qual os anticorpos antitransglutaminase atacam estruturas cerebrais).

Chamar a DC e outras DRG de “intolerância” leva a uma grande confusão e faz com que as pessoas minimizem a gravidade do problema e não se cuidem corretamente. Não são raros aqueles que já chegam dizendo “eu SÓ tenho intolerância ao glúten, e não preciso de tantos cuidados com a dieta”, pois pensam que é uma condição semelhante à intolerância a lactose (IL), por exemplo e é aí que a coisa complica e os riscos aumentam. Na DC já se sabe que se a dieta não é feita corretamente, há um risco muito maior da doença evoluir para a forma refratária (que necessita não só da dieta como também de medicamentos imunosupressores), do surgimento de outras doenças autoimunes como Diabetes tipo I, Tireoidite de Hashimoto, Lupus, Artrite, etc e câncer de intestino. Já dentre os riscos da alergia ao trigo, o mais grave e que pode levar à morte em questão de minutos é a anafilaxia. E como ainda não se sabe quais os riscos associados a SGNC, os pesquisadores recomendam que se tenha o mesmo cuidado que com a DC.

Na IL há uma intolerância do organismo a esse carboidrato (a lactose) porque a produção da enzima (lactase) necessária a sua digestão está sendo insuficiente. Com isso, a lactose não é digerida e fica na luz intestinal, onde é fermentada por bactérias, gerando gases, desconforto e (nem sempre), diarréia. Mas passado o mal estar, e desde que não se volte a consumir lactose, as coisas voltam a um certo grau de normalidade (não vou entrar aqui em detalhes a respeito das alterações na microbiota ou flora intestinal – isso fica pra outro post) e o mal estar passa.

Lactose e lactase

Mas quando estamos falando de uma proteína complexa como o glúten (que de fato, não é bem digerida por NINGUÉM), a intolerância ocorre num nivel muito maior de complexidade, pois trata-de se intolerância IMUNOLÓGICA. Ou seja, aqui é o sistema imune (nosso sistema de defesa) que dá o alarme após detectar que há algo errado e é ele mesmo que parte com tudo pra cima do “inimigo” ( glúten). Na IL, o sistema imune nem tem ciência do que está acontecendo e por isso, os sintomas e suas consequencias, apesar de bem desagradáveis, em geral não costumam ser graves (a não ser quando a diarreia chega ao ponto de causar desidratação, por exemplo).

Já nas Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG), principalmente na DC, se o sistema imune é chamado, as reações serão graves e imprevisíveis. Mal comparando, seria como se tentássemos matar um mosquito usando uma granada… obviamente, numa situação hipótetica dessas, o mosquisto até seria morto, mas tudo a sua volta seria destruído (e provavelmente quem detonou a granada, também!). E é bem assim que as coisas funcionam em nosso corpo… se temos DC e ingerimos glúten, nosso corpo tenta “matar o mosquito” (o glúten) usando uma granada e é aí que a coisa complica pro nosso lado, pois nosso intestino vai sendo destruído junto (os anticorpos antitransglutaminase, que pedimos pra dosar no sangue, são os marcadores da granada que foi detonada).

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Essa figura demonstra como as lesões intestinais progridem, desde o início do processo inflamatório (1) até a completa atrofia da mucosa (4)

Mesmo nas “intolerâncias” mediadas por IgG, que algumas pessoas consideram mais leves, há reações imunológicas, que não podem, nem devem ser menosprezadas! Quando estes exames positivam, significa que está ocorrendo um aumento de permeabilidade no intestino e que proteinas alimentares não digeridas estão entrando em contato com o sangue e com o sistema imune, logo, o mesmo reage produzindo anticorpos, avisando que já detectou o “invasor” e estão tentando destruí-lo. Nesse caso, sem o resultado da biópsia duodenal, não há como saber se está ocorrendo lesões no intestino e muitas vezes, os anticorpos positivam antes que tais lesões ocorram… se excluimos o glúten nesse momento, podemos prevenir o surgimento de tais lesões.

A Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC) muitas vezes também é chamada de “intolerância ao glúten” e aqui, definir se é ou se não é fica um pouco mais complicado, pois as evidenciacis científicas mostram que pode ser o glúten o agente causal dos sintomas (e da positivação de anticorpos) na SGNC, mas também outras proteínas existentes no trigo e em outros cereais (como as proteínas inibidoras da alfa amilase e da tripsina), ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra) presentes nos cereais (e em outros alimentos). Aqui, se pudessemos ter certeza absoluta (coisa praticamente impossível até o momento) de que os frutanos do trigo estão por trás dos sintomas, aí sim, poderíamos falar em intolerância (pensando no exemplo da IL), pois como fibras são carboidratos e como o trato gastrointestinal humano não produz enzimas capazes de digeri-las, logo estamos diante de uma situação semelhante a que ocorre na Intolerancia a lactose: ausencia de uma enzima, dificuldade em digerir um carboidrato e sintomas decorrentes disso tudo.

Entretanto, muitas vezes os sintomas não costumam ser um bom parâmetro para avaliar a extensão das lesões (voltando a questão da produção de autoanticorpos)… é só lembrar que existe a DC ASSINTOMÁTICA, com as mesmas lesões (ou até mais graves) que a DC sintomática…

Na IL, a ingestão de pequenas doses de lactose (como as que estão presentes num comprimido, por exemplo), não causam reação na maior parte das pessoas (geralmente os sintomas percebidos estão relacionados ao medicamento em si e não a lactose do comprimido, que é usada apenas para “dar peso”). Já nas DRG não existe a possibilidade de ingerir “só um pouquinho”! Achar que “só um poquinho não me fará mal porque SÓ tenho intolerância” é uma grande ilusão que a longo prazo só trará problemas!

Então, minha gente, não caiam no conto da intolerância!!! E sempre que algum profissional de saúde falar em “intolerância ao glúten”, na realidade ele está se referindo a “INTOLERÂNCIA IMUNOLÓGICA AO GLÚTEN”!!!

Cortei o glúten e não consigo emagrecer!

Com tanta gente cortando o glúten da alimentação,pensando justamente em emagrecer, muitos celíacos se assustam ao começarem a engordar após o diagnóstico da Doença Celíaca (DC) e inicio da dieta sem glúten e não conseguem entender os motivos. Decidi então escrever pra tentar explicar porque isso acontece.

Imagem encontrada na internet
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  1. Uma das consequências da DC (antes do diagnóstico) é a atrofia da mucosa intestinal e má absorção de nutrientes. Logo, ao excluirmos o glúten (tirando assim o agente agressor), nosso intestino desinflama, se recupera e voltamos a absorver os nutrientes da maneira adequada.
  2. Após períodos de desnutrição (ou de má absorção), o corpo tenta “correr atrás do prejuízo” e otimiza os mecanismos de absorção, pra tentar tirar o máximo de proveito possível de tudo o que é ingerido;
  3. O glúten, apesar de estar presente na farinha de trigo (e em muitas preparações feitas com ela) é uma proteína. As farinhas usadas para substituir o trigo, contém uma quantidade muito menor de proteínas e mais carboidratos, logo, ao fazermos as substituições, passamos a consumir mais carboidratos (e na forma de farinha refinada, de alto índice glicêmico), o que contribui para o aumento de peso;
  4. Além disso, muitas preparações sem glúten, contém maior quantidade de sal, açúcar e/ou gordura, como forma de “copmpensar” a  falta do gluten na consistencia e textura, o que as torna mais “engordativas” que a versão original.
  5. O sódio, além de favorecer a retenção de líquidos (que pode aumentar o peso,por inchaço), também aumenta a absorção dos carboidratos ingeridos… ou seja, tudo o que contém grande quantidade de sódio também acaba engordando mais!
  6. O fato de lidarmos com uma restrição alimentar, que sabemos que será PRA SEMPRE, nos leva a pensar mais vezes no que vamos comer e aumenta nossa preocupação com o risco de privação alimentar. Isso acaba por nos levar, mesmo que involuntariamente, a buscar mais comida e a comer quantidades maiores ou com maior frequência;
  7. A consciência da privação alimentar também aumenta nosso foco sobre os alimentos substitutos dos que estávamos habituados a consumir e nos faz esquecer de todos aqueles naturalmente isentos de glúten (e geralmente os mais nutritivos e menos calóricos) como frutas, legumes, verduras, carnes magras, arroz, feijão, etc;
  8. Ao prepararmos nossas receitas com ingredientes sem glúten, nem sempre temos com quem dividir os pratos ( e muitas vezes nem queremos dividir… rsrs), e consequentemente acabamos comendo mais;
  9. Ao encontrarmos algo que podemos comer e que seja gostoso, também acabamos comendo mais.
  10. Muitos celíacos não se exercitavam antes do diagnóstico, devido a falta de disposição e energia e continuam sem se exercitar após iniciar a dieta, só que absorvendo melhor tudo o que é ingerido.
  11. Muitos celíacos também apresentam disfunção tireoidiana (hipotireoidismo, Tireoidite de Hashimoto), que favorecem a retenção de líquidos e o ganho de peso, já que o metabolismo se torna mais lento.
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Os fatores que contribuem para o sobrepeso em celíacos são muitos e estes são só alguns exemplos. Mas de um jeito ou de outro, celíacos necessitam de acompanhamento nutricional, realizado por um profissional que entenda do assunto, para que todos estes fatores sejam avaliados, para que deficiências nutricionais sejam avaliadas e tratadas e para promover a adequação do peso e prevenir as complicações do sobrepeso, como o aumento dos níveis de colesterol e de triglicerídios, para tratar a resistência insulínica e para evitar a síndrome metabólica.

Não sou celíaca(o), mas …

Saiba que as pessoas que começam as frases assim, tem grandes chances de serem celíacas ou ao menos sensíveis ao glúten!

Por que? Você só consome glúten esporadicamente ou mesmo frequentemente e sente um ou mais dos sintomas abaixo? Aproveite e anote quais e quantos você sente:

( ) Dor abdominal (dor na barriga)

( ) Diarréia

( ) Constipação (prisão de ventre)

( ) Gases

( ) Distensão abdominal (barriga inchada)

( ) Náuseas (enjoos) / vômitos

( ) Aftas frequentes

( ) Edema (inchaço)

( ) Deficiências nutricionais – anemia, osteopenia, deficiência de B12, etc

( ) Dores musculares / articulares

( ) Cansaço frequente

( ) Queda de cabelo

( ) Irritabilidade

( ) Depressão

( ) Dificuldade para engravidar / abortos de repetição

( ) Problemas tireoidianos (hiper ou hipotireoidismo)

( ) Alguma doença autoimune (ex: Hashimoto, Lupus, Arttrite Reumatóride, Sd de Sjogren, Diabetes tipo I, Vitiligo, etc)

( ) Psoríase

( ) Alterações no esmalte dentário (manchas / desgaste)

( ) Aumento das transaminases (enzimas do fígado: TGO e/ou TGP)

( ) Sindrome do intestino irritável

( ) Doença Inflamatória intestinal

( ) Possui algum parente celíaco (pai, mãe, irmãos, filhos)

 

Anotou? Então, está na hora de pensar em procurar um médico e fazer os exames para confirmar/ descartar Doença Celíaca e SGNC (sensibilidade ao glúten não celíaca), pois existem grandes chances do glúten estar por trás destes problemas!

Obs: Essa lista baseia-se na infinidade de sinais e sintomas relatados na literatura científica nacional e internacional, como os publcados aqui, e baseia-se na lista original, utilizada, na Argentina e apresentada aqui no Brasil, pelo Dr. Eduardo Cueto-Rua, durante o III COINE (realizado em 2014, no Rio de Janeiro):

Celiared

O Glúten, a Perda de Peso e as Desordens Relacionadas

De uma hora para outra parece que o glúten se tornou o grande vilão das dietas e a cada dia aumenta o número de adeptos da dieta “gluten free“. De um lado há aqueles que consideram tudo uma grade besteira (“porque sempre ingerimos glúten e tudo bem”), de outro lado estão muitas pessoas que depositam todas as esperanças de emagrecimento nessa “nova dieta”. E no meio disso tudo estão os celíacos e sensíveis ao glúten (que fazem a dieta por necessidade) e os profissionais de saúde, e seu compromisso com a Ciência. Assim, antes de atacar ou defender cegamente uma ideia, acho mais sensato recorrermos à Ciência para uma breve análise do assunto.

O glúten é o nome “genérico” ou popular de uma classe de proteínas que compõem os cereais, as prolaminas. As comprovadamente tóxicas para os celíacos são as prolaminas do trigo (a gliadina), do centeio (a secalina) e da cevada (a hordeína). Mas ainda existem outras prolaminas, como a avenina* (da aveia) e a zeína do milho, que podem ou não causar problemas.

Até alguns anos atrás, sabia-se somente que o glúten era prejudicial aos portadores de Doença Celíaca, uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de alimentos contendo esta proteína (inclusive aveia* contaminada com glúten), associada a fatores genéticos. Entretanto, já se sabe que os problemas envolvendo o glúten vão além da celíaca e boa parte deles está descrita no Consenso de Oslo ( http://gut.bmj.com/content/62/1/43.full.pdf+html ), mas em nenhum momento, o Consenso recomenda a exclusão do glúten unica e exclusivamente para a perda de peso e nem para pessoas que não possuam tais desordens. Então por que tanta gente vem mudando sua alimentação e garantindo que obteve benefícios, inclusive em relação à perda de peso?

Analisemos então, algumas questões envolvendo esta proteína tão controversa:

1) Realmente o glúten não é bem digerido por nenhum ser humano. Isso é uma questão bioquímica… a estrutura dessa proteína tem uma configuração que dificulta o acesso e a ação das nossas enzimas digestivas e os fragmentos não digeridos realmente causam inflamação e aumento da permeabilidade. Em celíacos, essa reação ocorre em “maior escala”, porque além de tudo, os fragmentos não digeridos estimulam a produção de anticorpos que atacam a mucosa intestinal, destruindo-a e impedindo a absorção dos nutrientes. Logo, uma alimentação com baixo teor de glúten, ou mesmo isenta desta proteína pode melhorar a digestão de muita gente

2) Aumento de permeabilidade intestinal, inflamação e disbiose (alteração do “perfil” de bactérias presentes no intestino) de fato estão associadas à obesidade e a diversas outras doenças, como diabetes e doenças autoimunes (artrite, lupus, tireoidite de Hashimoto, etc). Portanto, tudo que contribua para diminuir a inflamação, que restaure a permeabilidade a niveis normais e ajudem a tratar a disbiose, certamente ajudará a saúde como um todo;

3) O Glúten é uma proteína naturalmente presente em alguns cereais: trigo, centeio e cevada. Pode estar presente em outros alimentos, como a aveia produzida no Brasil, por contaminação. Além disso, o glúten faz parte de um grupo de proteinas conhecidas como prolaminas (glúten é o nome “genérico” das prolaminas) e possui “primos” em outros cereais, como a aveia (considerando a aveia não contaminada), o milho e o arroz, “primos” estes que podem causar reações cruzadas em algumas pessoas que reagem ao glúten. Ou seja, o glúten não foi “inventado” pela industria alimentícia. O problema maior é que ele é um excelente aditivo, porque melhora a textura e a consistência de muitos produtos e por isso, ele está presente (por adição) a uma infinidade de alimentos (inclusive temperos, iogurtes, etc);

4) Uma outra questão envolvendo o pão, é quantidade extra de glúten, adicionada à farinha, com o objetivo de “melhorá-la” e o método de fermentação utilizado. Desde o tempo dos egípcios o pão era fermentando de forma lenta, bem artesanal, e assim, boa parte do glúten era “pré digerida” pelo fermento. Atualmente, como a fermentação mais utilizada é mais rápida, obviamente não há tempo para que isso ocorra, assim, acabamos consumindo pães com um elevado teor de glúten.

5) A maioria dos alimentos contendo glúten (pães, massas, bolos, salgadinhos, biscoitos, etc) também contém grande quantidade de calorias (em geral calorias vazias) e alto índice e carga glicêmicas, ou seja, alimentos que aumentam a fome, favorecem o ganho de peso e a resistência insulinica, se consumidos em excesso. Assim, excluir estes alimentos da dieta, pode realmente ajudar na perda de peso;

6) Porém, como nem tudo são flores, não adianta muito substituir a versão com glúten por similares sem glúten, preparados com outras farinhas tão ou mais calóricas que o trigo, como farinha de arroz, polvilho, amido de milho, etc. Neste caso, se a intenção é a perda de peso, troca-se seis por meia duzia!

7) Durante milhões de anos, os seres humanos sobreviveram, se multiplicaram e se espalharam por todo o planeta Terra sem nunca ter ouvido falar em trigo ou glúten, pois eram caçadores-coletores, não cultivavam nenhum alimento e tampouco produziam farinhas. Somente há cerca de 10 mil anos atras é que o glúten começou a fazer parte da alimentação humana e ainda assim, foi somente no século XX que houve uma verdadeira “overdose” em seu consumo, o que pode explicar o porque de tanta gente apresentando problemas com ele.

8) Ninguém desnutre ou sofre qualquer tipo de prejuízo ao deixar de consumir glúten, mas é importante alertar que deve-se fazer exames para confirmar ou descartar a Doença Celíaca e a alergia ao trigo, ANTES, para evitar a negativação dos exames e complicações* a longo prazo para celíacos não diagnosticados.

* As complicações da doença celíaca não tratada corretamente (quando há exposição, mesmo que eventual, ao glúten) vão desde deficiencias nutricionais, passando por infertilidade, até complicações malignas como câncer de intestino!!!

Então, quer deixar o glúten? Faça-o com consciência e devidamente orientado por um profissional que entenda do assunto! 

Quem sou eu

Nutricionista graduada pela UERJ, com 19 anos de experiência em Nutrição Clínica, em consultório. Professora (graduação e pós graduação em Nutrição).

Mestre em Alimentação, Nutrição e Saúde pelo Instituto de Nutrição da UERJ.

Pós graduação em:

  1. Fitoterapia (Universidade Cruzeiro do Sul/VP Consultoria)
  2. Nutrição Clínica e Funcional (Universidade Cruzeiro do Sul/VP Consultoria)
  3. Suporte Nutricional Enteral e Parenteral (Santa Casa de Misericórdia do RJ)

Atendo em consultório particular e também atuo como palestrante em eventos científicos e como professora convidada.

Minhas principais áreas de atuação são: desordens relacionadas ao glúten (doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca, alergia ao trigo), alergias e intolerancias alimentares, disbiose intestina/ SIBO, dieta low fodmaps, doenças autoimunes (Tireoidite de Hashimoto, artrite reumatóide, esclerose múltipla, etc), resistencia insulínica / hiperinsulinemia, diabetes tipo II, síndrome metabólica, dieta low carb (baseada em “comida de verdade”), saúde da mulher (tratamento nutricional de SOP, TPM endometriose, mulheres q querem engravidar, gestantes e lactantes) e pessoas vegetarianas / veganos.

Durante 5 anos fui colaboradora do site Semlactose (www.semlactose.com). Atualmente sou consultora Técnica da Fenacelbra e Acelbra-RJ, trabalhando como voluntária na elaboração de cartilhas e materiais educativos.

Principais publicações:

  1. Dez Passos para a Alimentação do Celíaco: http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/blog/2013/03/23/cartilha-10-passos-para-a-alimentacao-do-celiaco/ (2013)
  2. Lista de Alimentos Permitidos e Proibidos na Doença Celíaca: http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/alimentos-proibidos-e-permitidos/ (2014)
  3. Capítulo sobre Nutrição, no livro: O Universo da Criança Celíaca, de Erivane de Alencar Moreno (2014).
  4. Prólogo no livro: Celíacos – Sanos, Plenos Y Libres, do Dr. Eduardo Cueto-Rua (2015)

Publicações em Periódicos Científicos:

  1. Fragilidades da Atenção à Saude de Pessoas Celíacas no Sistema Único de Saúde (SUS): a perspectiva do usuáriohttp://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/demetra/article/view/10499/9709#.VVTxJPlViko