Exames para diagnóstico da Doença Celíaca e da Sensibilidade ao Glúten

As dúvidas em relação aos exames para diagnóstico da DC (doença celíaca), da SGNC (sensibilidade ao glúten não celíaca e da AT (alergia ao trigo) são constantes em todos os grupos que participo no Facebook, então, resolvi reunir todas as informações num único post, apesar de já ter falado sobre eles em posts anteriores sobre as Desordens Relacionadas ao Glúten.

É sempre importante lembrar que o diagnóstico deve ser feito por um médico (preferivelmente um gastroenterologista), entretanto, a título de não atrasar a vida do paciente, os anticorpos podem ser solicitados por Nutricionista (que deverá encaminhar o paciente ao médico, para que o diagnóstico seja fechado corretamente) ou por médicos de qualquer especialidade, sempre ANTES DA EXCLUSÃO DO GLÚTEN (ou na pior das hipóteses, junto com o inicio da dieta, para evitar que os resultados sejaam influenciados pela mesma)!

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

Doença Celíaca (sugiro a leitura do Protocolo Clínico do SUS – versão 2015 e do Consenso de Oslo)

GENÉTICO (HLA DQ2 E DQ8): Avaliam a predisposição genética para desenvolver DC, mas sozinhos não dizem se a doença esta ativa ou não. Para faze-lo não é necessário estar consumindo glúten e seu resultado nunca mudará pois não há como mudar nossos genes. Somente um pequeno percentual de celíacos não os possui. Costuma ser utilizado quando o paciente já deixou de consumir glúten há bastante tempo e não consegue levar adiante o desafio do glúten (já falei sobre isso aqui)

ANTICORPO IGA ANTITRANSGLUTAMINASE : para diagnóstico é necessario estar consumindo glúten normalmente. Mostra que o corpo está reagindo ao glúten, destruindo a mucosa intestinal e deixando de absorver nutrientes importantes. É necessário correlacionar este resultado com o IgA total, pois na deficiencia de IgA este exame vai negativar.

ENDOSCOPIA COM BIÓPSIA DE DUODENO: Mostra o grau de lesões do intestino delgado e o resultado deve vir classificado de acordo coma Escala de Marsh (figura abaixo) – o zero da escala é quando a mucosa está normal e não há nenhum tipo de lesão, os graus 3 e 4 são os estágios mais avançados de inflamação e atrofia da mucosa, com grave prejuizo na absorção dos nutrientes. É considerado o padrão ouro para o diagnóstico, mas para ter um resultado confiável, é necessario estar consumindo glúten normalmente e o material para a biopsia precisa ser colhido em pelo menos 4 locais diferentes do duodeno (se fizer de 6 ou 8, melhor ainda). Mas é importantíssimo chamar a atenção que o exame precisa ser solicitado corretamente, pois somente a endoscopia que avalia esôfago e estômago e somente a BIÓPSIA DE ESTOMAGO NÃO MOSTRAM LESÃO DE DC!

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Alergia ao Trigo:

Os testes de alergia avaliam a produção de anticorpos da classe IGE específicos para o trigo. Há os testes feitos na pele (Prick test) e o teste sorológico (Rast). Entretanto, convém lembrar que até 25% dos resultados podem apresentar resultados falso negativo, pelos mais diversos motivos. Assim, para fechar o diagnóstico, o médico precisa considerar os sintomas do paciente, bem como todo seu histórico.

Sensibilidade ao glúten Não Celíaca:

A SGNC só ganhou “status” de doença ou condição clínica a partir de 2011, quando entrou para a lista das Desordens Relcionadas ao Glúten. Entretanto, até o momento, ainda não está claro para os pesquisadores (e não há consenso sobre isso) se de fato é o glúten (ou somente ele) o responsável pelos sintomas, ou se outras proteínas presentes nos cereais, como as lectinas e as proteínas inibidoras da alfa-amilase e da tripsina também estariam envolvidas no processo. E ainda há pesquisadores que atribuem os sintomas a presença de FODMAPs (carboidratos fermentáveis) no trigo. Há casos em que os anticorpos antigliadina (anticorpos contra a prolamina existente no trigo – a gliadina) positivam, mas isso não é uma regra e apenas cerca de 50% dos sensiveis ao glúten possuem a genetica compatível com a DC (nesses casos, há uma forte suspeita de que essas pessoas, se continuarem consumindo trigo, a despeito de seus sintomas, podem se tornar celíacos).

Assim, é praticamente impossível estabelcer um único exame capaz de avaliar tantas variaveis envolvendo o trigo/glúten e até o momento, o diagnóstico por exclusão das outras desordens (DC e AT) continua sendo o método preconizado pelos pesquisadores. Nesse caso o que se faz é:

Exames com resultados negativos ou inconclusivos + sintomas associados a ingestão de trigo/glúten + melhora com a dieta de exclusão + piora com a re-introdução = SGNC.

Mas aqui chamamos a atenção para o seguinte: a dieta precisa ser feita corretamente, e devidamente orientada por um Nutricionista, para que o resultado da avaliação seja confiável.

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Meus exames para Doença Celíaca negativaram, e agora?

Bom, se não há nenhum sintoma ou indício de que você possa ter alguma desordem relacionada ao glúten (e desde que você não tenha excluido completamente o glúten da alimentação antes de fazer os exames), ótimo!  Desencana!

Mas geralmente essa não é a realidade de quem se vê as voltas com tais exames (anticorpo antitransglutaminase e endoscopia com biópsia de duodeno), pois estamos falando de pessoas que procuraram ajuda por não estarem bem de saúde. E por mais incrível que possa parecer,  é frustrante ter resultados negativos nas mãos,  e continuar sem entender o porquê de tantos sintomas e desconforto.

dor de barriga
A questão é que muitas vezes a sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) não é lembrada pelo médico como hipótese diagnóstica. Mas não é por causa disso que vamos sair por aí chamando médicos de incompetentes ou coisa pior (como infelizmente costuma acontecer)! O que ocorre é que apesar de estar sendo estudada desde 1978, a SGNC só foi efetivamente reconhecida como uma doença ou desordem  associada ao glúten em 2011, com a elaboração do Consenso de Oslo! Ou seja, somente há 4 anos e ainda não houve tempo para que todos os profissionais se atualizassem, até porque se a própria Doença Celíaca, conhecida há quase 2 mil anos ainda é pouco lembrada e considerada rara, principalmente entre adultos e idosos, que dirá a SGNC!

E na verdade, a SGNC ainda é uma incógnita até mesmo para quem a estuda com afinco e muitas hipóteses já foram levantadas. Até o momento o que se sabe é que nem todos os pacientes com esta condição possuem os marcadores genéticos da celíaca e seus exames ou são negativos ou apresentam resultados inconclusivos. Além disso, não tem certeza nem se só o glúten é o responsável pelos sintomas, já que o trigo, além do glúten, possuem outros componentes que “concorrerm” pelo papel de “vilão” na SGNC, como a lectina (ou aglutinina) do trigo, as proteínas inibidoras das enzimas (do nosso trato gastrointestinal) amilase e tripsina ou mesmo os frutanos (um tipo de fibra, fermentada por bactérias intestinais) presentes no trigo… ou ainda, se é “tudo junto e misturado”, numa superposição de fatores.

A única certeza que se tem é que todos apresentam sintomas (gastrointestinais ou não) quando ingerem fontes de glúten e melhoram quando deixam de ingeri-las. Por causa disso, ainda fica a dúvida se a SGNC seria um estágio anterior à DC (também conhecida como DC latente ou potencial, que um dia se torna DC, com todos os marcadores positivos e sinais e sintomas característicos).

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Como ninguém tem certeza a respeito das consequências e complicações da SGNC, caso a mesma não seja corretamente tratada, no Consenso de Oslo ficou decidido que o tratamento deve ser exatamente o mesmo da DC: Dieta totalmente livre de glúten e de contaminação, ou seja, a dieta precisa ser levada a sério, de segunda a segunda, 365 dias no ano, para evitar que complicações (como as da DC, que incluem até mesmo linfoma intestinal) apareçam e nesse ponto, a ajuda de um Nutricionista é fundamental, para os ajustes necessários na alimentação e até mesmo para a avaliação e tratamento de deficiências nutricionais que podem estar presentes.

E tal “intolerância ao glúten” que muitas pessoas ainda falam e acreditam ser uma condição mais leve e de menor gravidade (permitindo-se assim, sair da dieta em algumas situações)? Esse mesmo Consenso no qual estamos falando, diz que a “intolerância ao glúten”, é nada mais, nada menos que a própria Doença Celíaca em sua nomenclatura antiga e justamente para evitar confusão e banalização do caso, os especialistas que elaboraram o documento, recomendam fortemente que os pacientes parem de usam essa expressão. Ou seja… intolerância ao glúten é DC e portanto, é uma condição crônica, autoimune e que persiste por toda a vida, não dando chance para banalizações e descuidos com a dieta!

Estudo de Harvard diz que dieta sem glúten aumenta o risco de diabetes. Será?

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Durante os dias 07 a 10 de março de 2017, a American Heart Association promoveu um meeting (encontro científico) in Portland, Oregon (EUA). Nesse evento, a equipe do Dr. Zong (um dentista chinês) apresentou os resultados de um estudo observacional – prospectivo – com um N representativo (foram avaliadas cerca de 200 mil pessoas), no qual verificaram que dentre essas pessoas, o risco de desenvolver diabetes tipo 2 foi  13% maior (o equivalente a 16 mil pessoas) nos que reduziram a ingestão de glúten (o resumo do estudo pode ser lido aqui). A motivação para o estudo parece ter sido a grande quantidade de mortes/ano pelas complicações do DM2, uma doença metabólica crônica, sobre a qual eu já falei nesse post aqui. Outro ponto, foi o aumento da procura por produtos (industrializados) sem glúten nos EUA.

Pois bem, os próprios pesquisadores terminaram a apresentação dizendo que os resultados SUGEREM aumento do risco, mas que isto NÃO ESTÁ CLARO, e que (obviamente, como em toda pesquisa que se preze), MAIS ESTUDOS SÃO NECESSÁRIOS para avaliar a mesma coisa! Ou seja… a própria equipe que idealizou e conduziu o estudo SABE que esses resultados não são uma sentença definitiva e sabem que muitos outros fatores precisam ser considerados. (Aqui um parêntese pra chamar a atenção sobre como as reportagens que foram publicadas sobre esse estudo já no título conseguiram distorcer o que os pesquisadores falaram! Em momento algum os pesquisadores me parecem ter AFIRMADO que dieta sem glúten CAUSA diabetes! Mas as reportagens e seus desdobramentos, infelizmente, sim!). Além disso, os pesquisadores pegaram a(s) dieta(s) sem glúten (ou com pouco glúten), mas terminaram falando sobre as fibras (porque na realidade é baixa quantidade de fibras e não de glúten, que pode estar por trás do maior risco de diabetes, como eu também já havia falado aqui).

Eles também concluíram o resumo da pesquisa dizendo o seguinte:

Our findings suggest that gluten intake may not exert significant adverse effects on the incidence of T2D or excess weight gain. Limiting gluten from diet is thus unlikely to facilitate T2D prevention and may lead to reduced consumption of cereal fiber or whole grains that help reduce diabetes risk.” (Tradução: Nossos achados sugerem que a ingestão de glúten pode não exercer efeitos adversos significativos na incidencia de DM2 ou excesso de peso. Portanto, é improvável que limitar o glúten da dieta, ajude a prevenir a DM2 e pode levar à redução do consumo de fibra de cereais ou grãos integrais, que ajudam a diminuir o risco de diabetes.)

Eu não conheço os pesquisadores, nem tive ainda chance de ouvir diretamente deles quais seriam tais fatores, mas considerando tudo o que já estudei (inclusive sobre pesquisa) e meus 16 anos de experiência clínica … eu arrisco comentar abaixo, alguns desses possíveis fatores:

Não existe uma única dieta sem glúten! Obviamente precisamos esperar o estudo ser publicado, para sabermos mais detalhes, mas acho pouco provável que  a equipe de pesquisadores tenha dado conta de avaliar completamente a composição da dieta* de cada um dos participantes e de cruzar esses dados com resultados de exames laboratoriais (que indicassem risco prévio para diabetes), fatores genéticos (indicativos de risco de diabetes), peso (e ganho de peso durante as modificações na dieta), altura, circunferência da cintura, atividade física, medicamentos em uso, nível de estresse e tantas outras variáveis que podem influenciar no risco de desenvolver diabetes (se conseguiram fazer isso, pausa para aplaudi-los, porque isso seria um trabalho monstruoso, e só quem conhece os bastidores do mundo das pesquisas sabe do que eu estou falando).

E como eu estava dizendo… existem inúmeras formas de se comer sem glúten (assim como as possibilidades envolvendo o glúten também são infinitas). É possível ter uma alimentação muito pior sem glúten, se a mesma incluir APENAS pães, bolos, biscoitos, massas, refrigerantes, sucos industrializados e fast food… mas aí, vamos pensar, né? Com ou sem glúten, as chances disso adoecer alguém são bem grandes, não? Até porque, a alegação “não contém glúten” na embalagem não é garantia de comida saudável. Pode até ser uma opção segura para nós celíacos, do ponto de vista do glúten (como batatas fritas de pacote e refrigerantes, que sempre me “quebram um galho” quando estou viajando e não acho outras opções pra comer), mas nem sempre são sinônimos de comida saudável!

A dieta tradicional do brasileiro, naturalmente sem glúten (se considerarmos principalmente os hábitos das regiões Norte e Nordeste do país) é bem saudável: tapioca ou tubérculos (aipim/macaxeira, batata doce, inhame) ou banana da terra ou cuscuz de milho (ou mesmo broa de milho) ou açaí com farinha d’água no café da manhã e/ou lanche, arroz com feijão, carne/peixe/frango/porco/ovo e salada/legumes no almoço e jantar, frutas como sobremesa e como lanches intermediários.

Aí eu pergunto: será que quando comíamos assim, realmente nosso risco de ter diabetes era maior do que quando começamos a copiar os americanos, trocando refeições por fast food ou por pizza ou por congelados cheios de aditivos e farinhas? Ou nosso risco aumento quando começamos a adotar porções gigantescas de refrigerante, de biscoitos e snacks? Ou ainda, quando começamos a trocar o arroz e feijão de cada dia por um sanduíche comido às pressas?

Há ainda outras formas de se comer sem glúten, como na Dieta do Paleolítico (sobre a qual já falei aqui, aqui, e aqui), que era o modelo alimentar de TODA a humanidade antes do advento da agricultura e do uso de trigo e outros cereais na alimentação. Ainda hoje, em pleno século XXI, algumas populações ainda seguem o padrão alimentar de seus ancestrais e estas são as populações que exibem o MENOR risco de desenvolver DIABETES e outras doenças crônicas da modernidade. Aí eu pergunto… se o glúten fosse um possível ingrediente PROTETOR, como explicar o menor risco de adoecer exibido por essas pessoas? Talvez realmente o ponto a ser considerado não seja o glúten e sim outros fatores associados…

Enfim… os próprios pesquisadores mencionam as FIBRAS. Bom e o que são fibras? São CARBOIDRATOS** para os quais nós (seres humanos) não possuímos enzimas capazes de digeri-las e elas se tornam alimento das nossas bactérias intestinais e ainda melhoram o funcionamento intestinal, facilitando a eliminação de toxinas presentes nas fezes e produzidas pelas próprias bactérias. As fibras também retardam a absorção da glicose, vinda da alimentação, evitando sobrecargas na glicemia (glicose presente no sangue) e evitando sobrecarga no funcionamento do pâncreas. As fibras também aumentam a sensação de saciedade e, portanto, diminuem a FOME… se temos menos fome, comemos menos… logo, dificilmente engordaremos ou aumentaremos nossa circunferência abdominal, o que consequentemente, nos mantém mais protegidos do diabetes tipo 2.

E será que só é possível obter FIBRAS a partir dos cereais integrais??? A industria alimentícia nos fez acreditar que sim, mas as maiores (e melhores) fontes de fibras são justamente os (SURPRESA!!!)…ALIMENTOS NATURALMENTE ISENTOS DE GLÚTEN!!! Sim!!! As frutas (principalmente as que podem ser consumidas com a casca), as verduras, os legumes, os próprios tubérculos, as leguminosas (os feijões e seus “parentes”: lentilha, ervilha, grão de bico e amendoim) e as oleaginosas (castanha do Pará, de caju, amêndoas, nozes, pistache, macadâmia e o brasileiríssimo BARU, por exemplo). Assim, podemos concluir que, se alguém deixa de comer alimentos feitos com farinha de trigo integral e sua alimentação fica pobre em fibras, é porque a ingestão destes outros alimentos que falei está bem baixa, né? Se bobear, nem existe! Aí eu pergunto: o problema foi a exclusão da farinha contendo glúten? Obviamente que não, né, gente? O problema tá na alimentação pobre e monótona da pessoa!

Aí dá pra falarmos que é a ausência de glúten que causa diabetes? Ou será que são escolhas alimentares totalmente equivocadas, aliadas a uma vida sedentária, estressante, etc?

Em tempo: conheço muitos celíacos e suas histórias e sei que tanto eles, quanto suas famílias (pessoas que fazem a dieta sem glúten “sem necessidade”, apenas para acompnhá-los, por questões de segurança, economia e solidariedade), adquiriram hábitos alimentares muito mais saudáveis DEPOIS da exclusão do glúten, pois conseguiram enxergar que existe vida após a exclusão do glúten e que ela pode ser muito saborosa e saudável!

 

Considerações finais:

*Os pesquisadores trabalharam com um questionário de frequência alimentar para avaliar a dieta dos participantes. Estes questionários, geralmente bem grandes e padronizados, dependem da memória e da paciência de quem o responde e mesmo sendo instrumentos validados e muito utilizados nas pesquisas, não dão conta de mensurar todas as nuances envolvendo a alimentação de ninguém.

** As fibras podem ser celulose (a mesma que está no papelão e nas manchetes dos jornais nos últimos dias, mas também está presente em todas as folhas, na casca das frutas e dos legumes), pectina, amido resistente, FOS e inulina, (presente nas frutas e legumes), galactooligossacarídeos (presentes nos feijões e seus “parentes”), etc.

Dieta sem glúten realmente causa diabetes?

Antes de mais nada, é importante esclarecer que existe mais de um tipo de diabetes e que, apesar de todos os tipos terem em comum o fato da glicemia aumentar a ponto de se descontrolar (causando inúmeros problemas à saúde), suas causas são diferentes.

A child eating a hot dog while playing on a laptop — Image by © BNP Design Studio/ImageZoo/Corbis

Existe a diabetes tipo I (DMI), muito comum em crianças, mas que pode afetar pessoas mais velhas. Trata-se de uma doença autoimune, na qual as células produtoras de insulina, localizadas no pâncreas (as células beta pancreáticas) são destruídas pelo sistema imunológico, que por algum motivo, alheio à nossa vontade e compreensão, deixa de reconhecê-las como parte do corpo. As poucas células que resistem ao ataque, tentam compensar a produção de insulina, mas chega a um ponto em que não conseguem e aí, só mesmo com dieta e aplicações constantes de insulina exógena é possível controlar a glicemia (“taxa de açúcar no sangue”).

Na DMI, sabe-se que existe o fator genético envolvido (quando há casos de doenças autoimunes na família, mesmo que não seja diabetes), mas outros fatores estão envolvidos, e até o momento, sabe-se que infecções virais na infância e o uso precoce de fórmulas infantis a base de leite de vaca podem ser gatilhos para disparar a doença. E uma vez que a autoimunidade foi ativada, não há como reverte-la, porém, é possível manter um certo controle da inflamação causada por ela, o que ajuda a diminuir a velocidade com que a autodestruição vai acontecer. Para isso, é necessário manter uma dieta com bom controle na quantidade e tipo de carboidratos e priorizar alimentos de ação anti-inflamatória e antioxidante. Nesses casos, a dieta SEM GLÚTEN pode ser benéfica duplamente: primeiro porque é bem comum que a DMI e a doença celíaca (DC) estejam presentes na mesma pessoa e se a DMI se manifestou primeiro, a DC pode não se apresentar com os sintomas clássicos de diarreia e desnutrição. Mas aqui, é fundamental que os exames para DC sejam feitos antes da exclusão do glúten! No segundo caso, a dieta sem glúten pode ajudar no controle glicêmico ao diminuir a inflamação, já que o glúten aumenta a permeabilidade intestinal e pode contribuir para aumentar a inflamação. Porém é FUNDAMENTAL chamar a atenção para o fato de que, quando o foco é diminuir a inflamação, não adianta absolutamente NADA, substituir a farinha de trigo por outras farinhas refinadas em grande quantidade, pois a glicemia continuará alterada e a inflamação continuará existindo! Porém, uma dieta livre de glúten, a base de frutas e hortaliças, arroz integra e feijão, carnes magras, ovos, etc, pode ajudar bastante!

Existe também a diabetes tipo II (DMII), mais comum em adultos, mas que tem afetado um número cada vez maior de pessoas mais jovens. Este tipo está diretamente relacionado aos hábitos alimentares ocidentais modernos (consumo de alimentos processados e ultra processados, como salgadinhos, biscoitos, sucos industrializados, refrigerantes, fast food, mamadeiras engrossadas com farinhas e adoçadas com açúcar, etc), excesso de peso e sedentarismo. Há o fator genético envolvido, porém os fatores ambientes (estilo de vida e alimentação) são os principais agentes causadores! Mudando-se o estilo de vida é possível prevenir o surgimento da DMII e até mesmo reverte-la, depois de instalada, pois nesse caso, não há autodestruição das células que produzem insulina. Aqui há uma sobrecarga destas células… trabalho excessivo para produzir quantidades enormes de insulina, capazes de “neutralizar” o descontrole glicêmico promovido por hábitos alimentares errados e falta de exercício. Quanto mais insulina produzida, mais é necessário produzi, pois ela vai “perdendo seu efeito”, quadro clínico conhecido como resistência insulínica (RI). É importante lembrar que a RI está presente em diversas condições, como na síndrome do ovário policístico, nas pessoas com qualquer grau de sobrepeso, nos obesos e é a RI que causa a DMII e dificulta a perda de peso.

A child eating a hot dog while playing on a laptop

 

E até que ponto uma dieta sem glúten (ou com pouco glúten) poderia causar RI e DMII? A partir do momento em que a alimentação consiste apenas de pães, bolos, biscoitos e massas preparados com farinhas (principalmente as refinadas), como farinha de arroz, o amido de milho, o polvilho, a fécula de batata, além de açúcar, muito sal, refrigerantes, sucos industrializados, e coisas do tipo… ou seja, basicamente as mesmas coisas que uma dieta desequilibrada COM GLÚTEN pode conter...

Aí eu pergunto: é a AUSÊNCIA DE GLÚTEN a responsável pelo DMII nas pessoas? Ou seriam os hábitos alimentares e estilo de vida totalmente equivocados os responsáveis pela doença? Porque se fosse apenas a dieta sem glúten, o esperado seria que todos que consomem glúten jamais se tornassem diabéticos, certo?

E porque tanto alarde envolvendo a dieta sem glúten? Porque infelizmente ainda existe a crença (equivocada) de que na dieta sem glúten só se come farinhas refinadas e mais nada! Em outros países em que acesso a alimentos frescos é mais restrito, isso até pode ser verdade. Mas no Brasil, em que felizmente temos acesso a uma infinidade de alimentos frescos, saudáveis e cheios de fibras, só come errado (e adoece por causa disso) quem quer ou quem não teve acesso à informação!

Pois se a dieta sem glúten estiver baseada em frutas, hortaliças, carnes magras, ovos, arroz e feijão, tubérculos, castanhas e até mesmo uma quantidade moderada de laticínios, não há porque temer o aparecimento da DMII!!!

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Imagem encontrada na internet

Em 2013, a pedido da Fenacelbra, eu elaborei um material para ajudar os celíacos (e os nutricionistas) a pensar na dieta sem glúten como algo muito além das farinhas sem glúten. Esse material está disponível para download gratuito aqui: http://www.fenacelbra.com.br/arquivos/livros_download/10_passos_celiacos_juliana_crucinsky.pdf

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Assim, gostaria de finalizar dizendo que não há motivo para pânico! Dietas com ou sem glúten, desde que bem orientadas, favorecem o controle da glicemia e da diabetes, seja tipo I ou tipo II e podem inclusive PREVENIR e em alguns casos podem até mesmo REVERTER a DMII (desde que o pâncreas não tenha esgotado sua capacidade produzir insulina).

E de lembrar que o glúten é uma proteína de baixo valor biológico, sem qualquer ação protetora à saúde. Seu único benefício relacionado à glicemia, é que pelo fato de não ser completamente digerido pelos seres humanos, ele diminui o índice glicêmico da farinha de trigo, em relação às outras farinhas… apenas isso, além do fato da farinha de trigo integral ter mais fibras que boa parte das farinhas refinadas tradicionalmente usadas nas dietas sem glúten. Mas é possível adicionar fontes de fibras, proteínas e gorduras boas às preparações contendo outras farinhas e existem farinhas sem glúten com alto teor de fibras, como a farinha de coco, de amêndoas, de castanhas, de banana verde, etc. Celíacos fazem isso todos os dias, pois nossa sobrevivência e nossa saúde depende de uma dieta completamente livre de glúten e de contaminação por esta proteína…e nem por isso estamos todos diabéticos! Muito pelo contrário! Ao nos depararmos com uma restrição alimentar, ganhamos a oportunidade de reavaliar a forma como nos alimentamos e descobrimos que podemos comer de forma muito mais saudável que antes!!!

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Imagem do site http://www.riosemgluten.com

Mas também acho importante lembrar que dietas a base de farinhas, tenham glúten ou não, e pobres em fibrasnão são benéficas para NINGUÉM! Farinhas devem ser consumidas com bastante moderação, por todas as pessoas que pretendem preservar a saúde. Portanto, se você tem alguma desordem relacionada ao glúten e precisa de uma dieta sem esta proteína para sobreviver ou se você, por qualquer motivo tenha decidido excluir o glúten da sua vida, procure um Nutricionista, para ter certeza de que está se alimentando corretamente e minimizar as chances de adoecer!

Meu metabolismo é lento, não consigo emagrecer!

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi isso, dentro e fora do consultório e eu mesma já estive às voltas com esse problema, então resolvi escrever a respeito.

Primeiro vamos a algumas definições, pra facilitar o entendimento:

“Metabolismo é a soma de processos químicos e físicos que ocorrem dentro de um organismo vivo. O metabolismo divide-se em catabolismo (quebra de uma substância para obter energia) e anabolismo (capacidade que o organismo possui de transformar uma substância em outra que sirva para seu desenvolvimento e reparação)”. (fonte: www.todabiologia.com/dicionario/metabolismo.htm)

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O catabolismo pode ocorrer a partir da “quebra” de gorduras para obtenção de ácidos graxos e energia, da “quebra” de glicogênio (reserva limitada de carboidratos que temos no fígado e nos músculos, que serve como fonte de energia nos momentos de jejum – ex: entre uma refeição e outra) e da “quebra” de proteínas, a partir dos músculos (e tá dos órgãos, em caso de desnutrição extrema ou prolongada), para obtenção de glicose (para o cérebro) e de energia para o restante do corpo. Nós catabolizamos o tempo todo, mas nem percebemos porque há um constante equilíbrio entre catabolismo e anabolismo. catabolizamos inclusive para promover a renovação celular, pois as células velhas precisam ser destruídas, para dar lugar às novas! E também anabolizamos o tempo todo, quando produzimos novas células, para substituir as que morreram, quando produzimos novas fibras musculares, em resposta à atividade física e ainda, quando ganhamos peso, através do acúmulo de gordura no tecido adiposo…

O catabolismo é mais nítido quando iniciamos uma fase de muito estresse (logo compensada pelo ganho de peso, que já expliquei aqui e aqui) e quando fazemos dietas muito restritivas para perder peso (ou, mais tristemente, quando alguém está passando fome ou quando está com alguma doença disabsortiva, e não consegue absorver os nutrientes da alimentação, mesmo comendo bastante). O problema e que nesses casos, a perda de peso pode ser intensa, mas não necessariamente está relacionada (só) à perda de gordura! Geralmente há perda de muito líquido (no caso das doenças disabsortivas, a pessoa fica realmente desidratada e necessita receber soro intravenoso) e de massa muscular! E aí é que mora o perigo!

Cada vez que perdemos peso, perdemos gordura e água (facilmente recuperáveis), mas também, muita massa muscular. É justamente essa perda de massa muscular que faz o metabolismo se tornar cada vez mais lento, agravando os efeitos naturais do envelhecimento. Por volta dos 30 anos, começamos a ter uma perda (discreta, a princípio) do tônus muscular e da própria quantidade de massa muscular, que persiste até a velhice. Pessoas sedentárias e que tem uma alimentação inflamatória (baseada em açúcar, farinhas, gordura hidrogenada e produtos industrializados) e/ou pessoas que passam a vida fazendo dietas radicais e tomando medicamentos para emagrecer, são as que mais sofrem com essa perda. E é assim, que a cada nova dieta, a pessoa perde menos peso e recupera mais facilmente, sempre acrescentando alguns Kgs a mais no “pacote”.

O uso crônico de corticóides (necessário ao tratamento de doenças autoimunes, por exemplo) também promove esse catabolismo muscular e favorece o aumento da gordura corporal, mas aí estamos falando de outra situação, que pode ser amenizada por uma dieta de caráter anti-inflamatório e atividade física!

Então, resumindo a história, o tal do “metabolismo lento“, nada mais é do que o resultado da perda de massa muscular, que pode ter inúmeras causas, e muitas vezes, causas combinadas. Fazer apenas dieta, sem atividade física é outra coisa, que deixa o metabolismo mais lento! Comer muito carboidrato e/ou muita gordura, idem, pois ambos os nutrientes necessitam de pouquíssima energia para serem digeridos e metabolizados pelo corpo.

Há ainda a história dos termogênicos, a base de altas doses de cafeína e de substâncias semelhantes, que tem sido usados de forma indiscriminada (e por vezes, até irresponsável), em função do apelo de “acelerar o metabolismo”. Mas verdadeiramente o que eles fazem é estimular os receptores adrenérgicos no corpo, os receptores de adrenalina e noradrenalina, acelerando PARTE do metabolismo. A ideia, a princípio, é até muito boa! Similar o efeito da adrenalina, para estimular a quebra da gordura, liberando-a para ser usada como combustível durante a prática esportiva. Seria perfeito, se para isso, a gordura liberada fosse imediatamente usada, mas antes disso, ela precisa entrar nas mitocôndrias (que são organelas, minúsculas usinas geradoras de energia que temos em todas as células do corpo) e aí sim, entrar na brincadeira da geração de energia. O problema é que nosso estilo de vida moderno, com poucas horas de sono, consumo de muitos industrializados, uso de diversos medicamentos, exposição ambiental a uma infinidade de substâncias tóxicas, inflamação, entre outras coisas, causa DISFUNÇÃO MITOCONDRIAL, ou seja, faz com que nossas mitocôndrias percam parte da capacidade de usar toda essa energia que está liberada pelos termogênicos e como na natureza nada é desperdiçado, essa gordura, para não ser perdida, é encaminhada para o fígado, onde provavelmente acabará ficando, “sentadinha” e “quietinha” (só que não) pelo momento em que poderá virar energia para o músculo… e sabe-se lá quando isso ocorrerá… enquanto isso, o fígado fica só acumulando gordura…

Aliás, a queima de gordura, para promoção de um emgrecimento saudável, depende bastante de conseguirmos tratar essa disfunção mitocondrial, através do fornecimento de nutrientes importantes para estas organelas, como as vitaminas do complexo B, por exemplo, e através do tratamento da inflamação subclínica, causada pelo ganho de peso. Também é importante preparar o corpo para neutralizar todas as tozinas que serão despejadas na corrente sanguia, a hora que a gordura começar a “derreter”, para evitar que estas toxinas (poluentes, xenobióticos, resísuos de substâncias químicas, etc) causem problemas e estimulem o envelhecimento precoce e alterações celulares que podem gerar doenças crônicas, como o câncer.

Assim, a única (e real) maneira de acelerar o metabolismo, é sendo uma pessoa mais ativa, fazendo atividade física (melhor ainda se o exercício estimular a síntese de massa muscular e o aumento do tônus, como a musculação, o Pilates ou outra atividade que trabalhe com pesos, por exemplo), aumentando a ingestão de alimentos fontes de proteínas (acredite: nem sempre é necessário se encher de suplementos protéicos!) e diminuindo carboidratos (principalmente açúcar e os refinados) e diminuindo as gorduras (principalmente as mais inflamatórias, como as presentes nos laticínios, na gordura da carne, nos embutidos e nos produtos industrializados e priorizando as gorduras “boas”, como azeite de oliva, abacate, etc). Os músculos (depois do cérebro) são os maiores gastadores de energia que temos no corpo e mesmo durante o sono, gastam mais que os outros tecidos. Logo, se queremos acelerar o metabolismo e torná-lo mais ativo, precisamos, ao menos, preservar a massa muscular que temos. Melhor ainda, se pudermos trabalhar para aumentá-la!

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Mas aqui cabe um alerta! É importante que as quantidades e as fontes destes nutrientes estejam dentro de um planejamento alimentar individualizado, de acordo com as necessidades de cada pessoa, considerando possíveis alterações em resultados de exames laboratoriais e histórico de saúde, pois o que pode ser benéfico para uma pessoa, pode causar problemas em outra! Então, não deixe de procurar um Nutricionista!

Dieta sem glúten emagrece?

Acertou você que disse… DEPENDE!!!

Há bastante tempo já que muitas pessoas (inclusive com a orientação de profissionais de saúde) vem cortando o glúten da alimentação com o objetivo de perder peso. Seria ótimo se fosse tão simples assim… descobrimos o verdadeiro (e único) vilão e mantemos a máxima distância dele! Perfeito! Mas… como tudo que diz respeito à Nutrição e Saúde, as coisas raramente são tão simples quanto parecem.

Mas, vem comigo, que vou tentar explicar!

Nesse post aqui, eu já havia falado um pouco disso. Expliquei que a maioria dos alimentos contendo glúten (pães, massas, bolos, salgadinhos, biscoitos, etc) também contém grande quantidade de calorias (em geral calorias vazias) e carboidratos de alto índice e carga glicêmicos, ou seja, são alimentos que aumentam a fome, estimulam o ganho de peso e a resistência insulínica, se consumidos em excesso. A exclusão destes alimentos da dieta, pode realmente ajudar na perda de peso, porém, não adianta absolutamente NADA substituir a versão com glúten por similares sem glúten, preparados com outras farinhas refinadas, tão ou mais calóricas que o trigo, como farinha de arroz, polvilho, amido de milho, tapioca, etc.

Obviamente aqui estou me referindo às pessoas que comprovadamente NÃO possuem nenhuma desordem relacionada ao glúten, sobre as quais já falei em diversos posts aqui no blog, pois quem tem DC ou SGNC ou alergia ao trigo, TEM que excluir o glúten da alimentação e que fique bem claro: A DIETA SEM GLÚTEN SOZINHA (sem ajustes na composição) NÃO FARÁ ESTAS PESSOAS EMAGRECER!!! Estas e nenhuma outra pessoa…

Também não adianta excluir todas as farinhas (com ou sem glúten) e continuar tomando refrigerante, sucos com açúcar (pior ainda se forem sucos industrializados), doces, frituras (não, empanar peixe ou frango com farinha de arroz e fritá-los no óleo de coco não ajuda ninguém a emagrecer!). Se afundar num prato de massa sem glúten também não ajuda, assim como exagerar na batata doce também não!

Pusheen comendo
Imagem encontrada na internet

Tá certo que existem estudos realizados (na UFMG) em ratos, que mostram que o glúten aumenta a inflamação e favorece o acúmulo de gordura corporal nos bichinhos… mas nos estudos, compararam ratos que comiam a ração padrão (saudável e adequada para eles), com os que comiam uma ração bem parecida, e cuja única diferença, era a presença de glúten.

Em humanos, fica muito difícil comparar os efeitos da alimentação com e sem glúten com cada pessoa se alimentando de uma forma diferente, até porque existem infinitas formas de se comer sem glúten! E é aí que mora o perigo! Quando a dieta sem glúten segue a linha da dieta Paleolítica, sem cereais, sem farinhas, sem açúcar, sem laticínios, sem frituras e sem produtos industrializados, fica até fácil perder peso! Mas tirar o glúten pra comer biscoito sem glúten (tem até biscoito recheado sem glúten, deliciosos, por sinal…rsrsrs…mas calóricos e gordurosos!), fritura sem glúten, refrigerante sem glúten, bolo sem glúten, coxinha sem glúten, doce sem glúten, com toda a certeza, não é um bom negócio pra quem pretende perder peso!

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Então, a dica é: procure um Nutricionista, para fazer uma dieta individualizada, se acordo com suas necessidades e objetivos e se você realmente acredita que comer sem glúten é melhor, ANTES de excluí-lo de vez, procure um médico e faça os exames para saber se você realmente não tem doença celíaca e nem sensibilidade ao glúten!

O que faz um Nutricionista?

Aproveitando o embalo do 31 de agosto, dia dedicado aos Nutricionistas e inspirada por esse texto aqui, do blog “Não sou exposição”, resolvi escrever esse texto, já que praticamente 99,9% das pessoas alimentam a falsa crença de que Nutricionista só prescreve dietas de emagrecimento e que obrigatoriamente tem de ser magras e/ou fitness e tem que ter tempo pra ler todos os artigos publicados a cada dia sobre todas as áreas da Nutrição, além de malhar pesado 7x na semana, manter conta no Facebook, Instagram, Snapchat, blog e sabe-se-lá mais o que, além de trabalhar, pagar as contas, cuidar da família, passear e até (acreditem!) DORMIR…hahahahaha. Tá pensando que é fácil? Vem comigo que vou te mostrar como é a vida real…

Eu até sugiro que antes de continuar a ler o meu post, que você leia primeiro o post que indiquei acima.

Mas como eu ia dizendo, a profissão foi regulamentada pela Lei 8234 de 17 de setembro de 1991, que diz o seguinte:

Art. 1º. A designação e o exercício da profissão de Nutricionista, profissional de saúde, em qualquer de suas áreas, são privativos dos portadores de diploma expedido por escolas de graduação em nutrição, oficiais ou reconhecidas, devidamente registrado no órgão competente do Ministério da Educação e regularmente inscrito no Conselho Regional de Nutricionistas da respectiva área de atuação profissional (ou seja, só quem fez a faculdade de Nutrição e está devidamente registrado no Conselho Regional é que pode atuar como Nutricionista. Apenas ter um blog ou uma conta em qualquer rede social, não basta…).

Essa mesma lei diz que:

Art. 3º. São Atividades privativas dos nutricionistas:

I – direção, coordenação e supervisão de cursos de graduação em nutrição;

II – planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de serviços de alimentação e nutrição;

III – planejamento, coordenação, supervisão e avaliação de estudos dietéticos;

IV – ensino das matérias profissionais dos cursos de graduação em nutrição;

V – ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos cursos de graduação da área de saúde e outras afins;

VI – auditoria, consultoria e assessoria em nutrição e dietética;

VII – assistência e educação nutricional a coletividades ou indivíduos, sadios ou enfermos, em instituições públicas e privadas e em consultório de nutrição e dietética;

VIII – assistência dietoterápica hospitalar, ambulatorial e a nível de consultórios de nutrição e dietética, prescrevendo, planejando, analisando, supervisionando e avaliando dietas para enfermos.

Traduzindo os itens VII e VIII: Dieta é com Nutricionista!!!

E ainda:

Art. 4º. Atribuem-se, também, aos nutricionistas as seguintes atividades, desde que relacionadas com alimentação e nutrição humanas:

I – elaboração de informes técnico-científicos;

II – gerenciamento de projetos de desenvolvimento de produtos alimentícios;

III – assistência e treinamento especializado em alimentação e nutrição;

IV – controle de qualidade de gêneros e produtos alimentícios; V – atuação em marketing na área de alimentação e nutrição;

VI – estudos e trabalhos experimentais em alimentação e nutrição;

VII – prescrição de suplementos nutricionais, necessários à complementação da dieta;

VIII – solicitação de exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico;

IX – participação em inspeções sanitárias relativas a alimentos;

X – análises relativas ao processamento de produtos alimentícios industrializados;

XI – participação em projetos de equipamentos e utensílios na área de alimentação e nutrição.

E onde o Nutricionista pode trabalhar, já que eu falei lá em cima que não é so no consultório? De acordo com a Resolução CFN 280/2005, o Nutricionista pode atuar nas seguintes áreas :

I. Alimentação Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas nas Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN), dentro de empresas, restaurantes comerciais e similares, hotelaria marítima (navios, plataformas), serviços de buffet e de alimentos congelados, comissarias (comida de avião) e cozinhas dos hospitais, creches, escolas e instituições para idosos.

Isso significa dizer, que o Nutricionista precisa elaborar cardápios que garantam energia e nutrientes para que os trabalhadores exerçam suas funções, no caso das empresas, para que os pacientes se recuperem (de acordo com a dieta prescrita pelo Nutricionista da clínica), por exemplo. Mas além dos cardápios, estes Nutricionistas precisam cuidar de todo o controle higiênico do preparo dos alimentos, da seleção, contratação, do treinamento e da supervisão dos funcionários que preparam as refeições, do controle dos custos e compra dos ingredientes, utensílios e equipamentos e no fim das contas, muitas vezes, acaba sendo mais administrador que Nutricionista.

II. Nutrição Clínica – atividades de alimentação e nutrição realizadas nos hospitais e clínicas, nas instituições de longa permanência para idosos, nos ambulatórios e consultórios, nos bancos de leite humano, nos lactários, nas centrais de terapia nutricional, nos Spa e quando em atendimento domiciliar;

Aqui é onde a maioria das pessoas está acostumada a ver o Nutricionista em ação, principalmente nos consultórios, onde boa parte nos procura querendo emagrecer, mas achar que é só isso que fazemos, sinceramente é extremamente limitador! Nos hospitais, avaliamos os pacientes internados e indicamos a dieta mais adequada a cada situação (lembrando que como as refeições dependem da cozinha e tem hora para serem preparadas e tudo precisa ser visto com antecedência, é praticamente impossível individualizar as dietas da forma como fazemos no consultório). Dentro dos hospitais cuidamos de pacientes com as mais diversas situações, que vão desde casos bem conhecidos como diabetes, até doenças renais, cirurgias de todo o tipo, alimentação por sonda (cateter). Eu mesma, durante muito tempo trabalhei em CTI, e a maioria dos meus pacientes não comia comida, pois se alimentava somente com dieta enteral, as tais que passam pelas sondas. E também fiz parte da Comissão de Curativos, onde minha função era acompanhar pacientes com graves feridas, que além de todos os cuidados médicos e de enfermagem, precisavam de dietas e suplementos especiais para acelerar a cicatrização e diminuir o risco de infecções. Nos bancos de leite e lactários, o trabalho é todo voltado para o controle de formulas infantis e leite materno doado, para distribui-los aos bebezinhos internados, que por algum motivo não estão podendo ser amamentados por suas mães. E mesmo nos consultórios, onde a maioria nos procura para emagrecer, temos muito mais a oferecer! Cuidamos de pacientes diabéticos, hipertensos, alérgicos, celíacos (até parece que eu não ia tocar nesse assunto! rsrsrsrs), pacientes em pós operatórios diversos, pacientes com doenças autoimunes, etc, etc, etc….. daria pra ficar até amanhã tentando preencher essa lista…

E antes que eu me esqueça! Nós tratamos também de desnutrição! Nós tentamos fazer com que várias pessoas ganhem peso e saiam do risco de morrer por falta de alimento / nutrientes! E quando conseguimos, principalmente quando o desnutrido é uma criança, o resultado é a coisa mais linda de se ver! É lindo ver uma criança desnutrida recuperar o brilho dos olhinhos e recuperar a energia pra brincar, correr e fazer bagunça! Como também é lindo ver um paciente que estava inconsciente, sendo alimentado por sonda, acordar e reclamar que está com fome!

III. Saúde Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas em políticas e programas institucionais, de atenção básica e de vigilância sanitária;

Aqui, meus colegas atuam em programas do governo, nas esferas municipais, estaduais e federais, em postos de saúde, e nas ações da vigilância Sanitária

IV. Docência – atividades de ensino, extensão, pesquisa e coordenação relacionadas à alimentação e à nutrição;

Aqui, a atuação pode ser nas universidades, nos cursos de graduação, especialização, mestrado, doutorado ou mesmo em cursos de extensão e de atualização. E ainda damos palestras em eventos científicos, damos formação online, etc. Ou seja, ensinamos e formamos outros nutricionistas e ainda podemos colaborar com a formação de outros profissionais de saúde! Também fazemos pesquisa, publicamos artigos, participamos de congressos, etc.

V. Indústria de Alimentos – atividades de desenvolvimento e produção de produtos relacionados à alimentação e à nutrição;

Geralmente trabalham na indústria de alimentos, desenvolvendo novos produtos e acompanhando sua produção.

VI. Nutrição em Esportes – atividades relacionadas à alimentação e à nutrição em academias, clubes esportivos e similares;

Essa é outra área que já é bem conhecida, com colegas atuando em academias/ consultórios, mas sem esquecer daqueles que merecem medalha de ouro, ao cuidarem dos nossos atletas!

VII. Marketing na área de Alimentação e Nutrição – atividades de marketing e publicidade científica relacionadas à alimentação e à nutrição.

São os Nutricionistas que nos visitam nos hospitais e consultórios, nos apresentando novos produtos, como suplementos e dietas enterais. 

Enfim, a lista de áreas de atuação é bem grande e a quantidade de coisas que podemos fazer é maior ainda! E pra tudo isso, precisamos estudar disciplinas como bioquímica, anatomia, fisiologia, microbiologia, legislação de alimentos, economia, sociologia, psicologia, patologia (pra entender como cada doença afeta o organismo), administração, estatística, entre tantas outras… ou alguém achou que era só aprender a calcular dieta? Sabe de nada, inocente! rsrsrsrsrs

E por que eu to falando tudo isso? Pra ver se ajuda a desconstruir a ideia de que SÓ trabalhamos com emagrecimento, pra desfazer o mito que Nutricionista TEM que ser magra / fitness (não desmerecendo os colegas que tem esse perfil, mas apenas informando que isso não é pré-requisito pra ser Nutricionista e nem é garantia de competência e atualização)  e que só comemos comida “fitness” ou alface. Aliás… to “garrando ódio” dessa história de comida fitness, com todo respeito a quem gosta… mas não leva a mal não, já bastam todas as minhas restrições alimentares (pra quem ainda não sabe, eu sou celíaca, tenho intolerância a lactose, alergia às proteínas do leite, à soja, ao amendoim, à pimenta vermelha e pimentão… afffff… a lista tá é grande!), então não vou ficar me privando de outras coisas que gosto e posso comer. Obviamente, que não sou louca de me encher de “porcarias”, mas que mal há, comer uma fatia de bolo sem glúten ou um pedaço de chocolate de vez em quando?

Sim, Nutricionistas comem, sentem fome e tem vontade de comer como qualquer mortal! E sinceramente, não tem coisa pior do termos gente vigiando nossos pratos e olhando com cara de reprovação quando comemos essas coisas.

E ainda, como qualquer mortal, podem ter dificuldade pra perder peso, até porque não é só o “olho maior que a barriga” que faz alguém engordar! Se fosse só isso, tava fácil e nós já teríamos acabado com a obesidade no mundo! Há muitos medicamentos, como corticóides (por exemplo), necessários ao tratamento de muitas doenças, que favorecem o ganho de peso, há disfunções hormonais, como o hipotireoismo, que favorecem o ganho de peso e dificultam a perda, entre tantas outras coisas, como trabalhar num local estressante, ter pouco tempo para dormir, etc, etc, etc, etc…. E ainda há simplesmente quem não esteja nem aí para padrões impostos e se preocupe apenas em estarem saudáveis,mas não magros. Mas felizmente há lugar pra todos que abraçaram a Ciência da Nutrição e se preocupam em trazer mais saúde e qualidade de vida às pessoas.

 

99% sem glúten, mas aquele 1%…

Muitas pessoas (incluindo alguns profissionais de saúde, infelizmente) acreditam que celíacos / alérgicos / sensíveis ao glúten podem eventualmente sair da dieta, por exemplo, naqueles dias em que a vontade de comer um pãozinho ou um salgadinho ou uma fatia daquela torta. Só que não!

Aliás, esse é um grande erro que muitos cometem, por falta de informação, a começar por acharem que trata-se apenas de uma “intolerância”, coisa que já falamos aqui que não é bem assim. A coisa complica ainda mais porque tá cheio de gente por aí, que excluiu o glúten, sabe o quanto esta proteína lhe faz mal, mas por ter iniciado a dieta antes dos exames, não tem um diagnóstico fechado. E eu confesso, já fui dessas! Já fiz essa besteira antes de ter conseguido fechar meu diagnóstico… mesmo já sabendo que glúten não era legal pra mim, enquanto não achava um bom médico e não fazia os exames necessários, eu cedia sempre que o olho grande falava mais alto. E por já ter passado pela experiência (e saber como é ruim ficar com vontade de comer alguma coisa a qual antes tínhamos livre acesso) é que me sinto no dever de fazer esse alerta!

Os objetivos da dieta sem glúten são zerar a inflamação (em todos os casos), controlar os mecanismos da autoimunidade, zerar a contagem de anticorpos (antitransglutaminase) e recuperar a mucosa do duodeno (intestino delgado) (no caso da DC) e controlar os sintomas alérgicos (no caso da alergia ao trigo).

Aqui é importante mencionar que a inflamação não fica restrita ao intestino… ela pode afetar o corpo todo e justamente por isso, as contaminações por glúten podem não alterar a contagem do antitransglutaminase. Por exemplo, a inflamação causada pelo glúten pode afetar as articulações, piorando as dores, pode afetar a tireoide, aumentando os anticorpos tireoidianos, na tireoidite de Hashimoto ou aumentando os riscos de coagulação e trombose em doenças que já favoreçam esse tipo de problema, como nas trombofilias…

Essas escapulidas da dieta, vão gerando danos que se acumulam no organismo e a longo prazo podem levar a sérias complicações, como a doença celíaca refratária e até mesmo o linfoma intestinal! E aí, minha gente, a coisa fica pra lá de complicada, porque o tratamento destas condições é bem mais complexo, com restrições alimentares beeeem maiores…

Enquanto estamos livres de glúten (lembrando que não é só exclui-lo e pronto! É necessário cuidar do que se coloca no lugar), a inflamação fica sob controle. Basta uma exposição a esse sujeitinho e a inflamação dá as caras e põe dias e até meses de cuidado a perder!

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Há também quem acredite que se consumir uma daquelas enzimas que falei nesse post aqui, que dá pra encarar umas fatias de pizza numa boa, mas não dá. As enzimas podem até inibir os sintomas, mas até se prove o contrário (e por provar o contrário estou me referindo a termos vários estudos randomizados, controlados, duplo cego, com um numero grande de participantes) não inibem a inflamação como um anestésico. É um raciocínio semelhante ao que ocorre quando temos uma infecção e febre… ao tomarmos um remédio para a febre, a mesma cede e fica controlada, mas a infecção não desaparece!

Enzimas gluten

Ou seja, a única forma de tratar as desordens relacionadas ao glúten, é fazendo a dieta 100% sem glúten e sem contaminação, como já falei tantas vezes aqui (e aqui e aqui) no blog!

Vida sem gluten

 

Dormindo com o inimigo – celíacos vivendo em casas “glutenadas”

Quando há um celíaco diagnosticado na família, muitas pessoas se perguntam se precisam tirar o glúten de dentro de casa e “privar” os demais familiares de comer pão francês (ou qualquer outro alimento com glúten)…

O medo dessa “privação” me parece ser muito maior que o medo de causar algum dano ao celíaco que mora na mesma casa. Mesmo que não seja a intenção, colocar a preocupação dos que vão se “privar” acima da segurança do celíaco, soa como desamor, desrespeito e (por que não?)… crueldade! Parece forte, não é?

E é mesmo! E não, eu não estou sendo exagerada!

O glúten forma uma “cola” invisível sobre as superfícies (maçanetas, torneiras, porta da geladeira, telefones, controle-remoto, etc), sobre as louças e fica entranhado na esponja para lavagem da louça … e isso gera preocupação e estresse nos celíacos que precisam redobrar os cuidados dentro de casa, pois está em contato permanente com focos de contaminação!

Essa sensação constante de medo e insegurança, acaba afetando tanto a saúde física quanto mental dos celíacos. Contaminações constantes podem causar os mesmos prejuízos que a ingestão voluntária de glúten, como inflamação na mucosa intestinal, má absorção de nutrientes, feridas em quem tem dermatite herpetiforme, aftas, dores de cabeça, dores nas articulações, mal estar, diarreia, náuseas, vômitos, etc, além dos efeitos do estresse, ansiedade, depressão (seja pela sensação de insegurança, seja por sentir-se menos amado, desrespeitado e desprotegido ou seja por causa das deficiências nutricionais e por causa da inflamação crônica) que tem um impacto negativo muito grande na saúde e na qualidade de vida.

dor de barriga

Celíacos nesse tipo de ambiente precisam ter cuidado redobrado com a lavagem das mãos, e com a higienização de tudo, e ainda assim acabam se contaminando. Isso me lembra muito a época em que trabalhava em hospital, ambiente que reúne a maior concentração de bactérias causadoras de doenças, resistentes a maior parte dos antibióticos conhecidos (as famosas “superbactérias”). Invariavelmente, eu sempre me deparava com pacientes contaminados com tais bactérias, que elas colocados em “isolamento de contato”, para evitar que nós, profissionais de saúde, transportássemos as ditas cujas para outros pacientes mais debilitados. Era um estresse constante (e ainda é pra quem trabalha nesse tipo de ambiente), mesmo eu sabendo que dificilmente tais bactérias me causariam algum dano imediato, a responsabilidade e o medo de prejudicar a saúde de outras pessoas me fazia viver sob vigilância constante. Eu lavava tanto as mãos e passava tanto álcool que elas viviam ressecadas. E isso porque apesar de tudo, ainda haviam (alguns poucos) antibióticos capazes de mata-las

Agora, imagina só uma substância que nem ser vivo é (portanto, não pode ser morto) e que é capaz de lentamente acabar com a saúde e com a qualidade de vida de alguém que você ama e (supostamente) deveria cuidar? Imagina se essa pessoa ainda é uma criança, que ainda não sabe que precisa lavar constantemente as mãos (e que se bobear nem alcança a pia do banheiro para lavar as mãos sozinha!), que engatinha ou brinca sentada no chão, que divide os brinquedos com os irmãos (comedores de glúten), que leva as mãozinhas e os brinquedos sujos à boca… quantas situações de risco! Quantas formas de adoecer desnecessárias! O mundo fora de casa já um lugar hostil demais…porque o ambiente de casa, que deveria ser acolhedor, oferecer proteção e segurança precisa ser inseguro e também hostil porque algumas pessoas não sabem (ou não querem) abrir mão de alguns alimentos? E nem digo abrir mão pra sempre, como é o nosso caso! Abrir mão apenas dentro de casa, porque no mundo em que vivemos, é possível ingerir glúten o tempo todo, das mais diversas formas! Por que tem que ser DENTRO  de casa? Contaminando e adoecendo o celíaco? Ensinando desde cedo o que é a falta de respeito, o desamor, e o egoísmo? Me perdoem se estou sendo muito dura, mas é assim que eu enxergo as coisas…

Quando falamos de doença celíaca e de alergia ao trigo, não basta apenas não comer os alimentos que contem trigo/glúten! Os cuidados vão muito além e não se trata de frescura, como muitos insistem em falar. Trata-se de risco REAL!!! Risco que pode adoecer e levar muitas pessoas à morte, sem necessidade!

Mas que tal a família aproveitar o diagnóstico do celíaco ou do alérgico (ou mesmo do sensível ao glúten) para conhecer outros sabores, outros alimentos, outra forma de se relacionar com a comida? Felizmente vivemos num país em que há uma imensidão de alimentos naturalmente isentos de glúten e que podem compor as refeições (saudáveis) de toda a família! Por que focar no “bendito” (só que não) pão francês, que nem é tão nutritivo assim? Que tal ensinar na prática aos pequenos o que é solidariedade? Sim, porque abrir mão de um pão (mesmo que apenas no café da manhã em casa, por exemplo) porque o irmão não pode comer, é um exercício e tanto de solidariedade, de compaixão e ade amor ao próximo! É uma forma de demonstrar amor e cuidado. Já o contrário, o não querer se privar de nada só porque há um celíaco/alérgico dentro de casa, é a demonstração máxima de individualismo e egoísmo… e que infelizmente ainda acontece muito por aí…

Criar crianças celíacas em ambientes glutenados é mostrar desde cedo que o mundo é cruel, hostil e perigoso. É mostrar que, se nem dentro do lar não há segurança e proteção, em nenhum lugar haverá! É mostrar que se nem a própria família se importa, mais ninguém se importará! E eu aposto que não é nada disso que uma família amorosa pretende ensinar às suas crianças…

Para isso, é importante que haja aceitação da condição celíaca por toda a família, para que a própria criança / adolescente se aceite e aprenda a conviver com sua característica. Até porque, a celíaca é uma condição genética, assim como a cor da pele, dos olhos ou dos cabelos. Pais que possuem olhos escuros, podem ter filhos de olhos claros, se possuírem o gene para olho claro, e isso seria uma anomalia? Não, é apenas uma característica. Com a celíaca também é assim. A diferença é que na celíaca, houve o disparo de uma doença pelo contato constante com o inimigo, o glúten. Sem glúten, não há doença! Aliás, como estamos falando de uma característica genética, é possível que os outros membros da família não desenvolvam a doença, mas há grandes chances que possuam a genética celíaca e não há nenhuma garantia que a doença não vá se manifestar em outro momento, inclusive na velhice.

E por falar em genética celíaca, outra coisa que merece ser mencionada é que infelizmente muitas mães se sentem culpadas por terem “transmitido” a condição celíaca a seus filhos e sofrem com esse pensamento. Isso quando o pai ou outros membros da família não reforçam tal pensamento / culpa! Bem triste tal situação! Mas o que eu gostaria muito de chamar a atenção é que em genética, não há culpa! Há apenas a transmissão de características inerentes às famílias e quando há um celíaco diagnosticado, podem ter certeza de que por trás dele há toda uma família celíaca! Tanto o pai quanto a mãe, assim como avós e bisavós, paternos e maternos, podem ter a genética compatível com a celíaca e isso não é motivo para sentimento de culpa ou julgamentos, da mesma forma que a transmissão de genes referentes a cor da pele, cabelo, olhos ou mesmo a transmissão de genes que favorecem o surgimento de outras doenças, como diabetes ou câncer, também não são! Muitos familiares de um celíaco, inclusive podem ter morrido por complicações de uma DC não diagnosticada, sem que tenham tido a chance de receber o tratamento adequado e os parentes próximos deveriam aproveitar e fazer seus exames, para saber se também não são celíacos e prevenirem complicações desnecessárias, como osteoporose, anemia, e até mesmo câncer de intestino.

Aliás, outra coisa que merece destaque, é que muitos familiares que fizeram seus exames e respiraram aliviados ao saber que não são celíacos, devem repeti-los de tempos em tempos, já que a doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade, a qualquer momento e sem aviso prévio. E antes que alguém diga que isso é “praga” que eu to rogando (rsrsrsrs), já vou avisando que isso é GENÉTICA, pois se a condição celíaca está presente (ou seja, genes incompatíveis com o glúten), a doença (causada pelo consumo de glúten) pode aparecer a qualquer hora…

 

Infertilidade x Doença Celíaca

A relação entre glúten/DC e infertilidade é uma dúvida recorrente nos grupos de celíacos, e realmente doença celíaca (DC) TEM que ser investigada em mulheres com dificuldade para engravidar ou que engravidam, mas mas não conseguem levar a gestação adiante.

Infelizmente a DC é pouco lembrada nos consultórios de ginecologia, apesar de ser uma causa tratável de infertilidade. O triste é que esse “esquecimento” dos profissionais tem um alto custo (emocional, principalmente, mas também financeiro, por conta dos muitos tratamentos para engravidar) para as mulheres que desejam ter um bebê.

É sempre importante lembrar que a DC nem sempre aparece com sintomas típicos (diarreia e perda de peso) e seus sintomas (dor de cabeça, desconforto abdominal, inchaço, aftas, queda de cabelo, cansaço, anemia, depressão, irritabilidade, intestino preso, etc) se confundem facilmente com muitas outras condições clínicas e pode vir associada a outras doenças autoimunes como Tireoidite de Hashimoto, Diabetes Tipo I, etc.

A DC pode causar infertilidade de várias maneiras e vou tentar explica-las:

Deficiências nutricionais – a DC causa má absorção, portanto, celíacos estão em risco de deficiências nutricionais diversas. Para que um bebê se desenvolva no útero materno, são necessários diversos nutrientes: proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais e para isso, as necessidades nutricionais da gestante aumentam. Com a má absorção, fica inviável pro corpo manter todas as suas funções e ainda dar conta de um bebê em desenvolvimento. Então, a natureza, sabiamente, para preservar a mãe, impede a gestação. Em outros casos, o embrião pode apresentar má formações graves por causa do deficit nutricional  e mais uma vez, a natureza entra em ação e não deixa a gestação prosseguir. A deficiência de nutrientes também pode afetar os homens celíacos e dificultar a gestação da parceira! Os espermatozóides dependem de diversos nutrientes para serem capazes de fecundar o óvulo e sem nutrientes, a coisa complica…

  1. A DC é uma doença autoimune, logo, significa que o glúten estimula a autodestruição do nosso corpo, através da produção dos autoanticorpos (o antitransglutaminase e o antiendomísio). A transglutaminase é uma enzima que está presente em todo o corpo e o endomísio é uma estrutura que recobre a camada muscular dos tecidos… os anticorpos que produzimos contra essas estruturas podem atacar o embrião em formação e a placenta, impedindo que a gestação evolua. Mesmo em celíacas diagnosticadas e que fazem a dieta, é importante lembrar que contaminações frequentes e o consumo voluntário de glúten também são prejudiciais!
  2. Outro ponto importante é que em função do ataque autoimune à mucosa do intestino, o corpo todo fica sob o efeito da inflamação e do excesso de radicais livres produzidos. Na tentativa de neutralizar esses efeitos, o deficit nutricional aumenta, pois é como tentar apagar um incêndio de grandes proporções usando um copo… a água (os nutrientes) acaba e o incendio continua lá…
  3. Há ainda as celíacas que também apresentam disfunção tireoidiana. O hipotireoidismo.  é uma causa conhecida de dificuldade para engravidar e de riscos à saúde do bebê, principalmente sob o aspecto neurológico e cognitivo (casos graves de hipotireoidismo não tratado podem causar cretinismo, uma condição em que o bebê nasce com retardo no desenvolvimento cerebral)

Infelizmente não são poucos os relatos de mulheres que tentaram engravidar durante anos e que acabaram entrando na menopausa (muitas vezes precocemente) sem terem conseguido ter um bebê, justamente porque não saberem da DC e por não terem tido a oportunidade de se tratarem. Esse é um dos motivos que me preocupam quando alguma paciente se queixa da dificuldade de engravidar, pois a celíaca pode estar ali, mesmo sem sintomas típicos.

Mas a NOTÍCIA BOA (!!!) é que a DC diagnosticada e tratada (dieta sem glúten e sem contaminação) não impede a gestação e nem a torna mais arriscada ou complicada. Com uma alimentação saudável e variada e com o tratamento correto das deficiências nutricionais (reposição dos nutrientes em falta), sem esquecer de cuidar do intestino e da suplementação com probióticos é possível gerar bebês saudáveis e ter uma gestação tranquila!

Bebe e cegonha
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Mas NÃO EXCLUA O GLÚTEN ANTES DE FAZER EXAMES PARA DIAGNOSTICAR A DC!!! Se você está tentando ou planejando engravidar, converse com seu médico e peça para que ele inclua os exames (a dosagem do anticorpo antitransglutaminase no sangue e a endoscopia com biopsia de 6 a 8 fragmentos do duodeno) na listagem de exames pre-natais e não deixe de procurar um Nutricionista para garantir uma alimentação saudável durante toda a gestação e depois, durante a fase de amamentação!

Bebe amamentado
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