Hipoglicemia reativa – você sabe o que é?

Hipoglicemia, vem de hipo (pouco ou baix0) + glicemia (quantidade de glicose no sangue), ou seja, níveis de glicose abaixo de 70 mg/dL no sangue (considerando que a glicemia normal deve estar entre 70 e 99 mg/dL).

Diabéticos conhecem a hipoglicemia bem de perto, e são orientados sobre o que fazer quando ela der as caras, já que níveis muito baixos de glicose podem levar ao coma e até à morte. No caso deles, a hipoglicemia ocorre em função de um desequilíbrio entre a ingestão de carboidratos e as doses de insulina e/ou de hipoglicemiantes orais (medicamentos que diminuem a glicose), ou atraso no horário das refeições ou mesmo em função de maior atividade física. Então, eles já sabem que isso pode ocorrer e são orientados a ingerir alguma fonte de glicose, que aja rapidamente, como açúcar ou mel, por exemplo (em geral, bastam 15g de carboidrato para estabilizar a glicemia).

hipoglicemia

Os carboidratos que consumimos são convertidos em glicose, que é usada como fonte de energia e o que não é imediatamente usado, é estocado em parte como glicogênio, no fígado e músculos e o excedente, é transformado em gordura (triglicerídios), armazenada no tecido adiposo. Entre uma refeição e outra e durante as fases inicias da atividade física, esse estoque de glicose, o glicogênio é “quebrado” para liberar glicose (processo conhecido como glicogenólise), mas como é um estoque pequeno, dependendo da necessidade (principalmente do cérebro, já que o restante do corpo pode trabalhar movido a gordura e corpos cetônicos), a glicose pode ser produzida a partir dos músculos… na verdade, a partir da “queima” de músculo, para liberar aminoácidos que podem “virar” glicose, processo conhecido como gliconeogênese. Esses processos acontecem o tempo todo e nem percebemos.

Mas e a hipoglicemia reativa? O que é isso? Como o próprio nome ja diz, ela ocorre de forma reativa, em reação ou resposta a alguma coisa… no caso, a um consumo prévio exagerado de carboidratos e/ou alimentos de alto índice glicêmico ou insulinêmico, seguido de uma produção exagerada de insulina pelo pâncreas. A cada aumento nos níveis de glicose no sangue, o pâncreas produz uma quantidade x de insulina. A insulina é o “porteiro” que abre as portas das células que formam nosso corpo, para que a glicose entre e seja transformada em energia. Sem insulina (como no diabetes), a glicose não entra, permanece alta no sangue e as células ficam “famintas” e sem energia.

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Na hipoglicemia reativa, como o pâncreas produziu muita insulina, sem necessidade (porque em alguns casos ele é um cara meio exagerado), a glicemia cai rapidamente e a pessoa experimenta sintomas como cansaço, sonolência, irritabilidade, mudanças no humor, suores intensos, mal estar, confusão mental e formigamento, principalmente na ponta dos dedos e lábios. Tudo isso dispara o sinal de alerta e o corpo corre pra tentar levantar essa glicemia, pois o cérebro precisa continuamente de glicose, e aí, vários hormônios entram em ação: glucagon, cortisol, adrenalina…. Esses hormônios ativam mecanismos de compensação, que atuam no fígado e nos músculos, para liberar glicose rapidamente. Enquanto a glicose não chega, além dos sintomas da hipoglicemia, ainda podemos ter palpitações, tremores, agitação e em alguns casos, o desconforto é tal, que pode ser confundido com crise de pânico! Junto a isso, pode surgir uma fome desesperadora e/ou uma vontade louca (ou compulsão mesmo) de comer alimentos com grande quantidade de carboidratos, como doces, por exemplo.

E aí até parece fazer sentido, né? Hipoglicemia se trata com uma dose extra de carboidrato. Só que não! Não??? Não!!! Como essa hipoglicemia foi causada por um estimulo excessivo ao pâncreas, que produziu uma “overdose” de insulina, o tratamento consiste na prevenção da hipoglicemia e depende de ajustes na quantidade de carboidrato consumido ao longo do dia, que precisa ser bem distribuído em todas as refeições e depende também de uma redução no índice glicêmico e insulinêmico da alimentação.

Pusheen comendo
Imagem encontrada na internet

Alimentos de alto índice glicêmico, como a batata, o pão e a cenoura, por exemplo, quando combinados com fontes de proteínas, fibras e gorduras boas, deixam a refeição com um índice glicêmico mais baixo e podem evitar a hipoglicemia. Mas, por exemplo, quando se consome um pão ou um biscoito com geleia de frutas, a absorção dessa refeição serão tão  rápida, que a pessoa terá hipoglicemia reativa. Esse mesmo efeito (hipoglicemia reativa) pode acontecer quando a refeição contém só laticínios (queijo, leite ou iogurte, por exemplo) ou laticínio + carboidrato de alto IG (exemplo, pão francês com queijo ou iogurte + biscoito), pois os laticínios estimulam o pâncreas a produzir grande quantidade de insulina (ou seja, possuem um alto índice insulinêmico).

A hipoglicemia reativa está associada a um quadro de hiperinsulinemia (produção excessiva de insulina) e leva ao que chamamos de resistência insulínica (IR). Na IR, a insulina produzida vai perdendo o efeito (as células se tornam resistentes a ela) e o pâncreas precisa produzir cada vez mais (e enquanto isso, a hipoglicemia reativa continua acontecendo), até que ele se “cansa” e a pessoa se torna diabética (diabetes tipo 2), pois mesmo com muita insulina, a glicemia não diminui mais como antes e medicamentos se tornam necessários para forçar sua diminuição. O quadro ainda pode evoluir para uma diminuição na produção de insulina! “Detalhe”: quanto mais hipoglicemia, seguida de consumo de carboidrato de alto IG, mais a pessoa tende a engordar, a piorar da RI e a desenvolver esteatose hepática!!!

E quem está mais propenso a ter hipoglicemia reativa / hiperinsulinemia / resistência insulínica? Pessoas com tendência genética ao diabetes tipo 2, principalmente se consomem muito carboidrato/carbo de alto índice glicêmico, excesso de peso e/ou ganho de peso rápido (coisa que acontece com muitos celíacos, principalmente os que haviam perdido peso até o momento do diagnóstico) e mulheres com SOP.

O tratamento basicamente consiste em ajustar (geralmente diminuir) as quantidades e o tipo de carboidrato na alimentação e diminuir alimentos de alto índice insulinêmico, além de atividade física, e se necessário, suplementação de nutrientes e fitoterápicos que diminuem a resistência insulínica.

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Low carb é a receita infalível para todos?

Atualmente um dos assuntos que mais se vê na blogosfera, Insta, Snap e tudo o mais é a dieta low carb/high fat. Pra mim, o pior é ver esse tema sendo falado e divulgado como se fosse realmente uma “dieta” e a salvação do mundo…

Primeiro, acho importante explicar que “low” em português, significa “baixo”, e “high“, significa “alto”, dois advérbios de intensidade, que apenas traduzem que a referida “dieta” possui pouco carboidrato e muita gordura. Tá, ok. Mas quanto é muito e quanto é pouco? Qual o referencial? O ponto de partida? Tenho visto um número “cabalístico” de 50g de carbo nas dieta “low carb” e 20g de nas “very low carb“. Sendo assim, significa dizer que 60 g de carbo já seria muito? E 100g um exagero? Mas para quem? Em que contexto? Com quais objetivos?

 

Se fosse tudo tão simples como andam dizendo por aí, e os carbos e a insulina esse veneno todo, então bora rasgar tudo o que já foi publicado contrário a dietas low carb, bora rasgar tudo o que fale de individualidade bioquímica e bora rasgar o diploma de milhares de bons Nutricionistas que conseguem ótimos resultados sem chegar a certos extremismos “internetanos”, né não?

NÃO!!! Vem comigo que no caminho eu explico!

É fato que reduzir a quantidade de carboidratos da alimentação reduz os níveis circulantes de insulina, de síntese de gordura e ajuda na perda de peso. Mas vocês sabiam que se o carboidrato que tá em excesso é simplesmente trocado por proteína, essa proteína também pode aumentar a insulina e “virar gordura”? E você sabia que mesmo cortando carboidrato e mantendo baixos níveis de insulina é possível engordar? Pois é… mas quase ninguém te conta essas coisas, né?… mas felizmente nos contaram numa disciplina chamada bioquímica, lá no inicio do curso de Nutrição… e ainda bem que existem blogs sérios por aí, como o do Sérgio Veloso, com posts sérios, que me poupam de escrever demais (além do que já escrevo) e poupam meus leitores de “ouvir” minha ladainha… rsrsrs

Aliás, todo excesso, seja ele de carbo, de proteína, de gordura ou até mesmo de água é prejudicial… Ok, mas como saber onde estão os excessos? Não é só cortar carboidrato e aumentar gordura e proteína que tá tudo certo? Bom seria se assim fosse e com todas as pessoas… o mundo estaria salvo da obesidade e da chatice dos nutricionistas (que seriam totalmente desnecessários). O excesso começa quando a ingestão ultrapassa os limites de queima de cada indivíduo (pensando na questão de ganho e perda de peso)… e estes limites sofrem influência de muitos fatores: sexo, idade, peso atual, altura, quantidade de massa muscular, nível de atividade física, horas de sono, atividades diárias, nível de estresse, doenças associadas, e fatores genéticos! Ou seja, para ao menos estimar o que seria excessivo para uma pessoa, precisamos avaliar todos esses fatores antes… e o que é muito pra um, pode ser muito pouco para outros…

O fato de dizermos que o EXCESSO de carboidratos é prejudicial, não dignifica dizer que todo e qualquer carboidrato fará mal! Da mesma forma que não podemos colocar todos os carboidratos e forma como são consumidos no mesmo bolo (perdoem o trocadilho). Uma coisa é consumir algo contendo grande quantidade de farinhas refinadas e açúcar (sacarose, aquele açúcar que todo mundo evita)… outra coisa é consumir frutas e tubérculos (sim, batatas, aipim, inhame). Mas também não adianta trocar o bolo feito com farinha e açúcar por outro cheio de maltodextrina, só porque na embalagem ta dizendo que é sem adição de açúcar! É sem adição do açúcar chamado sacarose, mas maltodextrina é um tipo de açúcar!

A desculpa de evitar alimentos com alto índice glicêmico (IG) também precisa ser revista… muita gente anda evitando comer cenoura (por exemplo), porque leu em algum lugar que seu IG era alto. E aí eu pergunto: você só vai comer cenoura? Vai para um rodízio de cenoura? Ou vai comer cenoura (até que coma uma unidade inteira, que pesa cerca de 100-120g e possui aí menos de 7g de carboidrato e 30 Calorias ou Kcal)  junto com outros alimentos, como uma salada de folhas (cheia de fibras), um pedaço de carne (com proteínas e gorduras), que no fim das contas, diminuem o índice glicemico da refeição?

E qual o motivo de fugir desesperado dos tubérculos? Em 100g de batata inglesa (a “pior”, segundo alguns “especialistas” – sob o ponto de vista do índice glicêmico) temos 12g de carboidratos e apenas 52 Calorias . Muito? Segundo a tabela TACO, tem bem menos que a queridinha batata doce, que nas mesmas 100g tem 18,2 g de carboidrato e 77 Calorias! Tá achando muito? Bom… em 100g ou 4 fatias de de pão de aveia (escolhi aveia pra ninguém dizer que eu tenho implicância com o trigo e to falando mal dele…rsrsrs), temos 59,6g de carbo e 343 Kcal e macarrão instantâneo (que eu sei que vocês não comem) temos aí 62,4g de carboidrato e…436 Kcal!!!

Aí eu pergunto: dá mesmo pra dizer que numa dieta low carb não pode entrar nenhum tubérculo? É… se for nessas low carbs que andam praticando por aí, que limitam o consumo de carbo em 20 (VINTE) GRAMAS ao dia, realmente não dá. Mas por favor, me expliquem QUAL A NECESSIDADE DISSO (devo ter faltado a essa aula, só pode!)??? A meu ver, 20g só pode ser algum numero cabalístico ou numero da sorte de alguém, porque a literatura cientifica não sustenta esses radicalismos por muito tempo para a perda de peso. Pode até ajudar realmente a perder peso na balança (boa parte sendo água e massa muscular e não exatamente gordura, principalmente nos primeiros dias), mas a longo prazo, a recuperação do peso se mostra maior que em pessoas que fizeram uma restrição moderada, como bem explicado aqui nesse outro post, também do Sérgio.

De toda forma, não estou dizendo que as pessoas precisam sair dessa restrição toda de carboidrato pra se jogarem num rodízio de massas… mas acho muito importante lembrar que não existe uma “receita de bolo” que sirva igualmente a todas as pessoas. Enquanto realmente alguns indivíduos parecem se beneficiar de níveis reduzidos de carboidratos (porque em sua individualidade bioquímica metabolizam melhor as proteínas e as gorduras), existem outros que necessitam de uma dose maior de carboidratos e neste segundo grupo, está boa parte de nós mulheres, que em função das flutuações hormonais atreladas ao nosso ciclo menstrual, temos alguns momentos de menor produção de serotonina. Se a serotonina está baixa, consequentemente a melatonina também está e o cortisol encontra-se mais alto. Uma das maneiras que o corpo tem de equilibrar essa bagunça, é fazendo com que nossa vontade de comer doce aumente. Mas não é necessário que ninguém se afunde numa caixa de bombom pra reduzir cortisol (até porque aí teremos outros desequilíbrios, envolvendo insulina, hipoglicemias reativas e tudo o mais, que acabam por gerar compulsão em algumas pessoas e mal estar em muitas outras). Mas podemos facilmente equilibrar cortisol, serotonina e melatonina aumentando a quantidade de carboidratos, com a inclusão de frutas (outras, além de abacate, coco e berries) e hortaliças (lembram da cenoura e das batatas?).

E isso porque nem falei ainda sobre a quantidade de vitaminas e antioxidantes que os vegetais possuem.. e antes que alguém diga que batata “é só amido”, já vou avisando que ela é fonte de antioxidantes como luteína (um carotenóide, “primo” do betacaroteno) e zeanxatina, com importante função protetora da visão…

E ainda tem mais! Sério!

Restrições radicais de carboidratos “estressam” a glândula tireoide e diminuem a taxa metabólica basal. Conquência disso? Menor perda de peso, e maior facilidade de recuperar o peso perdido… Pessoas com hipotireoidismo também não deveriam fazer cortes radicais de carboidratos, porque isso atrapalha ainda mais a função tireoidiana e a longo prazo, favorece o ganho de peso.

Quando se pensa em perda de peso, e principalmente em não recuperar o peso perdido, é importante evitar certos radicalismos e promessas de perda rápida e pensar a longo prazo. Ao se praticar restrições grandes de carboidrato, a cada “jacada” (coisa que eu particularmente detesto e já expliquei aqui no blog o porque), o impacto de muito carboidrato de uma só vez é grande… e as pessoas invariavelmente se sentem mal, inchadas, com dor de cabeça, com problemas digestivos e com ganho de peso/dificuldade para continuar perdendo.

Aí eu pergunto novamente: QUAL A NECESSIDADE DISSO?

Não seria mais coerente buscar a orientação de um profissional e fazer uma dieta individualizada, equilibrada, elaborada a partir da analise de todos os fatores que já mencionei? As chances de dar errado seriam muito menores e as chances de sucesso, muito maiores!

O que faz um Nutricionista?

Aproveitando o embalo do 31 de agosto, dia dedicado aos Nutricionistas e inspirada por esse texto aqui, do blog “Não sou exposição”, resolvi escrever esse texto, já que praticamente 99,9% das pessoas alimentam a falsa crença de que Nutricionista só prescreve dietas de emagrecimento e que obrigatoriamente tem de ser magras e/ou fitness e tem que ter tempo pra ler todos os artigos publicados a cada dia sobre todas as áreas da Nutrição, além de malhar pesado 7x na semana, manter conta no Facebook, Instagram, Snapchat, blog e sabe-se-lá mais o que, além de trabalhar, pagar as contas, cuidar da família, passear e até (acreditem!) DORMIR…hahahahaha. Tá pensando que é fácil? Vem comigo que vou te mostrar como é a vida real…

Eu até sugiro que antes de continuar a ler o meu post, que você leia primeiro o post que indiquei acima.

Mas como eu ia dizendo, a profissão foi regulamentada pela Lei 8234 de 17 de setembro de 1991, que diz o seguinte:

Art. 1º. A designação e o exercício da profissão de Nutricionista, profissional de saúde, em qualquer de suas áreas, são privativos dos portadores de diploma expedido por escolas de graduação em nutrição, oficiais ou reconhecidas, devidamente registrado no órgão competente do Ministério da Educação e regularmente inscrito no Conselho Regional de Nutricionistas da respectiva área de atuação profissional (ou seja, só quem fez a faculdade de Nutrição e está devidamente registrado no Conselho Regional é que pode atuar como Nutricionista. Apenas ter um blog ou uma conta em qualquer rede social, não basta…).

Essa mesma lei diz que:

Art. 3º. São Atividades privativas dos nutricionistas:

I – direção, coordenação e supervisão de cursos de graduação em nutrição;

II – planejamento, organização, direção, supervisão e avaliação de serviços de alimentação e nutrição;

III – planejamento, coordenação, supervisão e avaliação de estudos dietéticos;

IV – ensino das matérias profissionais dos cursos de graduação em nutrição;

V – ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos cursos de graduação da área de saúde e outras afins;

VI – auditoria, consultoria e assessoria em nutrição e dietética;

VII – assistência e educação nutricional a coletividades ou indivíduos, sadios ou enfermos, em instituições públicas e privadas e em consultório de nutrição e dietética;

VIII – assistência dietoterápica hospitalar, ambulatorial e a nível de consultórios de nutrição e dietética, prescrevendo, planejando, analisando, supervisionando e avaliando dietas para enfermos.

Traduzindo os itens VII e VIII: Dieta é com Nutricionista!!!

E ainda:

Art. 4º. Atribuem-se, também, aos nutricionistas as seguintes atividades, desde que relacionadas com alimentação e nutrição humanas:

I – elaboração de informes técnico-científicos;

II – gerenciamento de projetos de desenvolvimento de produtos alimentícios;

III – assistência e treinamento especializado em alimentação e nutrição;

IV – controle de qualidade de gêneros e produtos alimentícios; V – atuação em marketing na área de alimentação e nutrição;

VI – estudos e trabalhos experimentais em alimentação e nutrição;

VII – prescrição de suplementos nutricionais, necessários à complementação da dieta;

VIII – solicitação de exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico;

IX – participação em inspeções sanitárias relativas a alimentos;

X – análises relativas ao processamento de produtos alimentícios industrializados;

XI – participação em projetos de equipamentos e utensílios na área de alimentação e nutrição.

E onde o Nutricionista pode trabalhar, já que eu falei lá em cima que não é so no consultório? De acordo com a Resolução CFN 280/2005, o Nutricionista pode atuar nas seguintes áreas :

I. Alimentação Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas nas Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN), dentro de empresas, restaurantes comerciais e similares, hotelaria marítima (navios, plataformas), serviços de buffet e de alimentos congelados, comissarias (comida de avião) e cozinhas dos hospitais, creches, escolas e instituições para idosos.

Isso significa dizer, que o Nutricionista precisa elaborar cardápios que garantam energia e nutrientes para que os trabalhadores exerçam suas funções, no caso das empresas, para que os pacientes se recuperem (de acordo com a dieta prescrita pelo Nutricionista da clínica), por exemplo. Mas além dos cardápios, estes Nutricionistas precisam cuidar de todo o controle higiênico do preparo dos alimentos, da seleção, contratação, do treinamento e da supervisão dos funcionários que preparam as refeições, do controle dos custos e compra dos ingredientes, utensílios e equipamentos e no fim das contas, muitas vezes, acaba sendo mais administrador que Nutricionista.

II. Nutrição Clínica – atividades de alimentação e nutrição realizadas nos hospitais e clínicas, nas instituições de longa permanência para idosos, nos ambulatórios e consultórios, nos bancos de leite humano, nos lactários, nas centrais de terapia nutricional, nos Spa e quando em atendimento domiciliar;

Aqui é onde a maioria das pessoas está acostumada a ver o Nutricionista em ação, principalmente nos consultórios, onde boa parte nos procura querendo emagrecer, mas achar que é só isso que fazemos, sinceramente é extremamente limitador! Nos hospitais, avaliamos os pacientes internados e indicamos a dieta mais adequada a cada situação (lembrando que como as refeições dependem da cozinha e tem hora para serem preparadas e tudo precisa ser visto com antecedência, é praticamente impossível individualizar as dietas da forma como fazemos no consultório). Dentro dos hospitais cuidamos de pacientes com as mais diversas situações, que vão desde casos bem conhecidos como diabetes, até doenças renais, cirurgias de todo o tipo, alimentação por sonda (cateter). Eu mesma, durante muito tempo trabalhei em CTI, e a maioria dos meus pacientes não comia comida, pois se alimentava somente com dieta enteral, as tais que passam pelas sondas. E também fiz parte da Comissão de Curativos, onde minha função era acompanhar pacientes com graves feridas, que além de todos os cuidados médicos e de enfermagem, precisavam de dietas e suplementos especiais para acelerar a cicatrização e diminuir o risco de infecções. Nos bancos de leite e lactários, o trabalho é todo voltado para o controle de formulas infantis e leite materno doado, para distribui-los aos bebezinhos internados, que por algum motivo não estão podendo ser amamentados por suas mães. E mesmo nos consultórios, onde a maioria nos procura para emagrecer, temos muito mais a oferecer! Cuidamos de pacientes diabéticos, hipertensos, alérgicos, celíacos (até parece que eu não ia tocar nesse assunto! rsrsrsrs), pacientes em pós operatórios diversos, pacientes com doenças autoimunes, etc, etc, etc….. daria pra ficar até amanhã tentando preencher essa lista…

E antes que eu me esqueça! Nós tratamos também de desnutrição! Nós tentamos fazer com que várias pessoas ganhem peso e saiam do risco de morrer por falta de alimento / nutrientes! E quando conseguimos, principalmente quando o desnutrido é uma criança, o resultado é a coisa mais linda de se ver! É lindo ver uma criança desnutrida recuperar o brilho dos olhinhos e recuperar a energia pra brincar, correr e fazer bagunça! Como também é lindo ver um paciente que estava inconsciente, sendo alimentado por sonda, acordar e reclamar que está com fome!

III. Saúde Coletiva – atividades de alimentação e nutrição realizadas em políticas e programas institucionais, de atenção básica e de vigilância sanitária;

Aqui, meus colegas atuam em programas do governo, nas esferas municipais, estaduais e federais, em postos de saúde, e nas ações da vigilância Sanitária

IV. Docência – atividades de ensino, extensão, pesquisa e coordenação relacionadas à alimentação e à nutrição;

Aqui, a atuação pode ser nas universidades, nos cursos de graduação, especialização, mestrado, doutorado ou mesmo em cursos de extensão e de atualização. E ainda damos palestras em eventos científicos, damos formação online, etc. Ou seja, ensinamos e formamos outros nutricionistas e ainda podemos colaborar com a formação de outros profissionais de saúde! Também fazemos pesquisa, publicamos artigos, participamos de congressos, etc.

V. Indústria de Alimentos – atividades de desenvolvimento e produção de produtos relacionados à alimentação e à nutrição;

Geralmente trabalham na indústria de alimentos, desenvolvendo novos produtos e acompanhando sua produção.

VI. Nutrição em Esportes – atividades relacionadas à alimentação e à nutrição em academias, clubes esportivos e similares;

Essa é outra área que já é bem conhecida, com colegas atuando em academias/ consultórios, mas sem esquecer daqueles que merecem medalha de ouro, ao cuidarem dos nossos atletas!

VII. Marketing na área de Alimentação e Nutrição – atividades de marketing e publicidade científica relacionadas à alimentação e à nutrição.

São os Nutricionistas que nos visitam nos hospitais e consultórios, nos apresentando novos produtos, como suplementos e dietas enterais. 

Enfim, a lista de áreas de atuação é bem grande e a quantidade de coisas que podemos fazer é maior ainda! E pra tudo isso, precisamos estudar disciplinas como bioquímica, anatomia, fisiologia, microbiologia, legislação de alimentos, economia, sociologia, psicologia, patologia (pra entender como cada doença afeta o organismo), administração, estatística, entre tantas outras… ou alguém achou que era só aprender a calcular dieta? Sabe de nada, inocente! rsrsrsrsrs

E por que eu to falando tudo isso? Pra ver se ajuda a desconstruir a ideia de que SÓ trabalhamos com emagrecimento, pra desfazer o mito que Nutricionista TEM que ser magra / fitness (não desmerecendo os colegas que tem esse perfil, mas apenas informando que isso não é pré-requisito pra ser Nutricionista e nem é garantia de competência e atualização)  e que só comemos comida “fitness” ou alface. Aliás… to “garrando ódio” dessa história de comida fitness, com todo respeito a quem gosta… mas não leva a mal não, já bastam todas as minhas restrições alimentares (pra quem ainda não sabe, eu sou celíaca, tenho intolerância a lactose, alergia às proteínas do leite, à soja, ao amendoim, à pimenta vermelha e pimentão… afffff… a lista tá é grande!), então não vou ficar me privando de outras coisas que gosto e posso comer. Obviamente, que não sou louca de me encher de “porcarias”, mas que mal há, comer uma fatia de bolo sem glúten ou um pedaço de chocolate de vez em quando?

Sim, Nutricionistas comem, sentem fome e tem vontade de comer como qualquer mortal! E sinceramente, não tem coisa pior do termos gente vigiando nossos pratos e olhando com cara de reprovação quando comemos essas coisas.

E ainda, como qualquer mortal, podem ter dificuldade pra perder peso, até porque não é só o “olho maior que a barriga” que faz alguém engordar! Se fosse só isso, tava fácil e nós já teríamos acabado com a obesidade no mundo! Há muitos medicamentos, como corticóides (por exemplo), necessários ao tratamento de muitas doenças, que favorecem o ganho de peso, há disfunções hormonais, como o hipotireoismo, que favorecem o ganho de peso e dificultam a perda, entre tantas outras coisas, como trabalhar num local estressante, ter pouco tempo para dormir, etc, etc, etc, etc…. E ainda há simplesmente quem não esteja nem aí para padrões impostos e se preocupe apenas em estarem saudáveis,mas não magros. Mas felizmente há lugar pra todos que abraçaram a Ciência da Nutrição e se preocupam em trazer mais saúde e qualidade de vida às pessoas.