Infertilidade x Doença Celíaca

A relação entre glúten/DC e infertilidade é uma dúvida recorrente nos grupos de celíacos, e realmente doença celíaca (DC) TEM que ser investigada em mulheres com dificuldade para engravidar ou que engravidam, mas mas não conseguem levar a gestação adiante.

Infelizmente a DC é pouco lembrada nos consultórios de ginecologia, apesar de ser uma causa tratável de infertilidade. O triste é que esse “esquecimento” dos profissionais tem um alto custo (emocional, principalmente, mas também financeiro, por conta dos muitos tratamentos para engravidar) para as mulheres que desejam ter um bebê.

É sempre importante lembrar que a DC nem sempre aparece com sintomas típicos (diarreia e perda de peso) e seus sintomas (dor de cabeça, desconforto abdominal, inchaço, aftas, queda de cabelo, cansaço, anemia, depressão, irritabilidade, intestino preso, etc) se confundem facilmente com muitas outras condições clínicas e pode vir associada a outras doenças autoimunes como Tireoidite de Hashimoto, Diabetes Tipo I, etc.

A DC pode causar infertilidade de várias maneiras e vou tentar explica-las:

Deficiências nutricionais – a DC causa má absorção, portanto, celíacos estão em risco de deficiências nutricionais diversas. Para que um bebê se desenvolva no útero materno, são necessários diversos nutrientes: proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e minerais e para isso, as necessidades nutricionais da gestante aumentam. Com a má absorção, fica inviável pro corpo manter todas as suas funções e ainda dar conta de um bebê em desenvolvimento. Então, a natureza, sabiamente, para preservar a mãe, impede a gestação. Em outros casos, o embrião pode apresentar má formações graves por causa do deficit nutricional  e mais uma vez, a natureza entra em ação e não deixa a gestação prosseguir. A deficiência de nutrientes também pode afetar os homens celíacos e dificultar a gestação da parceira! Os espermatozóides dependem de diversos nutrientes para serem capazes de fecundar o óvulo e sem nutrientes, a coisa complica…

  1. A DC é uma doença autoimune, logo, significa que o glúten estimula a autodestruição do nosso corpo, através da produção dos autoanticorpos (o antitransglutaminase e o antiendomísio). A transglutaminase é uma enzima que está presente em todo o corpo e o endomísio é uma estrutura que recobre a camada muscular dos tecidos… os anticorpos que produzimos contra essas estruturas podem atacar o embrião em formação e a placenta, impedindo que a gestação evolua. Mesmo em celíacas diagnosticadas e que fazem a dieta, é importante lembrar que contaminações frequentes e o consumo voluntário de glúten também são prejudiciais!
  2. Outro ponto importante é que em função do ataque autoimune à mucosa do intestino, o corpo todo fica sob o efeito da inflamação e do excesso de radicais livres produzidos. Na tentativa de neutralizar esses efeitos, o deficit nutricional aumenta, pois é como tentar apagar um incêndio de grandes proporções usando um copo… a água (os nutrientes) acaba e o incendio continua lá…
  3. Há ainda as celíacas que também apresentam disfunção tireoidiana. O hipotireoidismo.  é uma causa conhecida de dificuldade para engravidar e de riscos à saúde do bebê, principalmente sob o aspecto neurológico e cognitivo (casos graves de hipotireoidismo não tratado podem causar cretinismo, uma condição em que o bebê nasce com retardo no desenvolvimento cerebral)

Infelizmente não são poucos os relatos de mulheres que tentaram engravidar durante anos e que acabaram entrando na menopausa (muitas vezes precocemente) sem terem conseguido ter um bebê, justamente porque não saberem da DC e por não terem tido a oportunidade de se tratarem. Esse é um dos motivos que me preocupam quando alguma paciente se queixa da dificuldade de engravidar, pois a celíaca pode estar ali, mesmo sem sintomas típicos.

Mas a NOTÍCIA BOA (!!!) é que a DC diagnosticada e tratada (dieta sem glúten e sem contaminação) não impede a gestação e nem a torna mais arriscada ou complicada. Com uma alimentação saudável e variada e com o tratamento correto das deficiências nutricionais (reposição dos nutrientes em falta), sem esquecer de cuidar do intestino e da suplementação com probióticos é possível gerar bebês saudáveis e ter uma gestação tranquila!

Bebe e cegonha
Imagem da internet

Mas NÃO EXCLUA O GLÚTEN ANTES DE FAZER EXAMES PARA DIAGNOSTICAR A DC!!! Se você está tentando ou planejando engravidar, converse com seu médico e peça para que ele inclua os exames (a dosagem do anticorpo antitransglutaminase no sangue e a endoscopia com biopsia de 6 a 8 fragmentos do duodeno) na listagem de exames pre-natais e não deixe de procurar um Nutricionista para garantir uma alimentação saudável durante toda a gestação e depois, durante a fase de amamentação!

Bebe amamentado
Imagem da internet

 

 

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Dieta Low Carb não é sinônimo de comer bacon como se não houvesse amanhã

E nem de se “entupir de carne” ou embutidos ou laticínios, como (infelizmente) muitos pensam e divulgam por aí…

Como já falei aqui, dieta low carb pode ser muita coisa (e coisas ruins, diga-se de passagem), mas o bom senso nos diz que low carb é uma redução na ingestão habitual de carbos, principalmente carbos vindos de pães, biscoitos, massas, doces, refrigerantes e produtos industrializados em geral (sucos/refrescos, gelatinas, cereais matinais, empanados, etc). E mesmo que o objetivo seja a perda de peso (e não só o controle de problemas metabólicos, como diabetes, resistência insulínica ou esteatose hepática), não há porque evitar frutas, hortaliças  ou mesmo tubérculos!

Mas há uma crença generalizada de que low carb é a senha para se tornar frequentador assíduo de churrascarias rodízio ou para se esbaldar nos embutidos e laticínios… aliás, esse é o maior erro que as pessoas cometem!

Dietas com restrição de carboidratos são usadas principalmente com a finalidade de melhorar a sensibilidade à insulina (ou seja, fazer com que o corpo otimize o uso da insulina existente e não produza demais, sem necessidade) e consequentemente, melhorar o controle glicêmico, os níveis de colesterol e triglicerídios, reverter a esteatose hepática, reduzir o peso corporal (e principalmente o percentual de gordura corporal) e ainda no tratamento e prevenção do câncer… E todas essas situações tem em comum o fato de haver  disbiose intestinal (alterações na microbiota intestinal), presença de inflamação e endotoxemia (translocação ou passagem de toxinas e restos celulares – LPS – das bactérias intestinais para a corrente sanguínea).

Tá, mas e o que isso tem a ver com não comer frutas e hortaliças e exagerar nas proteínas e gorduras???

alimentos paleo

Tem TUDO a ver, e vou explicar:

  1. A carne dos animais que temos hoje tem um perfil de gordura mais inflamatório em função da alimentação que estes animais recebem, geralmente muito diferente da alimentação que eles escolheriam se vivessem soltos por aí… sem falar que os animais criados para o abate, vivem confinados (para gastarem menos energia e engordarem mais rápido) e tomam antibióticos com frequência (porque ficam mais doentes), que por sinal, alteram sua flora microbiana natural e favorecem o ganho de peso. Além disso, os resíduos de antibioticos presentes na carne que consumimos também altera nossa microbiota…
  2. Carne e principalmente os embutidos e queijos possuem grande quantidade de sódio, que pode aumentar a pressão arterial, causa edema (inchaço), favorece a formação de cálculos renais e a perda de cálcio dos ossos e ainda estão relacionados a um risco maior de câncer de estômago;
  3. Laticínios, independente da quantidade de lactose, prossuem proteínas e aminoácidos que aumentam a produção da insulina (por isso diz-se que possuem alto índice insulinêmico) e de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina). Isso é importante e benéfico quando se trata de filhoes e bebês em fase de crescimento e pessoas desnutridas que necessitam recuperar seu estado nutricional. Mas pode ser um “tiro no pé” de pessoas com resistencia insulínica, sobrepeso e até mesmo diversos tipos de câncer;
  4. Frutas e hortaliças possuem fibras, importantíssimas para a boa função intestinal e eliminação das toxinas que necessitam ser eliminadas pelas fezes. Essas fibras também são capazes de melhorar a nossa microbiota (“flora”) intestinal, favorecem o crescimento de bactérias “do bem” e estimulam a produção de ácidos graxos de cadeia curta, substâncias importaantes para a saúde intestinal, para o controle dos níveis de colesterol (aumento do HDL e diminuição do LDL) e diminuição da inflamação relacionada à endotoxemia. Lembrando que, intestino preso é o caminho mais rápido para desenvolver SIBO ou crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, condição que causa diversos problemas e aumenta a inflamação.
  5. Além disso, frutas e hortaliças possuem vitaminas e compostos bioativos de ação anti-inflamatória e antioxidantes, que neutralizam a ação dos radicais livres e a inflamação. Também possuem magnésio e potássio, necessários ao equilíbrio do pH do corpo (evitando acidez excessiva que “rouba” o cálcio dos ossos para ser neutralizada), estes minerais também são importantes para a manutenção de níveis mais baixos de pressão arterial e prevenção de cálculos renais;
  6. Muita gente foge das frutas com medo da frutose. De fato, frutose demais é um perigo, pois aumenta os triglicerídios, o ácido úrico, causa gota e piora o quadro da síndrome metabólica. Mas é importante dizer que não é a frutose naturalmente presente nas frutas! A frutose “do mal” é a que está no xarope de milho, presente numa infinidade de produtos industrializados (muitas vezes disfarçada com o nome de açúcar invertido ou açúcar líquido), como refrigerantes, sucos “de caixinha”, biscoitos, pães, barrinhas e cereais matinais, achocolatados e iogurtes. Frutose também está presente na sacarose, o açúcar de cana (ou açúcar de mesa), que muitos usam com exagero e que também esta presente (em alguns casos, junto com o xarope de milho) em muitos produtos industrializados:
  7. Solidos de xarope de milhorotulo_barra-cereais_022
  8. E por último, há estudos mostrando que o consumo de frutas é mais eficaz para a perda de peso que sua exclusão da dieta:
  9. Frutose
    Post do prof Marcelo Carvalho no FB

Dietas Low carb x diabetes

De um tempo pra cá a “dieta low carb” tem sido falada (e praticada) com bastante frequência e atualmente este tem sido um dos principais motivos pelos quais os pacientes me procuram, seja apenas para controlar a glicemia, para prevenir o diabetes (tipo 2) ou para perder peso.

Mas antes de começar a falar dos benefícios da dieta low carb no diabetes, é importante falarmos primeiro sobre o que seria “low carb“…

Pra inicio de conversa não há uma única dieta low carb… e esse é um dos motivos pelos quais não gosto muito de ser chamada de “Nutricionista low carb”, pois low carb pode seguir uma abordagem bastante saudável como nas dietas no estilo Paleolítico (que já falei aqui, aqui e aqui), como pode ser também algo bem “trash” e prejudicial a saúde (quando se exclui frutas e hortaliças, e a alimentação fica a base de embutidos, queijos gordurosos, adoçantes artificiais e até… refrigerantes zero e gelatina diet!).

Outra questão importante é o que se considera e qual a quantidade de carboidratos ingerida…

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Imagem encontrada na internet

Partindo das recomendações habituais de carboidratos numa dieta tradicional padrão, qualquer quantidade abaixo de 50% das calorias diárias vindo dos mesmos ja pode ser considerada low carb. Mas alguns mais radicais só consideram low carb “de verdade” quando a ingestão máxima de carboidratos/dia não passa de 20 gramas!

Eu particularmente considero 20g/dia um valor absurdamente baixo e desnecessário a grande maioria das pessoas e por vários motivos:

Como o cérebro usa preferencialmente a glicose como combustível, o próprio corpo (enquanto usa os corpos cetônicos, vindos da gordura e de alguns aminoácidos) se encarrega de gerar glicose (a partir das proteínas, sejam da alimentação, seja da massa muscular) para o cérebro e isso pode aumentar a glicemia. Além disso, para manter níveis tão baixos de carboidratos, é necessário abrir mão de muitos alimentos saudáveis, como frutas e legumes (principais fontes de compostos bioativos de ação anti-inflamatória e antioxidante; vitaminas, minerais e fibras), ao mesmo tempo em que se aumenta a ingestão de alimentos com mais proteinas e gorduras.

Não que gordura seja tão prejudicial assim (estou falando da gordura naturalmente presente nos alimentos e não há gordura hidrogenada, nem na margarina ou óleos vegetais refinados), mas muita gordura a base de embutidos e laticínios (em vez de gordura das frutas e sementes oleaginosas, por exemplo) aumenta o risco de inflamação e doenças cardiovasculares. Outro problema do excesso de proteínas, embutidos e laticínios é a grande quantidade de sódio presente nestes alimentos, que aumenta o risco de cálculos renais, perda de cálcio ósseo (aumentando o risco de osteoporose) e ainda o risco de câncer de estômago! Também é sempre bom lembrar que diabéticos estão mais propensos a problemas renais (nefropatia diabética)…

Entretanto, quando se faz uma restrição moderada de carboidratos, equilibrando carnes mais magras (e peixes, aves, etc) e ovos com frutas e hortaliças diversas (incluindo tubérculos), é possível equilibrar a glicemia, sem prejudicar o funcionamento renal, protegendo os ossos e ainda mantendo o corpo protegido da inflamação e dos radicais livres. Nesse caso, ao evitar farinhas, pães e massas já reduzimos o carboidrato de forma significativa!

E o que tudo isso tem a ver com o diabetes???

Bom, seja no DMI ou no DMII, é necessário controlar a glicemia e garantir que a insulina (exógena, tomada como medicação ou endógena, produzida pelo próprio corpo) funcione adequadamente*. Em ambas as situações, é preferível manter uma dieta moderadamente baixa em carboidratos (algo em torno de 40% das calorias diárias) de baixo índice glicêmico, bem distribuidos ao longo do dia. Assim, é possível também favorecer a perda de peso e a manutenção de um peso saudável a longo prazo, e ainda garantindo a ingestão de todos os nutrientes necessários à saúde.

Em todos os casos de diabetes, pode-se dizer que há presença inflamação, aumento da permeabilidade intestinal e endotoxemia (passagem dos LPS os dos fragmentos das bactérias intestinais – bactérias “do mal” – para o sangue) e uma dieta nos moldes da Paleo se mostra benéfica, pois diminui a inflamação, diminui a permeabilidade (ao excluir trigo, lácteos e lectinas, proteínas presentes em alguns grãos e farinhas) e ainda (por ter uma boa quantidade de fibras), melhora a microbiota intestinal.

*No DMI, a contagem de carboidratos costuma ser feita, para ajustar a dose de insulina de acordo com cada refeição. É uma boa forma de promover o controle glicêmico, porém é importante chamar a atenção que os carboidratos não são todos iguais e que mesmo que a glicemia baixe com uma dose mais alta de insulina, a formação de AGEs (compostos de glicação avançada) pode ocorrer, prejudicando a saúde, além do aumento dos níveis de colesterol, triglicerídios e esteatose hepática (acumulo de gordura no fígado). A contagem existe para permitir maior flexibilização da dieta, mas não para liberar uma “overdose” de carboidratos de alto índice glicêmico presentes em alimentos pobres em nutrientes!