Enzimas que prometem digerir o glúten

Sites internacionais de venda de suplementos estão cheios delas. As lojas de suplementos no exterior, também. Volta e meia aparece alguém empolgado com a “novidade”, que parece ser a solução de todos os problemas de quem possui alguma desordem relacionada ao glúten (DRG).

Sou obrigada a admitir que até eu bem lá no fundo, gostaria muito que tais produtos fossem o que parecem…. a saída segura para ingerir glúten sem qualquer problema! Mesmo não tendo nenhuma intenção de voltar a ingerir glúten (caso a “cura” seja descoberta), eu gostaria muito de ter algo que pudesse efetivamente me proteger das contaminações.

Só quem possui uma restrição alimentar, que necessita de cuidados e vigilância 24h por dia sabe como é, e consegue avaliar o tamanho da alegria que um produto desses poderia proporcionar. No meu caso, se me garantisse que eu poderia comer de olhos fechados em qualquer lugar sem me preocupar com a contaminação cruzada (porquer acho que mesmo que a cura surgisse eu não conseguiria mais ingerir nada com glúten), já seria de grande ajuda!

Enzimas gluten
Autoria: Juliana Crucinsky. Imagem criada para o grupo Viva Sem Glúten, no Facebook.

Entretanto, como nem tudo são flores, tais produtos não servem para nós. Não há estudos suficientes comprovando sua eficácia, nem garantindo segurança em seu uso.

As enzimas prometem digerir o glúten… só que o glúten é uma proteína extremamente dificil de ser digerida e mesmo que fosse parcialmente hidrolisado por tais enzimas, ainda assim isso não seria seguro, pois são exatamente seus fragmentos (ou peptídeos) e não ele inteiro, que desencadeiam todas as reações imunológicas presentes na DC e na alergia ao trigo! A segurança existiria apenas se as enzimas conseguissem hidrolisar completamente o glúten em aminoácidos…

Pesquisando no Pubmed, base de dados de artigos científicos na área da saúde, o que encontramos foram dois estudos, um utilizando enzimas produzidas por um fungo que ataca o centeio e outro, enzimas produzidas por um fungo que cresce no arroz. No primeiro caso, a combinação das enzimas conseguiu evitar as lesões na mucosa duodenal durante o desafio do glúten, mas ainda são necessários ouros estudos para avaliar sua segurança e só depois de uma porção de testes é que poderia ser produzida em larga escala e colocada a venda… e pelo visto isso ainda vai demorar. No segundo caso, o artigo publicado em outubro desse ano, fala sobre pesquisas “in vitro”, ou seja, dentro de um laboratório, com todas as condições bem controladas… até que se iniciem estudos em serem humanos e até que esta enzima (a do fungo do arroz) esteja liberada para comercialização, vai um bom tempo de espera…

As enzimas disponiveis para comercialização, ainda não possuem muito respaldo científico, nem garantia de segurança, eficácia ou mesmo de possíveis efeitos adversos, como pode ser visto aqui, aqui, aqui. Os poucos estudos disponíveis estão, em sua maioria, no estágio pré-clínico, ou seja, são estudos experimentais, feitos em laboratório. Ainda são necessários mais estudos, antes que os testes em humanos estejam liberados, entao, até que isso ocorra, é bom não irmos com muita sede ao pote.

Algumas pessoas pensam que tais enzimas funcionam de forma semelhante aos suplementos a base de lactase,  indicados para quem tem Intolerancia a lactose, mas aqui é importante ressaltar que os mecanismos envolvendo as DRG são completamente diferentes dos que envolvem a IL. Na IL o único problema que há, é a deficiencia (total ou parcial) na produção da enzima lactase no intestino. Na DC e na alergia ao trigo, é o sistema imunológico quem comanda todas as reações e quem está por trás dos sintomas, já que é uma proteína (o glúten) o causador dos problemas…

Na melhor das hipóteses, o que parece funcionar é a adição de algumas enzimas à materia prima contendo glúten, para que o mesmo seja hidrolisado (quebrado) a ponto de não “despertar” nosso sistema imunológico. Mas ainda assim, são necessários muitos testes que garantam que a enzima funcionará, que não haverá nenhum fragmento inteiro, que não haverá contaminação e que a própria enzima utilizada não causará nenhuma reação adversa nos conumidores…

E enquanto não surgem novidades seguras e eficazes no tratamento das DRG, seguimos cuidando da nossa alimentação e procurando evitar ao máximo a contaminação cruzada.

 

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9 comentários sobre “Enzimas que prometem digerir o glúten

  1. Tenho intolerância a gluten,c comer alimentos q contém gluten a dor no estômago é inevitável,mais antes de comer alguma coisa qdo tenho vontade tomo um comprimido e ai blz.

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    • Olá Joana. Há várias pesquisas sendo feitas pelo mundo: com enzimas, com vacinas, com medicamentos. Mas pesquisas sérias precisam de (muito) tempo, até que saiam do laboratório e cheguem à fase clínica (com “cobaias” humanas) e dinheiro. Todos nós esperamos ansiosamente que surja algo que possa nos ajudar pelo menos a minimizar os efeitos dá contaminação, mas enquanto esse dia não chega, só nos resta manter a máxima distância do glúten.
      Grande abraço, Juliana.

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  2. Oi você falou que mesmo que fosse descoberto uma cura você não consumiria mais, gostaria de saber o porque, ele traz malefícios ao corpo? Estou fazendo um testes de não me alimentar com esse ou com aquele alimento e tenho quase certeza que desenvolvi alguma intolerância a glúten pois no dia que me alimentei a base dele quase nao conseguia respirar, e nos outros dias que não o pus fiquei normal, mas mesmo que não for o caso (semana que vem farei os exames), gostaria que me dissesse pq não consumiria mais glúten?

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    • Olá Roberto,

      Vamos por partes:
      1) Ao excluir o gluten e só fazer os exames depois, vc aumenta consideravelmente as chances de resultados falso negativos e, de não descobrir o que realmente tem (sugiro a leitura dos meus outros posts sobre Glúten e doença celíaca pra entender melhor),
      2) Quem exclui o gluten e passa mal ao consumi-lo novamente, muito provavelmente é porque já tinha algum problema não diagnosticado com esta proteína,
      3) Não é apenas o gluten que causa problemas. O trigo possui outras proteínas que causam inflamação em algumas pessoas (geralmente as que tem sensibilidade ao glúten não celíaca) e podem piorar quadros inflamatórios em pessoas com doenças autoimunes. Mas é importante lembrar que cada caso precisa ser avaliado individualmente por um Nutricionista,
      4) No meu caso, especificamente, trata-se de uma questão (também) filosófica e de respeito ao meu corpo. Sendo celíaca, eu já nasci com uma genética incompatível com o gluten e só desenvolvi a doença por não saber dessa incompatibilidade e ter comido gluten a vida toda. Eu e o gluten somos incompatíveis, logo, não quero e nem tenho nenhuma vontade de entrar em contato com ele novamente.

      Gde abraço, Juliana.

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    • Olá Izilma. A doença celíaca é uma condição genética, então às chances das suas filhas já serem celíacas ou mesmo virem a se tornar um dia, são bem grandes. A recomendação é fazer todos os exames (inclusive a endoscopia com biópsia de duodeno) nos parentes próximos (país, irmãos e filhos).
      Gde abraço, Juliana

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