Dieta Paleolítica -Conversando com um Especialista

Depois de ler a entrevista que meu amigo Pedro Carrera Bastos deu ao site do jornal Sol (http://sol.pt/noticia/123421?source=social), de Portugal, falando sobre a dieta dos nossos ancestrais, resolvi escrever mais um post sobre o assunto (depois de já ter escrito este e este). Mas dessa vez trazendo as considerações do próprio Pedro, Diretor da Nutriscience Education and Consulting (http://www.nutriscience.pt/), investigador da Faculdade de Medicina na Universidade de Lund (Suécia) e um grande estudioso do assunto.

Ele nos diz o seguinte:

“Quando pensamos na dieta Paleolítica, estamos, na verdade, a refletir sobre os padrões alimentares que os seres humanos seguiram durante a maior parte do seu tempo na Terra. Estamos, ainda, a ter em consideração o seu estilo de vida. E por estilo de vida entenda-se padrões de sono e de exposição solar, atividade física, níveis de stress e exposição a poluentes (onde se inclui o tabaco). Ou seja, estamos a falar não de uma dieta única e igual para todos, mas sim de um padrão, de um template. E porque é que esse template deve ser tido em consideração? Porque quando olhamos para populações tradicionais que ainda têm um estilo de vida em consonância com esse template (não podemos dizer que vivem como no Paleolítico mas que estão quase lá ou na transição), estas apresentam melhores marcadores de saúde do que nós, que vivemos em países ocidentalizados, com melhores condições sanitárias, maior estabilidade social, menor risco de traumas físicos e acesso à medicina moderna. E é graças a esta que hoje conseguimos manter pessoas doentes vivas por mais tempo e não graças a termos uma melhor dieta e um estilo de vida mais saudável”.

Segundo esta corrente, desde o Paleolítico até ao início da Revolução Agrícola, o homem seguiu padrões alimentares semelhantes (com variações, que dependiam, fundamentalmente, da latitude, clima e disponibilidade de alimentos) e manteve um estilo de vida de caçador-recolector. Isto significa, por exemplo, que os cereais só começaram a fazer parte dos hábitos de consumo já muito tarde. Do mesmo modo, os lacticínios, com excepção do leite materno, não faziam parte das dietas destes indivíduos. E o próprio açúcar era ingerido na forma de mel ou de fruta e não na forma de açúcar refinado, que hoje chega a representar 20% das calorias em alguns países. “Quando falamos em adoptar um padrão alimentar mais próximo do que os nossos antepassados do Paleolítico seguiam, não estamos a sugerir que a dieta deverá ser igual para todos e muito menos que tenhamos que comer quilos de carne ou apenas alimentos crús. O que estamos a sugerir é que reduzamos a ingestão de alimentos que não faziam parte dos menus dos nossos antepassados e que têm evidência científica a demonstrar que, quando ingeridos em quantidades moderadas a elevadas, podem produzir efeitos adversos em quase todos nós, como, por exemplo, alguns óleos vegetais (em especial de girassol, milho ou soja, que só foram introduzidos, de forma generalizada, na cadeia alimentar há aproximadamente 100 anos), gorduras hidrogenadas, açúcar refinado, cereais refinados (e também alguns na sua versão integral, com destaque para o trigo moderno) e lacticínios. E mais importante: reduzir drasticamente a ingestão de alimentos processados! O que é interessante é que existem, neste momento, mais de 10 estudos de intervenção e uma recente revisão sistemática publicada numa revista científica de alto impacto a mostrar que este padrão pode melhorar vários marcadores da saúde metabólica, parecendo ser inclusive superior a alguns padrões tidos como muito saudáveis, como é o caso da Dieta Mediterrânica. Refira-se, ainda, que quando tentamos colocar o referido template em prática não estamos apenas a falar em alterar a Dieta, mas também em alterar todo o estilo de vida, nomeadamente: praticar exercício físico com regularidade, reduzir a exposição a poluentes e o nível de stress e adoptar padrões de sono e de exposição solar adequados.”.

(Fonte: http://www.staffanlindeberg.com/KitavaPhotos.html )

Posteriormente (num post lá na minha página do Facebook: https://www.facebook.com/NutricionistaJulianaCrucinsky/), complementa:

“É comum as pessoas associarem uma dieta pré-agrícola a uma dieta rica em carne, a uma dieta hiperproteica ou com restrição de CHO. Isso é um erro comum e em grande parte causado por livros e blogs sensacionalistas. A verdade é que as dietas dos nossos antepassados poderiam ou não ser ricas em carne, hiperproteicas e/ou baixas em CHO. Em algumas sociedades era assim (em que a carne não era de animais domesticados obesos e tratados sem qualquer respeito, mas sim de animais selvagens), mas em outras não. Para que entendam como uma dieta tradicional não é = dieta rica em carne/hiperproteica/low carb vejam a dieta de Kitava, em que os CHO são cerca de 70% das calorias e a proteína está < 15%. O que é que é então diferente? os tipos de alimentos: tubérculos, fruta, coco, algum peixe, carne de vez em quando. Mas açúcares isolados, óleos vegetais, cereais (com excepção de um pouco de milho), lacticínios e alimentos processados não fazem parte do menu.
De qualquer modo, estas discussões sobre macronutrientes, se comiam mais carne ou menos carne, mais CHO ou menos CHO afasta-nos do que é essencial: ocorreram grandes alterações ao longo da história em termos de estilo de vida (maior exposição a poluentes/xenobióticos, alterações do padrão de sono e de exposição à luz e ao sol, sedentarismo generalizado, stresse crónico) e de dieta (demasiadas alterações para explicar em poucas linhas) e isso está na origem de grande parte das doenças degenerativas crónicas. Assim sendo, o que se propõe é voltar a hábitos tradicionais que estão em consonância com a fisiologia humana e não comer 500 g de carne todos os dias e evitar CHO como se fossem o diabo.”

Como referencias para complementar a compreensão do assunto, ele nos indica:

Sobre o Estudo de Kitava: http://www.staffanlindeberg.com/TheKitavaStudy.html

Revisão Sistemática sobre estudos com Dieta Paleolítica:

http://ajcn.nutrition.org/content/early/2015/08/12/ajcn.115.113613

Slides de uma apresentação de Maelán Fontes Villalba (outro grande estudioso da dieta Paleolítica): http://pt.slideshare.net/maelanfontes/por-qu-considerar-la-evolucin-en-nutricin

Publicações do Prof. Dr. Staffan Lindeberg, médico e Professor na Universidade de Lund/Suécia (um dos maiores pesquisadores da Dieta Paleolítica na atualidade):

https://www.researchgate.net/publication/221764087_Paleolithic_diets_as_model_for_prevention_and_treatment_of_Western_disease

http://www.visioninstitute.optometry.net/UserFiles/users/499/File/WebDoc9Lindberg.pdf

Publicações do Prof. Dr. Loren Cordain, Professor Catedrático aposentado da Universidade do Estado do Colorado/EUA (outro dos grandes pesquisadores da Dieta Paleolítica na atualidade):

http://ajcn.nutrition.org/content/81/2/341.full

http://www.direct-ms.org/pdf/EvolutionPaleolithic/Meat%20Paradox%20EJCN.pdf

http://www.2ndchance.info/birdlover-cerealsword.pdf

http://www.deflame.com/wp-content/uploads/2011/11/Lectins-2000.pdf

Publicações da equipa do Prof. Dr. Frits Muskiet, Bioquímico e Professor Catedrático da Universidade de Groningen/Holanda (grande especialista em aspectos evolutivos da Nutrição):

http://thepaleodiet.com/wp-content/uploads/2015/08/Estimated-Macronutrient-and-Fatty-Acid-Intakes-From-an-East-African-Paleolithic-Diet.pdf

– https://www.researchgate.net/publication/230677843_A_multidisciplinary_reconstruction_of_Palaeolithic_nutrition_that_holds_promise_for_the_prevention_and_treatment_of_diseases_of_civilisation

Tese de Doutorado do Médico e Farmacêutico Remko Kuipers (em que o orientador foi o Prof. Frits Muskiet): http://www.rug.nl/research/portal/files/2408993/thesis.pdf

Clique para acessar o thesis.pdf

Tese de Doutorado do Médico Tommy Jönsson (em que o orientador foi o Prof. Staffan Lindeberg):

http://lup.lub.lu.se/luur/download?func=downloadFile&recordOId=599209&fileOId=631273

Enzimas que prometem digerir o glúten

Sites internacionais de venda de suplementos estão cheios delas. As lojas de suplementos no exterior, também. Volta e meia aparece alguém empolgado com a “novidade”, que parece ser a solução de todos os problemas de quem possui alguma desordem relacionada ao glúten (DRG).

Sou obrigada a admitir que até eu bem lá no fundo, gostaria muito que tais produtos fossem o que parecem…. a saída segura para ingerir glúten sem qualquer problema! Mesmo não tendo nenhuma intenção de voltar a ingerir glúten (caso a “cura” seja descoberta), eu gostaria muito de ter algo que pudesse efetivamente me proteger das contaminações.

Só quem possui uma restrição alimentar, que necessita de cuidados e vigilância 24h por dia sabe como é, e consegue avaliar o tamanho da alegria que um produto desses poderia proporcionar. No meu caso, se me garantisse que eu poderia comer de olhos fechados em qualquer lugar sem me preocupar com a contaminação cruzada (porquer acho que mesmo que a cura surgisse eu não conseguiria mais ingerir nada com glúten), já seria de grande ajuda!

Enzimas gluten
Autoria: Juliana Crucinsky. Imagem criada para o grupo Viva Sem Glúten, no Facebook.

Entretanto, como nem tudo são flores, tais produtos não servem para nós. Não há estudos suficientes comprovando sua eficácia, nem garantindo segurança em seu uso.

As enzimas prometem digerir o glúten… só que o glúten é uma proteína extremamente dificil de ser digerida e mesmo que fosse parcialmente hidrolisado por tais enzimas, ainda assim isso não seria seguro, pois são exatamente seus fragmentos (ou peptídeos) e não ele inteiro, que desencadeiam todas as reações imunológicas presentes na DC e na alergia ao trigo! A segurança existiria apenas se as enzimas conseguissem hidrolisar completamente o glúten em aminoácidos…

Pesquisando no Pubmed, base de dados de artigos científicos na área da saúde, o que encontramos foram dois estudos, um utilizando enzimas produzidas por um fungo que ataca o centeio e outro, enzimas produzidas por um fungo que cresce no arroz. No primeiro caso, a combinação das enzimas conseguiu evitar as lesões na mucosa duodenal durante o desafio do glúten, mas ainda são necessários ouros estudos para avaliar sua segurança e só depois de uma porção de testes é que poderia ser produzida em larga escala e colocada a venda… e pelo visto isso ainda vai demorar. No segundo caso, o artigo publicado em outubro desse ano, fala sobre pesquisas “in vitro”, ou seja, dentro de um laboratório, com todas as condições bem controladas… até que se iniciem estudos em serem humanos e até que esta enzima (a do fungo do arroz) esteja liberada para comercialização, vai um bom tempo de espera…

As enzimas disponiveis para comercialização, ainda não possuem muito respaldo científico, nem garantia de segurança, eficácia ou mesmo de possíveis efeitos adversos, como pode ser visto aqui, aqui, aqui. Os poucos estudos disponíveis estão, em sua maioria, no estágio pré-clínico, ou seja, são estudos experimentais, feitos em laboratório. Ainda são necessários mais estudos, antes que os testes em humanos estejam liberados, entao, até que isso ocorra, é bom não irmos com muita sede ao pote.

Algumas pessoas pensam que tais enzimas funcionam de forma semelhante aos suplementos a base de lactase,  indicados para quem tem Intolerancia a lactose, mas aqui é importante ressaltar que os mecanismos envolvendo as DRG são completamente diferentes dos que envolvem a IL. Na IL o único problema que há, é a deficiencia (total ou parcial) na produção da enzima lactase no intestino. Na DC e na alergia ao trigo, é o sistema imunológico quem comanda todas as reações e quem está por trás dos sintomas, já que é uma proteína (o glúten) o causador dos problemas…

Na melhor das hipóteses, o que parece funcionar é a adição de algumas enzimas à materia prima contendo glúten, para que o mesmo seja hidrolisado (quebrado) a ponto de não “despertar” nosso sistema imunológico. Mas ainda assim, são necessários muitos testes que garantam que a enzima funcionará, que não haverá nenhum fragmento inteiro, que não haverá contaminação e que a própria enzima utilizada não causará nenhuma reação adversa nos conumidores…

E enquanto não surgem novidades seguras e eficazes no tratamento das DRG, seguimos cuidando da nossa alimentação e procurando evitar ao máximo a contaminação cruzada.