Esteatose hepática ou “como essa gordura foi parar no meu fígado?”

Muitas pessoas se assustam quando descobrem que estão com um acúmulo de gordura no fígado, ou esteatose hepática não alcoólica, na linguagem médica. E se assustam mais ainda porque consideram baixa sua ingestão de gordura e não se cansam de perguntar, “eu não como gordura, então como essa gordura foi parar no meu fígado”?

Figura encontrada no Google (www.yuasaude.com)
Figura encontrada no Google (www.yuasaude.com)

Bom, vamos por partes…

Comer gordura não necessariamente é ruim! Precisamos de gordura, mas gorduras de fontes boas, como azeite de oliva (que SIM, pode ser usado para cozinhar! E qualquer hora vou fazer um post só sobre isso), abacate, ovo com a GEMA, oleaginosas (castanhas do Pará, de caju, amêndoas, nozes, avelã, pistache, macadâmia, baru), coco, açaí (mas esqueça o açaí cheio de xarope de guaraná! To falando do açaí “de verdade”, puro). Mas essa gordura não vai direto para o fígado!

Tá, então de onde surge a gordura no fígado?

Bem, aqui o processo é um pouco mais complexo, mas vamos tentar simplificar. Geralmente as mesmas pessoas que tem medo de consumir gordura são as que mais exageram na ingestão de carboidratos: pães, bolos, biscoitos, salgadinhos, empanados… aqui não escapa nem a brasileiríssima tapioca! Muita pessoas que excluíram o glúten da alimentação, como os celíacos, na tentativa de substituir as preparações contendo glúten, acabam exagerando nas preparações contendo farinha de arroz, polvilho, amido de milho, fubá…

E tem aquelas pessoas que estão preocupadas em manter a forma ou em perder peso e correm da gordura, evitam os doces, regulam o consumo de frutas, mas estão sempre consumindo biscoitos light, iogurtes light, requeijão light, maionese light, etc. Excelente, não? Lamento desapontá-los, mas não. Isso é péssimo! Primeiro porque nem estamos falando de comida de verdade. Segundo, porque estes produtos sempre contém grande quantidade de aditivos químicos que acabam por prejudicar o bom funcionamento do organismo, como falei no post sobre detox e terceiro porque para se adequar a legislação dos light, os fabricantes precisam reduzir a quantidade de gorduras e calorias dos produtos. A princípio nos dá a impressão de que isso é ótimo! Mas não é bem assim.

Cada grama de gordura possui 9 Calorias (Kcal), enquanto que cada grama de carboidrato e de proteína possuem apenas 4 Kcal. Proteínas são os nutrientes mais caros, portanto, para a industria é mais vantajoso economicamente substituir a gordura que foi tirada de um produto, por carboidrato (estamos falando aqui de amido de milho, de açúcar, de maltodextrina, de açúcar invertido, de xarope de milho com alto teor de frutose e não de outros carboidratos mais bacanas) e ainda com a vantagem de aumentar a cremosidade e a melhorar a consistência de alguns, como iogurtes e requeijão por exemplo. Até aí,não parece haver nada demais, certo?

E qual o problema do carboidrato?

Nosso fígado tem um limite de armazenamento do carboidrato ingerido… esse estoque chama-se glicogênio, que serve para fornecer glicose para o cérebro nos momentos de jejum. Os músculos também fazem isso, mas em menor proporção e para “consumo próprio”. Quando extrapolamos a capacidade de armazenar glicogênio, para não desperdiçar energia, o corpo começa a produzir gordura (triglicerídios) a partir do carboidrato… esses triglicerídios tem 2 caminhos: parte segue para o tecido adiposo (e se acumulam na barriga e em outras regiões do corpo… as vezes só internamente, entre os órgãos – gordura visceral, que por sinal é a mais perigosa forma de acumular gordura) e parte fica dentro do fígado, esperando a ordem de ir para outro lugar. Se o gasto energético não aumenta, o “trânsito começa a engarrafar” dentro do fígado, e esses triglicerídeos vão se acumulando, gerando o quadro de esteatose hepática.

O grande problema é que gordura no corpo (principalmente quando estão onde não deveriam estar, como no fígado) gera inflamação! E inflamação gera uma série de reações e podem terminar com fibrose, ou seja, quando falamos de fígado, fibrose significa CIRROSE hepática, uma condição na qual todo o tecido ativo do fígado vai sendo substituído por tecido fibroso, sem função.

Mas além disso, ainda existem outras causas de esteatose hepática, como o consumo frequente e/ou exagerado de bebidas alcoolicas e diabetes descompensado.

E depois que a gordura já se instalou? Tem solução?

Dependendo do grau de esteatose tem, mas é necessário adequar a alimentação (e aqui entra o nutricionista), excluir todos os excessos de carboidrato (atenção!!! Não é excluir todos os carboidratos, mas sim, os “carboidratos ruins”)  e aumentar a atividade física (devidamente supervisionada por um educador físico!). Não tem como entrar para a academia agora? Que tal então tentar andar um pouco mais, usar mais escadas que elevador? Já é algum começo pra deixar o sedentarismo!

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Detox – mais uma modinha sem fundamentação científica?

Dieta detox, suco detox, água detox, detox emocional … que mais falta aparecer?

Pelo visto hoje todos estão falando sobre esse assunto, depois de uma reportagem que saiu ontem num certo programa de televisão (que por sinal, eu não vi). Então resolvi escrever algumas coisas sobre esse assunto, na tentativa de trazer algumas informações baseadas na Ciência.

Então comecemos do começo! Detox nada mais é que a forma curta do termo detoxificação. Mas e o que exatamente significa detoxificação?

Lá no Harper, um livro de Bioquímica velho conhecido dos profissionais de saúde, explica  muito bem o que é e foi nele que eu fui buscar inspiração para escrever esse texto (a edição de 1998, a primeira que eu comprei, já possuia um capítulo inteiro sobre esse tema, ou seja, detoxificação não é um tema novo! E a 30ª edição, de 2015, está excelente!)

Detoxificação é uma função metabólica, exercida por nossas células, principalmente pelo fígado, para inativar e eliminar toda e qualquer substância estranha, tóxica (e possivelmente cancerígena), os chamados xenobióticos (do grego: xeno = estranho) com a qual tenhamos contato, seja através da água, da alimentação, da respiração e até mesmo do contato pela pele.

Ou seja, xenobióticos, são os poluentes presentes no ar e na água, são os agrotóxicos, os medicamentos, as substâncias quimicas presentes na tinta que usamos no cabelo ou no esmalte que usamos pra pintar nossas unhas, ou que estão nos desinfetantes e produtos de limpeza que usamos na faxina de casa, nos perfumes, cremes, maquiagem e até mesmo os aditivos quimicos presentes em muitos produtos industrializados que consumimos com bastante frequencia. Ou alguém ainda possui alguma ilusão de que nosso corpo encontra alguma utilidade para o corante amarelo tartrazina, por exemplo (isso pra citar um dos mais conhecidos) ou para substâncias carcinogênicas (indutoras de câncer) presentes no ar poluído?

Os xenobióticos também podem surgir na forma de toxinas geradas dentro do nosso próprio corpo, como as toxinas produzidas por bactérias patogênicas presentes em nossa microbiota intestinal, principalmente quando há aumento de permeabilidade intestinal. Podem estar presentes em embalagens de alimentos (lembram do bisfenol nas mamadeiras e em potes plásticos?), podem vir como contaminantes dos alimentos (mercúrio, chumbo, alumínio, que são metais tóxicos ao nosso corpo) e até mesmo podem ser suplementos e fitoterápicos consumidos de forma indiscriminada e sem a devida orientação profissional!

Então, tudo aquilo que é estranho e não possui uma ação biológica, é tratado como lixo tóxico e como tal, precisa ser eliminado!

Ok. Perfeito. Mas… pera lá! Se é tóxico, como eliminar sem nenhum prejuízo para o organismo?

Bom… é aí que o nosso sistema de detoxificação entra em ação!

A partir do momento em que um xenobiótico é detectado, ele é submetido a algumas reações para torna-lo inativo e inofensivo, de modo que possa ser eliminado (pela urina, pelas fezes, pelo suor e até pelas lágrimas) sem prejuízos ao organismo.

O processo de detoxificação possui 2 fases (em alguns casos, pode ser necessário uma terceira): 

a) Fase I ou fase de Biotransformação ou Bioativação – essa fase é realizada por uma série de enzimas conhecidas como monooxigenases ou Citocromo P450 (que na verdade é uma família de enzimas e não uma única enzima). Nessa fase, ocorrem reações chamadas de hidroxilação. Alguns fármacos, ingeridos em sua forma inativa, precisam passar por esta fase para serem ativados (por isso a fase I também se chama fase de Bioativação) e poderem exercer seu efeito terapêutico. Apesar dessas reações ocorrerem para diminuir a toxicidade dos xenobióticos, como aqui ainda estamos na metade do processo, é bem comum que as substancias geradas nesta fase sejam até mais tóxicas que os mesmos e por isso é necessário que elas sejam imediatamente encaminhadas para a fase II.

b) Fase II – essa é a fase responsável por transformar as moléculas formadas na fase I em compostos solúveis em água, mais fáceis de serem eliminados ou excretados, através das vias de eliminação: fezes, suor, urina, lágrimas. Para que isso ocorra, diversos nutrientes, como ferro, cobre, zinco, vitaminas do complexo B e aminoácidos, precisam entrar em ação.

Sabendo que a detoxificação necessita de uma grande colaboração de diversos nutrientes (inclusive atuando como co-fatores ou ajudantes das enzimas envolvidas no processo), é por isso que pessoas que possuem deficiencias nutricionais, seja por má absorção (por exemplo, um celíaco ainda não diagnosticado ou já diagnosticado, mas que insiste em continuar consumindo glúten, mesmo que eventualmente), seja porque não se alimentam adequadamente (pessoas com alimentação muito monótona, ou que vivem “de dieta”) ou mesmo pessoas que até se alimentam bem, mas estão constantatemente expostas a uma alta carga de xenobióticos, podem apresentar prejuízos no processo de detoxificação. É assim, que muitas pessoas acabam desenvolvendo sérias doenças crônicas ao longo da vida, como os mais diversos tipos de câncer, pois o corpo acaba não dando conta de eliminar todas as toxinas, que acabam por se acumularem.

Nosso corpo foi feito para funcionar perfeitamente bem, mas infelizmente nem sempre nós facilitamos o trabalho dessa máquina perfeita, pois comemos mal, dormimos pouco, abusamos de substancias tóxicas, como cigarro, álcool e até mesmo medicamentos e nem sempre conseguimos fornecer todos os nutrientes necessários para a “reciclagem do nosso lixo metabólico”.

Outra questão muito importante, e muitas vezes negligenciada, é que a eliminação dos xenobióticos, necessariamente depende de água! Ou seja, pessoas que bebem pouca água, terão maior prejuízo na eliminação de toxinas. Além disso, para que o processo de detoxificação ocorra, as vias de eliminação também precisam estar funcionando bem, assim, precisamos de um intestino que funcione regularmente (e sem o uso de laxantes), precisamos urinar com uma certa frequencia (já deu pra perceber que prender a urina não é um bom negócio, né?) e convém não impedir a saída do suor, com o uso de antitranspirantes.

Tá. E onde é que os tais sucos detox entram nessa história?

Bom, na verdade, convencionou-se chamar de “suco detox“, qualquer combinação de alimentos, como frutas e hortaliças, que seriam fontes de água e nutrientes envolvidos no processo de detoxificação. Tomemos por exemplo, um suco de limão, com maçã e couve… o que haveria nele para ajudar? Temos aí, água (necessária a eliminação das toxinas), vitamina C (que possui ação antioxidante, ou seja, capaz de neutralizar os radicais livres formados durante a detoxificação), quercetina (substância de ação inflamatória e anti-alérgica), pectina (fibra que auxilia no funcionamento intestinal e consequentemente, na eliminação das toxinas), magnésio (mineral que atua como co-fator ou ajudante de muitas enzimas), ferro (necessário à formação da hemoglobina, proteína responsável pela oxigenação de todos os tecidos corporais) e compostos sulfurados (contendo enxofre), que atuam na fase II. Ou seja, não é nenhum milgre! É apenas uma forma rápida e prática (inclusive para quem é “chato pra comer”) de numa única “refeição” ingerir nutrientes capaz de atuar em muitos pontos do processo de detoxificação.

Mas se é assim, fica muito fácil!

Bem, nem tanto, já que não adianta tentar se garantir num único copo de suco, sem mudar hábitos alimentares e até mesmo hábitos de vida. Ou seja… não adianta tomar 1 copo de suco pela manhã, e trocar o almoço por um sanduiche (cheio de gordura, sódio e pão branco, por exemplo) e um suco industrializado (cheio de corantes, adoçantes, conservantes e uma série de substâncias que eu aposto que você não faz a mínima idéia do que sejam e que na verdade nem deveriam estar num “alimento”). Mas vamos combinar que, um copo de suco preparado com ingredientes fresquinhos (ainda que não sejam orgânicos) tem muito mais valor nutricional que um “suco de caixinha”, né não? Isso, independente da composição do suco ou se ele leva “detox” no nome.

Também não adianta cuidar lindamente da alimentação, mas continuar estressado ou guardando mágoas no coração, porque o estresse emocional também cobrará sua conta! Quando estamos estressados, nosso corpo sofre o impacto de muitas reações metabólicas, na tentativa de compensar e equilibrar os batimentos cardíacos, o fluxo sanguíneo, os níveis de glicose, entre outras coisas e tudo isso acaba gerando radicais livres, inflamação e mais uma vez nossos sistema de detoxificação precisa entrar em ação para neutralizar tanta coisa…

Então, quando falamos em detox, estamos pensando não em estimular o consumo do produto x ou y, ou de uma dieta em especial, mas estamos pensando em algo muito maior, estamos pensando em estimular hábitos alimentares e até mesmo hábitos de vida mais saudáveis! Alimentação sem corantes, sem aditivos químicos, sem compostos carcinogênicos, mas rica em nutrientes indispensáveis à vida!