Sobre Nutricionistas e Parafusos

Essa semana vi esse texto circulando pelo Facebook. Não sei que é o(a) autor(a), mas o mesmo me levou a uma série de reflexões sobre o trabalho do Nutricionista e a forma como as pessoas o enxergam.

“O sistema de computadores caríssimo de uma multinacional deu pau,todos os técnicos passaram horas tentando consertá-lo,mais de nada adiantou,ai um dos técnicos falou:
-Chama o japonês,só ele vai dar jeito.
A diretoria da impressa mais do que depressa chamou o japonês,ele chegou e examinou o equipamento por alguns minutos,pegou uma chave de fenda e apertou um parafuso.
Olhou para os diretores e disse:
-Pronto!Está funcionando perfeitamente.
Os diretores logo perguntaram:
-Quanto ficou seu serviço?
E o japonês respondeu:
-Ficou R$ 1.000,00.
-Você esta ficando louco só apertou um parafuso,
eu quero um relatório por escrito do que foi feito.

Apertar um parafuso:R$ 1,00
Saber qual parafuso apertar:R$ 999,00

Desconheço o autor da foto. Se souberem quem é, por favor, me informem para os devidos créditos.
Desconheço o autor da foto. Se souberem quem é, por favor, me informem para os devidos créditos.

Moral da historia:só você pode valorizar seu conhecimento
ou passar a vida trabalhando de graça.”

No caso, “saber qual parafuso apertar“, podemos traduzir como a “expertise” de cada profissional… seu grau de conhecimento sobre um determinado assunto, os cursos que já fez, as (incontáveis) horas de estudo dedicada a cada assunto e os anos de experiência na área.

Muita  gente (por desconhecimento) pensa que o trabalho do Nutricionista se resume a “passar uma dieta“.

E aqui cabe uma breve análise do que entendem por “dieta”: seria um papel com informações prontas, capazes de resolver um determinado problema por um curto período de tempo, como um mantra escrito, que repetido à exaustão fosse nos libertar de um determinado problema… perder peso rapidamente (essas sim, são as dietas que mais dão Ibope), baixar os níveis de colesterol, de glicose ou mesmo de ácido úrico.

Tem gente que acha que dieta é igual a receita de bolo, que será a mesma para qualquer pessoa, em qualquer circunstancia e em qualquer parte do planeta!

Seria ótimo se fosse assim… boa parte dos problemas da humanidade estariam resolvidos! Bastaria “dar um Google” ou procurar a “moda antiga”, uma revista numa banca de jornal e pronto… tudo resolvido. Mas acho que nem preciso dizer que todo mundo já percebeu que isso não funciona. pelo menos não a longo prazo e sabem por que não funciona?

Simplesmente porque cada ser humano é único! Cada um traz uma história de vida, cada um tem uma genética (e considerando que estamos no Brasil, o maior “caldeirão genético” do planeta, nunca 2+2 serão igual a 4), uma rotina. E sem falar nas diferenças fisiológicas entre homens e mulheres, nas diferentes fases da vida, nos hábitos alimentares, nas diferenças de clima entre cada região do país (e do planeta), na disponibilidade de alimentos, no quanto cada um está disposto a investir em alimentação, no tempo dedicado a preparar as refeições (ou na ausência dele). São tantas variáveis que precisam ser avaliadas só no inicio da conversa, que só por aí já dá pra perceber o porque das “dietas” não funcionarem…

Quando alguém procura o Nutricionista, partimos do princípio que esta pessoa está preocupada com sua saúde, quer mudar seus hábitos e adotar uma alimentação mais saudável… pelo menos aqueles que estão atentos à prevenção de problemas. Alguns só nos procuram quando algo já aconteceu e precisam de orientações especializadas para determinada condição clínica, seja ela a obesidade, o diabetes, o excesso de colesterol, as doenças auto imunes, alergias alimentares, etc. E ainda tem aqueles cujo objetivo é melhorar o rendimento esportivo. Para todas essas pessoas, o Nutricionista tem muito a oferecer, menos “uma dieta”!

Pode parecer um contra-senso, mas é isso mesmo! Como eu disse antes, dieta pressupõe algo que será feito por um curto período de tempo, ficando num determinado objetivo. Objetivo alcançado, adeus dieta. Isso funciona? Só funciona se for pra te ajudar a entrar no vestido de noiva daqui a 2 semanas, mas não garante que você esteja bem e em condições de aproveitar a sua festa (imagina a noiva desmaiando no mesmo da festa por má nutrição! Se ainda fosse de emoção, vá lá, mas por falta de comida ou por causa de uma “dieta”, não, né?) e muito menos a lua de mel.

Já o trabalho de um profissional responsável e estudioso, é capaz de ajuda-lo a atingir seus objetivos, e ganhando em saúde e bem estar. Dá pra chamar isso de dieta? Óbvio que não! Nutricionistas sérios, responsáveis e éticos colocam o bem estar e a saúde acima de tudo e muitas vezes precisam “desiludir” o paciente, quando seus objetivos estão além do que é possível conseguir de forma saudável e segura. Mas ao mesmo tempo que “desiludem”, são os parceiros capazes de indicar o melhor caminho e de auxiliar durante a caminhada.

Dieta? Não, obrigada!

No dia a dia, pra simplificar e poupar tempo, eu até chamo de dieta, mas quando eu uso essa palavra, no fundo quero dizer “planejamento dietético individualizado, para o qual eu precisei levar em consideração fatores genéticos, exames laboratoriais, sinais e sintomas associados a deficiências nutricionais, condições clínicas, presença de alergias ou intolerâncias alimentares, doenças crônicas em tratamento, uso de medicamentos e de suplementos, sexo, idade, estilo de vida, qualidade do sono, horas de sono, numero e qualidade das refeições diárias, habilidades culinárias, tempo que pode ser dedicado ao preparo das refeições, refeições realizadas fora de casa, ufaaaa… e objetivos“. Por isso eu chamo de dieta… rsrsrs.

Ou seja, pode até parecer fácil para olhos menos atentos… mas não é! E imagine sintetizar tudo isso em apenas 60-90 minutos de consulta? Colher todas as informações necessárias, fazer um mapa mental, correlacionando todas as informações com tudo aquilo que já foi estudado pelo profissional até aquele memento e “traduzir” o resultado destas associações ou mapa mental em alguns papéis contendo informações sobre uma conduta inicial! E quando há necessidade de suplementar com probióticos, vitaminas, minerais, fibras ou prescrever algum fitoterápico? No mapa mental ainda é necessário incluir as doses, a dose indicada para aquele paciente, naquele momento, por conta daquela condição, e ainda pensar nas possíveis interações medicamento-nutriente, nutriente-nutriente, fitoterápico-nutriente-medicamento, forma farmacêutica que será prescrita (cápsula? pó? xarope? gotas? infusão?) e possíveis efeitos colaterais! Pronto… terminado o processo, é hora de entregar ao paciente seu planejamento dietético inicial e dar todas as explicações necessárias e orientá-lo quanto ao tempo em que aquele planejamento deverá ser seguido e por quanto tempo a suplementação deverá ser tomada. Sim! Porque tal prescrição foi feita para aquele momento. Dali a um mês, nada daquilo pode estar mais servindo a mesma pessoa e so o profissional que elaborou a conduta inicial, terá as melhores condições de re-avaliar o que pode ser mantido (não há nenhuma regra pra isso… a taxa de manutenção de uma conduta num segundo momento pode variar de 0 a 100%). Então, ficar trocando de profissional todo mês, pode não ser uma boa idéia!

Ah! E eu falei que as respostas às conduta/suplementação não serão imediatas? Acho que não…

Diferentemente da ação de alguns medicamentos, como os usados pra dor ou febre, que tem ação rápida, os efeitos da suplementação e da própria mudança nos hábitos alimentares precisam de algum tempo para serem “percebidos” pelo corpo (ou metabolizados) e se tornarem “visíveis” para o paciente… por isso a importância de se manter uma constância naquilo que foi programado. Não adianta tomar hoje o probiótico e achar que só essa dose será suficiente para recolonizar todo o seu intestino (castigado por anos de alimentação errada, aditivos alimentares, antibióticos, medicamentos, noites mal dormidas, etc) e resolver problemas como constipação, diarréia, alergias, alterações de permeabilidade intestinal, etc… mas aposto que não foi isso que uma certa propaganda de iogurte te fez acreditar, não é mesmo?

Por isso muitas vezes precisamos pedir paciência aos nossos pacientes. Meio redundante isso, mas eu prefiro chamar meus clientes de pacientes, à moda antiga, porque eu não me vejo como uma “vendedora de serviços”, eu me vejo como uma “cuidadora da saúde e do bem estar“. Uma vez uma paciente muito querida me chamou de “guardiã da saúde“… achei até engraçado, porque parece coisa de desenho animado de super-herói, mas no fundo eu gostei dessa denominação, porque é bem isso fazemos… guardamos ou zelamos pela saúde e qualidade de vida daqueles que confiam em nosso trabalho… a meu ver é algo muito mais profundo (e que tem um grau muito maior de compromisso, parceria e responsabilidade) que a relação com um cliente. Mas cada profissional prefere chamar deum  jeito e não estou aqui pra julgar ninguém, nem pra dizer que um é melhor que outro!

Enfim… depois tanto papo, o que eu realmente gostaria de dizer é: busque orientação de quem sabe “qual parafuso apertar” (numa alusão ao texto cima) ou seja, de quem entende verdadeiramente do assunto! Não aceite uma mera dieta que não foi feita pra você! Procure por um profissional que te trata como indivíduo, como pessoa única que você é, mesmo que você tenha o mesmo problema de saúde que milhares de pessoas também tem. Mas tenha em mente que o custo de tanto empenho, tanto conhecimento e até mesmo tanta energia investida por um profissional não vão custar o mesmo que uma “dieta” que você encontra na banca mais próxima.

Grande abraço, pessoal!

E até a próxima!

Juliana

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Duodenite Crônica Inespecífica

A Doença Celíaca, como já expliquei nesse post, nesse, nesse, nesse e nesse, é uma condição autoimune, na qual ocorre produção de auto-anticorpos e inflamação e atrofia da superfície absortiva intestinal. Para confirmar ou descartar o diagnóstico desca condição, é necessário fazer os testes sorológicos (dosagem das imunoglobulinas IgA total e IgA antitransglutaminase) e uma endoscopia com biópsia de duodeno, para avaliar o grau de comprometimento da mucosa. Entretanto, muitas pessoas apresentam sintomas relacionados a ingestão do glúten, mas ainda não apresentam atrofia da mucosa (seja porque a DC ainda está no início, seja porque possuem sensibilidade ao glúten não celiaca ou por outro motivo), ou justamente por saberem que o glúten é o causador dos seus sintomas, decidiram exclui-lo da alimentação antes de fazer os exames, o que invariavelmente acaba dificultando o diagnóstico.

Imagem obtida no Google - se souberem a autoria, por favor, me informem para que eu de os crétitos à mesma.
Imagem obtida no Google – se souberem a autoria, por favor, me informem para que eu de os crétitos à mesma.

Muita gente (lá no grupo Viva sem Glúten, do FB) pergunta sobre a “duodenite crônica inespecífica” que as vezes vem descrita no laudo da endoscopia. Vamos então tentar “traduzir” essa informação, pra facilitar:

Coeliac_Disease
Imagem obtida no Google – se souberem a autoria, por favor, me informem para que eu de os crétitos à mesma.

1) Duodeno é a primeira parte do intestino delgado, que vem logo depois do estômago. É nessa região onde aparecem as lesões da DC e é nesta mesma região que a biópsia precisa ser feita. “Ite” significa inflamação. Logo, duodeno + ite = duodenite ou inflamação do duodeno;

2) Crônica – algo que não começou agora, que já vem acontecendo há algum tempo (tempo esse que pode ser diferente de uma pessoa para outra). Logo, duodenite crônica – inflamação no duodeno que já vem acontecendo há algum tempo;

3) Inespecífica – algo que não tem especificidade, que não é exclusivo de uma única condição. Assim, duodenite crônica inespecífica significa, “inflamação no duodeno, que já vem acontecendo há algum tempo, mas que não foi possível ter certeza da causa”.

Ou seja, esse resultado pode significar DC (bem no início ou após exclusão de glúten), mas também pode estar associado a outras cusas (como giardíase, alergia alimentar, etc), que precisam ser pesquisadas pelo médico, com outros exames, ou mesmo com base nos sintomas relatados.

50 Tons de Glúten

De alguns anos para cá, a dieta livre de glúten, exclusiva dos celíacos, ganhou destaque nos diversos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que houve um aumento na disponibilidade de produtos isentos desta proteína em função da maior procura dos mesmos pelos consumidores. Provavelmente, muitas pessoas aderiram a moda, só por aderir, mas boa parte de fato, experimentou melhoras de sintomas, o que pode ser atribuído a uma maior incidência das desordens relacionadas ao glúten (DRG).

Acredita-se que a Doença Celíaca (DC) ganhou maior visibilidade dentro da comunidade científica devido a um aumento na incidência de outras desordens relacionadas ao glúten, cujos sintomas melhoram ou desaparecem completamente após a dieta de exclusão, como as reações alérgicas ao trigo (principal fonte de glúten da maioria das populações), doenças autoimunes (a própria DC e a dermatite herpetiforme), além da sensibilidade ao glúten não celíaca (Sapone et al, 2012). O aumento na incidência de todas estas condições pode também ser creditado ao aumento do teor de glúten nos próprios grãos de trigo, e também presente nos alimentos mais consumidos, usado como aditivo, por ser uma proteína de baixo custo, fácil acesso e por melhorar as características de inúmeros produtos industrializados. Além disso, nota-se uma maior vulnerabilidade do organismo humano aos efeitos tóxicos do glúten, em função da interação de diversos fatores ambientais, como todos aqueles que alteram a permeabilidade intestinal (presença de gluten e de outras proteínas alergenicas na alimentação, a deficiência crônica de vitamina D, etc), a maior taxa de cesarianas, o menor tempo de aleitamento materno, o consumo excessivo de produtos industrializados contendo aditivos químicos, e o consumo cada vez menor de alimentos frescos, fontes de antioxidantes e o uso indiscriminado de medicamentos que aumentam a permeabilidade intestinal e/ou promovem desequilíbrio da microbiota intestinal, como anti-inflamatórios e antibióticos.

Durante muito tempo, os pacientes eram classificados em celíacos e não celíacos e muitos eram considerados simplesmente intolerantes ao glúten, sem que realmente tivessem certeza do verdadeiro problema em questão.

Mas entre o preto e o branco, existem 50 tons de glúten… quer dizer, de cinza.

50 tons de gluten

Assim, em 2011, pesquisadores de diversas partes do mundo, se reuniram em Oslo, Noruega, para debater a respeito da DC e de outras doenças relacionadas ao gluten (DRG). O resultado deste debate gerou um documento científico (The Oslo definitions for coeliac disease and related terms) para unificar as denominações de cada condição e nortear a conduta dos profissionais de saúde. Assim, além da DC, diversas condições, de carater imunológico ou não, passaram a compor a relação das chamadas DRG, descritas a seguir

O termo Intolerância ao gluten, vem sendo utilizado ao longo do século XX tanto como sinônimo de Doença Celíaca, como para indicar que um paciente experimenta uma melhora clínica depois de excluir o glúten da alimentação, mesmo não tendo Doença Celíaca (DC) diagnosticada. Entretanto, intolerância é um termo bastante inespecífico, que dá margem a muitas confusões. , pois pode se referir aos sintomas da má digestão do trigo (relacionados ao elevado teor de frutanos), a uma reação de hipersensibilidade a outras proteínas presentes nos cereais, como as lectinas ou mesmo, o próprio glúten, ou por uma combinação de fatores.

Além disso, outras condições associadas ao termo intolerância, referem-se às deficiencias enzimáticas, como é o caso da Intolerância a lactose, condição na qual há uma diminuição na produção da enzima responsável pela hidrólise (quebra) da lactose em dois carboidratos menores, glicose e galactose. Porém, não é o caso da celíaca, que é uma doença de origem autoimune e que pode ter consequencias muito mais graves que as de qualquer tipo de intolerância, principalmente quando os cuidados com a alimentação (e com a contaminação) não são levados a sério. Assim, desde 2011, que não se recomenda mais a utilização do termo intolerancia ao glúten, para nos referirmos à DC ou a qualquer outra DRG, de modo a evitar confusões relacionadas ao diagnóstico e tratamento das mesmas.

Dentre as principais desordens relacionadas ao glúten, além da DC, destacam-se as seguintes:

 1. Doença Celíaca (DC):

É uma condição autoimune, associada a ingestão continua de alimentos contendo glúten, que afeta pessoas geneticamente predispostas. Foi descrita pela primeira vez há cerca de 2 mil anos, por Arataeus da Capadócia, mas foi somente durante a Segunda Guerra Mundial que o papel do glúten nesta condição, foi descoberto. Nestas pessoas, o glúten não é reconhecido pelo corpo como alimento, e o sistema imune passa a produzir anticorpos que o atacam (anticorpo antiglicadina), que atacam uma das enzimas que o metabolizam (anticorpo antitransglutaminase) e que atacam à mucosa intestinal (anticorpo antiendomísio). Esse auto-ataque causa inflamação, destruição das vilosidades intestinais (responsaveis pela absorção dos nutrientes), má absosrção de nutrientes e pode causar desnutrição. O unico tratamento existente é a dieta totalmente livre de glúten, por toda a vida. Somente assim, é possível “desligar” o gatilho da autoimunidade, proteger a mucosa intestinal, reduzir a inflamação e minimizar os riscos de complicações a médio e longo prazo, como anemia, osteoporose, infertilidade e até mesmo linfoma intestinal.

2. Alergia ao trigo, mediada por IgE (AT ou WA, do inglês wheat allergy):

É uma reação imunológica às proteínas presentes no trigo (ω-gliadina, wheat germ agglutinin e α-amylase trypsin inibitor). Dependendo da rota de exposição ao alérgeno e das manifestações, a WA é classificada em alergia clássica (podendo afetar a pele, o trato gastrintestinal ou respiratório), anafilaxia induzida pelo exercício, dependente de ingestão de trigo, asma ocupacional (asma do padeiro), rinite e urticária. Em todas estas condições, os anticorpos da classe IgE desempenham um papel central no surgimento dos sintomas (Sapone et al, 2012). Na WA há uma ligação das imunoglobulinas do tipo E, às sequências repetidas de peptídeos presentes no glúten (ou de outras proteínas do trigo), que agem como gatilho para a liberação de mediadores químicos pelos basófilos e mastócitos, como a histamina (Sapone et al, 2012).

O diagnóstico da WA é feito através da dosagem dos anticorpos séricos da classe IgE, específicos para o trigo ou através do prick test. Porém, a especificidade dos mesmos não chega a 75%, principalmente em adultos, dificultando o fechamento do diagnóstico. A WA também pode se manifestar a partir da sensibilização via pele ou mucosas, pela proteína hidrolisada do trigo presente em muitos cosméticos de uso diário.

Outra questão que merece destaque, é o fato de alguns celíacos também apresentarem WA, com sobreposição de sintomas, o que dificulta um diagnóstico preciso. Muitas vezes o paciente exclui as fontes de glúten da alimentação em função dos sintomas alérgicos, mas precisa fazer o desafio do glúten para confirmar a DC, entretanto, gostaríamos de chamar a atenção para o risco aumentado destes indivíduos em relação a reações anafiláticas, associadas às alergias mediadas por IgE, quando voltam a consumir alimentos contendo trigo.

3. Ataxia do Glúten (GA, do inglês, gluten ataxia):

É uma doença autoimune caracterizada pela deposição de anticorpos antitransglutaminase do tipo 6 nos capilares cerebrais, principalmente no cerebelo e na medula. As evidências apontam para uma reação cruzada entre os antígenos das células de Purkinje e o glúten. Em geral, manifesta-se de forma insidiosa, somente com sinais de ataxia ou em combinação com nistagmo (movimentos involuntários do globo ocular), tremor palatal e mioclonia (movimentos involuntários das pernas). Menos de 10% dos pacientes apresentam sintomas gastrintestinais, porém, um terço possui sinais de enteropatia na biópsia duodenal. O diagnóstico da GA não é tão direto quanto na DC, pois somente cerca de 38% dos pacientes positivam os anticorpos antitransglutaminase IgA e ainda assim, com uma titulação mais baixa (Sapone et al, 2012). O tratamento da GA também é baseado na exclusão do glúten, porém a resposta dos pacientes depende do grau de comprometimento do cerebelo, da perda das células de Purkinje e do tempo entre o início das lesões e instituição da terapêutica dietética.

4. Sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC):

A SGNC representa uma nova categoria de DRG, em que acredita-se não haver envolvimento nem dos mecanismos de autoimunidade. Foi descrita pela primeira vez num artigo publicado em 1978, porém só em 2010, foi aceita como uma patologia diferente da DC e incluída nos Consensos sobre as DRGs.

Na SGNC, os pacientes apresentam reações adversas após a ingestão de glúten, porém, não apresentam lesões na mucosa intestinal e nem elevação das taxas de autoanticorpos relacionados à DC, como o antitransglutaminase e somente cerca de 50% destas pessoas apresentam os haplótipos HLA-DQ2/DQ8. Mesmo não havendo inflamação da mucosa nem atrofia das microvilosidades intestinais, o aumento da permeabilidade intestinal pode estar presente.

O diagnóstico baseia-se na exclusão das demais doenças relacionadas ao glúten, que podem ser mensuradas por meio de exames e pela avaliação dos sintomas apresentados a partir da ingestão de glúten e consequente melhora com sua exclusão da dieta. Infelizmente ainda não se tem uma estatística confiável a respeito de sua prevalência, pois muitas vezes a SGNC é descoberta pelos próprias pacientes ou por profissionais de saúde, sem que exames para descartar outras DRGs sejam realizados. Atualmente muitas pessoas deixam de consumir glúten por conta própria, após ouvirem relatos de amigos, parentes ou mesmo de celebridades. Além disso, algo que parece dificultar os diagnósticos de SGNC é o fato desta condição ainda não possuir um CID (código internacional de doenças)[2].

Aqui chamamos a atenção para a necessidade de primeiro investigar a DC e a alergia ao trigo, antes da exclusão de glúten, em função de alguns fatores:

– Risco de negativar os exames;

– Risco de não se fechar corretamente um diagnóstico

– Risco (desnecessário) de expor um celíaco sem diagnóstico à contaminação ou mesmo ao consumo eventual de glúten, e consequente aumento nos riscos de desenvolver complicações, como doença celíaca refratária, manifestação de outras doenças autoimunes e complicações malignas, como linfoma intestinal.

Em relação aos sintomas, eles podem ser semelhantes aos da DC, porém é mais comum encontrar sintomas extraintestinais, como alterações de humor e comportamentais, confusão mental, depressão, esquizofrenia, dor muscular e/ou articular, síndrome das pernas inquietas, perda ou excesso de peso, fadiga crônica, fibromialgia, dor de cabeça, anemia e eczema (Catassi & Sapone, 2014; Sapone et al, 2012).

Até o presente momento, apesar dos mecanismos aparentemente distintos, não está claro para os pesquisadores se a SGNC poderia vir a se transformar em DC (ou se trata-se de DC potencial ou latente) caso os cuidados com a alimentação e com a contaminação por glúten não sejam observados. Assim, por precaução, recomenda-se aos pacientes com diagnóstico de SGNC seguirem as mesmas recomendações dadas aos celíacos, em relação à alimentação e cuidados com a contaminação.

[2] CID10 – Classificação Internacional de Doenças. Foi desenvolvida pela OMS (Organização Mundial de Saúde)  partir da “Classificação de Bertillon” de 1893, para mapear as estatísticas de mortalidade por causas. O CID da DC é K90.0.

PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DOENÇA CELÍACA – MINISTÉRIO DA SAÚDE

MINISTÉRIO DA SAÚDE
SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE

PORTARIA MS/SAS Nº 307, DE 17 DE SETEMBRO DE 2009
Diário Oficial da União; Poder Executivo, Brasília, DF, 18 set. 2009. Seção I, p. 79-81

O Secretário de Atenção à Saúde, no uso de suas atribuições,

Considerando que a Doença Celíaca apresenta um caráter crônico, identifica-se pela intolerância permanente ao glúten e provoca lesões na mucosa do intestino delgado, gerando uma redução na absorção dos nutrientes ingeridos;

Considerando a necessidade de se estabelecer parâmetros sobre a Doença Celíaca no Brasil e de diretrizes nacionais para a identificação, diagnóstico e acompanhamento dos doentes celíacos;

Considerando as sugestões apresentadas à Consulta Pública SAS/MS nº. 8, de 29 de julho de 2008;

Considerando a necessidade de se atualizar o diagnóstico da Doença Celíaca e reorientar a codificação desses procedimentos no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA-SUS);

Considerando as propostas do Grupo de Trabalho da Doença Celíaca do Conselho Nacional de Saúde;

Considerando o parecer do Departamento de Ciência e Tecnologia, da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos – SCTIE/MS; e

Considerando a avaliação da Secretaria de Atenção à Saúde – Departamento de Atenção Especializada – Coordenação – Geral da Média e Alta Complexidade, resolve:

Art. 1º Aprovar, na forma do Anexo desta Portaria, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca.

Parágrafo único. O Protocolo, objeto deste Artigo, que contem o conceito geral da Doença Celíaca, critérios de inclusão, critérios de diagnóstico, tratamento e prognóstico e mecanismos de regulação, controle e avaliação, é de caráter nacional e deve ser utilizado pelas Secretarias de Saúde dos Estados e dos Municípios na regulação do acesso assistencial, autorização, registro e ressarcimento dos procedimentos correspondentes.

Art. 2º Excluir, da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e Órteses, Próteses e Materiais Especiais do Sistema Único de Saúde – SUS, o procedimento 02.02.03.049-0 – Pesquisa de Anticorpos Antigliadina (Glúten) IGG IGM e IGA.

Art. 3º Incluir, na Tabela de Procedimentos, Medicamentos e Órteses, Próteses e Materiais Especiais do SUS, procedimento descrito a seguir:

Art. 4º Definir que, identificado o anticorpo de que trata o Art. 3º desta Portaria, o examinado deverá ser eencaminhado para confirmação diagnóstica, orientação e acompanhamento.

Parágrafo único. Os gestores estaduais e municipais do SUS, conforme a sua competência e pactuações, deverão estruturar a rede, estabelecer os fluxos e definir os serviços de Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria para o atendimento dos doentes celíacos em todas as etapas descritas no Anexo desta Portaria.

Art. 5º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, com efeitos financeiros a partir da competência setembro/2009.

ALBERTO BELTRAME

PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS DA DOENÇA CELÍACA

1. Introdução
A Doença Celíaca (DC) é autoimune (1), causada pela intolerância permanente ao glúten – principal fração protéica presente no trigo, centeio, cevada e aveia – e que se expressa por enteropatia mediada por linfócitos T, em indivíduos geneticamente predispostos.

Estudos de prevalência da DC têm demonstrado que esta doença é mais frequente do que anteriormente se acreditava (2-15), e que continua sendo subestimada. A falta de informação sobre a DC e a dificuldade para o diagnóstico prejudicam a adesão ao tratamento e limitam as possibilidades de melhora do quadro clínico. Outra particularidade é o fato de a DC ser predominante entre os indivíduos faiodérmicos, embora existam relatos de sua ocorrência em indivíduos melanodérmicos. Estudos revelam que o problema atinge pessoas de todas as idades, mas compromete principalmente crianças de seis meses a cinco anos. Também foi notada uma frequência maior entre mulheres, na proporção de duas mulheres para cada homem. O caráter hereditário desta doença torna imprescindível que parentes de primeiro grau de celíacos submetam-se ao teste para sua detecção.

Três formas de apresentação clínica da DC são reconhecidas, quais sejam: clássica ou típica, não clássica ou atípica, e assintomática ou silenciosa (16,17):

I Forma Clássica: caracterizada pela presença de diarréia crônica, em geral acompanhada de distensão abdominal e perda de peso. O paciente também pode apresentar diminuição do tecido celular subcutâneo, atrofia da musculatura glútea, falta de apetite, alteração de humor (irritabilidade ou apatia), vômitos e anemia. Esta forma clínica pode ter evolução grave, conhecida como crise celíaca, que ocorre quando há retardo no diagnóstico e tratamento adequado, particularmente entre o primeiro e o segundo anos de vida, e frequentemente desencadeada por infecção. Esta complicação potencialmente fatal se caracteriza pela presença de diarréia com desidratação hipotônica grave, distensão abdominal por hipopotassemia e desnutrição grave, além de outras manifestações como hemorragia e tetania.

II Forma Atípica: caracteriza-se por quadro mono ou oligossintomático, em que as manifestações digestivas estão ausentes ou, quando presentes, ocupam um segundo plano. Os pacientes deste grupo podem apresentar manifestações isoladas, como, por exemplo, baixa estatura, anemia por deficiência de ferro refratária à reposição de ferro por via oral, anemia por deficiência de folato e vitamina B12, osteoporose, hipoplasia do esmalte dentário, artralgias ou artrites, constipação intestinal refratária ao tratamento, atraso puberal, irregularidade do ciclo menstrual, esterilidade, abortos de repetição, ataxia, epilepsia (isolada ou associada à calcificação cerebral), neuropatia periférica, miopatia, manifestações psiquiátricas – depressão, autismo, esquizofrenia -, úlcera aftosa recorrente, elevação das enzimas hepáticas sem causa aparente, fraqueza, perda de peso sem causa aparente, edema de aparição abrupta após infecção ou cirurgia e dispepsia não ulcerosa.

III Forma Silenciosa: caracterizada por alterações sorológicas e histológicas da mucosa do intestino delgado compatíveis com DC, na ausência de manifestações clínicas. Esta situação pode ser comprovada especialmente entre grupos de risco para a DC como, por exemplo, parentes de primeiro grau de pacientes com DC, e vem sendo reconhecida com maior frequência nas últimas duas décadas, após o desenvolvimento dos marcadores sorológicos para esta doença.

Deve-se mencionar a dermatite herpetiforme, considerada DC da pele, que se apresenta com lesões cutâneas do tipo bolhoso e intensamente pruriginoso e que se relaciona também com a intolerância permanente ao glúten.

2. Classificação CID 10
K90.0 Doença Celíaca

3. Critérios de inclusão
Serão incluídos neste Protocolo:

I Indivíduos que apresentem sintomas ou sinais das formas clássica e atípica de DC;

II Indivíduos de risco, entre os quais a prevalência de DC é esperada como consideravelmente maior do que a população geral: parentes de primeiro grau (pais e irmãos) de pacientes com DC (18-21); indivíduos com anemia por deficiência de ferro refratária à reposição de ferro oral (22), com redução da densidade mineral óssea (23-24), com atraso puberal ou baixa estatura sem causa aparente (25-26); indivíduos com doenças autoimunes, como diabetes melito insulinodependente (27), tireoidite autoimune (28), deficiência seletiva de IgA (29), Síndrome de Sjögren (30), colestase autoimune (31), miocardite autoimune (32); indivíduos com síndrome de Down (33), com síndrome de Turner (34), com síndrome de Williams (34), com infertilidade (35), com história de aborto espontâneo (36) ou com dermatite herpetiforme (37).

4. Diagnóstico
Para o diagnóstico definitivo da DC é imprescindível a realização de endoscopia digestiva alta, com biópsia de intestino delgado, devendo-se obter pelo menos 4 fragmentos da porção mais distal do duodeno, pelo menos segunda ou terceira porção, para exame histopatológico do material biopsiado, exame este considerado o padrão-ouro no diagnóstico da doença (34).

Os marcadores sorológicos são úteis para identificar os indivíduos que deverão submeter-se à biópsia de intestino delgado, especialmente aqueles com ausência de sintomas gastrointestinais, doenças associadas à DC e parentes de primeiro grau assintomáticos. Os marcadores sorológicos também são úteis para acompanhamento do paciente celíaco, como, por exemplo, para detectar transgressão à dieta. São três os principais testes sorológicos para a detecção da intolerância ao glúten: anticorpo antigliadina, anticorpo antiendomísio e anticorpo antitransglutaminase.

Com relação ao anticorpo antigliadina, descrito por Haeney et al., em 1978, determinado pela técnica de ELISA, deve-se mencionar que a especificidade do anticorpo da classe IgA (71% a 97% nos adultos e 92% a 97% nas crianças) é maior do que da classe IgG (50%), e que a sensibilidade é extremamente variável em ambas as classes (38,39).

O anticorpo antiendomísio da classe IgA, descrito por Chorzelski et al, em 1984, é baseado na técnica de imunofluorescência indireta. Apresenta alta sensibilidade (entre 88% e 100% nas crianças e entre 87% a 89% no adulto), sendo baixa em crianças menores de dois anos, e sua especificidade também é alta (91% a 100% nas crianças e 99% nos adultos) (38,39). No entanto, é um teste que depende da experiência do examinador, de menor custo/benefício e
técnica mais trabalhosa do que a de ELISA (40).
Com relação ao anticorpo antitransglutaminase da classe IgA, descrito por Dieterich et al., em 1997, obtido pelo método de ELISA, o seu teste é de elevada sensibilidade (92% a 100% em crianças e adultos) e alta especificidade (91% a 100%) (38).

Em resumo, há superioridade do anticorpo antiendomísio e do anticorpo antitransglutaminase, ambos da classe IgA, principalmente o anticorpo antitransglutaminase recombinante humana IgA, em relação ao antigliadina. Considerando a maior facilidade da dosagem do anticorpo antitransglutaminase, aliado À elevadas sensibilidade e especificidade na população pediátrica e adulta, este é o teste sorológico de escolha para avaliação inicial dos indivíduos com suspeita de intolerância ao glúten (40).

Deve-se destacar que a deficiência de imunoglobulina A é responsável por resultados falsos negativos dos testes sorológicos antiendomísio e antitransglutaminase da classe IgA. Por este motivo, indica-se como testes diagnósticos iniciais da DC a dosagem sérica simultânea do anticorpo antitransglutaminase da classe IgA e da imunoglobulina A.

Deve-se enfatizar que, até o momento, os marcadores sorológicos para DC não substituem o exame histopatológico do intestino delgado, que continua sendo o padrão ouro para o diagnóstico de DC. Os testes sorológicos serão considerados testes diagnósticos iniciais, que identificam os indivíduos a serem encaminhados para a biópsia duodenal. No entanto, deve-se considerar que há indicação de biópsia para indivíduos com sintomas ou sinais de DC, mas com marcadores sorológicos negativos, principalmente se integram grupo de risco.

Em relação à biópsia de intestino delgado, para que a interpretação histológica do fragmento seja fidedigna, é fundamental o intercâmbio entre o médico endoscopista e o médico responsável direto pelo doente – de preferência médico experiente em Gastroenterologia Pediátrica ou Clínica – com o médico patologista. A orientação do fragmento de biópsia pelo endoscopista e a inclusão correta deste material em parafina pelo histotecnologista são de extrema importância para a avaliação anátomo-patológica dos fragmentos biopsiados.

O papel do médico endoscopista no diagnóstico da doença pela biópsia de intestino delgado é fundamental e a execução da técnica deve ser impecável. Após a retirada de cada fragmento da segunda ou terceira porção do duodeno – ou porções ainda mais distais do intestino delgado que o endoscópio consiga atingir. Deve haver cuidado com a manipulação dos fragmentos de intestino delgado que, por ser amostra muito delicada, facilmente está sujeita a se desintegrar e impossibilitar a análise histológica. Além disso, é imprescindível que cada fragmento de biópsia seja colocado, separadamente, em papel de filtro, com o correto posicionamento, num total de 4 (quatro) fragmentos em seus respectivos papéis de filtro dentro de um frasco contendo formol.

A lesão clássica da DC consiste em mucosa plana ou quase plana, com criptas alongadas e aumento de mitoses, epitélio superficial cubóide, com vacuolizações, borda estriada borrada, aumento do número de linfócitos intraepiteliais e lâmina própria com denso infiltrado de linfócitos e plasmócitos. Marsh, em 1992, demonstrou haver sequência da progressão da lesão da mucosa de intestino delgado na DC: estágio 0 (padrão pré-infiltrativo), com fragmento sem
alterações histológicas e, portanto, considerado normal; estágio I (padrão infiltrativo), em que a arquitetura da mucosa apresenta-se normal com aumento do infiltrado dos linfócitos intra-epiteliais (LIE); estágio II (lesão hiperplásica), caracterizado por alargamento das criptas e aumento do número de LIE; estágio III (padrão destrutivo), em que há presença de atrofia vilositária, hiperplasia críptica e aumento do número de LIE; e estágio IV (padrão hipoplásico), caracterizado por atrofia total com hipoplasia críptica, considerada forma possivelmente irreversível. Nos últimos anos, alguns autores têm tentado aperfeiçoar este critério, tanto no que diz respeito à valorização do grau de atrofia vilositária (41), quanto em padronizar o número de linfócitos intraepiteliais considerados aumentados (41-44).

É necessário comentar que a alteração de mucosa intestinal do tipo Marsh III, que se caracteriza pela presença de atrofia vilositária, demonstra evidência de associação de DC (43,44), embora não seja lesão patognomônica desta doença.

A primeira padronização do diagnóstico da DC foi proposta pela Sociedade Européia de Gastroenterologia Pediátrica em 1969 (45). Este critério recomendava a primeira biópsia diagnóstica, a seguir dois anos de dieta sem glúten e biópsia de controle; caso esta fosse normal, seria necessário o desencadeamento com dieta com glúten por três meses ou até o aparecimento de sintomas, e a 3ª biópsia que, se mostrasse alterações compatíveis com a DC, a comprovaria definitivamente. Caso não houvesse alteração nesta última biópsia, o paciente deveria permanecer em observação por vários anos, pois poderia tratar-se de erro diagnóstico ou retardo na resposta histológica.

Em 1990, após a introdução dos testes sorológicos e melhor experiência com a doença, a mesma Sociedade modificou estes critérios, dispensando a provocação e a 3ª biópsia na maioria dos pacientes (46). Exceções a isso seriam quando o diagnóstico fosse estabelecido antes dos dois anos de idade ou quando houvesse dúvida com relação ao diagnóstico inicial como, por exemplo, falta evidente de resposta clínica à dieta sem glúten, não realização de biópsia inicial ou quando esta biópsia foi inadequada ou não típica da DC (46).

5. Fluxo para o Diagnóstico da Doença Celíaca

Na evidência de sintomas ou sinais das formas clássicas e atípicas da DC e para indivíduos de risco solicitar, simultaneamente, a dosagem do anticorpo antitransglutaminase recombinante humana da classe IgA (TTG) e da imunoglobulina A (IgA).

Se ambas as dosagens mostrarem-se normais, o acometimento do indivíduo pela DC é pouco provável no momento. Entretanto, na forte suspeita de DC, encaminhar o paciente para serviço de Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria para melhor avaliação quanto à realização de biópsia de intestino delgado. Em se tratando de indivíduo com parente de primeiro grau acometido de DC, ou com diagnóstico de doença autoimune ou doença não autoimune relacionada à DC, repetir dosagem do TTG no futuro.

Se a dosagem do anticorpo antitransglutaminase (TTG) for anormal, o indivíduo deverá ser encaminhado a serviço de Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria com vistas à realização de biópsia de intestino delgado.

Se a dosagem do anticorpo antitransglutaminase (TTG) for normal, mas a dosagem de imunoglobulina A (IgA) estiver alterada, deve ser considerada a possibilidade de falso negativo pela presença de imunodeficiência primária, e o indivíduo deverá ser encaminhado a serviço de Clínica Médica, Gastroenterologia ou Pediatria com vistas à realização de biópsia de intestino delgado.

Caso o exame histopatológico seja positivo para lesão clássica da mucosa intestinal da DC, confirma-se o diagnóstico desta doença.

Por último, para a situação de perfil diagnóstico TTG anormal, IgA normal e biópsia de intestino delgado negativa, o indivíduo não tem DC e o resultado da dosagem de TTG deve ser considerado falso positivo. Contudo, o exame histopatológico deve ser revisto e, se realmente for negativo, ou seja, se estiver ausente a lesão clássica da mucosa do intestino delgado, considerar o achado endoscópico como lesão em mosaico (acometimento em patchy) e indicar nova biópsia intestinal com a obtenção de múltiplos fragmentos. Se, novamente, o padrão histológico não for de DC, a existência desta doença é pouco provável.

(clique) – FLUXOGRAMA – DOENÇA CELÍACA

6. Tratamento e Prognóstico

O tratamento da DC consiste na dieta sem glúten, devendo-se, portanto, excluir da alimentação alimentos que contenham trigo, centeio, cevada e aveia, por toda a vida (47).

Com a instituição de dieta totalmente56 sem glúten, há normalização da mucosa intestinal, assim como das manifestações clínicas. Porém, no caso de diagnóstico tardio, pode haver alteração da permeabilidade da membrana intestinal por longo período de tempo e a absorção de macromoléculas poderá desencadear quadro de hipersensibilidade alimentar, resultando em manifestações alérgicas (48). Esse quadro deve ser considerado, quando o indivíduo não responde adequadamente à dieta sem glúten e apresenta negatividade nos exames sorológicos para DC.

É necessário destacar que as deficiências nutricionais decorrentes da má-absorção dos macro e micronutrientes, por exemplo, deficiência de ferro, ácido fólico, vitamina B12 e cálcio, devem ser diagnosticadas e tratadas. Assim, deve-se atentar para a necessidade de terapêutica medicamentosa adequada para correção dessas deficiências.

O dano nas vilosidades da mucosa intestinal pode ocasionar deficiência na produção das dissacaridases, na dependência do grau de seu acometimento. Por isso, deve-se verificar a intolerância temporária à lactose e sacarose, que se reverte com a normalização das vilosidades (49).

Há relatos de uma série de manifestações não malignas associadas à DC, como, por exemplo, osteoporose, esterilidade, distúrbios neurológicos e psiquiátricos (50). Dentre as doenças malignas, são relatadas associações com o adenocarcinoma de intestino delgado, linfoma e carcinoma de esôfago e faringe (51). O risco dessas manifestações está associado com a inobservância à dieta isenta de glúten e com o diagnóstico tardio, como nos sintomas neurológicos (52).

Portanto, justifica-se a prescrição de dieta totalmente isenta de glúten, por toda a vida a todos os indivíduos com DC, independentemente das manifestações clínicas. A adoção da dieta isenta de glúten deve ser rigorosa, pois transgressões sucessivas a ela poderão desencadear um estado de refratariedade ao tratamento (49).

A dieta imposta é restrita, difícil e permanente, ocasionando alterações na rotina dos indivíduos e de sua família, lembrando-se que, devido ao caráter familiar da desordem, aproximadamente 10% dos parentes dos celíacos podem apresentar a mesma doença (53).

Também enfatiza-se a necessidade da atenção multidisciplinar e multiprofissional aos indivíduos com DC, pois, além dos cuidados médicos, eles podem precisar de atendimento por profissionais de nutrição, psicologia e serviço social de forma individualizada e coletiva (53, 54).

7. Regulação, Controle e Avaliação

A regulação do acesso é um componente essencial da gestão para a organização da rede assistencial e garantia do atendimento dos doentes, e muito facilita as ações de controle e avaliação, que incluem, entre outras, a manutenção atualizada do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES), o monitoramento da produção dos procedimentos (por exemplo, frequência apresentada versus autorizada, valores apresentados versus autorizados versus pagos) e, como verificação do atendimento, os resultados do teste de detecção e o resultado da biópsia duodenal e as consultas de acompanhamento. Ações de auditoria devem verificar in loco, por exemplo, a existência e observância da regulação do acesso assistencial, a compatibilidade da cobrança com os serviços executados, a abrangência e a integralidade assistenciais, e o grau de satisfação dos doentes.

Fluxograma DC_protocolo clinico

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Essa portaria foi Republicada em 26 de maio de 2010, para correção no texto do capítulo 5 .

Obs: transcrição do texto originalmente publicado no site da Fenacelbra: http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/protocolo-clinico-sus/

Acho que o Glúten está me fazendo mal. Devo tirá-lo da dieta?

Não faça isso!!!

Pelo menos não antes de fazer todos os exames necessários para verificar se você possui alguma desordem relacionada a esta proteína, como doença celíaca (DC), alergia ao trigo (AT) ou sensibilidade ao gluten não celíaca (SGNC).

Mas que exames são esses? E porque não deixar logo de comer o que está me fazendo tão mal?

Os exames são:

1) Sorologia para dosagem dos anticorpos: IgA total e IgA antitransglutaminase, IgG antigliadina e IgE para trigo

O IgA total é necessário porque até 40% dos celíacos pode ter deficiência desta imunoglobulina (anticorpo), o que acaba negativando os resultados sorológicos.

O IgA antitransglutaminase é o anticorpo de escolha, preconizado pelo Protocolo Clínico do SUS para Doença Celíaca e indicado em diversas publicações internacionais.

O antigliadina IgG ainda não está muito bem estabelecido como parametro diagnóstico, mas alguns artigos tem mencionado sua positivação em indivíduos portadores da SGNC. Entretanto, é importante destacar que o diagnóstico da SGNC é feito por exclusão, ou seja, é necessário pesquisar e descartar todas as outras condições associadas ao glúten, que podem ser avaliadas por meio de exames e caso todas negetivem, se houver algum sintoma associado a ingestão de alimentos contendo glúten, aí sim, é possível definir que trata-se de SGNC.

O IgE para trigo (ou mesmo o rast cutâneo para trigo) avaliam se há alergia ao trigo

2) Endoscopia com biópsia de duodeno, para avaliar se há inflamação do duodeno (primeira porção do intestino delgado) e atrofia da microvilosidades da mucosa intestinal, região responsável pela absorção dos nutrientes.

Neste exame, o endoscopista precisa avaliar as condições da mucosa duodenal e os microfragmentos colhidos no exame, são enviados a um patologista, que necessita avaliá-los em busca de alterações compativeis com infiltrado inflamatória (quando há aumento dos linfócitos intra-epiteliais) e atrofia das microvilosidades. Alguns patologistas utilizam a classificação de Marsh para identificar o quanto a mucosa está inflamada e atrofiada.

Coeliac_Disease

Estes mesmos exames também servem como parâmetro para acompanhamento dos pacientes depois que a dieta estiver sendo feita e para avaliar se a recuperação está ocorrendo.

E por que não excluir o gluten antes? Simples! Porque o objetivo do tratamento é justamente zerar os anticorpos circulantes e permitir que a mucosa intestinal cicatrize e se recupere. Se excluimos o gluten antes de saber qual o verdadeiro problema por tras dos sintomas, depois ficará dificil fechar um diagnóstico corretamente e isso pode trazer muitos prejuízos e complicações para um celíaco, pois será necessário submeter-se ao Desafio do Glúten e são poucas as pessoas que conseguem.

E se eu não quiser ou não conseguir levar adiante o desafio do gluten? O que eu faço?

Bom, aí existem 2 alternativas:

1) “Assumir” que possui DC ou SGNC e cuidar de toda alimentação e da contaminação cruzada, da mesma maneira que todos os celíacos devem fazer, evitando toda e qualquer escapulida da dieta, mantendo-se forme e forte diante das “tentações da mesa glutenada” e diante de todos os comentários de amigos e familiares que não entendem a gravidade do problema;

2) Fazer a dieta “mais ou menos”, sem todos os cuidados necessários e encarar o risco de complicações mais graves no futuro (caso você seja celíaco e não tenha certeza), como doença celíaca refratária, surgimento de outras doenças autoimunes, anemia, osteoporose, infertilidade, depressão e a que eu considero a pior complicação de todas: o linfoma intestinal. 

E como fazer os exames? 

Os testes sorológicos os médicos de qualquer especialidade podem solicitá-los e a endoscopia + biópsia deve ser solicitada por um gastroenterologista. Após a confirmação do diagnóstico, o paciente deve ser imediatamente encaminhado a um nutricionista, para receber as primeiras orientações a respeito das mudanças necessárias na alimentação e deve ser encaminhado também para o tratamento com um equipe multidisciplinar.

O protocolo Clínico do SUS prevê que os exames sejam feitos na rede pública de saúde, entretanto, não são poucos os relatos de pessoas que não conseguem faze-los. Se este for o seu caso, você pode ligar para o DISQUE SAÚDE (Ouvidoria do Ministério da Saúde): 136. Ligue, pergunte, reclame! Exerça sua cidadania! Melhor e mais eficaz que só reclamar nas redes sociais.