Tireoidite de Hashimoto e glúten

A Tireoidite de Hashimoto (TH) ou tireoidite linfocítica crônica é uma doença auto imune, que se caracteriza pela infiltração de linfócitos (células de defesa) na tireoide, com a produção de anticorpos contra a tireoglobulina, contra as peroxidases, enzimas que fazem a conversão do T4 em T3 (forma ativa do hormônio tireoidiano) e contra o receptor do hormonio estimulante da tireoide (TSH).

O resultado disso é a destruição dessas estruturas, com inflamação crônica, aumento dos níveis de TSH, aumento da própria glândula e hipotireoidismo, que pode ser subclínico (os sintomas de hipotireoidismo estão presentes, há um pequeno aumento do TSH, mas não há ainda diminuição do T3 e T4). Assim, observa-se um aumento na taxa de anticorpos anti-tireoglobulina e/ou anti-tireoperoxidase, com aumento progressivo dos níveis de TSH e diminuição dos níveis dos hormônios tireoidianos.

Tireoide

Os fatores mais relacionados ao surgimento da TH são os fatores genéticos, como a predisposição para doenças auto imunes, estresse, exposição à radiação, à poluição ambiental e a metais pesados, como mercúrio e chumbo, uso de Interferon, ingestão de altas doses de IODO (presente no sal de cozinha, em medicações e em contrastes para exames), etc.

Em relação ao iodo aqui no Brasil todo o sal comercializado precisa ser iodado, por causa da legislação pra prevenir o bócio endêmico, causado pela deficiência de iodo. Se por um lado essa legislação ajudou e ainda ajuda a muitas pessoas que moram em locais distantes do litoral, por ouro complicou a vida de quem tem predisposição genética e tem acesso a um aporte maior de iodo, pois aumentou consideravelmente o numero de casos de TH!

A TH foi descrita em 1912 no Japão, pelo médico Hakaru Hashimoto, em quatro mulheres com bócio assintomático e infiltração linfocitária. É importante lembrar que no Japão, há um alto consumo de peixes e algas marinhas e consequentemente, de IODO.

A TH pode se manifestar em associação a outras doenças auto imunes, como a Diabetes tipo I, a Doença de Addison, o Lúpus Eritematoso Sistêmico, a Sindrome de Sjögren, o Vitiligo e muito frequentemente à Doença Celíaca (DC). Aliás, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapeuticas do SUS, recomenda que se pesquise DC nos pacientes com TH, e ANTES QUE O GLÚTEN SEJA EXLUIDO da alimentação!!! Por que? Nesse post, nesse, nesse e nesse explico melhor! Outra coisa importantíssima é que muitas pessoas possuem DC mas não apresentam os sintomas “clássicos” de diarreia e perda de peso. Isso é muito comum quando a DC está associada a outras doenças auto imunes.

A TH pode ser assintomática no início, mas a medida que o quadro de hipotireoidismo evolui, é comum o aparecimento de sintomas como: queda de cabelo, unhas frágeis, quebradiças e que desfolham, pele ressecada, prisão de ventre, maior sensibilidade ao frio, edema (inchaço) nas pernas e pés, cansaço frequente, fraqueza, ganho de peso sem motivo aparente/dificuldade para perder peso, raciocínio lento, depressão, e nas mulheres, anovulação e infertilidade.

Não há cura, já que estamos falando de uma doença autoimune, mas é possível tratar o quadro de hipotireoidismo, com reposição do hormônio (levotiroxina*) e com adequação da alimentação, e suplementação de nutrientes.

Uma alimentação com muitos produtos industrializados, cheios de aditivos químicos, corantes, conservantes, etc, aumenta o estresse na tireoide e a inflamação, piorando o quadro. Porém, felizmente muitos nutrientes são importantíssimos para a produção dos hormônios tireoidanos e para sua conversão na forma ativa, como o zinco, o magnésio e o selênio. Além disso, muitos compostos bioativos e vitaminas, presentes nos alimentos também exercem ação anti-inflamatória e protetora da tireoide.

Assim, com uma dieta livre de glúten, livre de produtos industrializados que aumentam inflamação, livre de de alimentos com substancias bociogênicas (que impedem a absorção da levotiroxina ou sua conversão na forma ativa) e bem equilibrada, devidamente elaborada e acompanhada por um NUTRICIONISTA, ajuda a minimizar (e até a acabar) os sintomas e aumentar a qualidade de vida das pessoas com TH.

*Aviso: este é um blog de NUTRIÇÃO. Não cabem aqui discussões sobre dosagem do medicamento e sobre outras possíveis alternativas à levotiroxina no tratamento do hipotireoidismo e da TH… essa parte eu deixo pros colegas médicos.

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7 comentários sobre “Tireoidite de Hashimoto e glúten

  1. Olá Dra. Juliana!

    Muito bom o seu blog. Já te acompanho no Facebook e agora por aqui.

    Sou celíaca (descobri há 1 ano), e recentemente descobri que também tenho Hashimoto, mas ainda “muito tímido” e por isso não faço uso do remédio.

    Fiquei com uma dúvida. Recentemente fiz os exames de sangue para avaliar o nível de anti-corpos no meu corpo. O endomísio tanto Iga quanto Igg deu não reativo. Desde o primeiro exame esse anti-corpo sempre deu negativo. Mas o transglutaminase e a gliadina que deram em torno de 30 nos primeiros exames, reduziram para 2 e pouco e 3 e pouco tanto o Igg quando o Iga. De acordo com as referências do exame, abaixo de 7 significa que é não reativo. A dúvida é: isso quer dizer que ainda estou tendo contato com glúten?

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    • Olá Débora, obrigada!
      O corpo leva um tempo pra literalmente zerar a contagem de anticorpos, mas se eles já se encontram negativados segundo a referencia do laboratório, significa que vc está fazendo a dieta direitinho. Convém ir monitorando esses valores, pois caso não diminuam mais ou até aumentem, aí sim pode indicar que vc continua exposta a contaminação.
      Gde abraço, Juliana

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  2. boa tarde Dr Juliana,
    Atraves do exame de tpo anti-anticorpos descobri tinha q dar menor q 35 e deu o resultado de 1294,00 que tenho tiroidite de Hashimoto, fui no endocrinologista e me passou o remedio Synthroid 25 , mas me disse que nao tem cura, que ja virou tbm hipo.. e que nenhuma dieta resolve. gostaria de ter mais informações pois achei muito ruim a avaliação dele, sinto muito cansaço,desanimo, e nenhuma vontade de fazer nada, ganhei peso nos ultimos anos e olheiras e prisao de ventre. e tenho medo que possa ser outra doença auto-imune

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    • Olá Vanessa. Todos esses sintomas que vc relata podem realmente ser do hipotireoidismo, decorrente do Tireoidite de Hashimoto (TH). O tratamento medicamentoso do hipotireoidismo é repondo o hormônio que não está sendo produzido e é aí que o Synthroid entra.
      A TH, como é uma doença autoimune, ou seja, é uma auto-destruição dá tireóide, não tem cura. Mas é possível manter o hipotireoidismo controlado, através dá medicação, e é possível manter a inflamação (decorrente da auto-destruição) sob controle, através da alimentação e, se necessário, com alguns suplementos.
      O tratamento médico pra TH consiste essencialmente em acompanhar a evolução do quadro (ver se não vai haver piora ou o surgimento de nódulos) e ajustar a dose dá medicação, a partir do acompanhamento dos níveis de TSH. A parte da alimentação e da suplementação, para otimizar o funcionamento da tireóide e a suplementação, já são funções do Nutricionista.
      Se após todos esses cuidados, os sintomas não melhorarem ou se surgirem outros, é necessário investigar outras causas.
      Gde abraço, Juliana.

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  3. Dra, boa tarde!
    Fui recentemente diagnosticada com Hashimoto e, devido fase inicial, ainda não há desenvolvimento de hiper ou hipotireoidismo. Como os anticorpos já estão causando a inflamação na tireoide, recorri ao endócrino/nutrólogo para uma dieta alimentar. Este, por sua vez, informou que a doença já está instalada e por ser autoimune, não há nada que posso fazer, tampouco algum tipo de restrição alimentar. Muito leio sobre o glúten, porém ele nega qualquer associação. Afinal, devo restringi-lo, inclusive os alimentos de reação cruzada, a fim de diminuir os anticorpos e, consequentemente, a inflamação e nódulos?

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    • Boa noite, Karla,

      A Tireoidite de Hashimoto, de fato é uma doença autoimune, que evolui, mais cedo ou mais tarde, para o hipotireoidismo. Até lá, os médicos não tem muito o que fazer, a não ser aguardar o momento de prescrever a reposição do hormônio tireoidiano. Porém, em relação à alimentação e à suplementação de nutrientes, há várias coisas que um NUTRICIONISTA pode fazer por você!

      Sobre o glúten, o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde, recomenda que todas as pessoas com qualquer doença autoimune investigue DOENÇA CELÍACA, mesmo não tendo sintomas digestivos. Porém os exames precisam ser feitos ANTES da exclusão do glúten, para não invalidar seus resultados. Somente após a biópsia de duodeno, solicitada por um gastro, é que um NUTRICIONISTA (que entenda desses assuntos) poderá te orientar sobre excluir o glúten ou não (ou apenas diminuir sua ingestao) e sobre a necessidade de controlar traços ou não.

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