O Desafio do Gluten

De alguns anos pra cá a dieta sem glúten virou a queridinha da mídia e até das celebridades e muitas pessoas passaram a aderir a “nova dieta da moda”. E por que será que essa “moda” vem conquistando tantos adeptos e tem gerado tantos debates?

Eu acredito em algumas hipóteses:

1) As pessoas gostam de novidades (é normal gostar! Eu também gosto!)

2) Tudo que apela para a perda de peso desperta interesse… a obesidade já ganhou o status de epidemia em muitos países, inclusive no Brasil…

3) A exclusão do glúten, de fato faz com que muitas pessoas se sintam melhor. Essas pessoas acabam percebendo melhora na disposição, menos cansaço, menos dor de cabeça, melhora da função intestinal, de dores musculares e dores nas articulações, entre tantas outros sintomas.

Aí eu pergunto: se melhora, é porque antes não estava bem, correto? E por que não estava bem? 

De novo, penso em algumas hipóteses:

1) A preocupação com a alimentação, faz com que tenhamos uma alimentação mais saudável, como um todo, o que sempre é benéfico. Assim, ao ingerirmos mais alimentos saudáveis (por ex: frutas, legumes, verduras), ganhamos em saúde e disposição. 

2) Havia algum problema relacionado ao glúten e a pessoa não sabia, seja porque jamais associou os sintomas, porque nunca pesquisou (com exames) ou mesmo por nunca ter ouvido falar nas desordens relacionadas ao glúten (que não, não são um problema exclusivo da modernidade! Há estudos, como o realizado em Cosa, na Itália, que demonstram isso: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20631553 )

Muita gente começa a fazer a dieta por conta própria, sem realizar exames antes, sem investigar se de fato possui algum problema associado ao glúten e quando procura um profissional de saúde, já está há meses sem consumir glúten, ou consumindo-o muito de vez em quando. E qual o problema disso?

Bom, deixar de consumir glúten, não traz grandes problemas a ninguém (a menos que a alimentação esteja tão restrita que a “variedade” esteja apenas na forma de consumi-lo: pão, bolo, macarrão, frango empanado, etc..) e nesses casos, o consumo eventual (numa festinha de família ou uma pizza com os amigos no fim do mês, p.ex) não traz nenhum problema.

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Mas para quem tem Doença Celíaca (já falamos dela aqui no blog), o consumo eventual (o famoso “só um pouquinho”) acaba trazendo sérias consequencias ao longo da vida, como o “despertar” de outras doenças autoimunes, bem mais complexas e de difícil tratamento, osteoporose, anemia, infertilidade e até mesmo linfoma intestinal. Por conta desses riscos, é necessário ter certeza se a pessoa em questão (aquela, que melhorou deixando o glúten e que passa mal quando come “só um pouquinho”, sabe?) e os exames para diagnóstico da DC são fundamentais. Geralmente é nesse momento em que o médico é procurado e os exames são solicitados e feitos. Mas aí já temos um outro problema! A exclusão do glúten (principalmente quando iniciada muito tempo antes da procura pelo diagnóstico) negativa os exames, ou seja, mesmo sendo celíaco, os resultados são negativos (o que chamamos falso negativos)!

Aí podem me dizer: tá, mas eu já sei que o glúten me faz mal.

Ok. Mas mesmo sabendo disso, você será capaz de resistir ao “só um pouquinho”? Conseguirá convencer a família e os amigos da seriedade do caso e da importância da colaboração de todos? Conseguirá cuidar da contaminação cruzada? Se for, isso é ótimo e podemos encerra a conversa por aqui. Mas se não for (ou se a família estiver achando seus cuidados “um exagero”), o diagnóstico é importante e para que o resultado dos exames seja confiável, será necessário encarar o desafio do glúten!

Literalmente é um desafio, porque depois de tanto tempo sem consumir glúten (e com o corpo trabalhando muito melhor que antes), retornar aos velhos hábitos é como tentar fazer uma Ferrari andar com uma gasolina de péssima qualidade (tá, não sou especialista em carros, mas até eu sei que trata-se de um “carrão”, que não pode ser “maltratado”). Durante o desafio, que não é fácil (aqui eu posso falar com conhecimento de causa, porque eu mesma não consegui faze-lo, pois passava horrivelmente mal), é necessário consumir glúten diariamente (alguns médicos recomendam a ingestão de 10g de gluten ao dia, ou o equivalente a 4 fatias de pão de forma), por pelo menos 8 semanas.

E qual é o objetivo do desafio? Causar lesão na mucosa intestinal e aumentar a contagem dos anticorpos (antitransglutaminase)!

Mas… para tudo! Como assim, causar lesão??? Se eu estou me sentindo tão bem? Qual a necessidade disso? Pois é… parece estranho e até mesmo um contra-senso, mas só assim, através dos exames que é possível para o médico fechar o diagnóstico.

A dica, então, é tentar fazer os exames o quanto antes, para evitar a negativação de tudo e para evitar o desafio do glúten. O médico deve solicitar os testes sorológicos (dosagem dos anticorpos IgA total, IgA antitransglutaminase) e a endoscopia com biópsia de duodeno para pesquisa de doença celíaca (duodeno é a primeira porção do intestino delgado, onde se localizam as lesões da doença celíaca) e também pesquisar alergia ao trigo e a outros cereais (dosagem das IgEs específicas para cada um)!

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2 comentários sobre “O Desafio do Gluten

  1. Bom dia! Gostaria de ler sobre contaminação cruzada. Minha filha é dm1 e dc, ela tem 11 anos. A dm foi fácil entender e inclui no dia a dia da família, mais a dc esta sendo muito difícil, não no consumo dwla mais sim na família, ainda não entendi sobre a contaminação cruzada! !! O médico dela diz que não tem problema usar o forno! Outros dizem q não pode, estou enlouquecendo!!!!! Help
    Desde já muito obrigado pela atenção

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