A Doença Celíaca

Hoje (o terceiro domingo de maio) é o Dia Internacional do Celíaco. 

Para muita gente, celíaco e Doença Celíaca, são termos que podem soar estranhos e até mesmo assustadores, estes termos vieram do grego, lingua na qual koiliacos é aquela pessoa que “sofre da barriga“. Quem primeiro percebeu (ou pelo menos, registrou por escrito, em grego, obviamente) que existiam pessoas que sofriam da barriga, foi um médico chamado Arataeus da Capadócia, por volta do ano 70 d.C. Arataeus percebeu que algumas pessoas queixavam-se de muitas dores na barriga, diarréia e apresentavam emagrecimento e fraqueza e acabavam morrendo por conta deste quadro. Muito tempo se passou, muitas pessoas provavelmente morreram da mesma doença e ninguém sabia como tratá-las.

Em 1888, outro médico, Dr. Samuel Gee, fazendo um eleitura dos estudos de Arataeus, chamou a mesma condição de Coelic Affection (ou afecção celíaca), mas ainda não sabia como tratá-la e em 1908, o Dr Christian Herter publicou um livro no qual falava sobre as crianças que apresentavam a tal afecção celíaca, e observou que elas toleravam melhor uma alimentação com mais gordura do que carboidratos. Assim, durante muitos anos, a doença também ficou conhecida como Doença de Gee-Herter, em homenagem a estes dois pesquisadores.

Em 1918, Sttil complementou o tratamento desta condição, chamando a atenção para a baixa tolerância à ingestão de pães. Em 1938, o Dr Sydney Haas, observou que quando as crianças celíacas se alimentavam de bananas (que também era uma importante fonte de carboidratos),  excluindo da dieta os pães, os biscoitos, as batatas e os cereais, elas melhoravam dos sintomas, demonstrando que a alimentação destes pacientes não precisava ser somente baseada em gorduras. E por muitos anos o tratamento da afecção baseou-se numa dieta quase que exclusivamente a base de bananas.

Foi somente durante a Segunda Guerra Mundial, que o Dr. Willhem Karel-Dicke, um pediatra holandês, percebeu que apesar da fome que muitas pessoas estavam passando, as crianças celíacas acabam melhorando dos seus sintomas, um verdadeiro contra-senso, já que na falta de comida, o esperado é que todos comecem a apresentar desnutrição e maior risco de adoecer! Terminando a guerra e o suprimento de trigo sendo reestabelecido, Dr Dicke percebeu a piora daquelas crianças que haviam melhorado e começou a investigar a relação do trigo e da aveia com a misteriosa afecção celíaca. A partir daí, ele publicou um trabalho, onde recomendava que a farinha de trigo e a aveia deveriam ser substituídas por farinha de milho ou de arroz.

Somente após a criação da técnica da endoscopia, que permitia ver (atraves de um tubo) o que havia dentro do intestino, é que foi possivel verificar que os celíacos apresentavam grande inflamação e alterações na mucosa intestinal. Em 1957 Dr.Crosby, com a ajuda de um engenheiro, Kugler, desenvolveu um pequeno aparelho que permitia extrair pequeninos pedaços da mucosa do intestino (procedimento que hoje conhecemos como biopsia) sem necessidade de operar o doente. E em 1959, Dr Fraser e sua equipe conseguiram separar as frações protéicas do trigo e demonstraram ser a gliadina a fração tóxica para os celíacos e a responsável pelo quadro clínico, e foi em 1962 que Rubin demonstrou que esta proteína estava por tras também das alterações da mucosa do intestino delgado destes pacientes.

A partir daí, novos estudos foram surgindo e em 1977, Dr. Hekkens determinou a estrutura da gliadina, a verdadeira responsável pela doença e na década seguinte, a equipe do Dr. Howell descobriu que a celíaca dependia da suscetibilidade genética para se manifestar. Foi também nos anos 1980, que a sensibilidade ao glúten foi descrita pela primeira vez, pelos gastroenterologistas Cooke e Cooper, que acabou ficando meio esquecida durante os 30 anos seguintes e foi somente após o Consenso de Oslo, em 2011 (numa conferencia que reuniou especialistas de todo o mundo – http://www.fenacelbra.com.br/acelbra_mg/arquivos/gut-2012.pdf), que esta condição foi efetivamente aceita pela comunidade científica e passou a fazer parte do grupo das Desordens Relacionada ao Glúten.

Em 2001, o Dr Alessio Fasano (http://www.massgeneral.org/children/doctors/doctor.aspx?id=19184) (que nos dias 29 e 30/05/2015 estará pela terceira vez no Brasil, falando sobre a Doença Celíaca para os profissionais de saúde, no COINE: http://www.exposemgluten.com.br/coine2015/) e sua equipe. descobriram mais um ponto importante nos mecanismos da Doença Celíaca: a zonulina. a zonulina é uma proteína, naturalmente produzida em nossos intestinos e que aumenta sua expressão quando estamos diante de infecções intestinais, para acelerar o contato dos agentes infecciosos com o sistema imune. Porém, o organismo dos celíacos parece não conseguir distinguir muito bem a gliadina (e outras prolaminas) de microrganismos e toda vez que o glúten aparece no intestino, a produção de zonulina aumenta, aumentando assim, a permeabilidade intestinal (em outra oportunidade falaremos a respeito disso).

Hoje, já sabemos que a Celíaca é uma condição crônica e autoimune, pois quando pessoas geneticamente predispostas ingerem glúten, o sistema imune, que existe para nossa proteção, “surta” e passa a atacar não só a gliadina, como também o próprio intestino delgado (o duodeno), causando inflamação e atrofia deste tecido. E como é no duodeno onde os nutrientes são absorvidos, se há inflamação e atrofia, a absorção (total ou parcial) fica prejudicada, agravando os sintomas.

Durante todos esses séculos, desde que a Celíaca foi “descoberta”, somente o quadro clássico chamava a atenção, pois a perda de peso, a fraqueza e a diarréia eram intensos e “gritantes” e somente as pessoas com este quadro, geralmente as crianças, eram diagnosticadas e tratadas. Mas, felizmente, já se sabe que a Celíaca pode se manifestar de muitas formas e com muitas caras e que nem todos apresentam diarréia e perda de peso. Como a inflamação intestinal pode prejudicar a absorção de muitos nutrientes, que exercem funções diferentes em nosso organismo, os sintomas vão estar associados também a estas deficiencias. Por exemplo, muitos celíacos queixam-se de inchaço (e relatam perda de peso – talvez por desincharem quando excluem o gluten) e este inchaço pode estar diretamente relacionado a má absorção de proteínas.

O Protocolo Clínico do SUS (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2009/prt0307_17_09_2009.html), de 2009, já menciona os diversos tipos de manifestação da Celíaca, descritos a seguir:

  1. Forma Clássica: caracterizada pela presença de diarréia crônica, em geral acompanhada de distensão abdominal e perda de peso. O paciente também pode apresentar diminuição do tecido celular subcutâneo, atrofia da musculatura glútea, falta de apetite, alteração de humor (irritabilidade ou apatia), vômitos e anemia. Esta forma clínica pode ter evolução grave, conhecida como crise celíaca*, que ocorre quando há retardo no diagnóstico e tratamento adequado, particularmente entre o primeiro e o segundo anos de vida, e frequentemente desencadeada por infecção. Esta complicação potencialmente fatal se caracteriza pela presença de diarréia com desidratação hipotônica grave, distensão abdominal por hipopotassemia e desnutrição grave, além de outras manifestações como hemorragia e tetania.
  2. Forma Atípica: caracteriza-se por quadro mono ou oligossintomático, em que as manifestações digestivas estão ausentes ou, quando presentes, ocupam um segundo plano. Os pacientes deste grupo podem apresentar manifestações isoladas, como, por exemplo, baixa estatura, anemia por deficiência de ferro refratária à reposição de ferro por via oral, anemia por deficiência de folato e vitamina B12, osteoporose, hipoplasia do esmalte dentário, artralgias ou artrites, constipação intestinal refratária ao tratamento, atraso puberal, irregularidade do ciclo menstrual, esterilidade, abortos de repetição, ataxia, epilepsia (isolada ou associada à calcificação cerebral), neuropatia periférica, miopatia, manifestações psiquiátricas -depressão, autismo, esquizofrenia -, úlcera aftosa recorrente, elevação das enzimas hepáticas sem causa aparente, fraqueza, perda de peso sem causa aparente, edema de aparição abrupta após infecção ou cirurgia e dispepsia não ulcerosa.
  3. Forma Silenciosa: caracterizada por alterações sorológicas e histológicas da mucosa do intestino delgado compatíveis com DC, na ausência de manifestações clínicas. Esta situação pode ser comprovada especialmente entre grupos de risco para a DC como, por exemplo, parentes de primeiro grau de pacientes com DC, e vem sendo reconhecida com maior frequência nas últimas duas décadas, após o desenvolvimento dos marcadores sorológicos para esta doença.
  4. Dermatite Herpetiforme, considerada DC da pele, que se apresenta com lesões cutâneas do tipo bolhoso e intensamente pruriginoso e que se relaciona também com a intolerância permanente ao glúten.

* A Crise Celíaca também pode ser desencadeada durante o Desafio do glúten, quando é necessário re-introduzir o gluten na dieta, para a realização dos exames.

Este mesmo protocolo orienta também quais exames são necessários para o diagnóstico e diversas publicações enfatizam que é necessário estar consumindo glúten regularmente para que os resultados sejam confiáveis, já que um dos objeticos da dieta de exclusão de glúten é exatamente a negativação de todos os exames e a recuperação da mucosa intestinal!

  1. Dosagem dos anticorpos Iga totais
  2. Dosagem dos anticorpos Antitransglutaminase, IgA 
  3. Endoscopia digestiva, com biópsia de duodeno ( o médico que solicita o exame, deve especificar que o mesmo é para pesquisa de Doença Celíaca)

Confirmando a Celíaca, é necessário iniciar imediatamente a dieta totalmente livre de glúten, com a devida orientação de Nutricionsta, para que as substituições necessárias sejam feitas, para que as deficiencias nutricionais sejam avaliadas e devidamente corrigidas (neste link, é possível acessar a Cartilha com os 10 Passos para a ALimentação do Celíaco, que é uma orientação inicial, mas que de forma alguma pretende substituir o acompanhamento com um Nutricionista: http://www.riosemgluten.com/10_passos_celiacos_Juliana_Crucinsky.pdf)! E como as mudanças na alimentação, podederão afetar também a forma como toda a família se alimenta e a até mesmo a vida social do celíaco, é importante também buscar apoio psicológico especializado.

Mas contraditoriamente, a partir do momento em que descobrimos ter uma doença crônica e autoimune, descobrimos também a chave para nos mantermos verdadeiramente saudáveis e livres de complicações, como costuma dizer o Dr Eduardo Cueto-Rua (https://www.facebook.com/pages/Dr-Eduardo-Angel-Cueto-R%C3%BAa/1430700483862329?fref=ts), um incansável trabalhador em prol dos celíacos.

Quando nos conscientizamos do nosso papel como protagonistas dessa história, nos tornamos Pacientes Ativos e Responsáveis (http://www.riosemgluten.com/PAR_ACELBRA_Flavia_de_Paula.pdf)

Para mais informações sobre a celíaca, sugerimos uma busca nos seguintes sites:

Referencias Bibliográficas Consultadas:

  1. AURICCHIO S, TRONCONE R. History of coeliac disease. Eur J Pediatr. 1996; 155: 427-428.
  2. BERGE-HENEGOUWEN, G.P., MULDER, C.J.J. Pioneer in the gluten free diet: Willem-Karel Dicke 1905-1962, over 50 years of gluten free diet. Gut 1993; 34: 1473-1475.
  3. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 307, de 17 de setembro de 2009. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da Doença Celíaca. Disponível em:http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2009/prt0307_17_09_2009.html
  4. Catassi, C. Where Is Celiac Disease Coming From and Why. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 40:279–282
  5. CUETO-RUA,E. A. Celiaquía, un modo de ser. 2ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Parábola Editorial, 2013.
  6. GUANDALINI, S. Historical Persperctive os Celiac Disease, in: Fasano A, Troncone R, Branski D. Frontiers in Celiac Disease. Karger, 2008.
  7. GUANDALINI S, DISCEPOLO V, NEWLAND C, et al. Celiac Disease. In: Fasano A. A Clinical guide to gluten-releted disorders. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2014.
  8. LOSOWSKY MS. A History os Coeliac Disease. Dig. Dis. 2008; 26: 112-120. Gut Online First, published on February 16, 2012 as 10.1136/gutjnl-2011-301346.
  9. PAULA, F.A., CRUCINSKY, J. BENATI, R. Fragilidades da atenção à saúde de pessoas celíacas no SUS: a perspectiva do usuário. Demetra; 2014; 9(Supl.1); 311-328. http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/demetra/article/view/10499/9709#.VVjA5_lVikp
  10. SDEPANIAN VL, MORAIS MB DE, FAGUNDES-NETO U. Doença celíaca: a evolução dos conhecimentos desde sua centenária descrição original até os dias atuais.Arq Gastroenterol V. 36 – no. 4 – out/dez. 1999.

Atenção: a reprodução deste texto (na íntegra ou em partes) só poderá ser feita com a devida autorização da autora, e com os devidos créditos e desde que não seja para fins comerciais!!!

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2 comentários sobre “A Doença Celíaca

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