O Glúten, a Perda de Peso e as Desordens Relacionadas

De uma hora para outra parece que o glúten se tornou o grande vilão das dietas e a cada dia aumenta o número de adeptos da dieta “gluten free“. De um lado há aqueles que consideram tudo uma grade besteira (“porque sempre ingerimos glúten e tudo bem”), de outro lado estão muitas pessoas que depositam todas as esperanças de emagrecimento nessa “nova dieta”. E no meio disso tudo estão os celíacos e sensíveis ao glúten (que fazem a dieta por necessidade) e os profissionais de saúde, e seu compromisso com a Ciência. Assim, antes de atacar ou defender cegamente uma ideia, acho mais sensato recorrermos à Ciência para uma breve análise do assunto.

O glúten é o nome “genérico” ou popular de uma classe de proteínas que compõem os cereais, as prolaminas. As comprovadamente tóxicas para os celíacos são as prolaminas do trigo (a gliadina), do centeio (a secalina) e da cevada (a hordeína). Mas ainda existem outras prolaminas, como a avenina* (da aveia) e a zeína do milho, que podem ou não causar problemas.

Até alguns anos atrás, sabia-se somente que o glúten era prejudicial aos portadores de Doença Celíaca, uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de alimentos contendo esta proteína (inclusive aveia* contaminada com glúten), associada a fatores genéticos. Entretanto, já se sabe que os problemas envolvendo o glúten vão além da celíaca e boa parte deles está descrita no Consenso de Oslo ( http://gut.bmj.com/content/62/1/43.full.pdf+html ), mas em nenhum momento, o Consenso recomenda a exclusão do glúten unica e exclusivamente para a perda de peso e nem para pessoas que não possuam tais desordens. Então por que tanta gente vem mudando sua alimentação e garantindo que obteve benefícios, inclusive em relação à perda de peso?

Analisemos então, algumas questões envolvendo esta proteína tão controversa:

1) Realmente o glúten não é bem digerido por nenhum ser humano. Isso é uma questão bioquímica… a estrutura dessa proteína tem uma configuração que dificulta o acesso e a ação das nossas enzimas digestivas e os fragmentos não digeridos realmente causam inflamação e aumento da permeabilidade. Em celíacos, essa reação ocorre em “maior escala”, porque além de tudo, os fragmentos não digeridos estimulam a produção de anticorpos que atacam a mucosa intestinal, destruindo-a e impedindo a absorção dos nutrientes. Logo, uma alimentação com baixo teor de glúten, ou mesmo isenta desta proteína pode melhorar a digestão de muita gente

2) Aumento de permeabilidade intestinal, inflamação e disbiose (alteração do “perfil” de bactérias presentes no intestino) de fato estão associadas à obesidade e a diversas outras doenças, como diabetes e doenças autoimunes (artrite, lupus, tireoidite de Hashimoto, etc). Portanto, tudo que contribua para diminuir a inflamação, que restaure a permeabilidade a niveis normais e ajudem a tratar a disbiose, certamente ajudará a saúde como um todo;

3) O Glúten é uma proteína naturalmente presente em alguns cereais: trigo, centeio e cevada. Pode estar presente em outros alimentos, como a aveia produzida no Brasil, por contaminação. Além disso, o glúten faz parte de um grupo de proteinas conhecidas como prolaminas (glúten é o nome “genérico” das prolaminas) e possui “primos” em outros cereais, como a aveia (considerando a aveia não contaminada), o milho e o arroz, “primos” estes que podem causar reações cruzadas em algumas pessoas que reagem ao glúten. Ou seja, o glúten não foi “inventado” pela industria alimentícia. O problema maior é que ele é um excelente aditivo, porque melhora a textura e a consistência de muitos produtos e por isso, ele está presente (por adição) a uma infinidade de alimentos (inclusive temperos, iogurtes, etc);

4) Uma outra questão envolvendo o pão, é quantidade extra de glúten, adicionada à farinha, com o objetivo de “melhorá-la” e o método de fermentação utilizado. Desde o tempo dos egípcios o pão era fermentando de forma lenta, bem artesanal, e assim, boa parte do glúten era “pré digerida” pelo fermento. Atualmente, como a fermentação mais utilizada é mais rápida, obviamente não há tempo para que isso ocorra, assim, acabamos consumindo pães com um elevado teor de glúten.

5) A maioria dos alimentos contendo glúten (pães, massas, bolos, salgadinhos, biscoitos, etc) também contém grande quantidade de calorias (em geral calorias vazias) e alto índice e carga glicêmicas, ou seja, alimentos que aumentam a fome, favorecem o ganho de peso e a resistência insulinica, se consumidos em excesso. Assim, excluir estes alimentos da dieta, pode realmente ajudar na perda de peso;

6) Porém, como nem tudo são flores, não adianta muito substituir a versão com glúten por similares sem glúten, preparados com outras farinhas tão ou mais calóricas que o trigo, como farinha de arroz, polvilho, amido de milho, etc. Neste caso, se a intenção é a perda de peso, troca-se seis por meia duzia!

7) Durante milhões de anos, os seres humanos sobreviveram, se multiplicaram e se espalharam por todo o planeta Terra sem nunca ter ouvido falar em trigo ou glúten, pois eram caçadores-coletores, não cultivavam nenhum alimento e tampouco produziam farinhas. Somente há cerca de 10 mil anos atras é que o glúten começou a fazer parte da alimentação humana e ainda assim, foi somente no século XX que houve uma verdadeira “overdose” em seu consumo, o que pode explicar o porque de tanta gente apresentando problemas com ele.

8) Ninguém desnutre ou sofre qualquer tipo de prejuízo ao deixar de consumir glúten, mas é importante alertar que deve-se fazer exames para confirmar ou descartar a Doença Celíaca e a alergia ao trigo, ANTES, para evitar a negativação dos exames e complicações* a longo prazo para celíacos não diagnosticados.

* As complicações da doença celíaca não tratada corretamente (quando há exposição, mesmo que eventual, ao glúten) vão desde deficiencias nutricionais, passando por infertilidade, até complicações malignas como câncer de intestino!!!

Então, quer deixar o glúten? Faça-o com consciência e devidamente orientado por um profissional que entenda do assunto! 

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9 comentários sobre “O Glúten, a Perda de Peso e as Desordens Relacionadas

  1. Muito bom texto. Esclarecedor e com informações de qualidade! Parabéns e obrigada pelo serviço de conscientização sobre o glúten e sobre a doença celíaca.

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